GIL

  CENA I

  CENA II

  CENA III

  CENA IV

GIL

O Estado está sentado em um trono feito de caveiras: empunha o açoite e tem na cabeça a metade de um boné vermelho e metade de uma coroa real. A decoração da sala é rica, mas estúpida... as paredes foram pintadas com sangue; ao pé do trono dorme um chacal que na coleira traz escrito: polícia.

Época, passada e presente.

A ação desenrola-se aqui e além.

CENA I

(O Estado só.)

Eu do alto deste trono em que me acho, empunhando o cetro que Deus me deu, dirijo ao estalido da chibata esta humanidade estúpida e imbecil que para nada mais serve, senão para trabalhar e proporcionar bem-estar a mim e aos meus satélites.

Ah! Quero desfrutá-la, quero tornar-me um Nero, um Júlio César, um Calígula, ou todos reunidos!

E quem me poderá impedir?

Pois não sou o senhor absoluto? A minha vontade não é inatacável?

Quem é que ignora que tudo é meu, que tudo me pertence?

São meus estes montes, são minhas estas campinas, é minha aquela torrente, e é minha esta humanidade idiota com tudo quanto possui, e aqui ninguém tem o direito de viver sem o meu consentimento.

CENA II

Entra o Clero.)

ESTADO: Quem és tu, o luxuriento fantasma que assim ousas vir à minha presença? Vens de alguma orgia, nesses trajes de dançarina grega e com esse pandeiro na cabeça? Diz-me, a que sexo pertences, és homem ou mulher?

CLERO: Sou o teu braço direito. Sem o meu concurso, há muito que a tua soberania teria desaparecido, e tu para viveres terias que ir plantar batatas, como os demais.

ESTADO: Como assim? Chamo-me Estado.

CLERO: Tu governas, porém sou eu quem atrofia as consciências e que as preparar a fim que humildemente se submetam a serem governadas; para isso tenho espalhado sobre toda a superfície da terra milhões de aves negras, dignos discípulos de Loyola, os quais não obedevem senão às minhas ordens, e não fazem outra coisa a não ser catequizar a plebe para que se resigne a obedecer-te e cumprir à risca as tuas e as minhas ordens; como recompensa a essa obediência passiva, prometo-lhe a glória do além-túmulo, de onde ninguém poderá voltar reclamar coisa alguma.

E quando alguém quer interpretar as coisas diversamente do que lhes ordeno, quando ousam falar em liberdade, igualdade, o punhal do sicário ou as fogueiras do S. Ofício sabem fazê-los calar para sempre.

Tu tens a força que te garante; mas ai de ti se ela compreendesse que não tem obrigação alguma de garantir o bem-estar de outrem, em detrimento próprio; se ela pudesse perceber que, o enquanto te serve de guarda-costas, tu a exploras tanto quanto a plebe (pois que ela é composta na sua maioria de filhos do povo), abadonar-te-ia a ti e aos teus; descansa, porém, que aqui está o clero, pronto a impedir o desenvolvimento intelectual dos teus comandados.

ESTADO: E por que forma?

CLERO: Por meio das escolas das igrejas, dos missionários.

Nas escolas aproveitamos a infância que é fácil de dominar à vossa vontade: incutimos-lhe no espírito que deve obedecer a Deus, à Igreja e ao Governo e convencemo-la de que somos seus superiores, que nos deve obediência, que é por vontade de Deus que o mundo é feito assim, e que nós somos enviados para guiar a humanidade no caminho do dever a fim de que esta possa alcançar o reino do céu.

Essa infância de hoje serão os homens do amanhã que, assim preparados pelo clero, continuarão a prestar-te homenagem e a julgarem-se tuas eternas bestas de carga; para que alguém não se desvie do caminho que lhe traçamos, temos as igrejas com os respectivos confessionários, por meio dos quais sabemos tudo o que se passa e podemos mandar para a fogueira alguma ovelha que entenda pôr o rebanho a perder.

Temos também um Deus bom, justo, caridoso, infalível, que tudo vê e sabe premiar e elevar ao reino dos céus, onde tudo é música, alegria e flores, os que sofrem com resignação as misérias desta vida. Além disso, o povo está convencido de que o nosso Deus também é perveso, sanguinário, mau, dinamiteiro, eterno foguista dos caldeirões dos infernos, onde se diverte a fazer ferver os que não seguem à risca o que lhes manda a santa madre Igreja, da sou ministro pleni-potenciário, com carta-branca para, em nome de um Deus que não conheço nem desejo conhecer, podermos amordaçar as consciências, aterrorizar os francos, suplicar os sábios, estuprar menores e viver à custas de todos esses imbecis, que, com medo de ir visitar o nosso Deus foguista, fazem o que lhes mando, convencidos de ganharem o reino das glórias ou... da estupidez.

Enquanto isso, nós gozamos as delícias da terra e aspiramos a essência dessas beldades peregrinas, traídas pelos salmos cantados ao som das nossas vandálicas gargalhadas, ah! Ah! Ah! Isso até quando essas gargalhadas não se transforarem em riso macabro, enquanto as nossas caveiras não escarnecerem de nós mesmos.

CENA III

(Os mesmo e um desconhecido.)

ESTADO: Quem és tu, oh mísera lesma? Como te atreveste a sair da lama em que vegetas?

CLERO: Sim, como conseguiste vir até aqui?...

ESTADO: Sem que a chibata do mordomo te retalhasse o focinho?

CLERO: E o que é que queres?

O desconhecido fez uma reverência e inclinou-se até ficar de quatro para representar o que é.

DESCONHECIDO: Trim-blim-blim, vai, vai, vai fechar. O burro é o azar. Última quinela! Atucha*, rapaziada! Quem mais joga, menos puxa! Olha o zerinho da Santa Casa... Ninguém ganhou. Atucha de novo, que esta não prestou. Trim, blim, blim... Ao tiro americano, sistema máuser, feito! Feito o joguinho do caipira, quem mais joga menos tira... Coragem, rapaziada! Quem não ganha trepa pau da cocanha e desforra-se! Trim, blim, blim... vai, vai... Prepara... Fecha! Catatrai** fechooo!

(Dirigindo-se aos dois:)

Reverenda Santidade... Sua Excelência o Estado...

ESTADO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO: Quem és tu, meu arlequim?

CLERO (à parte): Quem será essa ave?

DESCONHECIDO: Ora essa! Querem ver que, apesar da minha popularidade, há quem não me conhece?

Pois eu sou o Bicho, o afamado Bicho, o digno continuador da vossa obra...

Tudo quanto tendes posto em prática não chega para reduzir à impotência os vossos súditos; isso de impostos, latim e benzeduras não chega. É necessário o joguinho do bicho; ele, sim, os depena às mil maravilhas: o bichinho impede ao povo de fazer economias, torna-o vadio, velhaco, desmoralizado, perde o crédito, finta a Deus e ao diabo, empenha e vende o que possui, e, quando mais nada tem para jogar, vai aos quintais dos vizinhos e carrega o que lé encontra: roupa, lenha, galinha, tudo lhe serve; e nesse labutar constante não tem tempo de ver o despotismo dos governos, de ver o que fazem os representantes das nações, como se executam as leis e tantas outras coisas.

Já vedes, pois, que graças ao bicho podeis dormir descansados, porque a maioria dos vossos súditos não tem tempo de sindicar o que fazeis, se está realmente separada a Igreja o que fazeis, se está realmente separada a Igreja do Estado, como é que os padres se ocupam de política, por que é que os frades não pagam impostos para darem espetáculos no meio da rua, por que há tanta miséria, por que não há trabalho, por que há tanta ladroeira nos cofres públicos e os culpados passeiam impunes, e os presos em flagrante, réus confessos, são por fim despronunciados. Podeis dormir sossegados o sono da inocência, que o Bicho dá-lhes muito que fazer sem deixar-lhes tempo de se ocuparem de vós. O que eles querem e eu também é poder jogar mesmo nas bardas da lei!

ESTADO: Bravos! Venha de lá um abraço e podes jogar à vontade.

(Abraçam-se os três.)

CENA IV

(Uma voz oculta, cantando:)

A mísera plebe morre de fome,

Por toda parte miséria e peste.

Além só se ouvem ânsias e gritos,

aqui só se vê o azul celeste.

(Com ironia:)

Oh! Torpe matéria!...

Se os triturassem qual pedra bruta

Que foco de miséria irromperia de tais almas corruptas!

(Todos, assustados:)

O que será isto?

CLERO: Ah! É a voz da igualdade que clama contra o nosso despotismo. Vamos, em campo! Todos os meios são bons para sufocá-la. Acendam as fogueiras, preparem os patíbulos!

(Todos:)

Vamos, vamos!

(Saem de braços dados.)

(A mesma voz que se afasta:)

Ah! Vida, vida, incendiada tragédia, transfigurado horror, sonho transfigurado; macabras contorções de lúgubre comédia, que um cérebro de louco houvesse imaginado.

(Desce o pano)

O Despertar, PR, ano I, nº 4, 8 out. 1904.