Título: Antiteísmo Revolucionário; ou, uma Introdução à Filosofia Anarco-Satânica
Subtítulo: (Incluindo uma história incompleta do simbolismo Satânico no pensamento anarquista)
Assunto: satanismo
Fonte: Adquirido pelo perfil social da Church of Satan Anarchist, em 15/12/2025. https://www.instagram.com/churchofsatananarchist/
Notas: Tradução por Cello Pfeil

O Anarco-Satanismo é uma reinterpretação da mitologia Satânica através do pensamento anarquista, com o objetivo de demonstrar valores culturais como o antiautoritarismo, a associação voluntária (que geralmente significa liberdade de expressão e de congregação, assim como as liberdades corolárias de se recusar a falar ou congregar), a ajuda mútua, a solidariedade, a autonomia e a ação direta. Também busca gerar um movimento social positivo, afastando-se da injustiça e da opressão. É uma filosofia ateísta e antiteísta que abandona o misticismo elitista e qualquer crença no sobrenatural. O Anarco-Satanismo critica as hierarquias opressivas do Estado e das Corporações, baseadas na hierarquia da Igreja, todas elas baseadas nos preconceitos culturais de uma hierarquia “divina” imaginária. Satã é um empoderador símbolo arquetípico do anarquismo ao se opor a tais hierarquias. Mitologicamente, Satã atua como organizador do trabalho angelical contra seu chefe, Deus, luta por maior igualdade como combatente pela liberdade contra a tirania “divina”, luta como prisioneiro político no Inferno, luta como fugitivo ou imigrante ilegal ou refugiado que faz uma travessia não autorizada do Inferno para o Éden e, no Éden, luta por maior conhecimento compartilhado como educador subversivo.

O Estado com frequência se apoia fortemente na autoridade do Deus do mito bíblico em juramentos de posse, em moedas impressas, ao empossar testemunhas em tribunais, durante discursos presidenciais, em juramentos à bandeira, através do “batismo” de aviões de guerra e navios da marinha, etc. Desafiar a autoridade hierárquica do Estado deve necessariamente também desafiar o suporte fundamental da fé teísta e das instituições religiosas que tentam deificar a autoridade hierárquica.

Ao contrário do ateísmo tradicional, o Anarco-Satanismo utiliza o simbolismo e as alegorias dos textos mitológicos para fazer comparações com a vida moderna e destacar as formas como essas narrativas se tornaram parte integrante da cultura Ocidental moderna. Satã é o significante mitológico mais reconhecível e universalmente aceito do antiteísmo e da rebelião contra a autoridade teísta e, portanto, os Anarco-Satanistas optaram por examinar de perto a mitologia desse personagem. Os mitos criam e conectam os desejos conscientes e inconscientes dos indivíduos e das culturas por meio de uma estrutura de simbolismo, metáfora e associação arquetípica. De fato, grande parte do que constitui os desejos de um indivíduo está diretamente ligada aos desejos gerais da cultura à qual ele pertence, e esses desejos são frequentemente articulados por meio da mitologia dessa cultura. Anarco-Satanistas não apenas usam a razão e a lógica para pensar além do teísmo e encontrar maneiras de desconstruir as instituições perniciosas perpetuadas pelo mesmo, mas também imaginam para além do escopo do teísmo, e o ponto de partida lógico desse trabalho é a reimaginação da estrutura pré-existente da mitologia teísta.

O solo comum mitológico compartilhado pelas três principais ramificações do monoteísmo (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) é o mito de Abraão, uma história bíblica sobre um homem que supostamente recebeu de Deus a ordem de sacrificar seu filho, Isaac, como demonstração de obediência à “vontade divina” de Deus. De acordo com esse mito, Isaac foi por um triz salvo de ser assassinado pelo mesmo Deus que ordenou seu assassinato. É revelador das principais religiões monoteístas que elas tenham uma raiz mitológica comum, partindo de uma história que retrata Deus como um ser que exige, como prova de fé, disposição para oferecer um sacrifício humano (além disso, é problemática a contradição de um Deus supostamente onisciente e que tudo sabe, mas que aparentemente exige provas de fé, o que significa que Deus não saberia se os humanos são de fato fiéis sem testá-los). Essa ancestral santificação do sacrifício humano ainda influencia a narrativa das sociedades modernas, que recrutam soldados para lutar e morrer “por Deus e pela Pátria” em demonstrações de patriotismo, nacionalismo e fé religiosa. Para aprofundar ainda mais essa questão dentro de um contexto capitalista, os indivíduos nas sociedades capitalistas são forçados a sacrificar a autonomia de seus corpos e mentes em troca de moedas avalizadas pelo estado (fiat), sem as quais os indivíduos são privados de bens e serviços por mecanismos de fiscalização estatais, como a polícia e o judiciário. Dessa forma, os indivíduos são coagidos a se sacrificar, sacrificando seu tempo e energia aos patrões em troca de um salário ou remuneração, tempo e energia sacrificados à ideia falsamente construída de que o capitalismo é necessário para sustentar suas vidas biológicas e existências físicas. É através desse sacrifício capitalista e coercitivo da vida humana que se pode estabelecer uma conexão com as histórias bíblicas de sacrifício humano, reposicionando Deus como o patrão de um local de trabalho universal ou como o diretor executivo de uma hierarquia corporativa “divina”. Até mesmo a história da crucificação de Jesus pode ser interpretada como um ato de sacrifício humano “divinamente” ordenado, no qual o modelo de sacrifício pai/filho do mito Abraâmico é reimaginado.

Anarco-Satanistas responsabilizam o monoteísmo Abraâmico por fornecer a estrutura conceitual necessária para formar e preservar desigualdades sociais sistêmicas e hierárquicas. É através das estratificações internas das instituições da Igreja, do Estado e das corporações que a suposição monoteísta de uma hierarquia “divina” se manifesta e se mantém. Anarco-Satanistas também consideram as ideologias teístas (especialmente monoteístas) como facilitadoras e perpetuadoras de comportamentos interpessoais abusivos, tais como exploração, extorsão, intolerância, estupro, tortura e assassinato. A fé monoteísta fornece, ainda, justificativas falhas e imorais por trás de uma série de padrões históricos de abusos sociais e ecológicos, como colonialismo, escravidão salarial, censura artística e midiática, violações em massa da privacidade, disparidade econômica extrema (divisões de classe), destruição de habitats, guerras de conquista, desestabilização climática, genocídios e extinção de espécies inteiras.

Ao longo da história, muitos teóricos sociais e filósofos anarquistas utilizaram o simbolismo derivado da mitologia Satânica como veículo narrativo para a expressão das teorias e princípios anarquistas. Mikhail Bakunin talvez exemplifique isso da melhor forma em sua citação: “A primeira revolta é contra a tirania suprema da teologia, do fantasma de Deus. Enquanto tivermos um senhor no céu, seremos escravos na Terra. [...] Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos…” [1]. Bakunin não foi o único teórico anarquista a associar a figura bíblica de Satã aos valores e princípios anarquistas, tais como o pensamento livre e a emancipação. Pierre-Joseph Proudhon, contemporâneo anarquista e aliado de Bakunin, também abraçou a figura literária, escrevendo que as obras de Satã “são as únicas que dão sentido ao universo e o salvam do absurdo...” [2]. A oposição a estruturas sociais hierárquicas injustas pode ajudar a definir a identidade individual e a construção da realidade social para os anarquistas, e tais lutas podem imbuir significação às teorizações e ações diretas anarquistas, gerando um senso pessoal de propósito amplamente definido pela luta contra condições sociais adversas.

Talvez um dos textos mais influentes sobre o pensamento Anarco-Satânico seja “Paraíso Perdido” [Paradise Lost], de John Milton. Neste poema épico, Milton reimagina a mitologia Satânica da Bíblia e retrata Satã não como um monstro malicioso e rancoroso, mas como um herói trágico, que desafia a microgestão autoritária de Deus sobre a Terra e seus habitantes humanos, mesmo após uma rebelião fracassada no Céu. O próprio Milton era um radical político, escrevendo contra as monarquias hereditárias de sua época, chegando a defender o regicídio, o que o fez enfrentar censura e perseguição [3]. Milton provavelmente foi influenciado pelas ações de Guy Fawkes, um radical católico que queria assassinar o rei protestante Jaime da Inglaterra (o mesmo rei Jaime que dá nome a uma versão da Bíblia) para restaurar um Monarca Católico ao trono. Guy Fawkes se escondeu sob a House of Lords com um grande estoque de pólvora, mas uma carta anônima alertou as autoridades sobre sua presença. Fawkes foi descoberto pouco depois, guardando os explosivos, e foi subsequentemente preso, interrogado e torturado, mas evitou a execução cometendo suicídio. A “conspiração da pólvora” (como ficou conhecida posteriormente) ocorreu pouco antes do nascimento de Milton, e seus impactos políticos provavelmente tiveram um efeito profundo no desenvolvimento da conceituação de ação política de Milton. Vale a pena notar que a máscara de Guy Fawkes, popularizada pelo romance gráfico “V de Vingança”, de Alan Moore, e pelo movimento Occupy, possui uma semelhança mais que passageira com muitas representações de Satã na cultura pop do século XX: barba preta estilo cavanhaque e bigode pontudo, maçãs do rosto salientes, sobrancelhas proeminentes, olhos estreitos e um leve sorriso. Na verdade, se alguém pintasse uma máscara de Guy Fawkes de vermelho e colocasse um par de chifres, ela poderia ser facilmente reconhecida como uma máscara de Satanás.

William Godwin, frequentemente citado como o primeiro defensor moderno do anarquismo e uma grande influência nas obras posteriores de Bakunin e Proudhon, foi ele próprio influenciado pelo épico “Paraíso Perdido”, de Milton, e escreveu que sua personagem de Satã “não via razão suficiente para essa extrema desigualdade de posição e poder que o criador assumiu” [4]. Em vez de conceber Satã como um usurpador invejoso e violento (como os monoteístas costumam retratar), a releitura de Godwin apresenta Satã como um defensor dos ideais da era do Iluminismo, como a razão e a igualdade. Essa apreciação pela caracterização de Satã feita por Milton (como um idealista e opositor das desigualdades extremas geradas por Deus) era compartilhada por outros membros da família de Godwin. Mary Wollstonecraft, uma das primeiras defensoras dos direitos das mulheres, que também era casada com Godwin, afirmou que Milton “levou Satã para longe dos limites de sua prisão sombria” [5]. As semelhanças entre o aprisionamento mitológico de Satã no Inferno e a prisão, por parte do Estado, de anarquistas, ativistas sociais e revolucionários são uma associação importante a ser estabelecida por Anarco-Satanistas. Satã, assim como os prisioneiros políticos anarquistas e os reformadores sociais reprimidos (sufragistas, abolicionistas, organizadores sindicais/trabalhistas, defensores dos direitos civis, etc.), lutaria por maior liberdade e igualdade e também sofreria, como resultado, com a perda da liberdade pelas mãos de uma autoridade hierárquica tirânica. Dessa forma, o mito Satânico passa a fornecer uma personificação mitológica da luta anarquista contra figuras de autoridade hierárquica e estruturas sociais. Godwin e Wollstonecraft transmitiram essa associação mitológica (reimaginando um Satanás idealista, racional e igualitário) à sua filha, Mary Wollstonecraft Shelley, que escreveu o famoso romance gótico de terror “Frankenstein”. Nesse romance, o monstro de Frankenstein escapou do cativeiro de seu criador, aprendeu a ler e encontrou vários livros, incluindo uma cópia de “Paraíso Perdido”. Usando a voz do monstro injustamente perseguido enquanto se referia ao poema de Milton, Mary Wollstonecraft Shelley escreve: “eu sou antes o anjo caído, a quem tu afugentas da alegria sem nenhum delito” e que “Muitas vezes considerei Satanás como o emblema que mais se adaptava à minha situação” [6]. Mary Wollstonecraft Shelley era casada com Percy Bysshe Shelley, um poeta romântico, ensaísta e radical político, que elogiava o Satanás de Milton, escrevendo que “o Diabo de Milton, como ser moral, é muito superior ao seu Deus” e que “nada pode exceder a energia e a magnificência do caráter de Satanás, conforme expresso em ‘Paraíso Perdido’. É um erro supor que [Satanás] poderia ter sido concebido como a personificação popular do mal” [7]. Esse reposicionamento moral de Satã na reinterpretação da mitologia bíblica é fundamental para o Anarco-Satanismo, na medida em que inverte a dicotomia moral construída pelo monoteísmo. Em vez da interpretação monoteísta de Satã como maléfico e Deus como benevolente, Deus é concebido como um tirano maléfico e ditatorial, e a oposição de Satã ao autoritarismo “divino” e à hierarquia tirânica é construída como derivada de uma benevolência socialmente consciente e em busca da justiça. Isso expõe a construção conceitual binária da moralidade dialética dentro do monoteísmo como uma base insustentável de um código moral, já que os significantes mitológicos monoteístas do “bem” (Deus) e do “mal” (Satanás) são revelados como literariamente construídos, fluidos e reversíveis.

Percy Bysshe Shelley era amigo íntimo do poeta Lord Byron e, juntos, tornaram-se os poetas mais proeminentes da Escola Satânica de Poesia [Satanic School of Poetry], um selo inicialmente usado como epíteto por seus críticos, mas posteriormente recuperado e adotado pelos próprios Shelley e Byron. Byron escreveu em seu diário que “não consegue deixar de pensar que a ameaça do Inferno cria tantos demônios quanto os severos códigos penais da humanidade desumana criam vilões” [8]. Essa comparação entre as ameaças coercivas do inferno e as ameaças coercivas dos códigos penais governamentais representa um aspecto fundamental do pensamento Anarco-Satânico, segundo o qual a ameaça autoritária de punição por Deus, enviando pecadores impenitentes (ou suas “almas”) para o Inferno, é um reflexo mitológico da punição pelo Estado, que submete as pessoas a sistemas penais de tribunais, cadeias, prisões e penitenciárias. Esse reflexo mitológico é utilizado pelos monoteístas para emular o suposto julgamento de Deus, impondo semelhantes julgamentos e restrições à liberdade pessoal como reações retaliatórias a atos de antiautoritarismo. As ameaças de punição de Deus implícitas no Inferno constituem uma falsa justificação para as ameaças de punição governamental através da prisão penal. Além disso, a afirmação de Byron reflete a ideia de que os rótulos “diabo” (Satanás) e “vilão” (aqui sinônimo de “criminoso”) são impostos aos indivíduos por Deus ou pelo Estado, a fim de enfraquecer o poder desses indivíduos. Ao adotar a Escola Satânica de Poesia como o nome de seu gênero literário, Byron demonstrou que marcas de demonização impostas externamente podem ser internalizadas, recuperadas e oferecer uma associação poderosa entre indivíduos com ideias semelhantes, reais ou mitológicos.

Um antigo radical político e poeta que influenciou grandemente a Escola Satânica de Poesia foi Robert Burns, que também defendeu Satã como o herói de “Paraíso Perdido”, de Milton, e escreveu para descrever “a magnanimidade destemida, a independência intrépida e inflexível, a ousadia desesperada e o nobre desafio às adversidades daquela grande personalidade, Satanás” [9]. O desafio às adversidades que Satanás experimentou mitologicamente solidifica ainda mais sua conexão com o pensamento anarquista, já que os anarquistas desafiam as autoridades hierárquicas e, consequentemente, enfrentam adversidades como resultado desses esforços, muitas vezes na forma de violência retaliatória cometida por agentes do Estado. Satanás, aqui, representa uma luta anarquista histórica e contemporânea contra o Estado e outras hierarquias, a despeito da imposição violenta de uma injusta e hierárquica estratificação social.

A associação mitológica do personagem literário Satã como encarnação do antiautoritarismo não começou com os anarquistas clássicos pós-Iluminismo, como Bakunin, Proudhon e Godwin, nem com os poetas da era romântica, como Burns, Byron e Shelley, mas muito antes disso. Um importante ponto de inflexão que associa o Deus Abraâmico às hierarquias autoritárias e as conquistas imperiais foi a conversão de Constantino no campo de batalha. Fontes cristãs registram que Constantino supostamente passou por um evento dramático em 312 d.C. na Batalha da Ponte Milviana, após o qual Constantino reivindicou o império de Roma. De acordo com essas fontes, Constantino olhou para o sol antes da batalha e viu uma cruz de luz acima dele, e com ela as palavras gregas “Ἐν Τούτῳ Νίκα” (~neste sinal, conquiste). Menos de um século após esse evento, o Cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano com o Édito de Tessalônica em 380 d.C., quando o imperador Teodósio declarou o Cristianismo a única religião autorizada do Império. Esse édito criminalizou a adoração de deuses pagãos, denunciando efetivamente as associações mitológicas pagãs politeístas que haviam fornecido a base cultural e ética da República Romana antes do estabelecimento do Império Romano. Uma das divindades mais antigas do panteão politeísta da República Romana era Fauno, um deus da natureza selvagem e da sexualidade cuja mitologia se inspirava fortemente no deus grego Pã. Durante o declínio do politeísmo pagão romano tradicional, Fauno ainda era adorado, apesar da ilegalidade desse antigo politeísmo romano. Isso pode ser considerado um precursor teísta do moderno Anarco-Satanismo antiteísta, já que os adoradores de Fauno provavelmente se associavam à República politeísta de Roma em vez do Império Cristão de Roma, escolhendo a diversidade da associação mitológica dentro do politeísmo em vez da singularidade restritiva do monoteísmo Abraâmico.

Após o colapso do Império Romano, a fé Cristã foi dominada pela hierarquia do Vaticano, que se tornou a autoridade central de-facto da Idade das Trevas na Europa, perseguindo de forma agressiva e violenta os pagãos politeístas (e outros não-Cristãos). Além disso, a Igreja Católica procurou conquistar a “terra sagrada” da Judeia e opor-se à crescente influência Islâmica no Oriente Médio. Para tanto, uma série de guerras religiosas de conquista fracassadas, chamadas Cruzadas, deu início a uma tradição de violência sectária monoteísta que perdura até hoje. Um dos muitos resultados indesejados dessas Cruzadas foi a formação de um grupo chamado Cavaleiros Templários, que tentou demonizar o profeta Islâmico Maomé criando o personagem mitológico Baphomet (um nome derivado de Mahomet, uma corruptela europeia do nome Maomé). No início dos anos 1300, os Templários estavam sendo reprimidos, presos em massa, torturados e executados por seus desvios heréticos do dogma católico (os Cavaleiros Templários sobreviventes foram para o exílio e, supostamente, mais tarde formaram sociedades secretas elitistas e ocultistas, como os Rosacruzes e os Maçons). Séculos mais tarde, o ocultista Eliphas Levi inspirou-se fortemente nas imagens pagãs de Fauno e Pã para criar uma imagem ilustrada de Baphomet como uma criatura alada com cabeça de bode, seios e um caduceu fálico. Ao criar essa caracterização demoníaca de Baphomet, o personagem assumiu uma associação cultural mais forte com o Satanismo. Essa imagem simbólica incorpora várias características que atraem o pensamento Anarco-Satânico. Por exemplo, sendo uma construção mitológica intersexo, a figura de Baphomet desafia a binariedade de gênero socialmente construída. Baphomet serve como um símbolo de não-conformidade de gênero em comparação à construção patriarcal de um Deus androcêntrico no monoteísmo, que é universalmente retratado como um homem que adere ao que é considerado um papel de gênero normativo. Imagens animalescas, como chifres e cascos de cabra, a presença de serpentes e asas emplumadas semelhantes às de aves, podem ser reinterpretadas para simbolizar simultaneamente tanto a dualidade mitológica angelical/demoníaca quanto uma pluralidade de espécies mostradas em conjunto, sem uma hierarquia que coloque os humanos acima de todos os animais. Baphomet surge aqui como um símbolo da biodiversidade e da oposição à visão de mundo monoteísta antropocêntrica, que permite a destruição ecológica e o tratamento cruel dos animais. As palavras latinas “solve” e “coagula” (traduzidas aproximadamente como “solvente” e “coagulante”, respectivamente) nos braços de Baphomet foram utilizadas por Levi para fazer referência à alquimia oculta, mas podem ser reinterpretadas por Anarco-Satanistas para representar a dicotomia das filosofias anarquistas individualistas e coletivistas. Anarco-satanista para representar a dicotomia das filosofias anarquistas individualistas e coletivistas. O anarquismo individualista pode ter sido sintetizado por Benjamin R. Tucker, que escreveu que “se o indivíduo tem o direito de governar a si mesmo, todo governo externo é tirania” [10]. O anarquismo coletivista, frequentemente associado a Bakunin, prevê que os meios de produção para criar bens e serviços sejam de propriedade coletiva e controlados pelos trabalhadores que os produzem. Através desta representação e reinterpretação da imagem de Baphomet, uma pessoa Anarco-Satanista pode encontrar um simbolismo que reflita princípios como soberania individual, solidariedade comunitária, libertação sexual/de gênero e reverência respeitosa pela vida não-humana, bem como pela sustentabilidade ecológica. Isto nos deixa com uma interpretação geral de Baphomet (e, por extensão, de Satã) como promotor da desconstrução das ideias monoteístas de normatividade androcêntrica e antropocêntrica.

Com a expansão, durante a Idade das Trevas, do Cristianismo patriarcal e da influência papal por toda a Europa, a igualdade de gênero se tornou algo ainda mais distante. As mulheres desse período foram submetidas a uma campanha multifacetada de supressão política, perseguição, tortura violenta, mutilação e execução pública, conhecida como Caça às Bruxas. As mulheres acusadas de bruxaria eram frequentemente parteiras, curandeiras herbais, individualistas herméticas e/ou lideranças comunitárias que eram guardiãs de informações inestimáveis sobre anatomia, doenças, parto e saúde sexual. As autoridades católicas da Europa Medieval inventaram e exploraram o medo das bruxas — e a suposta influência subsequente de Satanás sobre e através delas — para remodelar a sociedade Europeia em direção a um paradigma social que atendesse às suas necessidades e interesses (a saber, uma sociedade fundada na sanção religiosa da hierarquia patriarcal). Mulheres foram (e de muitas maneiras ainda são) privadas de autonomia e coagidas à subserviência a construtos sociais patriarcais. As descrições comuns dos “Sabbaths das Bruxas” envolviam elementos de revolta camponesa e transgressão sexual, sendo “retratados tanto como uma orgia sexual monstruosa quanto como um encontro político subversivo, […] com o Diabo instruindo as bruxas a se rebelarem contra seus senhores” [11]. O medo das bruxas se constituía de temores patriarcais diante do empoderamento sexual das mulheres, de sua individualidade, conhecimento e força, em um esforço de fazer com que esses traços parecessem não apenas indesejáveis, mas inteiramente e inerentemente malignos. Historiadores observam que “as primeiras descrições desses encontros coincidiram com as rebeliões camponesas em massa do final do século XIV, quando reuniões clandestinas de fato aconteciam na calada da noite, e as mulheres eram frequentemente as agitadoras principais” [12]. As Bruxas eram predominantemente mulheres empoderadas cuja independência, habilidades de liderança e conhecimento medicinal holístico ameaçavam a base de poder dos magistrados monoteístas patriarcais, a profissionalização androcêntrica e capitalista da prática médica e uma indústria farmacêutica patriarcal emergente, dependente de tratamentos químicos (em oposição aos herbais ou holísticos).

Em uma tentativa equivocada de difamar retroativamente e degradar ainda mais as bruxas, alguns clérigos mais modernos posteriormente associariam diretamente a prática da bruxaria ao anarquismo. Um notório manual de caça às bruxas do século XV, intitulado “Malleus Maleficarum”, foi traduzido do francês para o inglês em 1928 pelo clérigo Montague Summers, que prefaciou essa tradução escrevendo que “as bruxas eram um vasto movimento político, uma sociedade organizada, que era [...] anárquica…” [13]. As tentativas desses monoteístas de difamar Satanistas (como as bruxas Satânicas) designando-os anárquicos são paralelas às tentativas monoteístas e estatistas de difamar os anarquistas como Satânicos. Associando voluntariamente o anarquismo e o Satanismo em uma filosofia moralista, os Anarco-Satanistas impedem que os monoteístas e estatistas usem qualquer um desses rótulos como ferramenta de desumanização.

A Era do Iluminismo deu origem a muitos pensadores politicamente radicais que utilizavam simbolismo e imagens Satânicas no desenvolvimento de suas ideologias. Esses pensadores estabeleceram uma ponte conceitual entre os movimentos de resistência das mulheres e dos camponeses associados a Satanás durante a Caça às Bruxas e a apreciação mais ampla (e inclusão) da figura de Satanás no pensamento anarquista clássico. Dentre esses pensadores do Iluminismo estava Voltaire, que se recusou a renunciar a Satanás em seu leito de morte. Talvez o pensador mais importante do Iluminismo tenha sido Thomas Paine, um participante altamente influente nas revoluções Americana e Francesa. Paine contribuiu para a inversão da polaridade moral de Deus e Satã quando escreveu: “Sempre que lemos as histórias obscenas, [...] as execuções cruéis e torturantes, a vingança implacável, com as quais mais da metade da Bíblia está repleta, seria mais consistente chamá-la [...] de uma história de maldade, que serviu para corromper e brutalizar a humanidade; e, por minha parte, eu sinceramente a detesto, assim como detesto tudo que é cruel” [14]. Paine expôs diretamente o papel de Satã na mitologia Cristã quando escreveu que “para criar uma base sobre a qual se erguer, os inventores [do Cristianismo] foram obrigados a dar ao ser que chamam de Satanás um poder igualmente grande, se não maior, do que o que atribuem ao Todo-Poderoso. Eles não apenas lhe deram o poder de se libertar do abismo, após o que chamam de sua queda, mas também fizeram com que esse poder aumentasse infinitamente. Antes dessa queda, eles o representam apenas como um anjo de existência limitada, assim como representam os demais. Após sua queda, ele se torna, segundo eles, onipresente. Ele existe em todos os lugares e ao mesmo tempo. Ele ocupa toda a imensidão do espaço. Não contentes com isso [...], eles o representam derrotando, por estratagema, na forma de um animal da criação, todo o poder e sabedoria do Todo-Poderoso [...] eles fazem o transgressor triunfar e o Todo-Poderoso cair" [14]. Apesar da forte generificação masculina de Satanás nesta passagem, um Anarco-Satanista pode inferir vários pontos importantes. Em primeiro lugar, que o Cristianismo (e o monoteísmo Abraâmico em geral) foi inventado por contadores de histórias que criaram um conflito entre protagonista e antagonista em sua narrativa para tornar a história mais envolvente e, ao fazer isso, imaginaram um ser que pudesse rivalizar com o poder do suposto Deus “Todo-Poderoso” — Satã, que poderia perturbar a hierarquia divina e representar uma ameaça direta ao poder de Deus. Em segundo lugar, que dentro dessa mitologia, Satã triunfa ao derrotar (“por estratagema”, o que implica maior destreza intelectual) o plano supostamente “perfeito” de Deus e, por meio de ação direta em direção à autoliberação, Satã é capaz de escapar das profundezas do Inferno e ajudar a transformar os humanos em seres mais conhecedores e autoconscientes. Em terceiro lugar, que apesar da punição de Deus por meio do exílio e do encarceramento, o poder de Satã aumenta (em vez de diminuir) por meio dessa queda do Céu, e que, devido a essa queda, o alcance da influência de Satã se torna universal — mitologicamente falando, o antiautoritarismo onipresente de Satanás ameaça neutralizar a autoridade onipresente de Deus. A “outridade” não-divina de Satã se torna um catalisador do empoderamento do desenvolvimento individual do personagem. Em quarto lugar, Satã é imaginado como capaz de subverter o plano mestre de Deus enquanto se encontra na “forma de um animal” — isso indica para a conexão de Satanás com o poder da vida biológica não-humana e, além disso, insere Satanás no papel de defensor da biodiversidade em nome de todos os ecossistemas terrestres interconectados. É esse aspecto físico e animalesco que Satanás utilizou com sucesso para neutralizar mitologicamente a autoridade etérea e “divina” de Deus.

O poeta Charles Baudelaire tinha um forte compromisso com um ponto de vista político radical que se assemelhava ao do anarquista Pierre-Joseph Proudhon. Relata-se que Baudelaire participou tanto de uma insurreição da classe trabalhadora na França, em junho de 1848, quanto da resistência ao golpe militar bonapartista de dezembro de 1851 [15]. Baudelaire escreveu o poema "As Ladainhas de Satã" [“Les Litanies de Satan”], que começa com os seguintes versos notáveis:

<quote>Ó tu, o Anjo mais belo e também o mais culto,

Deus que a sorte traiu e privou do seu culto,

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Ó Príncipe do exílio a quem alguém fez mal,

E que, vencido, sempre te ergues mais brutal

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria!

Tu que vês tudo, ó rei das coisas subterrâneas,

Charlatão familiar das humanas insânias

Tem piedade, ó Satã, desta longa miséria![16]</quote>

Apesar da utilização metafórica dos títulos patriarcais e monárquicos de Príncipe e Rei nesta exaltação (atribuindo gênero a Satanás e conferindo ao personagem uma posição hierárquica privilegiada, ambos incompatíveis com uma reinterpretação Anarco-Satânica da mitologia Satânica), estes versos ainda apresentam uma visão de Satanás com atributos benevolentes (sabedoria, cura) que podem ser facilmente utilizados numa reinterpretação Anarco-Satânica do personagem. Além disso, esses versos implicam uma empatia recíproca, na qual Satã é apresentado como bem familiarizado com os sofrimentos humanos, enquanto o narrador reconhece a posição de Satã como injustiçado e traído por Deus. Solidariedade e ação direta são conceitos e práticas altamente valorizados por anarquistas, já que a solidariedade geralmente deriva da empatia recíproca entre vários indivíduos e grupos, resultando em ações diretas geradas cooperativamente. Anarco-Satanistas podem usar a empatia recíproca mitológica entre Satã e os humanos para reforçar a necessidade de expressões (bem como ações diretas) de solidariedade.

Na metade do século XIX, surgiram muitos poetas radicais, sem dúvida influenciados pela chamada Escola Satânica de Poesia, que utilizou a figura de Satã em suas obras. O poeta e revolucionário Ernest Cœurderoy evocou simbolismos satânicos ao escrever: “Satã, […] volto-me para ti. Torna áspera minha língua e brutal minha pena…” [17], ao passo que o poeta e ateu Giosuè Carducci inspirava um movimento de resistência contra o Papado com seu poema Hino a Satã [Inno a Satana], no qual escreveu os seguintes versos:

<quote>Tu inspiras, ó Satã! o meu verso desafiando,

Deus dos pontífices cruéis e reis homicidas.

e como o raio

abala as mentes dos homens.

[…] ó Satã! Ó Rebelião!

Ó Força vingadora da Razão humana![18]</quote>

Carducci apresenta aqui ao Anarco-Satanista dois conceitos importantes. Em primeiro lugar, reconhece que Satã “respira” em seus versos — isso é importante, pois é um reconhecimento de que a vida de Satã não é literal, mas literária, e defende a posição anarquista ateísta. Em segundo lugar, Satã é aqui apresentado como uma “força vingativa da razão humana”. Essa conceituação do personagem reimagina a mitologia e postula que a rebelião de Satã contra Deus não foi apenas egoísta, nem exclusivamente em nome dos anjos, mas também em nome da humanidade (e, por extensão, em nome de toda a vida biológica na Terra).

Emma Goldman é uma das anarquistas mais conhecidas na América do Norte, e suas contribuições ao pensamento anarquista e antiteísta não podem ser subestimadas. Assim como Thomas Paine, ela imaginou uma inversão do binário moral entre Deus e Satã por meio da demonização de Deus. Isso é especialmente evidente em um trecho de seu ensaio “Anarquismo: o que realmente significa?”:

<quote>Deus é o todo, o homem não é nada, diz a religião. Mas, desse nada, Deus cria um reino tão déspota, tirano, cruel, terrível, que nada que não seja desastre, lágrimas e sangue reinam no mundo desde que os Deuses surgiram. O Anarquismo impeli o homem a se rebelar contra esse […] monstro.[19]

Ao acusar o personagem Deus de ser “cruel” e um “monstro”, Goldman contribuiu para a reorganização moral das personagens da mitologia bíblica, reinterpretando Deus como o vilão do mito bíblico.

Embora “Emma Vermelha” tenha sido talvez a anarquista norte-americana mais famosa, o menos conhecido Moses Harman estabeleceu uma ligação mais direta entre o pensamento anarquista e a mitologia Satânica por meio do periódico anarquista “Lucifer, o Portador da Luz” [“Lucifer the Lightbearer”]. O título foi escolhido, afirmou Harman, porque expressava a missão do jornal de lançar luz aos padrões sociais de opressão. Ele afirmou que Lúcifer (um termo usado para se referir tanto a massas astronômicas reais quanto ao anjo Lúcifer antes de cair do céu, transformar-se em demônio e ser renomeado como Satanás) servia como símbolo da publicação e representava o início de um novo dia. Ele declarou que muitos livres-pensadores procuraram redimir o nome de Lúcifer, e os Anarco-Satanistas continuam esse movimento. Harman sugeriu que Lúcifer assumiria o papel de um educador mitológico, escrevendo que “o deus da Bíblia condenou a humanidade à ignorância perpétua [...] e [as pessoas] nunca teriam sabido distinguir o bem do mal se Lúcifer não lhes tivesse ensinado como se tornar tão sábios quanto os próprios deuses” [20]. O mitológico desenvolvimento do personagem de Lúcifer em Satanás é bem documentado, embora o uso de Lúcifer por Harman aqui seja uma inversão da utilização cultural comum do título de Lúcifer em referência ao anjo rebelde mitológico que mais tarde se transformaria no demoníaco Satanás (como a maioria das versões da mitologia Satânica, incluindo “Paraíso Perdido”, indicam que a rebelião do anjo Lúcifer e seu exílio no Inferno ocorreram antes da infiltração do demônio Satã no Éden). Encarar essa figura multifacetada de Lúcifer/Satanás como um educador benevolente (especificamente em referência ao mito do jardim do Éden) é um elemento indispensável das reinterpretações e reivindicações Anarco-Satânicas da mitologia Satânica bíblica.

Outra voz importante contra o monoteísmo nos Estados Unidos foi Madalyn Murray O’Hair, anarquista e fundadora da organização Ateus Americanos [American Atheists], que afirmou:

<quote>“[…] se nós podemos, sem pestanejar, questionar a autoridade suprema — Deus — […] então podemos questionar a autoridade do Estado, podemos questionar a autoridade da estrutura universitária, podemos questionar a autoridade de nosso empregador, podemos questionar qualquer coisa. Por isso, penso que o que define essencialmente um ateu é ser uma pessoa que olha para uma ideia autoritária, ou uma estrutura de autoridade, e diz a essa estrutura: de onde você deriva a sua autoridade e por que eu deveria obedecê-lo?”[21]</quote>

O’Hair conecta nitidamente a não-crença ateísta no Deus monoteísta ao valor anarquista do antiautoritarismo, especialmente ao vincular o questionamento da autoridade de Deus ao questionamento das hierarquias tanto do Estado quanto dos patrões capitalistas. O Anarquista-Satanista é, de modo semelhante, ateu, e utiliza a narrativa mitológica apenas como ferramenta para comunicar essa ligação antiautoritária entre ateísmo e anarquismo, mostrando que a rejeição pessoal da crença em Deus pode servir como base para uma rejeição coletiva das hierarquias sociais.

A Conspiração Internacional Terrorista das Mulheres do Inferno [ Women’s International Terrorist Conspiracy from Hell ] (abreviada como W.I.T.C.H.) foi o nome de vários grupos feministas inter-relacionados, mas independentes entre si, formados nos Estados Unidos entre 1968 e 1969, que tiveram importância decisiva no desenvolvimento do feminismo anticapitalista. O nome W.I.T.C.H. também era expandido, por vezes, como “Mulheres Inspiradas a Contar Sua História Coletiva” [“Women Inspired to Tell Their Collective History”], “Mulheres Interessadas em Acabar com os Feriados Consumistas” [“Women Interested in Toppling Consumer Holidays”], entre muitas outras variações. As mulheres envolvidas nessa organização faziam referências frequentes aos milhões de mulheres mortas nas caças às bruxas. A ação inaugural do grupo ocorreu no Halloween de 1968, quando integrantes vestidas de bruxas desfilaram pela Wall Street para lançar uma “maldição” sobre o distrito financeiro de Nova York. Seu manifesto continha o seguinte trecho:

“W.I.T.C.H. é […] teatro, revolução, magia, terror, alegria, alho, flores, feitiços. É a consciência de que bruxas e ciganas foram as guerrilheiras originais e lutadoras de resistência contra a opressão — particularmente a opressão das mulheres — ao longo dos séculos. As bruxas sempre foram mulheres que ousaram ser: descoladas, corajosas, agressivas, inteligentes, inconformistas, exploradoras, curiosas, independentes, sexualmente libertas, revolucionárias.”[22]

Vários organizadores radicais não-brancos utilizaram a associação com o Satanismo e a retórica antiteísta em suas lutas contra instituições hierárquicas e o racismo sistêmico perpetrado pelo Estado. Dutty Boukman, jamaicano escravizado radicado no Haiti e um dos primeiros e mais visíveis líderes da Revolução Haitiana, realizou uma cerimônia na qual se afirmava um pacto de liberdade, durante a qual ele teria exortado seus companheiros escravizados a “jogar fora o símbolo do deus dos brancos, que tantas vezes nos fez chorar, e ouvir a voz da liberdade, que fala nos corações de todos nós”[23]. Essa cerimônia (frequentemente descrita como um ritual vodu, mas denunciada como Satânica por certos evangelistas Cristãos) foi um catalisador da revolta de escravizados que desencadeou o estopim da Revolução Haitiana. Mantendo consonância com o apelo revolucionário de rejeitar a divindade abraâmica em favor da liberdade, Ernesto “Che” Guevara afirmou-se como “totalmente contrário a um Cristo” [24]. Malcolm X falou sobre sua prisão e sobre o confinamento solitário em sua autobiografia, dizendo “Eu caminhava de um lado a outro por horas, como um leopardo enjaulado, praguejando furiosamente em voz alta para mim mesmo. E meus alvos preferidos eram a Bíblia e Deus. […] Com o tempo, os homens do bloco de celas me deram um nome: ‘Satã’. Por causa da minha postura antirreligiosa” [25]. Mais recentemente, o Subcomandante Marcos, do movimento indígena EZLN, expôs uma associação com a mitologia Satânica quando escreveu que “o que aconteceu foi […] um problema com […] as condições de trabalho. Um sindicato, por mais angélico que fosse, não fazia parte do plano divino, e por isso Deus optou por invocar a cláusula de exclusão. Os escribas mercenários encarregaram-se de vilipendiar nossa luta justa, e então nós fomos…” [26]. Isso abre novas possibilidades de refletir e reinterpretar a rebelião angélica — é perfeitamente plausível imaginar que, para o Anarco-Satanista, tal rebelião pudesse ter começado como uma disputa trabalhista mitológica, ou como uma tentativa etérea de sindicalização.

O Satanismo Moderno costuma ser definido pelos preceitos da Igreja de Satã [Church of Satan], fundada por Anton LaVey em 1966, e também pelas atividades mais recentes do Templo Satânico. LaVey, e seu protegido Peter Gilmore, defenderam uma forma de Satanismo marcada pelo misticismo ocultista e por uma hierarquia elitista de classe sacerdotal, o que espelhava a organização institucional monoteísta. LaVey e (sobretudo) Gilmore não reconheceram os seres humanos como animais sociais ao promoverem um individualismo extremo, situado fora do escopo da ajuda mútua – Gilmore inclusive rejeitou explicitamente a própria ideia de uma coletividade Satânica, dedicando um capítulo de seu livro The Satanic Scriptures [As Escrituras Satânicas] para negar o “mito” de uma comunidade Satânica [27]. A Igreja de Satã exerceu uma falha legitimação da exploração capitalista ao exigir taxas de adesão. Essa postura não surpreende, dados os lugares sociais ocupados por Gilmore e LaVey — ambos homens brancos, de classe média-alta, cisgêneros e beneficiados por amplos privilégios dentro das hierarquias sociais de uma sociedade fundada em valores monoteístas. O Templo Satânico é uma organização política ativista muito mais recente, que usa farsa e paródia para expor padrões duplos relativos à liberdade religiosa, mas esse grupo frequentemente apela à autoridade do Estado para receber proteção legal igualitária e permissão para distribuir ou exibir símbolos Satânicos em propriedades estatais.

Enquanto o Templo Satânico defende a separação entre Igreja e Estado (e trabalha para expor as contradições que emergem quando essa separação falha), os Anarco-Satanistas defendem, por outro lado, o abandono da fé monoteísta e a abolição do Estado, já que o próprio Estado costuma se revelar uma instituição monoteísta. Anarco-Satanistas rejeitam o sobrenaturalismo, o misticismo, o ocultismo (embora exceções possam ser feitas para fins simbólicos ou estéticos), o elitismo, o capitalismo, a hierarquia e os apelos à autoridade estatal. Para a pessoa Anarco-Satanista, os estados-nação (ao lado dos cleros das religiões monoteístas e as corporações) representam tenentes-soberanos do Deus monoteísta Abraâmico. O Estado frequentemente apela à autoridade de Deus nos juramentos de posse, nos discursos presidenciais, no juramento de testemunhas nos tribunais e até nas moedas impressas — desse modo, o estado-nação moderno constitui-se muitas vezes como uma instituição monoteísta, apesar de suas alegações de secularismo, e atua como mecanismo de imposição de normas sociais monoteístas.

LaVey e Gilmore codificaram textualmente, em seus textos Satânicos, o sistema de crenças da Igreja de Satã por meio da formulação de decretos. LaVey incluiu em seu livro “A Bíblia Satânica” [“The Satanic Bible”] uma lista intitulada “As Nove Declarações Satânicas”, enquanto Gilmore, em seu livro “As Escrituras Satânicas” [“The Satanic Scriptures”], apresentou uma lista chamada “As Onze Regras Satânicas da Terra”. Dessas vinte declarações e regras, uma dúzia pode ser resgatada e, em alguns casos, radicalmente revisada, para fundamentar o Anarco-Satanismo como um conjunto de diretrizes gerais:

  1. O Anarco-Satanismo é a indulgência responsável pelos desejos pessoais por uma sociedade mais alegre e justa. (Desejo pessoal equilibrado pela responsabilidade pessoal)

  2. O Anarco-Satanismo é a posse e o controle absolutos de nossos próprios corpos, mentes e ações, e o ímpeto de defender constantemente a manutenção desse controle, ajudando os outros a obtê-lo e a florescer dentro dessa liberdade pessoal fundamental. (Autonomia pessoal e soberania física, liberdade de associação)

  3. O Anarco-Satanismo é a autoconfiança empoderada de fazer escolhas morais bem fundamentadas e defender a oportunidade e os meios para obter as informações necessárias para fazer tais escolhas, em vez de se abster da responsabilidade pessoal e social. (Capacidade para agir moralmente e se defender)

  4. O Anarco-Satanismo é sabedoria pessoal e comunitária compartilhada livremente, em vez de ignorância imposta hierarquicamente e autoengano hipócrita. (Compartilhamento de conhecimento ou ajuda mútua intelectual)

  5. O Anarco-Satanismo é existência física vital, em vez de promessas vazias de uma vida após a morte espiritual. (Vida biológica)

  6. O Anarco-Satanismo é a confiança e a força para determinar como alocar e compartilhar recursos emocionais, como bondade, amor, raiva e ódio. (Amplo arcabouço de respostas emocionais válidas)

  7. O Anarco-Satanismo é a inclinação de cada pessoa para determinar cuidadosamente a melhor resposta à injustiça, possuindo, concomitantemente, a coragem moral para agir de acordo com esse julgamento. (Agir diretamente de acordo com um julgamento moral ponderado)

  8. O Anarco-Satanismo é uma responsabilidade madura, em vez de uma manipulação parasitária que permite a ignorância social. (Responsabilidade pessoal e social)

  9. O Anarco-Satanismo é a perspectiva segundo a qual o ser humano é apenas mais um animal (muitas vezes pior do que qualquer outra espécie devido ao abuso consciente de capacidades humanas altamente evoluídas, o que muitas vezes resulta na criação de imposições divinatórias sobre outros seres humanos, outras espécies e o ecossistema global), ao mesmo tempo em que busca promover uma relação mais simbiótica e ética com o mundo biológico. (Os seres humanos são animais e precisam de sustentabilidade ecológica)

  10. O Anarco-Satanismo é a oposição à negligência ou abuso intencional, exploração, abuso sexual, lesão, estupro e tortura de qualquer ser humano, é a oposição ao homicídio negligente ou intencional fora do contexto de ameaça mortal imediata e direta, e é a oposição ao abate negligente ou intencional de animais e plantas por razões que não sejam a autodefesa imediata ou o uso de seus corpos para criar roupas, abrigo ou alimento necessários. (Oposição a danos desnecessários ou crueldade para com seres vivos)

  11. O Anarco-Satanismo adota uma abordagem antinormativa em relação à vida pessoal por meio da prática de uma ampla variedade de rituais que são realizados com nossos corpos, mentes e recursos comunitários. (Atividade antinormativa ritualizada)

  12. O Anarco-Satanismo é a escolha de viver uma vida de resistência contra os sistemas hierárquicos de controle, principalmente o Estado, as corporações e o monoteísmo Abraâmico, que impedem os indivíduos de viverem vidas presentes e ativas. (Oposição à hierarquia)

Essa lista está longe de ser abrangente quanto às diretrizes ou valores Anarco-Satânicos, mas fornece uma base inicial para a compreensão da filosofia.

Reinterpretações e análises críticas dos mitos bíblicos sobre a rebelião angélica contra Deus, a Queda ou Exílio dos anjos rebeldes e o Jardim do Éden são essenciais ao Anarco-Satanismo. Embora existam muitas outras histórias sobre a figura de Satã, esses três mitos bíblicos são fundamentais para o desenvolvimento e a compreensão de seu personagem. Alguns mitos bíblicos envolvendo Satã, como a tentação de Cristo, podem ser total ou parcialmente reinterpretados para exemplificar a necessidade e a viabilidade de princípios anarquistas, mas não são tão importantes para compreender a natureza dinâmica da figura. Outros mitos bíblicos sobre Satã, como a história de Jó, apresentam inconsistências quase intransponíveis de caráter e enredo no contexto da narrativa maior, podendo ser essencialmente ignorados no desenvolvimento do pensamento Anarco-Satânico. Representações da mitologia Satânica na cultura popular podem, de modo semelhante, ser utilizadas tal como são, reinterpretadas ou rejeitadas caso a caso, dependendo de seu conteúdo e relevância para o arcabouço mais amplo do Anarco-Satanismo.

O mito sobre a rebelião angélica liderada por Lúcifer contra Deus coloca Lúcifer na posição de organizador político etéreo e revolucionário social, ao mesmo tempo que demonstra sua capacidade de empatia. O anarquista, romancista e ambientalista Edward Abbey escreveu que “O amor implica ira. A pessoa que não se ira com nada não se importa com nada” [28]. A pessoa Anarco-Satanista pode aplicar essa lógica ao considerar as motivações teóricas dos anjos rebeldes mitológicos, estabelecendo uma conexão direta entre seu amor por liberdade (e uns pelos outros) e a ira que sentiram diante de um Deus opressor e vingativo. Assim, Lúcifer surge como um combatente da liberdade justo e amoroso, indignado pelo modo como Deus trata tanto anjos quanto humanos. A figura de Lúcifer demonstra disposição para abandonar uma posição elevada na hierarquia divina e recorrer à ação direta para se opor à ditadura universal de Deus. Essas ações não são tomadas por ódio nem por desejo de poder, mas por amor àqueles que sofrem sob a opressão e tirania de Deus. Essa mitologia também não impede uma leitura da rebelião angélica como não-violenta, embora o uso de força violenta (ou seu equivalente mitológico e etéreo) possa ser entendido como autodefesa coletiva diante do domínio hierárquico agressivamente imposto por Deus. Aqui, Lúcifer também exerce a liberdade de recusar sua associação com Deus. Esse paralelo é crucial, pois oferece um correlato necessário e inverso à liberdade de associação (amplamente considerada um direito humano) que possibilita a formação voluntária de grupos e a liberdade de expressão por meio da liberdade de congregar-se.

O mito da Queda (o exílio dos anjos rebeldes e a construção do Inferno) envolve o deslocamento do rebelde Lúcifer e a transformação forçada dos anjos rebeldes em demônios. Aqui, Satã pode ser visto como vítima de um decreto hierárquico de propriedade, semelhante ao que ocorre com uma pessoa despejada ou refugiada. Ao emitir esse decreto, Deus efetivamente cerca e privatiza o reino mitológico do Céu (antes construído como um bem comum), criando fronteiras rígidas e um reino ou estado-nação “divino” definido. Esse ato mitológico também representa o início de uma indústria prisional sobrenatural, uma vez que a construção do Inferno visa criar um espaço de confinamento forçado para aqueles considerados indignos do recém-cercado Céu. Satã torna-se um prisioneiro político submetido a confinamento que lhe é “divinamente” imposto como forma de retaliação por suas ações diretas contra a opressão e em favor de um maior igualitarismo etéreo. A transformação compulsória de anjo (Lúcifer) em demônio (Satã) pode representar várias formas de supressão identitária baseadas em aparências, impostas hierarquicamente: circuncisão masculina, mutilação genital feminina, esterilização forçada, cirurgias de designação de gênero não-consensuais (geralmente infantis), tabus culturais contra tatuagens, piercings e outras modificações corporais voluntárias, uniformes institucionais, códigos culturais de vestimenta e padrões de beleza, capacitismo, falta de acesso a cuidados de saúde, marcadores de classe, supremacia branca e racismo institucionalizado, etc.

O mito do Jardim do Éden descreve a viagem não autorizada de Satã do Inferno à Terra, semelhante à de um invasor, imigrante “ilegal” ou refugiado. Ao desrespeitar a fronteira que separa Inferno e Terra, Satã fornece um exemplo mitológico de internacionalismo ou antinacionalismo, movimentando-se livremente sem considerar fronteiras impostas hierarquicamente. Ao incentivar Eva a comer o fruto proibido da árvore do conhecimento, Satã assume o papel de educador subversivo e libertador, usando meios não violentos para realizar ajuda mútua (pelos quais os humanos ganham autoconsciência, e dos quais Satã se beneficia ao realizar uma subversão significativa da autoridade tirânica de Deus). Ao escolherem interagir, Eva e Satã demonstram livre associação, ou liberdade de expressão e de se reunir, em oposição direta às ordens dos patriarcas governantes, Deus e seu tenente-soberano na Terra, Adão. Satã oferece educação sem esperar compensação, e assim o presente do conhecimento proibido pode ser interpretado tanto como uma ação direta contra a censura quanto como a inauguração de uma economia mitológica do dom.

Rituais Anarco-Satânicos podem variar bastante, mas costumam envolver uma ética autônoma no estilo faça-você-mesmo que pode incentivar encontros comunitários e participação coletiva em atividades produtivas e prazerosas. Esses rituais geralmente buscam educar, promover autodesenvolvimento e autocuidado, possibilitar mobilidade individual (especialmente por autopropulsão), criar espaços para expressão artística, diminuir a influência cultural de instituições hierárquicas, construir confiança (por meio de solidariedade e apoio mútuo) entre indivíduos e comunidades marginalizadas, e desenvolver métodos de sobrevivência ecologicamente sustentáveis. A participação em atividades tão diversas quanto (mas não limitadas a) atuação, arquitetura, incêndio proposital, BDSM, ciclismo, encadernação, boicote, carpintaria, acampamento, culinária, compostagem, dança, debate, desenho, experimentação com drogas ou inebriantes, engenharia, exercícios físicos, agricultura (preferencialmente sustentável e orgânica), jejum, jardinagem, organização de base, artes marciais, meditação, metalurgia, composição musical, pintura (incluindo grafite), paródia, performance, protesto, leitura, reutilização e reciclagem pessoal, motins (entendidos como destruição espontânea e não-violenta de propriedade), serigrafia, escultura, costura, furto em lojas, canto, exploração sexual, skate, contação de histórias, greves, estudo e pesquisa, caça e pesca de subsistência, ocupação de estruturas vazias, ensino (compartilhamento de habilidades e conhecimentos), viagens, invasão, vandalismo, serviço comunitário voluntário, soldagem, escrita etc.: todas podem ser ritualísticas Anarco-Satânicas, desde que suas práticas demonstrem análise crítica das condições sociais, busquem minimizar riscos de dano físico ou mental permanente e procurem prevenir e/ou corrigir coerções hierárquicas. Um ritual específico digno de nota é a tática de protesto black bloc (solidariedade pública anônima coletiva mediante o uso de roupas e máscaras pretas, proteção de manifestantes não-violentos contra vigilância e violência policial, desprisão de detidos, primeiros socorros a vítimas de repressão, destruição não-violenta de propriedade com alvo político e ações de solidariedade carcerária), pois pode representar uma reinterpretação moderna de uma missa negra Satânica ou de um sabá de bruxas.

Anarco-Satanistas não dependem de feriados sancionados por hierarquias para celebrar suas vidas, alegrias e amores. Em vez disso, há uma intencionalidade ativa de encontrar esses momentos no cotidiano e no presente, experimentando felicidade, afeto, apreço e prazer livremente, sem as fronteiras artificiais de feriados específicos, os quais são muitas vezes projetados para direcionar emoções positivas à glorificação de um Deus inexistente, à autoridade do Estado e ao consumo massivo de bens capitalistas. Ainda assim, alguns feriados podem se encaixar no pensamento Anarco-Satânico. Aniversários podem ser construídos como celebrações do indivíduo soberano e de seu ciclo vital. Outros incluem os solstícios de verão e inverno e os equinócios de primavera e outono, que marcam a mudança de estações e refletem transições nos ciclos biológicos ecossistêmicos. Celebrá-los cria espaço para desenvolver consciência desses ciclos e para planejar práticas de plantio e agricultura. Além disso, o Dia do Trabalhador (1º de maio) é uma celebração internacional tradicional de solidariedade operária, organização de base e direitos trabalhistas, inserindo-se, assim, no âmbito da ação anarquista coletiva. Geralmente envolve marchas, protestos, greves e paralisações, demonstrando o poder da classe trabalhadora em relação aos patrões. Historicamente, o 1º de Maio também está ligado a feriados pagãos, como Florália e Beltane, e à bruxaria por meio da celebração de Walpurgisnacht, todos relacionados ao início do verão (hemisfério norte). O oposto do 1º de maio é o Halloween, Samhain ou Dia das Almas, marcando o início do inverno (hemisfério norte). Esse costuma ser realizado em 31 de outubro ou 1º de novembro, envolvendo festivais de colheita, liberação pública anônima por meio de fantasias criativas e reconhecimento da morte como fim e início de ciclos biológicos. A noite anterior ao Halloween (30 de outubro) é por vezes chamada Noite do Diabo ou Noite da Travessura, associada a pegadinhas, vandalismo e incêndios (atos moralmente justificáveis apenas quando politicamente motivados, não-violentos e quando fortalecem tanto os indivíduos como as comunidades onde são realizados). Nenhuma pessoa Anarco-Satanista é obrigada a celebrar esses feriados, e celebrar outros não é proibido. Em qualquer celebração, Anarco-Satanistas podem aproveitar a ocasião para gerar ou ampliar diálogos públicos e culturais sobre questões relevantes. Cada Anarco-Satanista também pode decidir se reconhece as raízes pagãs teístas de muitos feriados, se as ressignifica, ou ambas as coisas, ou nenhuma.

A demonização é uma ferramenta comum da hierarquia monoteísta para desumanizar seus detratores e oponentes, traçando paralelos entre as ações de uma pessoa ou grupo e as ações atribuídas a Satã, amplamente (e erroneamente) consideradas imorais, malignas e violentas. O uso da mitologia Satânica por monoteístas visa silenciar dissidências e difamar críticos, figurando um pilar do processo de desumanização. Anarco-Satanistas reconhecem que essa associação mitológica involuntária ou projetada é uma forma de armar a narrativa cultural, e que, ao inverter essa narrativa (e sua polarização moral), a mitologia pode ser desarmada e transformada em ferramenta de empoderamento individual e social. O uso voluntário do termo “Satanista” como marcador identitário (assim como termos como “punk”, “queer” e vários outros, incluindo “anarquista”) pode ocasionar a inversão de um insulto ou ofensa despotencializante, convertendo-o em uma associação poderosa com mitologia, história, cultura e comunidade.

Para mais informações sobre Anarco-Satanismo, acesse o link: https://docs.google.com/document/d/1FU5qwXR62gjzysEm_DVVeEdxf0stMfzSzEVUvOHothg/edit?usp=docslist_api

Fontes citadas:

[1] Mikhail Bakunin, Deus e o Estado, 1871

[2] Pierre-Joseph Proudhon, The Ladies Repository for August, 1858

[3] John Milton, The Tenure of Kings and Magistrates, 1649

[4] William Godwin, Enquiry into Political Justice, 1793

[5] Mary Wollstonecraft, A Vindication of the Rights of Woman, 1792.

[6] Mary Wollstonecraft Shelley, Frankenstein or The Modern Prometheus, 1818

[7] Percy Bysshe Shelley, A Defense of Poetry, 1821

[8] Lord Byron, Detached Thoughts (Journal), 1822

[9] Robert Burns, letter to William Nichol, June 18th 1787

[10] Benjamin R. Tucker, State Socialism and Anarchism: How far they agree and wherein they differ, 1886

[11] Silvia Federici, Caliban and the Witch, 2004

[12] E. William Monter, Witchcraft in France and Switzerland: The Borderlands During the Reformation, 1976

[13] Montague Summers, the Malleus Maleficarum, 1928

[14] Thomas Paine, The Age of Reason, 1794

[14] Thomas Paine, The Age of Reason, 1794

[15] Richard D. Burton, Baudelaire and the Second Republic, 1991

[16] Charles Baudelaire, the Flowers of Evil, 1857

[17] Ernest Cœurderoy, Jours d’exil, 1854

[18] Giosuè Carducci, Hymn to Satan, 1865

[19] Emma Goldman, Anarchism and Other Essays, 1910

[20] Moses Harman, Lucifer, August 24, 1883.

[21] Madelyn Murray O'hair, Godless In America (film interview), 2006

[22] W.I.T.C.H. Manifesto, 1968

[23] Cyril Lionel Robert James, The Black Jacobins, 1938

[24] Ernesto 'Che' Guevara, letter to his mother, July 15, 1956 (as quoted by Jon Lee Anderson, Che Guevara: A Revolutionary Life, 1997)

[25] Malcolm X and Alex Haley, The Autobiography of Malcolm X: As Told to Alex Haley, 1992

[26] Naomi Klein, Ya Basta!: Ten Years Of The Zapatista Uprising - Writings Of Subcomandante Insurgente Marcos, 2004

[27] Peter H Gilmore, The Satanic Scriptures, 2007

[28] Edward Abbey, A Voice Crying in the Wilderness (Vox Clamantis in Deserto): Notes from a Secret Journal, 1991