Título: Seria o Diabo Anarquista?
Subtítulo: Semelhanças e Diferenças entre o Satanismo Moderno e a Filosofia Política Anarquista
Data: 2023
Fonte: Originalmente publicado na Revista Ítaca (UFRJ), n. 38, 2023. Revisado posteriormente em 2024.

Introdução

Tanto o satanismo moderno como o anarquismo são historicamente alvos de acusações equivocadas. Por um lado, o satanismo é percebido como um conjunto de seitas que invocam demônios, promovem possessões, alimentam forças diabólicas e sacrificam bebês; por outro, o anarquismo é tido como caos e baderna, destruição de tudo o que conhecemos, violência desenfreada e vandalismo. Os imaginários sociais sobre as filosofias satanistas e a anarquistas as associam, posto que a ambas é atribuída uma imagem de caos e brutalidade. São, como veremos, equívocos comuns que nos impedem de compreender as semelhanças e diferenças reais entre ambas as filosofias.

O senso comum sobre o satanismo, como nos mostrarão integrantes e fundadores do satanismo moderno, e o senso comum sobre o anarquismo, como nos mostrarão teóricos e militantes anarquistas, se chocam em alguns âmbitos. Contudo, a filosofia satanista moderna e a filosofia anarquista são, em suas bases, princípios e histórias bastante diferentes, com alguns pontos de semelhança. O que procuramos averiguar neste trabalho é em que esferas essas filosofias se chocam e se complementam. Portanto, introduzimos inicialmente as definições do satanismo moderno e do anarquismo para, em seguida, comparar ambas as perspectivas. Comecemos pelo satanismo.

Conforme Ahriman (2019), o satanismo não surgiu no século passado. Entidades obscuras, relacionadas com a sombra, o Mal, existiram sem se dizerem necessariamente satanistas. Os grupos que poderiam ser atualmente considerados satanistas eram tidos como pagãos ou hereges, e, com isso, perseguidos e exterminados pela igreja. Ahriman (2019) compreende que muitos dos grupos considerados satanistas eram, na realidade, grupos socialmente marginalizados: “Durante todo o período do Cristianismo, qualquer grupo era considerado satânico, conforme a mente das autoridades” (Ahriman, 2019, p. 6-7).

Ahriman (2019) identifica os primeiros passos do satanismo pela criação, no século XVIII, do Hell-Fire Club (Clube do Fogo do Inferno), administrado pelo Sir Francis Dashwood na Irlanda e Grã-Bretanha. O clube se situava ainda muito distante do que atualmente se compreende como satanismo; agregava membros da elite britânica, proporcionando-lhes o acesso a prazeres moralmente condenados. A filosofia satanista moderna propriamente dita, contudo, somente surge na década de 1960, pelos estudos do ocultista norte-americano Anton Szandor LaVey. Nos dispomos de um breve resumo do desenvolvimento do satanismo laveyano ou moderno, tal como de suas ramificações ao fim do século XX. Aqui, ao nos referirmos ao satanismo, pensamos no satanismo moderno de Anton LaVey. [1]

LaVey elaborou uma estrutura ao satanismo, organizou-o em rituais e celebrações, princípios e regras, não de forma a equipará-lo ao cristianismo, mas para firmar sua consolidação. O satanismo em seu âmbito “religioso” foi propriamente inventado, sem se curvar a um deus ou a um profeta, mas se colocando como “a mais laica e humana, demasiadamente humana, de todas as religiões” (VIVDIVS, 2019, p. 10). Os satanistas admitem o caráter inventado do satanismo, configurado, então, como um antiteísmo.

As atividades satanistas de LaVey se inauguram em 1966 na Black House, sua residência em São Francisco (Califórnia), que, posteriormente, daria lugar à Igreja de Satã. Inicialmente, na Black House foi constituído o Círculo Mágico, um grupo íntimo de pessoas que dialogavam sobre ocultismo, magia, teorias sexuais, dentre outros temas (VIVDIVS, 2019). Foi na Black House que ocorreu a primeira filmagem do que seria a Missa Negra. Antes disso, Ahriman (2019) identifica somente um registro documentado da Missa Negra, realizada no século XVII. A Missa Negra é definida pelo autor como “uma liturgia anticlerical que se praticaria de qualquer jeito no Ocidente, sendo um ato de blasfêmia, não de afirmação” (Ahriman, 2019, p. 6). De certa forma, a Missa Negra se assemelha às manifestações satanistas da década de 1960 na residência de LaVey, que se voltava mais a uma diversão e satirização do cristianismo do que a uma efetiva afirmação do satanismo. O Satã cultuado na Missa Negra seria a “caricatura de Jesus” (Ahriman, 2019).

Posteriormente, o Círculo Mágico se transformou na Ordem do Trapezóide, uma primeira organização na qual se praticaria o satanismo moderno propriamente dito. Com o tempo, a Ordem se transformaria na Igreja de Satã, agregando nove membros, que formariam o Conselho dos Nove. A Igreja de Satã foi fundada no célebre Dia das Bruxas, ou Walpurgisnacht, em 30 de abril de 1966. LaVey nomeou o ano de 1966 como o Ano Um, ou Anno Satanas. Nesse momento, Vivdivs identifica duas revoluções que o satanismo alavancou: o vínculo entre uma perspectiva pragmática, materialista e realista com uma perspectiva mágica e ritualística; e a estruturação oficial de uma religião satânica, com princípios que afirmam a carnalidade, a animalidade e a indulgência.

Após sua criação, a Igreja de Satã realizou casamentos, batismos, funerais e seminários sobre a prática da magia e a religião satanista[2], que atraíram bastante atenção das mídias:

<quote>Rituais ensandecidos, ritos de fertilidade, rituais de destruição, cerimônias de casamentos, rituais shibboleth, invocações de deuses endemoniados pela história, batismos e funerais, celebrações de Halloween, Walpurgisnacht e psicodramas na forma da Missa Negra foram criados para a participação e entretenimento do público todas as sextas à noite. Esse período de rituais não foi somente um tempo de brincadeiras e blasfêmias, mas um desenvolvimento necessário de crescimento e descoberta que ajudou a gerar e concentrar a energia necessária para os experimentos dos próximos anos. (VIVDIVS, 2019, p. 30)</quote>

Durante o ano de 1967, LaVey começou a ser referido como o Black Pope [Papa Negro] e a dar entrevistas, o que popularizou massivamente o satanismo. Dois anos após sua criação, a Igreja de Satã contava com cerca de dez mil membros e crescia (VIVDIVS, 2019), exatamente no momento do lançamento d’A Bíblia Satânica. Em seguida, outras obras foram lançadas por LaVey, formando um conglomerado de referências sobre a filosofia do satanismo moderno. A década de 1960 foi o período de florescimento de LaVey e do satanismo moderno nos Estados Unidos.

A história do anarquismo, por outro lado, é anterior à do satanismo moderno. O primeiro teórico a se autoproclamar anarquista foi Pierre-Joseph Proudhon, em 1840, em defesa de um modelo de sociedade sem governo. A partir de 1867, Mikhail Bakunin defendia os conceitos libertários de federalismo e violência revolucionária. Em 1880, o contexto político europeu se deparou com uma expansão dos ideais anarquistas (Nettlau, 2008). Anteriormente a esse contexto, já no século XIV havia movimentos comunalistas em França e Inglaterra, assim como sociedades que, em seus formatos políticos, se organizavam pelo comunalismo em África, inspirando a escrita do livro Anarquismo Africano: a História de um Movimento, por Sam Mbah e I. E. Igariwey (2018). Princípios de horizontalidade, autogestão e solidariedade figuram em diferentes sociedades, diferentes tempos históricos e contextos políticos. Evidentemente, a existência desses princípios não caracteriza uma sociedade como “anarquista”; afirmar essa caracterização seria não somente anacrônico, como uma forma de desrespeitar as singularidades de saberes e culturas não-europeus, ou não alinhados à filosofia política ocidental moderna. Mas, em contexto europeu, a sistematização desses princípios em teoria política passou a ser realizada somente a partir do século XIX, com Proudhon, Bakunin, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta e demais anarquistas. Em âmbito político, a teoria anarquista se espraiou por outros territórios, encontrando afinidade com saberes já existentes e confrontando a imposição de modelos estatais ocidentais e suas relações de governança. Dentre os princípios anarquistas que se destacam, temos: a defesa de autogestão, autogoverno e autodeterminação, como elementos fundamentais em qualquer organização e método emancipatório; a ajuda mútua, pensada especialmente por Kropotkin (2009), que argumenta que a prática da ajuda mútua, e não a competição, é o fator fundamental de evolução das espécies; a ação direta e a ojeriza à autoridade estatal e governamental (Malatesta, 2001), pois, nesses termos, toda autoridade é tida como negativa e prejudicial à organização social; a defesa da abolição do estado e de suas instituições, incluindo a igreja (Bakunin, 2001).

Dentre os tipos de anarquistas emergentes nessa seara, há os individualistas, compreendidos por Ervin (2015, p. 125) como “meros filósofos, em vez de ativistas revolucionários”; e há anarquistas mutualistas, fortemente influenciados por Proudhon e que buscam tomar os meios de produção e as trocas comerciais ‘cooperativas’. Em contrapartida, há os anarquistas coletivistas, influenciados majoritariamente por Bakunin e contrários ao foco dos mutualistas na propriedade individual, pensando na coletivização dos meios de produção e na total destruição do estado. Seguimos para os anarco-sindicalistas, que basearam sua ideologia nos coletivistas, porém aplicando-as no contexto dos movimentos franceses e espanhóis (Ervin, 2015). Para eles, a destruição do estado capitalista deverá ocorrer por intermédio da greve e a lida com os meios de produção ocorrerá através da sindicalização. Se o anarco-sindicalismo tem como foco o ambiente de trabalho, os anarco-comunistas se estendem a todas as esferas sociais, fundamentando-se nas ideias de Kropotkin. O anarco-comunismo se opõe a toda a estrutura capitalista, e busca “fomentar o crescimento de uma nova sociedade na qual a liberdade para se desenvolver como um indivíduo está integrada em toda a sua extensão com a responsabilidade para com os outros” (Ervin, 2015, p. 128).

Apesar de discordâncias internas, há alguns fatores que unem os anarquistas: a defesa da abolição do estado e de suas instituições; a descrença em modelos políticos representativos; a crítica a toda forma de autoritarismo e hierarquização; o repúdio a toda forma de escravização, subjugação e discriminação. Além disso, há, dentre os anarquistas, uma forte crítica às igrejas e à crença não somente em um deus, como também na legitimidade dos estados.

Os princípios do satanismo moderno e do anarquismo ocorrem em momentos e em territórios distintos. O satanismo moderno surge na década de 1960 nos EUA, e o anarquismo, enquanto filosofia política, surge na primeira metade do século XIX na França. Embora o senso comum aproxime estes dois campos teóricos e práticos, os discursos anarquistas e satanistas diferem em alguns sentidos. Desse modo, desenvolveremos, a seguir, os princípios do satanismo e do anarquismo, suas bases conceituais e práticas, a fim de compreendermos as semelhanças e discrepâncias entre ambas as filosofias.

Princípios anarquistas e satanistas e seus pormenores

Semanticamente, conforme LaVey (1969), Satã significa ‘oposição’, ‘adversário’, e representa o inimigo contra o qual os religiosos direcionam suas preces. A associação do satanismo a seitas que praticam sacrifícios humanos em rituais de invocação, sessões de tortura, defesa de violência e caos social, além de partir de definições questionáveis de ‘violência’ e ‘caos’, é equivocada. O culto a Satã, o sacrifício de bebês e a dispersão de drogas, pornografia e filmes snuff surgem como estampa do estilo de vida satanista – apesar de não serem pautas da Igreja de Satã. Da mesma forma, a ideia de anarquismo como ausência de regras, violência injustificada e vitória do mais forte é totalmente contrária ao que os teóricos anarquistas aqui referenciados de fato procuram passar com seus escritos e práticas (Ervin, 2015). Anarquia significa ausência de governo, de autoridade (Malatesta, 2001), e o anarquismo trabalha com conceitos como ajuda mútua e comunalismo, por exemplo, que se opõem fortemente à vitória do mais forte e à violência desenfreada. A imagem do anarquista como uma pessoa violenta, emotiva e irracional ainda é midiaticamente fomentada, o que nos incita a questionar: o que existe por trás deste discurso tão acalorado sobre os perigos do anarquismo para a sociedade? Por que anarquistas são vistos como grandes vilões que chegarão para destruir a paz e desmantelar a estrutura social, tendo associação com a figura do diabo? Ou, ainda, por que a figura do diabo e do caos é tão perigosa, e perigosa para quem?

Segundo Gilmore (2007), a igreja, percebendo uma perda de poder ao fim do século passado, se utilizou do satanismo como um bode-expiatório: ter um inimigo para massacrar pode ser mais interessante do que um deus para venerar. Com isso, não raro nos deparamos com o atrelamento do satanismo ao culto ao demônio (Gilmore, 2007). Como uma figura a ser odiada e destruída, a igreja lucrou com Satanás, com sua personificação do grande Mal que ameaça a possibilidade de se “viver” postumamente no Paraíso: “Sem um demônio para apontar o dedo, religiosos do caminho da mão direita[3] não teriam nada com que ameaçar seus seguidores”, escreve LaVey (1969, p. 30, tradução nossa). Como o grande inimigo da humanidade, nunca foi dada a Satã a chance de se explicar, de elaborar suas ideias e apresentar suas propostas. Elegendo Satã como inimigo da bondade, a oposição entre quem é seguidor de Satã e quem não é legitima a bondade daqueles que se afirmam virtuosos. Lutar contra um inimigo seria, nessa lógica, mais eficiente do que efetivamente fazer “algo de bom”, pois sua “validade como seres humanos é mensurada não pelo que eles podem fazer ou por quem eles são, mas contra quem eles se posicionam!” (LaVey, 1992, p. 6, tradução nossa).

O caráter maligno de Satã simplesmente existe em virtude de sua associação com a carnalidade. A vitória do satanismo recairia sobre a ideia de que sua filosofia está em harmonia com a natureza. A invariável ordem da natureza foi corrompida por fanatismo e caos; parasitas enriquecem e sujeitos com talento e potencial se encontram pormenorizados injustamente. Contudo, as leis da natureza são justas, e a filosofia satanista se elevará sobre o caos instaurado: “A besta está acordando, descartando dois mil anos de sono para novamente limpar a escória e restabelecer o domínio das presas e garras” (Gilmore, 2007, p. 37, tradução nossa). A filosofia satanista está em conformidade com a natureza do ser humano; não condena suas naturais inclinações, mas as incentiva. Assim, o satanismo se torna um perigo para a repressão moralista dos instintos, o controle dos impulsos e dos desejos.

“Belial”, um dos nomes conferidos a Satã, significa ““sem um mestre”, e simboliza a verdadeira independência, autosuficiência, e realização pessoal” (LaVey, 1969, p. 60, tradução nossa). A ausência de um mestre se aproxima de ideias anarquistas, quando Kropotkin (2007, p. 35-36) define a luta dos anarquistas como “entre dois grandes princípios que, em todos os tempos, encontram-se em oposição na sociedade: o princípio da liberdade e aquele da coerção”. No interior das disputas políticas do contexto europeu moderno, haveria somente dois grupos, de acordo com Kropotkin: o daqueles que defendem o estado, a existência de um mestre soberano, e o daqueles que defendem a liberdade, a anarquia. A existência de um mestre se opõe tanto ao satanismo quanto ao anarquismo, unindo, nesse momento, ambas as filosofias. Contudo, essa união logo se desestabiliza[4]. A estrutura da religião e da filosofia satanista se estrutura, conforme Gilmore (2007, p. 18, tradução nossa), como uma:

<quote>religião de elitismo e Darwinismo Social que procura restabelecer o reinado do capaz sobre o idiota, da justiça rápida sobre a injustiça lerda, e [que se volta] para a indiscriminada rejeição do igualitarismo como um mito que paralisou o avanço da espécie humana pelos últimos dois mil anos.</quote>

Por essa ótica, o satanismo compreende que há sujeitos com preponderância natural para exercer certas atividades, tais como liderar, enquanto outros possuem uma tendência mais forte para seguir os que lideram, e se qualifica como uma religião baseada no mérito individual, isto é, na meritocracia (Gilmore, 2007). Os satanistas não fundamentam sua hierarquia em linhagens de sangue, em aspectos biológicos, por exemplo, mas na performance individual do sujeito, qualquer que seja seu talento. O satanismo é uma religião antiteísta elitista, não por se centrar em aspectos socioeconômicos, mas por formar um grupo seleto de sujeitos com habilidades avançadas em determinada área, com talentos que podem ser desenvolvidos ao seu máximo potencial. “O estúpido deve sofrer por seu comportamento”, escreve Gilmore (2007, p. 23, tradução nossa), e os sujeitos talentosos e naturalmente magnânimos devem ser reconhecidos enquanto tais e estimados.

Tais postulações entram em conflito com as ideias anarquistas, posto que um dos alicerces do anarquismo é a plena igualdade, juntamente da liberdade e do autogoverno. Gilmore (2007), que acompanhou LaVey na estruturação da Igreja de Satã, critica o igualitarismo e exalta o reinado de sujeitos supostamente intelectualmente superiores. Além disso, o autor critica o funcionamento precário do sistema jurídico, porém exaltando sua existência e necessidade. No caso, a injustiça lerda seria o sistema jurídico corrente e burocrático, e a justiça rápida seria um modelo da Lex Talionis, isto é, a punição equitativa ao crime cometido. Kropotkin (2009) se opõe fortemente a esse modelo, em oposição à ideia do darwinismo social. Ao contrário do que Gilmore (2007) infere sobre a vitória do mais forte sobre o mais fraco, Kropotkin (2009) percebeu que a ajuda mútua e a cooperação prevalecem ao longo da sobrevivência das espécies. A ajuda mútua e a iniciativa individual promoveriam maiores vantagens de sobrevivência, ao contrário dos princípios individualistas do darwinismo social. Há, portanto, uma dicotomia entre individualismo e coletivismo nas filosofias satanista e anarquista.

Em seu individualismo, o satanismo reconhece que os conceitos de “bem” e “mal” são puramente subjetivos, particulares a cada sujeito de acordo com sua história de vida, suas experiências e suas escolhas. As definições de algo benigno e maligno cabem unicamente aos juízos de valor do sujeito. Para LaVey (1992, p. 52, tradução nossa), o “Bem é o que você gosta. O Mal é o que você não gosta”. Não há um agir corretamente ou um agir maldosamente, somente um agir que favorece ou contraria o sujeito conforme suas necessidades e desejos. Ou seja, o satanismo não impõe uma moral. A moralidade, para o satanismo, é uma “invenção humana conferida pelos interesses egoístas de uma sensualidade empobrecida” (LaVey, 1992, p. 42, tradução nossa). O satanismo reconhece a inexistência do “bem” e do “mal” enquanto conceitos concretos; são abstratos! A única coisa que fundamenta as leis e, com isso, julga os atos alheios enquanto crimes é o poder atribuído a pessoas consideradas capazes de ditar as leis. Os sistemas políticos e culturais em que estamos inseridos são compreendidos pelos satanistas como construções artificiais. Portanto, os sistemas jurídicos atuantes em dada realidade operam a partir de conceitos artificiais e dicotômicos de bem/mal, certo/errado. Enquanto, no passado, esse poder derivava de algum deus, atualmente, para Gilmore (2007), esse poder é conferido a sujeitos pertencentes à esfera governamental. Mas a existência de uma jurisdição não quer dizer que há uma real justiça. A sociedade em que vivemos é “governada por advogados e não pela justiça” (Gilmore, 2007, p. 55, tradução nossa), de forma que “os ricos conseguem muito mais, pois seu dinheiro lhes dá poder e, portanto, mais direitos [...]”. Identificamos, portanto, uma crítica satanista ao sistema representativo, especialmente à pretensão da democracia liberal de ser o único modelo de governo em que a justiça imperaria.

De modo semelhante, Goldman (2007) descarta as opções políticas tanto da democracia e do parlamentarismo como da ditadura. Para ela, as falhas do sistema representativo não podem ser solucionadas com a ampliação da democracia, nem com a supressão das liberdades típica da ditadura. Pelo contrário, Goldman defende, assim como todos os anarquistas, que o desenvolvimento gradual das sociedades atingiu seu ápice quando em maior ampliação das liberdades internas e redução de autoridades exteriores. É pelo exercício dessa liberdade, coletiva e individual, mas não individualista, que poderíamos extinguir as opressões, pois não haveria liberdade de oprimir e explorar – sendo isto a negação de toda liberdade –, mas sim liberdade para viver, para lutar contra a violação da liberdade. É interessante ressalvar que o individualismo mencionado e criticado por Goldman é aquele utilizado para justificar a hipótese do contrato social, que legitima a centralização de poder em um estado.

Nesse ponto, apontamos para algumas discordâncias entre satanismo e anarquismo. A relação entre liberdade individual e conformidade com a legislação é pensada pelo satanismo moderno a partir da responsabilidade: “Liberdade sempre requer responsabilidade, e essa responsabilidade inclui uma avaliação honesta e acurada dos fatos em questão, bem como decisões sábias com base nesse conhecimento” (Gilmore, 2007, p. 115-116, tradução nossa). Com isso – e considerando que, segundo a filosofia satanista moderna, as concepções coletivas de “bem” e “mal” são construídas e, portanto, abstratas, cabendo somente ao sujeito definir suas próprias noções de bondade e maldade –, o satanismo moderno não advoga o poder absoluto das leis, mas sim a compreensão de que, caso o sujeito cometa um crime, ele pode ser punido, e isso diz respeito à sua responsabilidade para com as próprias ações. O satanismo incita os sujeitos a “conhecer as leis e a defender sua reforma quando apropriado, mas, por enquanto, a estarem preparados para aceitar os resultados se a desobediência levar a um processo judicial e ao encarceramento” (Gilmore, 2007, p. 115, tradução nossa).

Já o individualismo ao qual se refere Kropotkin em seus escritos se aproxima mais da noção de individualidade, “representa a plena eclosão de todas as faculdades do homem, o desenvolvimento superior do que tem de original nele, a maior fecundidade da inteligência, do sentimento e da vontade” (Kropotkin, 2001, p. 72). Individualidade, segundo Goldman (2007, p. 31), é “a consciência do indivíduo de ser o que é, e de viver essa diferença”, enquanto individualismo significa “uma tentativa disfarçada de coagir e vencer o indivíduo em sua singularidade” (Goldman, 2007, p. 32). A individualidade persiste, ao passo que as instituições devem perecer. Segundo o pensamento libertário, a individualidade se diferencia do individualismo na medida em que procura enaltecer e desenvolver as capacidades individuais de alguém, e o individualismo procura anular as características individuais em nome de uma busca infinita por acumulação, mercadoria e prestígio – tal como aponta Gilmore (2007). Com a restrição e o direcionamento estrito das individualidades, com o condicionamento ao respeito às leis, à autoridade, com a crença na neutralidade do sistema jurídico, as instituições políticas e econômicas conseguem se perpetuar.

Ainda em relação ao individualismo no anarquismo e no satanismo, podemos pensar em como o segundo concebe o coletivismo. Gilmore (2007) apresenta seus pensamentos com relação à comum associação feita entre o satanismo e o fascismo. O fascismo, para o autor, se enquadra como uma doutrina coletivista, que demanda a subjugação de determinados indivíduos aos desejos de outrem. Portanto, o fascismo rechaça o individualismo, coagindo o sujeito a “sacrificar a si mesmo para um princípio abstrato, que é tratado como uma entidade sagrada” (Gilmore, 2007, p. 53, tradução nossa), qual seja, o estado (Gilmore, 2007). O autor frisa o caráter sacralizado do estado, e compreende a maleabilidade política desta instituição inerentemente autoritária:

<quote>Quando a doutrina fascista é posta em prática, independentemente de onde ou quando, tem que haver alguém que diga ao rebanho quais são as necessidades DO ESTADO, já que O ESTADO é apenas uma abstração - ele não existe de fato. Aqui entra a “Classe Dominante”, também conhecida como Partido Nazista, Partido Comunista, Khmer Rouge e assim por diante. Esses governantes pretendem encarnar o ESTADO, dizendo às massas qual é a vontade DO ESTADO. Eles reinam como os antigos sacerdotes que detinham seu poder por serem os únicos capazes de comunicar às pessoas a “vontade dos Deuses”. Essas pessoas são uma aristocracia de fato, usando O ESTADO como sua razão de ser, assim como os chefes dos últimos dias de alguns dos estados comunistas transmitiram A VONTADE DO POVO como desculpa para controlar seus súditos em massa. Esses governantes não estão sujeitos a se sacrificar ao ESTADO, porque são eles que, como encarnações DO ESTADO, escolhem quem deve ser sacrificado. (Gilmore, 2007, p. 54, tradução nossa)</quote>

O fascismo se apresenta como um mecanismo de controle do “rebanho” ( the herd ), que seria a massa de pessoas medíocres da sociedade, presas aos valores vendidos pela cultura dominante e incapazes de realmente perceber o que lhes ocorre. Sendo assim, o satanismo, em seu individualismo, não se encaixaria na concepção de fascismo, mas também não se enquadraria em uma visão anarquista de individualismo, que pende mais para a individualidade, valorizando a coletividade e a cooperação, do que para uma noção liberal de “cada um por si”.

As filosofias se reaproximam nos debates sobre religião. O pragmatismo, o secularismo, e, ainda assim, o reconhecimento de que o ser humano precisa do ritual, do dogma, dificilmente aparecem em nosso imaginário sobre o satanismo. O satanismo se apresenta como um estilo de vida secular, antiteísta, afastando-se de demais religiões que se organizam para agregar fiéis. Embora o satanismo tenha se alastrado midiaticamente, por meio, por exemplo, do gênero heavy metal, sua filosofia não costuma ser seriamente considerada enquanto tal (Gilmore, 2007). Práticas devocionais são enfaticamente repelidas dentre os satanistas modernos, de modo que não haja culto a Satã – “Tais práticas são consideradas como heresias Cristãs” (Gilmore, 2007, p. 21, tradução nossa), tal como a dicotomização entre a escuridão e a luz, o mal e o bem. Não importa se demônios existem ou não, ou se, no momento corrente, há uma guerra entre as forças das trevas e as forças divinas. O satanismo não advoga a existência de um “Deus Satânico”, de um antro metafísico de demônios; pelo contrário, reconhece que o ser humano criou todos os deuses que cultua em detrimento de sua incapacidade de aceitar-se como um ser carnal e animal.

Para Gilmore (2007), os satanistas são “anti-cristãos”, deliberadamente rejeitando crenças que proponham qualquer tipo de devoção a elementos que não sejam o próprio ser humano. Os satanistas não se esforçam para converter sujeitos aleatórios ao satanismo, pelo contrário. Que os cristãos continuem no seu “sistema de crenças nauseante”, como escreve Gilmore (2007, p. 48, tradução nossa), “contanto que o guardem para si”. Em resposta a alegações de que o satanismo prega a destruição de tudo o que existe, o sacrifício, o caos e a violência, Gilmore (2007) relembra as denúncias de abuso sexual infantil contra padres, os assassinatos da Inquisição, as torturas e sacrifícios realizados em nome de uma ideologia, e diz:

<quote>São eles que procuram destruir nosso rei. São eles que vão nos culpar por suas próprias ações hediondas. São eles que amam morte e tortura, que acreditam no e praticam o sacrifício, e são eles que desprezam a preciosidade da própria vida. (Gilmore, 2007, p. 48, tradução nossa).</quote>

Partindo de uma crítica semelhante às igrejas, Bakunin (2017, p. 15) caracteriza a classe governante como sendo, “[…] no Estado, o que são os sacerdotes e os padres da religião na Igreja”. Há semelhanças entre o anti-cristianismo satanista e a rejeição anarquista da igreja. Se satanistas rejeitam o cristianismo, assim como qualquer entidade ou religião que se preconize superior aos seres humanos, os anarquistas rejeitam a igreja, assim como toda instituição autoritária e que degrade a condição humana. Bakunin (2001) compreende que a “ideia divina” é o motor da exploração. O cristianismo seria a “religião por excelência”, pois expressaria o “empobrecimento, a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade” (Bakunin, 2001, p. 18). A existência de deus, segundo Bakunin (2001), demanda a escravidão humana, pois a religião tem como fundamento o sacrifício. Distorcendo a aparência benevolente do Divino, Bakunin afirma que “um senhor, por mais que ele faça e por mais liberal que queira se mostrar, jamais deixa de ser, por isso, um senhor” (Bakunin, 2001, p. 21). O anarquismo, nesse sentido, se opõe à hierarquia entre senhor e servo.

Para o anarquismo, a organização da sociedade não necessita de um regime autoritário, de um conjunto de governantes que detêm “a faculdade, em um grau mais ou menos elevado, de se servir da força social – seja ela a força física, intelectual e econômica de todos – para obrigar todo o mundo a fazer o que eles próprios, os governantes, querem” (Malatesta, 2001, p. 18-19). Por meio desta prerrogativa, governantes afirmam sua autoridade e exercem suas opressões. É preciso, portanto, abolir toda e qualquer autoridade, todo e qualquer princípio de governo, com exceção do governo que o indivíduo exerce sobre si mesmo. Abolir a autoridade, para Malatesta (2001, p. 80-81), se refere à destruição de “um modo de organização social pelo qual o futuro permanece açambarcado, de uma revolução à outra, em proveito daqueles que foram os vencedores em um determinado momento”.

A ideia de futuro é debatida por Vivdivs (2019), ao pensar sobre um suposto progresso da humanidade. Conforme o autor, o progresso, em diversas esferas, ocorreu em virtude de sujeitos que se revoltaram contra figuras de autoridade ou contra instituições de poder. O satanismo moderno se configuraria como uma religião antiteísta da revolta, e a revolta e a ruptura de dogmas foi sempre defendida pelo diabo – “O diabo sempre defendeu que o homem deveria experimentar, e não simplesmente acreditar” (VIVDIVS, 2019, p. 16). O diabo é o acusador, aquele que denuncia crenças infundadas que destroem o ser e o impedem de desenvolver suas potencialidades. Este impedimento, para o anarquismo, se encontra fundamentalmente na existência do estado.

Semelhanças e diferenças entre anarquismo e satanismo

Há grande dificuldade em se definir o estado. De certa forma, o que mais caracteriza uma estrutura governamental é a ideia por trás dela, ou, conforme Graeber (2011), uma “totalidade imaginária” da sociedade. Os estados guardam ideias, imaginários que subjazem o tecido social e se propõem a ordená-lo coercitivamente; em suma, por trás da ideologia do estado, se encontra sua sede por controle. O estado se calca em “maneiras de imaginar a ordem social como algo que se podia controlar, modelos de controle” (Graeber, 2011, p. 75, tradução nossa); seria o conjunto de instâncias que exercem algum tipo de violência para garantir a ordem social, seja violência policial ou outras forças coercitivas. Quem governa, exerce tirania, por mais que se volte a um suposto bem social. Antes do controle do saber, há o controle da violência: “Quem tem o poder de golpear as pessoas na cabeça sempre que quer não tem por que se preocupar em saber o que essas pessoas estão pensando” (Graeber, 2011, p. 83).

Desse modo, o anarquismo compreende que o intuito do governo é sempre oprimir, seja por coerção policial, por cobrança de impostos, por cercamento territorial (Malatesta, 2001). O governo reduz a potencialidade da sociedade, suprime a força coletiva. Conforme LaVey (1969), demais religiões mantiveram sua supremacia pela supressão dos egos de seus fiéis, pormenorizando-os e submetendo-os a uma entidade maior. Contrariando essa lógica, o satanismo encoraja o fortalecimento dos egos dos satanistas, pois somente pela gratificação do próprio ego seria possível que o sujeito vivesse plenamente sua vida. Os satanistas compreendem o caráter animal do ser humano e, a partir de sua animalidade, buscam atingir a perfeição – perfeição adequada e individualizada a cada sujeito. Ser satanista, para LaVey (1969), representa a maior e literal encarnação da vida humana, da animalidade e da liberdade. A liberdade promulgada pelo anarquismo rejeita a existência divina, pois “Se Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe” (Bakunin, 2001, p. 19). Similarmente, a crítica satanista às religiões argumenta contra a repressão de muitos aspectos da carnalidade, da animalidade e das emoções humanas, que não são aceitos por outras religiões (cristãs), ou que sofrem um processo de refinamento. E ainda há um complemento: uma das etapas propostas pelo satanismo para a construção de uma sociedade ideal seria a cobrança de impostos de todas as igrejas, posto que estas são isentas de pagarem tais taxas. É retirado das igrejas a sacralidade que as isenta da taxação – sacralidade esta que, em aliança com as elites governantes, justificou a formação dos estados-nacionais europeus.

O satanismo moderno não é uma religião do ódio, da destruição e do caos, mas uma religião voltada para a profundidade das emoções humanas, para a vida e sua carnalidade, e para muitos aspectos da animalidade humana que são reprimidos e pecaminosos para outras religiões. O satanismo “abraça toda a gama de emoções humanas e isso vai dos extremos do ódio mais sombrio até o amor mais profundo – ambos os quais são raros na experiência de nossas vidas” (Gilmore, 2007, p. 139, tradução nossa). Na medida em que os satanistas se voltam à carnalidade, reconhecem tanto o potencial de ódio quanto o potencial de amor do ser humano. Contudo, por admitirem e incitarem a capacidade de experienciar o ódio, os satanistas acabam por ser considerados como devotos da destruição (LaVey, 1969). Pelo contrário, a aceitação e o mergulho em emoções consideradas destrutivas propiciam a experiência completa de emoções socialmente exaltadas, como o amor.

Os satanistas, assim como os anarquistas, prezam pela materialidade do real. O código de conduta do satanismo é, por assim dizer, espelhado na natureza animal do ser humano; tal código deve se manifestar natural e carnalmente no sujeito, e, no decorrer das imposições sociais – perpetradas, no ocidente, especialmente por uma lógica cristã –, este código é condenado e reprimido. O sujeito se vê domado por normativas sociais que não o contemplam em sua animalidade e que o forçam a viver uma vida de restrições e submissões morais. Kropotkin (2007, p. 33) identifica estas submissões morais enquanto “derivada[s] do Código Romano, adotado e santificado pela Igreja cristã”, e costuma se referir ao estado como o conjunto de quatro instâncias: a educação, a igreja, a lei e a polícia. A autoridade está presente na educação, que modela a criança a uma sociedade hierarquizada em senhor e servo; na igreja, que dita sua moralidade ainda na jurisdição; na lei, que promulga as punições e as exaltações sociais; e nas forças policiais, que se utilizam da força para oprimir e coagir.

As imposições sociais são formadas, para o anarquismo, por estes pilares, e, por mais laica que se afirme, o exercício da autoridade na sociedade ocidental moderna ocorre por meio da moral santificada pela igreja. Kropotkin (2005, p. 181) escreve ainda que “o único uso que se pode fazer de todas as Leis relativas à organização do governo é atear-lhes fogo com grande alegria”. Portanto, devemos reconhecer, com Bakunin e Kropotkin, a intimidade entre igreja e estado:

<quote>À medida que a Igreja, por um lado, e o senhor, por outro, conseguiam escravizar o povo, o direito de legislar escapa das mãos da nação para passar aos privilegiados. A Igreja estende seus poderes; sustentada pelas riquezas que se acumulam em seus cofres, imiscui-se cada vez mais na vida privada e, sob o pretexto de salvar as almas, apodera-se do trabalho de seus servos; cobra impostos de todas as classes, estende sua jurisdição; multiplica os delitos e as penas e enriquece-se na proporção dos delitos cometidos, visto que é para seus cofres-fortes que vai o produto das multas. (Kropotkin, 2005, p. 174)</quote>

Analisando a bíblia, Bakunin (2001, p. 6) a considera “um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo”, ao conceber a figura de Satã como emancipadora de Adão e Eva, presos aos ditames de Jeová: “Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu senhor” (p. 6-7). Quando Satã faz com que Adão e Eva se envergonhem de sua submissão e obediência descabidas, estes são emancipados, pelo fruto do conhecimento de sua própria liberdade. Este mito, para Bakunin, simboliza o que proporcionou o “desenvolvimento especificamente humano” pela revolta. É a revolta, a desobediência dos universalismos e à autoridade, que incentiva a mudança. Analogamente, satanistas incitam a capacidade humana de experienciar o ódio, de aceitar emoções destrutivas e revoltosas – emoções reprimidas, porém histórica e institucionalmente praticadas, pelas igrejas.

A partir disso, Satã opera como “um símbolo do Homem vivendo conforme sua natureza orgulhosa e carnal” (Gilmore, 2007, p. 21, tradução nossa), ou ainda como “um nome para o reservatório de poder dentro de cada ser humano a ser aproveitado à vontade” (Idem). A concepção satanista de ‘deus’ se refere a um equilíbrio da natureza, a uma ordem natural do universo, e não a uma entidade suprema e superpoderosa capaz de destruir e criar absolutamente o que der em sua telha – “O homem sempre criou seus deuses, ao invés de seus deuses o criarem” (LaVey, 1969, p. 22, tradução nossa). A lógica a partir da qual a filosofia satanista moderna se volta a Satã é explicada por LaVey (1969, p. 24, tradução nossa):

<quote>Deus pode fazer todas as coisas que o homem é proibido de fazer – tal como matar pessoas, realizar milagres para satisfazer sua vontade, controlar sem qualquer responsabilidade aparente, etc. Se o homem precisa de tal deus e reconhece esse deus, então ele está adorando uma entidade que um ser humano inventou. Portanto, ELE ESTÁ ADORANDO POR PROXY O HOMEM QUE INVENTOU DEUS. Não é mais sensato adorar um deus que ele mesmo criou, de acordo com suas próprias necessidades emocionais – aquele que melhor representa o próprio ser carnal e físico que tem o poder/a ideia para inventar um deus em primeiro lugar?</quote>

Tal prerrogativa não anula a possibilidade de se utilizar Satã como um símbolo, de se construir altares para Baphomet, de se guarnecer com adereços relativos a diferentes representações tenebrosas. Para LaVey (1969), a psiquiatria ofuscou o caráter fantasioso e encantado da realidade humana. O satanismo compreende a necessidade do dogma, da fantasia e do ritual para o ser humano, não de forma a atribuir poder a uma entidade mística, mas como uma ferramenta de sustentação da realidade em si, interpondo-se entre “os fundamentos da psicologia e a boa e honesta emocionalização, ou dogma” (LaVey, 1969, p. 29, tradução nossa). A filosofia satanista fornece o dogma que o ser humano pode demandar ou necessitar, e afirma não haver “nada de errado com o dogma, desde que não seja baseado em ideias e ações que vão completamente contra a natureza humana” (LaVey, 1969, p. 29, tradução nossa) e que o sujeito “saiba que está usando essa autodesilusão controlada como uma ferramenta para lidar com a existência” (Gilmore, 2007, p. 125, tradução nossa). A coexistência entre realidade e fantasia não seria algo negativo. A negativa se encontraria no momento em que as fantasias em que nos apoiamos se tornassem imposições e verdades absolutas. O que a filosofia satanista diz sobre o dogma é basicamente que cada um se atenha ao seu quadrado simbólico, e respeite os alheios. Nesse sentido, o ritual satânico se volta não à invocação de Satã e demais demônios, mas sim a uma catarse pessoal ou coletiva, uma descarga de energia desejada.

O satanismo contém seus próprios rituais e simbolismos, oferecendo-os aos satanistas como possíveis caminhos, mas sem restringi-los a eles. Seguindo por seu viés que valoriza a individualidade, o ritual não é sobre outras pessoas, mas sobre o sujeito que faz o ritual. Confere-se ao ritual satânico a imagem de uma “Missa Negra”, compreendida como o inverso da missa católica. No entanto, a Missa Negra, se realizada por satanistas, serviria somente como uma paródia dos rituais cristãos, e como uma performance psicodramática no intuito de beneficiar subjetivamente o indivíduo que exerce o ritual (LaVey, 1969). Essa crítica em forma de paródia direcionada aos rituais cristãos também é realizada por anarquistas. Segundo Bakunin (2001), embora, na ideologia cristã, sejamos todos igualmente submissos a deus, este insere hierarquia entre os indivíduos, em termos de inspiração: os mais inspirados estão em posição de prestígio e de pronunciamento, os menos inspirados devem escutá-lo e obedecê-lo. Igreja e estado se sustentam na autoridade fundada por esta relação, constituindo-se, segundo o autor, como as instituições fundamentais da escravidão.

Se deus é soberano e o homem é seu servo, aquele que se proclama divino somente o faz por meio de uma revelação divina, experimentada por si mesmo ou por outrem. A revelação demanda sujeitos que a interpretem e que defendam sua veracidade, ou seja, à soberania divina integram-se sujeitos que, a partir de sua posição social, detém o poder de justiça e da salvação: o poder absoluto. Se deus é o senhor e os homens são seus servos, o homem que se vê como divino, o detentor de uma ligação estreita com deus, tem o poder de determinar os seus servos, assim como de legitimar sua exploração (Bakunin, 2001). Nesse viés, a crença cristã justifica a humilhação do crente, pois inverte a imagem do opressor, que passa a se ver pela miragem de um sujeito divino. A autoridade do padre ou do pastor não é respeitada pelos satanistas, visto que a figura de Satã questiona toda forma de autoridade, tendo inclusive sido expulso do “reino dos Céus” após organizar uma insurreição contra seu governante, o deus. A missa satânica subverte a hierarquização presente no cristianismo, especialmente por negar a capacidade de que qualquer pessoa possa exercer algum poder sobrenatural, tal como se comunicar com “deus”. Também não há preocupação alguma com o pós-vida, pois os satanistas se preocupam com a vida, com o aqui e agora (Gilmore, 2007).

O satanismo não é uma inversão do cristianismo e o inferno não é o paraíso dos satanistas. A filosofia satanista, embora integre, entre seus seguidores, uma pluralidade de crenças, não apresenta uma série de regras que devem ser seguidas para que, no pós-vida, se adentre o reino de Lúcifer. Essas burocracias divinas funcionam como um grande muro que separa o reino dos Céus, enquanto propriedade privada do deus cristão, de espaços autônomos e “caóticos”, como o Inferno.

Há somente o aqui e agora; a vida é o maior bem do satanista, e deve ser preservada e experienciada ao máximo (LaVey, 1969). Os satanistas não se acham capazes de exercer algum poder sobrenatural, mas reconhecem o poder de desenvolvimento da humanidade, suas potencialidades e habilidades. O satanismo moderno é uma filosofia autocentrada, sem incumbir a entidades metafísicas qualquer efeito sobre a realidade. Muito por isso, Satã se tornou um símbolo: “Ele foi descrito como o orgulhoso, recusando-se a se curvar a Jeová. Ele é aquele que questiona a autoridade, buscando a liberdade além do reino embrutecido do Paraíso” (Gilmore, 2007, p. 126, tradução nossa). Satã é a personificação de “carnalidade, justiça e autodeterminação” (Gilmore, 2007, p. 129, tradução nossa).

Embora a defesa da autodeterminação também seja compartilhada pela filosofia anarquista, devemos realizar algumas críticas em relação a como a liberdade satanista é advogada. A liberdade, para o anarquismo, é simultaneamente individual e coletiva: individual, pois as individualidades de todos os sujeitos devem ser respeitadas; e coletiva, pois é pela expansão das liberdades de todos os membros de uma sociedade que se pode definir tal sociedade com livre. Como escreveu Bakunin (1975, p. 22-23), “A minha liberdade pessoal, assim confirmada pela liberdade de todos, estende-se até o infinito”. Viver o máximo, com as mínimas restrições, realizar-se com o que se apresenta e com o que é possível alcançar, atendo-se à materialidade do real: é isso o que o satanismo advoga. No satanismo moderno da Igreja de Satã, os integrantes se percebem como os sujeitos mais importantes de suas vidas, tornando-se seus próprios deuses. Contudo, não há defesa expressiva da importância da liberdade coletiva, tal como advoga Bakunin. A liberdade satanista modrna é, portanto, estritamente individualista, e a liberdade promulgada pelo anarquismo não se limita ao indivíduo anarquista que a brada, mas a todos os seres que o cercam, pois “quanto mais numerosos forem os homens livres que me rodeiam e quanto mais profunda e maior for a liberdade, tanto mais vasta, mais profunda e maior será a minha liberdade” (Bakunin, 1975, p. 22-23). Ou seja, viver ao máximo com as mínimas restrições, se partir de um viés estritamente individualista, não se alinha aos princípios libertários de defesa da liberdade e da igualdade, pois a liberdade defendida pelos anarquistas é coletiva. A liberdade de um depende da liberdade de todos os outros.

Malatesta (2001) segue o pensamento de Bakunin ao identificar as duas propriedades de autopreservação do ser humano: a luta individual e a cooperação. Conforme o autor, os seres humanos compreenderam que, pela cooperação, garantem sua existência, sua segurança e seu desenvolvimento. Pela solidariedade, o bem-estar de um se expande ao bem-estar coletivo; a liberdade de um se complementa à liberdade dos outros, ao invés de limitá-la. O egoísmo não se contrapõe ao altruísmo, pois ele mesmo também se volta ao bem-estar alheio: se prezo pela minha segurança, minha sobrevivência e minha liberdade, devo defender a segurança, a sobrevivência e a liberdade de minha vizinhança e alhures. O egoísmo é altruísta, na medida em que preza pelo ser individual a partir de sua coletividade, sendo a solidariedade “o concurso de cada um ao bem de todos e de todos ao bem de cada um” (Malatesta, 2001, p. 39).

<quote>É preciso que, ao mesmo tempo em que está decidido a defender sua própria autonomia, sua própria liberdade, cada um – indivíduo ou grupo – compreenda os elos de solidariedade que o unem a toda a humanidade, e que seu sentido da simpatia e do amor por seus semelhantes seja bastante desenvolvido para que ele saiba se impor voluntariamente todos os sacrifícios necessários para uma vida social que garanta a todos os maiores benefícios possíveis num dado momento. (Malatesta, 2001, p. 95)</quote>

Em contraposição ao altruísmo, vislumbramos a misantropia, um dos princípios da filosofia satanista moderna, definida como o desprezo pela humanidade, a percepção de que a humanidade não é considerada valorosa por si mesma. Gilmore (2007) atribui aos satanistas o título de “misantropologistas” (misanthropologists). Esse princípio se relaciona com a inclinação da humanidade em fixar dogmas e pensamentos massificados. Opondo-se à conformidade, o satanismo se propõe a libertar as pessoas de pensamentos massificados e dogmáticos. O satanista se percebe de maneira alienada para com seu entorno, questionando os significados dos valores alheios, rotinas normalizadas, ritmos, obrigações e demandas que são culturalmente imiscuídos em nossas vidas, sem que possamos atuar ativamente em uma possível direção contrária, qualquer que ela seja.

A alienação buscada pelos satanistas não é uma alienação promovida pela igreja ou pela mídia, mas sim um afastamento da realidade dita ‘normal’. Alienar-se da realidade, nesse caso, equivaleria a estranhá-la. Para LaVey (1992), a igreja já foi a instituição que mais exercia poder sobre o povo, mas sua primazia se perdeu para a televisão, ou melhor, para o que a televisão representa: o consumismo, a mídia, a formação do que LaVey (1992) chama de “o rebanho” (the herd) – “Ao invés de obedecer a bíblia sagrada, certo e errado, propagandas televisivas agora instruem o que se deve e não se deve comprar” (LaVey, 1992, p. 32, tradução nossa). A mídia se utiliza das mesmas estratégias atribuídas à igreja. A heresia moderna não diz respeito a acreditar ou não em uma entidade cósmica, mas sim a não se conformar com um estilo de vida ‘televisivo’ e consumista. Contudo, não é por isso que o poder da igreja evanesce. Não é possível viver sem a influência da religião em uma sociedade cuja moral, por mais laica que se diga, foi cunhada em solo religioso. Com isso, os satanistas plenamente se dizem heréticos, tanto em referência a dogmas religiosos impostos como verdades absolutas, quanto com relação a um estilo de vida conformado a normativas sociais.

Gilmore (2007, p. 24-25, tradução nossa) define os satanistas como sujeitos que “aproveitam suas vidas no aqui e agora. Eles comem o que querem, se vestem como querem, e geralmente seguem o estilo de vida que mais lhes convém, desde que esteja dentro das leis de seu país de residência”. Aqui, identificamos uma potencial ruptura com a abordagem anarquista, em virtude da submissão dos satanistas à jurisdição de sua nação. A jurisdição está comumente presente no discurso de Gilmore (2007), e isso se dá pela noção de que o satanismo se coloca como uma filosofia realista. Sob justificativa de ser realista, o satanismo se conforma às normas do estado, o que nos leva a inferir que a inconformidade – tal como presente no anarquismo – seria idealista, ou utópica. Porém, a manutenção da liberdade anárquica está atrelada a um fator duplo: a aceitação da realidade comunal – isto é, todos devem se respeitar mutuamente, diferentemente da moral antiga, que seria patriarcal, religiosa (cristã) e hierárquica (Bakunin, 1975); e a compreensão da realidade em que se vive presentemente, pois somente se pode organizar um movimento contrário ao estado e suas instituições se há noção das articulações políticas que definem tal cenário.

Gilmore considera o idealismo como uma prática bastante perigosa, pois pode culminar na sobreposição do “poderia ser” sobre o que realmente “é” (Gilmore, 2007). O satanismo é uma filosofia realista, e atribui o idealismo a religiões que se esforçam para impor suas projeções esotéricas na realidade. Esse esforço acaba por “exterminar qualquer um que não partilhe da aliança a esse paradigma, pois eles destroem a ilusão de sua “verdade” por seguirem um “poderia ser” próprio” (Gilmore, 2007, p. 31, tradução nossa). Nesse sentido, os satanistas depreciam qualquer sacrifício realizado em nome de um símbolo que carrega consigo uma ideologia, e consideram “o ato de morrer por um símbolo um ridículo desperdício de vida” (Gilmore, 2007, p. 31, tradução nossa). A prática do sacrifício, tanto simbólico quanto concreto, é considerada como uma aberração cristã (Gilmore, 2007), na medida em que, no satanismo, não há divindade para a qual se fazer um sacrifício.

Em certo sentido, a oposição satanista ao idealismo e sua proximidade com o realismo se assemelham à proximidade do anarquismo com o materialismo. Para Graeber (2011), nada realmente existe. Nações e sistemas políticos são puramente abstrações. Não existe totalidade que não seja fruto de nossa imaginação (Graeber, 2011). A única coisa que concretiza a realidade é a crença na mesma. Conforme Graeber (2011, p. 57, tradução nossa), “todos, cada comunidade, cada indivíduo, vive em seu próprio universo único”, refletindo a imagem do satanista como aquele que se veste, que se porta como quer, que come o que deseja, que afirma seu próprio modo de vida.

Há discordâncias entre a perspectiva de mundo satanista e a anarquista, no sentido do idealismo e do realismo. Contudo, será que tais perspectivas se anulam, ou será que poderiam coexistir? A misantropia satanista, por exemplo, não poderia coexistir com a noção de que somente o coletivo garante a sobrevivência e o bem-viver? O altruísmo anarquista não poderia conviver com o egoísmo satanista, compreendendo tanto os aspectos individualistas quanto os coletivistas inerentes a cada sujeito e a cada povo? Com esses questionamentos, concluímos o desenvolvimento de nosso artigo. Ao apresentarmos os aspectos similares e dissonantes entre a filosofia anarquista considerada “clássica” e satanismo moderno da Igreja de Satã, incitamos questionamentos sobre as possibilidades e os limites destas filosofias, e compreendemos que, havendo pontuado as diferenças entre ambas as perspectivas, devemos encerrar apontando para suas semelhanças.

Conclusão

Apresentamos semelhanças e discrepâncias entre o anarquismo e o satanismo moderno. O individualismo do satanismo se choca com o coletivismo do anarquismo, ao passo que ambas as filosofias bradam a autoafirmação e a autonomia como princípios fundamentais. A contraposição anarquista à igreja se assemelha às críticas satanistas a essa mesma instituição, mas o foco do satanismo na jurisdição e no estado como importantes instituições sociais rompe com o anarquismo, que se propõe a desmantelar a autoridade governamental. Desse modo, o satanismo e o anarquismo, apesar de possuírem alguns aspectos em comum, possuem fortes discordâncias, quebrando com o imaginário social que aloca a filosofia anarquista e a satanista no mesmo lugar de estigma e estereótipo. Há, no entanto, algumas asserções destas filosofias que as aproximam significativamente, começando pelo satanismo.

A Igreja de Satã não exige que seus membros sigam um estilo de vida rigoroso e cristalizado, mas que apliquem a base da filosofia de LaVey da forma como mais lhes aprouver em suas vidas. Não existe “comunidade satanista” (Gilmore, 2007), exatamente pela diversidade e pelas divergências dos membros da Igreja de Satã, conforme Gilmore (2007, p. 105, tradução nossa): “Satanistas são indivíduos incrivelmente diversos e podem ter muito pouco em comum além do fato de que sua abordagem para viver os leva a adotar o rótulo de “Satanistas””. Embora alguns pensamentos possam ser congruentes, como o “respeito pelos animais, um desejo de justiça rápida, e um senso estético que demanda que as coisas se elevem acima do medíocre” (Gilmore, 2007, p. 105, tradução nossa), os estilos de vida, as hierarquizações pessoais, as estruturas familiares, os gostos, hobbies, formações, práticas profissionais e demais aspectos da vida de uma pessoa que se intitula satanista pode, e geralmente são, totalmente avessos aos mesmos aspectos da vida de um membro da Igreja de Satã. Os satanistas, em sua diversidade de posicionamentos, enviesam para a compreensão de uma sociedade plural, em que cada pessoa poderia exercer sua religião e/ou filosofia e se apossar de quaisquer elementos que lhe façam sentido. O contato mútuo de perspectivas discrepantes não promoveria o conflito entre indivíduos, tampouco a anulação de uma perspectiva por outra, pois, no fundo, cada um tomaria conta do próprio umbigo. As dinâmicas políticas desta sociedade satanista se baseiam “no que trará mais benefícios pessoais ao Satanista e às pessoas e objetivos que ele estima” (Gilmore, 2007, p. 52, tradução nossa).

Essa perspectiva se assemelha ao que Ervin (2015) apresenta sobre as ramificações do anarquismo. Há inúmeras discordâncias dentro dos movimentos anarquistas, e elas não necessariamente se anulam. Enquanto alguns anarquistas propõem a violência como um meio de lutar contra o estado, outros pensam na violência como ferramenta apenas em situações de legítima defesa, e outros a consideram uma ferramenta inerentemente associada à autodefesa – sem ligação com sua legitimação jurídica. Há, também, pacifistas que se recusam a validar qualquer forma de agressão física como estratégica. Enquanto alguns pensam em sistemas econômicos isentos de dinheiro e baseados em trocas de serviços, outros se opõem à ideia de trocas comerciais como um todo. Não há um único grande pensador no anarquismo, um sujeito que distribui as ideias e a partir do qual surgem ramificações ideológicas. As diferentes escolas anarquistas se formam mais pelo tipo de prática e pelo princípio organizacional que advogam (Graeber, 2011), e menos pela personificação de uma teoria. O anarquismo se volta menos a um corpo teórico e mais a uma prática, baseada na ideia de que é possível se organizar socialmente sem a interferência de instâncias autoritárias.

O anarquismo não é calcado em uma grande teoria total, muito pelo contrário. Seus princípios reconhecem “a necessidade de uma grande diversidade de amplas perspectivas teóricas, unidas por algumas premissas e compromissos comuns” (Graeber, 2011, p. 14, tradução nossa). A distância entre uma perspectiva teórica e outra não promove sua anulação ou seu imediato conflito, pelo contrário: diferentes teorias podem se ajudar mutuamente, na medida em que reconhecem as particularidades e as necessidades dos distintos grupos que as bradam. No satanismo, havendo interesses conflitantes, as incongruências entre os membros da Igreja de Satã podem ser resolvidas da seguinte forma:

<quote>Visto que nós nunca nos preocupamos com companheirismo, também não exigimos que todos os membros trabalhem uns com os outros. Aqui está a regra básica da casa: Quando os membros têm valores conflitantes, eles devem seguir seus próprios caminhos, não desperdiçando energia e tempo criticando os membros que selecionaram diferentes métodos de aplicação do satanismo para alcançar a satisfação pessoal. (Gilmore, 2007, p. 115, tradução nossa)</quote>

O satanismo não gasta esforços em tentar ‘converter’ a população para seus pressupostos e não interfere na vida alheia, mas também não se refreia para julgá-la e pormenorizá-la. Por essa lógica, filhos de famílias satanistas não são forçados a seguirem sua filosofia. São incentivados a “empregar uma abordagem aberta e questionadora para todas as coisas, particularmente religiões e filosofias” (Gilmore, 2007, p. 59). A inserção forçosa de crianças em religiões que não sejam de sua escolha é refutada pelo satanismo, que reconhece a infeliz normalidade dessa prática em variadas religiões, especialmente as cristãs. Identificamos, com isso, a liberdade de pensamento no satanismo e uma semelhança com as críticas anarquistas à dominação da igreja.

Em conclusão, dentre os principais posicionamentos das filosofias satanista moderna e anarquista, temos que, embora o satanismo defenda a autonomia individual de cada sujeito sobre seu próprio corpo e sobre sua sexualidade e modificações corporais, também defende que certos corpos precisam ser governados, preconizando certa hierarquização intelectual; por sua vez, o anarquismo defenderia, por seus princípios fundamentais, não somente a autonomia individual e a livre expressão, como também a abolição de hierarquias e a igualdade entre todos os indivíduos de uma sociedade ou organização. Sendo assim, fazemos um elogio e uma analogia das críticas anarquistas e satanistas à instituição “igreja”, e nos posicionamos criticamente, por um viés libertário, em relação às ideias pontuais do satanismo sobre a hierarquização e a governança. Como um dos pontos centrais de discordância, temos que, se o anarquismo argumenta pela abolição total das forças militares e da polícia, o satanismo moderno, segundo LaVey, exalta a existência das forças policiais. Essa exaltação no satanismo laveyano contradiz a figura de Lúcifer, em nossa perspectiva, pois Lúcifer torna-se um anjo caído justamente após ser considerado uma ameaça ao poder divino de deus, seu governante. Se, nas sociedades ocidentais modernas, a polícia se presta do serviço de vigiar as fronteiras, poderíamos fazer uma analogia entre a polícia humana e a polícia divina: quais fronteiras, nesse caso, seriam vigiadas: as do Céu ou as do Inferno? A polícia, então, é um instrumento de manutenção do poder do deus cristão, de sua governamentabilidade, em detrimento da força revolucionária e insurrecional de Satã.[5]

Há, portanto, diferentes formas de se conceber o satanismo, para além da Igreja de Satã de LaVey. Embora se choquem em diversos aspectos, algo aproxima ambas as filosofias: o reconhecimento, por parte das mesmas, de que não há um modo único de ser satanista ou anarquista, o que se percebe pela variedade de ramificações anarquistas (que não se excluem entre si) e de ramificações satanistas (que também não se anulam). Nesse sentido, apesar das similaridades e das diferenças que abordamos ao longo do desenvolvimento, podemos afirmar que o satanismo moderno e o anarquismo se refletem no âmbito da pluralidade, da defesa da autodeterminação e da autonomia, assim como na crítica e na ojeriza à autoridade religiosa da igreja.

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NETTLAU, Max. História da anarquia: das origens ao anarco-comunismo. São Paulo: Hedra, 2008.

VIVDIVS, Morbitvs. A História do Satanismo. São Paulo: Via Sestra, 2019.

[1] Nota inserida em revisão posterior: É importante sublinhar essa informação, pois o satanismo não se reduz à perspectiva LaVeyana, nem se restringe às ramificações que a sucederam. No entanto, o satanismo moderno é em geral associado à Black House, de LaVey, e à Igreja de Satã. As inúmeras associações realizadas entre satanistas e anarquistas [ou entre satanismo e qualquer prática religiosa considerada ocultista; entre anarquismo e qualquer forma de violência contra o estado], não nos servem como um indicativo de que tais práticas eram, de fato, satanistas ou anarquistas; nos servem como evidência somente de que a ‘acusação’ de algo ou alguém como satanista ou anarquista, em teor pejorativo, parte de um mesmo moralismo moderno, colonial e estatal.

[2] Nota inserida em revisão posterior: Essas práticas não desafiam o caráter antiteísta do satanismo, pois eram tidas como práticas ritualísticas por seu valor social, e não em virtude de uma suposta crença na existência de Satã – que exigiria uma crença equivalente na existência do deus cristão.

[3] Mão direita é uma referência ao caminho divino, sagrado, enquanto mão esquerda se refere ao caminho diabólico, maligno.

[4] Nota inserida em revisão posterior: Nesse aspecto, é importante recuperar algo que a Church of Satan Anarchist pontuou em seu manifesto sobre LaVey e Gilmore – que ambos eram homens norte-americanos, brancos, cis-heterossexuais e economicamente privilegiados, e que trabalhavam pela manutenção desses privilégios em âmbito institucional, a exemplo da cobrança de mensalidades para qualquer membro da Igreja de Satã.

[5] Nota inserida em revisão posterior: Para uma compreensão melhor sobre essa crítica, indicamos a leitura do texto "Antiteísmo Revolucionário", da Church of Satan Anarchist, que Cello Pfeil, um de vossos autores, traduziu para a Biblioteca Anarquista Lusófona entre 2025/2026.