PREFÁCIO por Debbie Bookchin

  INTRODUÇÃO

  COMUNA INTERNACIONALISTA DE ROJAVA: Aprender. Apoiar. Organizar.

    “Criar duas, três, muitas Rojavas!”

  ECOLOGIA SOCIAL: UM OLHAR SOBRE A HUMANIDADE E A NATUREZA

    AS MUDANÇAS HISTÓRICAS NA RELAÇÃO ENTRE A SOCIEDADE E A NATUREZA

    O DOMÍNIO DO HOMEM SOBRE A HUMANIDADE E A NATUREZA

    A MODERNIDADE CAPITALISTA: LUCRO E ENRIQUECIMENTO COMO O SENTIDO DA EXISTÊNCIA DE TODA A VIDA

    A ECOLOGIA SOCIAL COMO UMA SAÍDA PARA A MODERNIDADE CAPITALISTA

    A PEDRA ANGULAR DE UMA ORDEM SOCIAL ECOLÓGICA DEMOCRÁTICA

  MODERNIDADE CAPITALISTA: A CRISE NA RELAÇÃO ENTRE A HUMANIDADE E A NATUREZA

    MEIO URBANO E RURAL

    RECURSOS FINITOS

    EFEITO ESTUFA

    FLORESTAS EM CHAMAS

    ACIMA E ABAIXO

    A ÚLTIMA DESCULPA

    MOMENTO DECISIVO

  DESAFIOS ECOLÓGICOS EM ROJAVA: PERSPECTIVAS PARA UMA SOCIEDADE ECOLÓGICA

  AGRICULTURA E FLORESTAS

    Monocultura e fertilização química

    Uso de pesticidas

    Pragas agrícolas

    Uso sustentável da água e diversificação da agricultura de acordo com as necessidades do povo

    Agroflorestamento

    Agricultura urbana: autonomia e segurança alimentar nas zonas urbanas

    Reservas naturais e arborização – melhorar a qualidade da água e preservaçãoda biodiversidade

  ESCASSEZ DE ÁGUA, POLUIÇÃO DA ÁGUA E POSSÍVEIS SOLUÇÕES

    Escassez de água em Rojava

    Poluição da água e possíveis alternativas

    O uso de águas negras para fertilização

  PRODUÇÃO DE ENERGIA: ENTRE ENERGIAS RENOVÁVEIS E COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

    Extração e processamento de petróleo

    Produção de eletricidade

    As energias renováveis e a construção ecológica

  TRATAMENTO DE DEJETOS, RECICLAGEM E COMPOSTAGEM

    Reciclagem

    Compostagem: adubo orgânico para a agricultura rural e urbana

    TRÂNSITO E POLUIÇÃO DO AR

     EFEITOS DA GUERRA

  ROJAVA – UMA SOCIEDADE ECOLÓGICA DEMOCRÁTICA EM CONSTRUÇÃO

    Autossuficiência local e cooperativas: “Cole- tivizar nossa terra, água e energia” (Öcalan)

    Entre a reivindicação e a realidade – Rojava e a sociedade ecológica

  A CAMPANHA MAKE ROJAVA GREEN AGAIN

    Educação

    Educação para os internacionalistas

    Educação na sociedade

    Arborização dos terrenos da Academia

    Gestão e reciclagem de lixo

    Gestão hídrica

    Trabalhos práticos

    A cooperativa de árvores

    A Reserva Natural de Hayaka

    Organização da solidariedade internacional

    Apoio financeiro das obras

    Troca de saberes, desenvolvimento de projetos e ideias para uma Rojava ecológica

  CONCLUSÃO

  BIBLIOGRAFIA E FONTES

PREFÁCIO por Debbie Bookchin


É impossível ignorar que este belo livro foi publicado pela primeira vez no final de 2018, à sombra da invasão turca do grande cantão curdo de Afrin, no norte da Síria. Enquanto os heroicos combatentes das YPG e todas as mulheres das YPJ continuam a lutar contra os bandidos fascistas mobilizados pela Turquia que desejam impor a sua ideologia capitalista autoritária, anti-mulheres, ecologicamente lasciva em Afrin (e, se a Turquia pudesse, em Cizîrê e Kobane, os outros dois cantões de Rojava, mais conhecidos como a Federação Democrática do Norte da Síria) fora da Síria, os observadores perguntam frequentemente: “O que as estruturas sociais de Rojava têm que tanto inspiram a feroz lealdade dos seus defensores e do seu povo?”


Este livro responde a essa pergunta. Numa linguagem que faz a ponte entre o utópico e o concreto, o poético e o cotidiano, a Comuna Internacionalista de Rojava produziu tanto uma visão como um manual do que pode ser uma sociedade livre e ecológica. Nestas páginas você encontrará uma introdução filosófica à ideia de ecologia social, uma teoria que argumenta que somente quando terminarmos as relações hierárquicas entre os seres humanos (homens sobre mulheres, velhos sobre jovens, uma etnia ou religião sobre outra, e outras formas de dominação) seremos capazes de curar nossa relação com o mundo natural. Como os escritores observam, o imperativo para esta cura torna-se cada dia mais forte à medida que o aquecimento global e a ideologia neoliberal ameaçam a própria viabilidade da vida humana neste planeta.

Em consonância com a Comuna Internacionalista, o reconhecimento implícito de que a teoria é inútil se não for posta em prática, você também encontrará neste livro um guia concreto para a construção de uma comunidade ecológica neste canto do mundo, uma região que foi dilacerada pela guerra, cujas maravilhas e recursos naturais sofreram numerosos abusos por tiranos do passado. Ao ler este livro, você ficará encantado com as descrições dos rios e lagos, das estepes onde nascem trigo e algodão, lentilhas, grão-de-bico e feijão, das terras agrícolas e das árvores frutíferas – alperce, romã, figo, cerejeira e tantas outras, que estão sendo plantadas para ajudar a tornar Rojava verde novamente. De fato, só em 2018, vão semear 10.000 mudas que um dia serão usadas para melhorar a qualidade do ar local e o reflorestamento contínuo da Reserva Natural Hayaka perto de Dêrîk, no cantão de Cizîrê, uma importante área de vida selvagem onde lobos, raposas, porcos selvagens e todo tipo de pássaros encontraram refúgio, e onde as pessoas podem experimentar a beleza e a solidão dos bosques. Este projeto é profundamente comovente em seu compromisso com a saúde ecológica da região a longo prazo. Ele fala da nossa profunda necessidade como seres humanos de cuidar da rica abundância da natureza. O projeto é também uma prova viva de que mediante um processo democrático sério uma sociedade mais igualitária e ecológica é factível e de que um mundo melhor é possível.

Os autores observam sabiamente que uma sociedade ecológica deve ter um fundamento econômico e político para sustentá-la: um modelo comunalista, ou Confederalista Democrático, no qual cada membro da sociedade tenha voz e interesse em seu bem-estar futuro. Em tal mundo, onde as pessoas decidem juntas como usar os recursos naturais, podemos repensar as relações entre vida urbana e rural, produção e consumo, periferia e centro, e traçar um uso racional da terra e da água, dos recursos energéticos renováveis e até mesmo dos resíduos. Este livro oferece ideias e exemplos de como a paisagem única de Rojava pode contribuir para o seu povo. E ao fazê-lo – na apresentação tanto da teoria como de elegantes soluções práticas – a Comuna Internacionalista fornece inspiração para construir uma sociedade ecológica não só em Rojava, mas em toda a parte.

A Comuna Internacionalista compreende um grupo de pessoas de todos os cantos do mundo que vieram à Rojava para dar o seu apoio, partilhar suas experiências, ideias e, mais importante (e muito literalmente), as suas mãos. Querem construir uma sociedade que promova um futuro saudável e harmonioso para os povos desta região e para os recursos naturais dos quais dependem. Com muita felicidade, convidam a juntar-se a eles, na construção da Academia que servirá para introduzir os estrangeiros à vida em Rojava, e na sustentação dos projetos que já começaram. Espero que, como eu, vocês sejam impulsionados pelo sentimento de esperança, possibilidade e visão utópica que Rojava representa para o Oriente Médio e para o resto do mundo. Compartilhe esta visão com amigos, exponha seus conhecimentos e apoie a Comuna Internacionalista de Rojava. Ajude a criar um novo mundo em Rojava. E espalhe sua ideia: que uma sociedade livre e ecológica é possível.


INTRODUÇÃO

Embora os desafios ambientais em Rojava tenham chamado nossa atenção desde o início, o desenvolvimento do trabalho ecológico de nossa comunidade tem sido um processo lento. O ponto de partida foi que, para os internacionalistas em Rojava, participar da revolução não só com a mente, mas também com as mãos foi uma experiência importante. E o que poderia ser melhor do que trabalhar no próprio solo sobre o qual esta revolução está ocorrendo? Pensando no que poderíamos fazer pela revolução, surgiu a ideia de montar um berçário de árvores na Academia Internacionalista.

Questões surgiram com a construção da nossa Academia e o plano para o berçário de árvores, o que conduziu a mais perguntas. De onde vem a água que precisamos para a Academia, assim como as árvores? O que acontece com nosso esgoto? O que fazemos com o nosso lixo, e o que faz a sociedade com ele? De que nutrientes precisamos para a nossa horta e quais são utilizados na agricultura do entorno? Por que hoje só se cultiva trigo ao redor da Academia, onde ainda existiam florestas há poucas décadas atrás? Quanto mais perguntamos, discutimos e trabalhamos, mais clara ficou a relação entre o problema ecológico e a situação econômica e política. Foi este processo que nos
levou a perguntar: como seria uma sociedade ecológica em Rojava, e como ela poderia ser construída?

Pareceu-nos apropriado compartilhar nossas discussões preliminares e resultados de pesquisa, e é isso que queremos fazer com este livro. Ele se destina não só para aqueles envolvidos com os comitês e todas as outras pes- soas que trabalham e pesquisam localmente, mas também para ativistas, cientistas e pessoas interessadas do mundo inteiro. As questões ambientais em Rojava têm sido um tema de pouca preocupação, tanto dentro das estruturas locais como nos círculos de solidariedade global. O públi- co em geral no exterior tem ignorado esta questão até ago- ra, já que a cobertura da guerra contra o Estado Islâmi- co continua a abafar a natureza política desta revolução. Com este pequeno livro queremos dar uma outra orien- tação: relatar os desafios urgentes para os povos e para a natureza de Rojava; destacar aqui o trabalho ecológico; e engajar-se num diálogo ativo com todos os interessados e dispostos a ajudar.
Isto também representou um desafio para nós ao es- crever este livro: como combinar as discussões ideológicas sobre a relação fundamental entre pessoas e natureza com a pesquisa sobre questões de biologia e construção de edi- ficações? Como conseguimos tornar estes temas acessíveis não apenas para as pessoas que já estão familiarizadas com eles? Esperamos que isso tenha sido conseguido pela amplitude dos temas abordados, pela diversidade dos textos e pela sua divisão em seções utilizáveis.

Para começar, nos apresentamos, a Comuna Interna- cionalista de Rojava. No capítulo seguinte, apresentaremos nossa discussão sobre ecologia social e nossa visão sobre uma sociedade ecológica, que é a base teórica de nosso trabalho em andamento. Como não podemos to- mar como certo o conhecimento do impacto da moder- nidade capitalista sobre o sistema ecológico, segue-se uma introdução teórica à crise ecológica da modernidade ca- pitalista. Tentamos levar em conta os muitos e diferentes aspectos desta crise.

Com base nesta perspectiva global da crise ecológi- ca, no quinto capítulo discutiremos a situação de Roja- va, com particular referência ao maior cantão de Rojava, Cizîrê. Por um lado, este enfoque se deve à importância central de Cizîrê para as questões de política energética, ambiental e agrícola e, por outro lado, ao fato de que es- tamos trabalhando e construindo nossa Academia aqui. Não foi possível, a partir desta data de publicação, viajar para o cantão de Afrin, por isso só pudemos realizar uma pesquisa limitada sobre sua situação; o quinto capítulo também dá uma visão geral das questões ecológicas no contexto das políticas dos Estados turcos e sírios.

Formularemos detalhadamente nossas propostas sobre os próximos passos a serem dados na construção de uma sociedade ecológica. As informações detalhadas, fatos e números a que nos referimos neste capítulo são baseadas em estudos listados na bibliografia exposta no final do livro, e em discussões com os responsáveis pelas diversas estruturas do autogoverno democrático. Com isto quere- mos dizer as estruturas democráticas não estatais, basea- das em conselhos de bairro, que foram construídas desde o início da revolução em 2011.

Considerando essas informações, a análise da situação e os projetos realizados até agora, determinamos os obje- tivos da campanha “Make Rojava Green Again” e os próximos passos concretos da mesma. Iremos apresentá-los em detalhe no final do livro.

Comuna Internacionalista de Rojava
Setembro de 2018


COMUNA INTERNACIONALISTA DE ROJAVA: Aprender. Apoiar. Organizar.


Seis anos se passaram desde o início da revolução em Rojava. Desde a heroica resistência de Kobane, as YPJ/ YPG continuam a empurrar para trás as gangues reacio- nárias do ISIS. Ao mesmo tempo, o povo de Rojava resis- te com sucesso a todas as tentativas de destruição da revo- lução. Inspirado e baseado nas ideias de Abdullah Öcalan e pela luta do movimento de libertação curdo, erguido a partir da libertação das mulheres, da ecologia e da demo- cracia radical, um movimento revolucionário se organiza em Rojava para acabar com a modernidade capitalista. Mas a revolução em Rojava está sob pressão: a guerra con- tra o ISIS, o terror diário do Estado turco, assim como um amplo embargo econômico, estão atrasando a cons- trução da nova sociedade. Nesta situação, Rojava precisa, mais do que nunca, de apoio internacional.

Rojava precisa de atenção da mídia e apoio político exterior; ao mesmo tempo, a população de Rojava precisa de ajuda específica e concreta. Doutores e professores de inglês, tradutores e engenheiros: as instituições e estrutu- ras de Rojava precisam de conhecimentos e ideias. Mas não se trata apenas de especialistas. Estamos à procura de pessoas que queiram aprender, participar e tornar-se parte da revolução. O internacionalismo e a ação direta – seja nas YPJ e YPG ou em estruturas civis – ajuda a exprimir o significado da revolução, e a difundi-la além do Curdistão e do Oriente Médio. Junto da solidariedade prática, isso é urgentemente necessário.

“Vocês são sua própria esperança”.
- Abdullah Öcalan

Rojava precisa de nós, mas nós precisamos ainda mais de Rojava. Precisamos de esperança, fé, inspiração e novas perspectivas numa luta coletiva contra a opressão.
No mundo ocidental, o Estado autoritário e os movi- mentos de direita estão celebrando seu retorno – as an- tigas celebridades do neoliberalismo já se preparam para abraçar o fascismo. Trump, Erdogan, e Putin estão remo- vendo as últimas máscaras da democracia. Diante disso, a maioria dos movimentos revolucionários está congelado. Marginalizados e sem perspectiva, dispersos e distantes, o único papel que o sistema deixa para eles é o de observar e criticar.
Rojava apresenta uma forma de ultrapassar este dile- ma: aprender com o movimento curdo significa organizar e difundir a revolução.

“Criar duas, três, muitas Rojavas!”

Embora os internacionalistas já trabalhem em Rojava há muitos anos, até agora não existe um sistema estabele- cido para trazer muitas pessoas do exterior para Rojava e integrá-las nas estruturas da revolução. Para além dos pro- blemas logísticos das viagens à Rojava, a ausência de co- nhecimentos linguísticos, as diferenças culturais e a falta de conhecimento do movimento e da região impediram a participação significativa dos internacionalistas no traba- lho revolucionário. Faltam estruturas locais para educar e preparar internacionalistas e apoiar as instituições locais no seu trabalho e interação com os internacionalistas. Em termos simples, é necessário um sistema para organizar o trabalho internacionalista em Rojava.
Estamos construindo este sistema auto-organizado e auto-financiado junto ao movimento de libertação cur- do. O primeiro passo será estabelecer uma Academia para internacionalistas em Rojava. Lá organizaremos a educa- ção político-cultural, cursos de línguas e trabalho coletivo prático. Isto permitirá que os internacionalistas partici- pem nas estruturas locais.
Pedimos a todos que se organizem para apoiar a revo- lução em Rojava, e que acompanhem e se engajem nas atividades da Comuna Internacionalista.


ECOLOGIA SOCIAL: UM OLHAR SOBRE A HUMANIDADE E A NATUREZA


O mundo do século XXI confronta-se com as ruínas do seu passado e do seu presente. A guerra tornou-se um estado natural, a pobreza e a fome são notícias marginais que já não merecem manchetes. Muitas pessoas perderam o sentido e o significado de ser humano, e a palavra socie- dade significa apenas indivíduos isolados integrados sob um Estado que gere suas relações interpessoais. Diante desses acontecimentos, as questões ambientais parecem ser secundárias – incidentais para muitos, algo com que apenas os ambientalistas devem se preocupar.

Mas a crise ecológica tornou-se o desafio mais urgente do nosso tempo, porque toca e impacta todas as esferas da sociedade. O ecossistema foi destruído a tal ponto que grande parte dos danos se tornou irreversível. Uma grande parte da vida, tanto humana como natural, entrou numa fase de crise. Sobre este aspecto, Abdullah Öcalan escreve: “Uma política que promete a saída da crise atual só pode levar a um sistema social adequado se for ecológica”.

É necessário delinear um sistema social ecológico e de- senvolver uma política que possa superar a crise ecológica e social como um todo: uma política que não só combata os sintomas, mas que reconheça que a crise ecológica e a crise da sociedade estão intimamente ligadas. Para resol- ver a crise ecológica, devemos mudar fundamentalmente as relações sociais de poder e de dominação.

Se tomarmos isso como ponto de partida na busca de novos caminhos, devemos também ser capazes de respon- der à questão de como e por que as sociedades acabaram em oposição à natureza. De uma perspectiva histórica, devemos ser capazes de identificar os momentos decisivos de mudança social que levaram à ruptura entre natureza e sociedade que vemos hoje na sociedade capitalista. Fa- lar simplesmente de humanidade e não de mentalidades, sistemas e governantes concretos, só esconde as causas e nos leva a falsas premissas. Oculta as contradições que es- tão por trás das categorias que compõem a humanidade: os antagonismos entre oprimidos e opressores; homens e mulheres; velhos e jovens; luz e escuridão; ricos e pobres.

Para ter sucesso na construção de uma nova sociedade socioecológica, temos de conceber o ser humano como uma forma de vida que, com sua imagunação e poder criativo, pode dar uma grande contribuição para a melho- ria de todo o mundo natural. Mais do que isso, é nossa obrigação aceitar esse potencial em nós mesmos e acre- ditar nele. É evidente que a solução da crise ecológica e o avanço para uma sociedade ecológica não pode ser en- tregue apenas à ciência e à tecnologia; é também a tarefa inerente a uma teoria crítica, capaz de superar a divisão entre a humanidade e a natureza.

Muitos pensadores – Abdullah Öcalan, Silvia Federi- ci, Friedrich Engels e Murray Bookchin, em particular – tiveram um papel importante nessa teoria, com suas análises das relações sociais de poder e desenvolvimentos históricos, sua compreensão da natureza e da humanida- de, e sua firme crença na viabilidade de uma sociedade ecológica e livre.

AS MUDANÇAS HISTÓRICAS NA RELAÇÃO ENTRE A SOCIEDADE E A NATUREZA

Quando olhamos para as mudanças na relação da so- ciedade com a natureza, é vital não perder de vista as mu- danças nas relações de poder da sociedade, modos de pro- dução e ideologia. Não há uma única relação social com a natureza: diferentes modos de produção, classes sociais, culturas e gêneros desenvolvem diferentes relações. A na- tureza inclui vários aspectos, como alimentação e energia, mas também a relação de um indivíduo com o seu corpo. Trata-se de como o mundo externo ao redor do humano é visto, compreendido e sentido.

A relação atual com a natureza, dominada pela es- trutura estatal-capitalista da sociedade, desenvolveu-se a partir de um longo processo de mudanças. Dissociar esta relação do seu desenvolvimento lhe dá a aparência de um sistema que sempre foi inevitável. A incapacidade de ana- lisar esta história e o seu desenvolvimento resulta numa incapacidade de compreender o presente ou de construir o futuro. Com isto em mente, na seção seguinte vamos analisar alguns aspectos das mudanças na relação da so- ciedade com a natureza.

“O humano: natureza que se torna consciente de si mesma”.
- Johann Gottlieb Fichte

A sociedade natural pode ser entendida como a pri- meira forma social. Em pequenas comunidades de clãs, os seres humanos iniciaram o processo de socialização.

Nas sociedades primitivas, a compreensão da natureza pelas pessoas era caracterizada por uma estreita ligação; a natureza era considerada como algo vivo, abraçando a ideia de que cada entidade natural tinha uma alma. A experiência da natureza encontrou sua expressão na ideia de espíritos, com a qual a humanidade buscava uma com- preensão. Os seres humanos tinham de viver em harmo- nia com essas forças, porque determinavam a vida e os seus ritmos. As pessoas não tentaram conquistar a nature- za, mas influenciá-la através de rituais mágicos, apelando para os espíritos da natureza. Esta magia baseava-se nas observações dos processos de vida e morte na natureza e nos próprios seres humanos. A vida dos humanos, em pequenas comunidades de clãs e com uma ideia de natu- reza viva, funcionava de acordo com os princípios básicos da ecologia – ou seja, em harmonia com a natureza e uns com os outros.

Assim, podemos definir a sociedade natural como “uma forma espontânea de uma sociedade ecológica” (Öcalan). Na memória coletiva da humanidade, a natu-
reza é como uma mãe, dando vida às pessoas e às suas necessidades. O termo “mãe natureza” pode ser traçado a partir dessa experiência coletiva.

O DOMÍNIO DO HOMEM SOBRE A HUMANIDADE E A NATUREZA

A vida das primeiras comunidades baseou-se no que as pessoas podiam colher da natureza, e a caça veio para se somar a coleta de plantas e frutos. A matança sistemática e deliberada de animais evoluiu para uma cultura de caça. A partir disso, e dos conflitos emergentes entre comuni- dades de clãs, desenvolveu-se uma cultura de guerra que foi além da autodefesa. Foram lançadas as bases para o desenvolvimento de uma mentalidade de guerra e suas instituições e hierarquias associadas, e isso teve sérias con- seqüências para o desenvolvimento da sociedade. Em paralelo com a chegada das primeiras hierarquias e a divisão das pessoas em categorias e classes (como raça e gênero), a relação com a natureza também mudou.

Ao observarmos os processos naturais de nascimento, crescimento e morte, desenvolvemos o primeiro entendi- mento da biologia que levou ao uso deliberado de plantas e gado na agricultura. Os seres humanos começaram a moldar o ambiente de acordo com suas necessidades e a influenciar o desenvolvimento biológico de animais e plantas. O aumento da produtividade da agricultura, que ia além do nível das necessidades imediatas, tinha agora de ser administrado.
Esta administração da riqueza social estava intima- mente ligada à emergência da hierarquia social (que já tinha encontrado sua expressão no domínio dos velhos sobre os jovens, dos homens sobre as mulheres, e dos lí- deres sobre os liderados). No decurso deste processo, estas hierarquias transformaram-se gradualmente num sistema social mais complexo – como vemos no desenvolvimento dos sacerdotes sumérios e egípcios. Essas primeiras estru- turas estatais foram legitimadas por um sistema mitológi- co que eliminou os espíritos da natureza e colocou deuses – e seus intérpretes humanos – acima deles. E assim como os novos deuses foram entronados acima da natureza, seus novos sacerdotes governaram a sociedade como deuses.

“Da perspectiva da nova mitologia [...] a natureza e o universo estão cheios de deu- ses governantes, castigando. Esses deuses déspotas, opressores e exploradores estão fora da natureza [...]. É como se eles secas- sem a natureza. Desenvolvem uma visão de uma natureza e matéria inanimada. To- dos os seres vivos são humilhados, e servos criados a partir das fezes dos deuses”.
- Abdullah Öcalan

Neste processo, encontramos o entrelaçamento do domínio do homem sobre o homem com o domínio do homem sobre a natureza. Passando de uma convivência
livre e ecológica na sociedade natural, com respeito mú- tuo, solidariedade e cuidado, para uma sociedade baseada em hierarquias, classes e dominação, as pessoas se alie- naram não só umas das outras, mas também da nature- za. Este foi o início da nossa queda, pois a sociedade de classes em evolução desenvolveu-se em clara contradição com a natureza. A ideia de uma natureza viva, animada, colorida e produtiva deu lugar a uma natureza vingativa e de espírito mesquinho – uma coisa com a qual competir. Começando pela sociedade suméria, esta contrarrevolu- ção contrária à sociedade natural, acompanhada por uma mudança radical na mentalidade do povo, espalhou-se gradualmente por todo o Oriente Médio, até transformar fundamentalmente grandes partes do mundo.

A ideia da natureza como impiedosa, opressiva e do- minante, que ainda hoje persiste, remonta a esta ruptura na relação social. A humanidade, confrontada com esta força opressiva como criatura pequena, nua e frágil, deve proteger-se e desenvolver os seus próprios poderes para conquistar a natureza, para se tornar o seu governante. Este entendimento serviu então para justificar as relações cada vez mais opressivas das pessoas entre si. De acordo com esta doutrina, a humanidade pode escapar ao poder da natureza através da produtividade da escravização. A nossa sobrevivência coletiva depende do poder do traba- lho humano. Ao mesmo tempo, o sofrimento dos escra- vizados parece uma coisa pequena quando comparado ao poder adquirido do homem sobre a natureza; os escraviza- dos são os danos colaterais da libertação da humanidade.

“O retorno à natureza e ao mundo vivido, que sempre foi demonizado”.
- Abdullah Öcalan

A relação da sociedade com a natureza não foi funda- mentalmente alterada na Europa até a Reforma. A deter- minação das pessoas em romper com os dogmas da Igreja levou a um regresso à lógica e ao cotidiano, que tinha sido demonizado pelo cristianismo. A ideia de uma natureza animada e viva, na qual o próprio Deus viveu, encontrou novamente o seu lugar na imaginação do povo. Na arte, isto se expressava na representação da natureza e das pes- soas em formas realistas, mostrando sua beleza. Isso aca- bou com a mentalidade que tratava a natureza e o meio ambiente como algo inerte.

Ao mesmo tempo, o Estado tentou dissolver ainda mais os conhecimentos sociais de cura natural – do nas- cimento, da vida e do corpo humano. Este conhecimento atravessou milênios junto a experiências de mulheres, que o desenvolveram e o transmitiram. Mulheres que acredi- tavam no poder das formas naturais e tinham uma rela- ção profunda com a natureza, foram executadas durante a Inquisição. Possuir este conhecimento foi visto como trabalho do diabo e as mulheres foram chamadas de bru- xas. Eram consideradas vestígios dos tempos em que os mitos, os cultos das deusas e a crença na natureza existiam junto com a adoração dos ambientes naturais. O ataque às mulheres e o femicídio cometido contra elas também representava um ataque ao vínculo social com a natureza e aos seus saberes.

Este ataque não se limitou às sociedades do Norte glo- bal: com o colonialismo, as relações sociais da natureza no Sul global têm sido cada vez mais sujeitas aos paradig- mas da exploração, da destruição e da centralização do conhecimento social. Ao mesmo tempo, as ideias das po- pulações indígenas das colônias exerciam um grande fas- cínio. O seu apego à natureza e à liberdade, a ausência de estruturas institucionalizadas de exploração e a sua par- ticipação numa comunidade coletiva que deixava pouco espaço para a ganância individual, recordavam às pessoas da Europa dilacerada pela guerra a sociedade natural.

A centralização da agricultura, a expropriação de terras camponesas e a migração para as cidades destruíram ain- da mais o conhecimento da sociedade sobre os processos ecológicos e suas ligações com a natureza. O confisco de terra por senhores feudais converteu grandes áreas, antes coletivas, em bens privados individuais.

“Nos tempos modernos os humanos tornaram-se lobos não só dos próprios homens, mas de toda a natureza”.
- Abdullah Öcalan

Com o desenvolvimento da ciência como método ex- plicativo do mundo, a compreensão dos processos bio- lógicos naturais também se aprofundou e se difundiu. Isto foi definido cada vez mais de uma forma científica e descrito em termos racionais em vez de religiosos. A hu- manidade desligou-se da natureza; colocou-se mais uma vez no centro de tudo, e agora considerava a natureza e até mesmo o corpo humano como objetos inertes e estáti- cos para a investigação. A transição de uma visão holística do mundo, que considerava a natureza como viva, para uma visão mecanicista do mundo da ideologia positivista, foi um passo decisivo na mudança da relação social com a natureza. A natureza tornou-se matéria inanimada que podia ser trabalhada, dividida, medida, examinada e con- trolada – um recurso que podia ter um preço, mas sem valor enquanto vida.

Muitas vezes, a natureza é entendida como determi- nante de tudo. O ser humano individual e a própria so- ciedade são reduzidos a entidades zoológicas que seguem a lei da natureza – a sobrevivência dos mais aptos. A com- petição e a inimizade projetadas na natureza se refletem nas pessoas e nos assuntos sociais. Guerra, violência, do- minação e opressão são vistas como coisas naturais das quais não há como escapar. Isto só pode ser controlado, quando muito, por uma entidade sobrenatural e sobrehu- mana, o Estado autoritário, como proposto por Hobbes. A diferença entre a humanidade e a natureza dissolve-se quase completamente; é apenas a capacidade de pensar que diferencia os humanos dos animais. Aqui reside a possibilidade da razão e da vontade individuais e, com isso, a instintividade do corpo e da natureza podem ser disciplinadas.

O Iluminismo burguês quis tirar da humanidade o medo da natureza, para que a natureza pudesse estar completamente sujeita aos seus próprios fins. O pré-requisito para isso era o conhecimento das leis da física e das ferramentas técnicas. A natureza e a sociedade se enfrentam em uma relação dualista e hostil; não é surpreendente que tal relação com a natureza tenha suscitado outras reações. Desenvolveu-se uma atitude que não considerava a natu- reza como o inimiga da sociedade, mas a sociedade como inimiga da natureza. Diante de catástrofes ambientais cada vez mais assustadoras pelas quais a humanidade é responsável, há resignação e pessimismo em relação à civi- lização, à sociedade, e até mesmo à própria humanidade. A tecnologia é apresentada em contraste com a natureza inofensiva e orgânica; a ciência opõe-se à reverência pela vida; a razão contra a intuição ingênua; mais ou menos, a humanidade contra toda a vida. Argumenta-se que a humanidade deve, portanto, subordinar-se à natureza e submeter-se às regras da natureza. Mas mesmo nessa compreensão primitivista da natureza e da humanidade, sua oposição interior – sua dualidade – persiste.

A profunda alienação entre a humanidade e a natureza, e entre as pessoas e seus corpos é o legado da ciência positivista. É a absoluta relação objetiva-subjetiva que entrou no pensamento humano através do positivismo e determina a base da relação social da natureza na moder- nidade capitalista. O desenvolvimento desta mentalidade, esta concepção da natureza, tornou-se parte do processo de sistemas sociais cada vez mais centralizados, incluindo o Estado-nação moderno. Esta mentalidade está entrela- çada com a industrialização, o desenvolvimento de má- quinas e motores. O impacto desta economia industrial e hierárquica no solo, ar, água e pessoas expandiu-se a tal ponto que o sistema ecológico está agora irreversivelmen- te danificado.

A MODERNIDADE CAPITALISTA: LUCRO E ENRIQUECIMENTO COMO O SENTIDO DA EXISTÊNCIA DE TODA A VIDA

Uma pessoa distante da natureza é alienada e destrói a si mesma. Nenhum sistema tem mostrado esta ligação mais claramente do que a modernidade capitalista; a des- truição ambiental e as crises ecológicas andam de mãos dadas com a opressão e a exploração dos povos. A moder- nidade capitalista, que faz de tudo uma mercadoria, não parou nem mesmo nos limites da própria vida: através de novas tecnologias (como a engenharia genética) a própria vida é mercantilizada. Na modernidade capitalista, o sis- tema comanda o planeta inteiro, assim como comanda a própria vida.
A propagação do capitalismo a todas as áreas da vida pa- rece não ter fim aparente. O modo de produção capitalista é caracterizado pela necessidade de expansão constante.

“O capitalismo não pode ser mais convencido a limitar seu crescimento assim como um ser humano não pode ser persuadido a parar de respirar”.
- Murray Bookchin

O crescimento neste sentido não significa mais tem- po, saúde, felicidade ou satisfação, mas apenas o aumento
sempre crescente dos lucros. A ideia de uma vida reali- zada é desfrutar o máximo possível do que a moderni- dade capitalista tem para oferecer, criando uma socieda- de puramente consumista; este é o paradigma básico da modernidade capitalista: um estilo de vida imperialista, consumista e destruidor da natureza.

A exploração da natureza e da humanidade para maxi- mizar os lucros de uns poucos não tem limites morais. O status social é definido pelo poder e pela riqueza. O indi- vidualismo e a ganância tornaram-se virtudes. O desprezo por tudo e por todos se reflete na mentalidade e na cultura da sociedade. Aceita-se que o desenvolvimento, seja ele humano ou natural, requer rivalidade e competição. O lu- cro e o enriquecimento tornam-se o sentido da existência.
A atual crise ecológica abalou a moderna relação so- cionatural, porque os efeitos da tentativa de controlar e mercantilizar a natureza se tornaram óbvios. Mas a estra- tégia da modernidade capitalista é agora fazer da própria crise ecológica o ponto de partida de um novo aprofun- damento da exploração e da mercantilização da natureza. Porque, segundo os especialistas e economistas, o que na natureza não pode ser precificado não pode ser valoriza- do, e não haverá incentivos econômicos para poupá-lo.

Isto mostra mais uma vez que uma solução para a crise ecológica só será possível com uma mudança fun- damental na mentalidade e nos modos de produção, e a superação da própria modernidade capitalista. A solução está no restabelecimento de uma relação equilibrada entre natureza e humanidade, em todos os níveis. Neste senti-
do, trata-se do desenvolvimento renovado e consciente de uma sociedade democrático-ecológica.

“A questão ecológica é fundamentalmente resolvida à medida que o sistema é suprimido e um sistema socialista se desenvolve. Isso não significa que não possamos fazer algo pelo meio ambiente agora. Pelo contrário, é necessário combinar a luta pelo meio ambiente com a luta por uma revolução social generalizada...”
- Abdullah Öcalan

A ECOLOGIA SOCIAL COMO UMA SAÍDA PARA A MODERNIDADE CAPITALISTA

A ecologia social é a ciência das relações humanas com o seu ambiente natural e social. Ela examina como essas relações são moldadas a partir de diferentes perspectivas que abrangem disciplinas científicas clássicas, incluindo antropologia, filosofia, história, arqueologia e ciências sociais. Não é uma teoria puramente descritiva; sua pergunta crucial é como a relação crítica entre natureza e humanidade pode ser reimaginada e transformada.
Ao teorizar uma nova compreensão da relação societária com a natureza, a ecologia social oferece pontos de partida decisivos: a humanidade desenvolveu-se através de um processo natural de evolução, no qual, desde cedo, não houve oposição, competição nem submissão entre a natureza e o homem. Neste processo de desenvolvimento social e nas formas de organização que as sociedades ado- taram, existe uma conexão com a evolução natural. Pode- mos pensar na natureza pré-humana – plantas e animais – como “primeira natureza” a substância ativa e turbulen- ta da vida orgânica que se desenvolve em direção a uma maior complexidade e diferenciação chegando, finalmen- te, à “segunda natureza” – seres humanos autoconscientes e conscientes, capazes de intervir no mundo natural.

O social e o natural permeiam um ao outro. Como seres humanos, teremos sempre necessidades naturais bá- sicas, ainda que estas tenham sido institucionalizadas na sociedade através de uma variedade de formas sociais. De- vemos também compreender a singularidade do intelecto da humanidade na interação da evolução natural e social. O cérebro não veio do nada, mas foi o resultado de um longo processo evolutivo que lentamente se desenvolveu até se tornar um sistema nervoso complexo. O intelec- to está assim profundamente enraizado na natureza. Esta singularidade é caracterizada pelos comportamentos sociais das pessoas, pela sua criatividade e imaginação.

“...a espécie humana tem um modo de vida caloroso, emocionante, versátil e especialmente inteligente, no qual a na- tureza testemunhou o seu mais alto poder criativo e não é apenas um inseto de sangue frio, geneticamente determinado e inconsciente”.
- Murray Bookchin

Nos humanos, a natureza criou uma forma de vida que, através da consciência e da razão, pode moldar e mu- dar o seu ambiente. Caminhos de evolução inimagináveis e ilimitados podem se abrir diante de nós. Mas, a huma- nidade também deve aceitar a responsabilidade resultante do seu poder criativo e esta ligação com o poder criativo da natureza. Isto não acontece negando os nossos pró- prios poderes produtores e criativos e colocando-os em oposição ao poder da natureza, fazendo um contraste en- tre a natureza e a sociedade, ou entre a fertilidade viva e a tecnologia morta. Pelo contrário, devemos ver-nos como integrados com a natureza, vendo a natureza como um reino de potencialidade no qual os seres humanos repre- sentam o ápice da longa evolução da natureza em direção a uma consciência, subjetividade, criatividade e liberdade cada vez maiores. “A humanidade, com efeito, torna-se porta-voz de uma natureza tornada auto-consciente e au- to-formativa” (Bookchin). Só os seres humanos são ca- pazes de intervir para mudar o curso do mundo natural através da tecnologia e da inovação. A questão é se eles o farão racionalmente, a serviço de uma liberdade cada vez maior, ou destrutivamente.

A PEDRA ANGULAR DE UMA ORDEM SOCIAL ECOLÓGICA DEMOCRÁTICA

Se a alienação humana do seu ambiente natural e a des- truição ecológica não podem ser separadas dos conflitos so- ciais, então a ecologia social deve propor uma nova ordem social. Tal ordem deve ser baseada em estruturas radical- mente democráticas e construída fora do domínio estatista, que sempre foi uma estrutura centralizada de controle.

A democracia é a antítese do Estado, afasta-se dele e representa uma regulação auto-organizada dos processos de auto-coordenação da sociedade. Em tal sociedade, a produção de mercadorias só pode ter lugar no sentido de um modo de produção cooperativo, ecológico e descen- tralizado. As necessidades são determinadas com base num processo democrático de negociação e consciente das pos- sibilidades de um sistema ecológico em equilíbrio entre natureza e seres humanos. Isto significa que as tecnologias, modos de produção, distribuição e formas de consumo serão decididos em termos do seu impacto na natureza. Ao mesmo tempo, as decisões devem ser avaliadas a longo prazo. Muitas vezes, as consequências ecológicas só podem ser entendidas com uma perspectiva de longo prazo. O critério essencial não é apenas a proteção ambiental, mas a melhoria do ecossistema e do seu equilíbrio.

Se o Estado e a modernidade capitalista extraem seu poder da criação de uma cultura e mentalidade hegemô- nica, então uma sociedade ecológica deve ser uma socie- dade política e moral que oferece ajuda mútua, serve à
sociedade e à natureza, e desempenha um papel ativo na própria autodeterminação.

Nesta sociedade, a humanidade recuperará um enten- dimento da natureza que quase foi perdido. E se o capita- lismo alienou a humanidade da natureza e da terra, então uma sociedade ecológica deve insistir no amor à terra, que abriga as pessoas e lhes dá o que precisam para viver. Como aponta Öcalan, “uma vida sem a consciência de uma na- tureza que está viva e saudável, falando conosco, vivendo e convivendo conosco, [...] dificilmente vale a pena viver”.

Uma sociedade democrático-ecológica se baseia na reconciliação entre a humanidade e a natureza, que se encontra apenas na superação do domínio sobre ambos. Um pré-requisito fundamental para isso é vencer a mo- dernidade capitalista com sua necessidade de opressão, exploração e acumulação – e eventualmente superá-la. A sociedade democrático-ecológica entrará em uma nova relação com a natureza, para melhorar sua beleza e diver- sidade para as futuras gerações.


MODERNIDADE CAPITALISTA: A CRISE NA RELAÇÃO ENTRE A HUMANIDADE E A NATUREZA


Com a ascensão do sistema capitalista, tanto financei- ros como de pensamento, a industrialização, a centraliza- ção e o aumento da exploração das pessoas e da natureza tomaram conta de quase todas as partes do mundo. Isto aconteceu frequentemente através dos mecanismos de coerção, roubo, migrações e violência armada. O acesso aos recursos necessários à vida está quase completamente subjugado aos ditames da acumulação de capital e do cen- tralismo. O sonho de transformar tudo em mercadoria colonizou até a própria vida: as corporações agora usam a engenharia genética para colocar toda a cadeia alimentar sob seu domínio.
O capitalismo distorceu o meio ambiente e produziu enormes monoculturas. Esta centralização e a alienação associada das pessoas em relação à natureza conduziram as resistências desde muito cedo, porque os pequenos agri- cultores não queriam abandonar as suas terras; também as grandes operações mineiras colonizaram os espaços de vida de muitas pessoas. Assim, a centralização e capitali- zação do fornecimento de bens e energia vitais exigia uma estratégia de justificação. Argumentaram que a expansão mundial da economia de mercado, do centralismo e das burocracias estatais modernas emancipava os povos das limitações da natureza e traria progresso e prosperidade global à humanidade. A extrema pobreza enfrentada por grande parte da população mundial, a incapacidade do sistema capitalista de prover as pessoas com o que neces- sitam para viver, e o ritmo imprudente de extração dos recursos naturais, tudo isso contraria essas justificações.

MEIO URBANO E RURAL

A industrialização, e a transição associada do modo de produção feudal para o capitalismo, levou e continua a levar a um êxodo mundial de antigos camponeses para as cidades, que se transformaram em grandes metrópoles. Onde a urbanização não acontecia por si só, ela era im- posta. Mais da metade da população mundial já vive em cidades, ou nas favelas que as cercam. As consequências ambientais, econômicas e psicológicas dessa concentração de pessoas são enormes. A modernidade capitalista está dilacerando tanto a cidade quanto o campo. O campo, a origem da sociedade humana moderna, está sendo rebai- xado para a posição de fornecedor da cidade. Nas partes mais ricas do mundo, nas cidades capitalistas e nas me- trópoles do Ocidente, as pessoas tentam compensar essa profunda falta e alienação com férias na fazenda, florestas de bambu como papel de parede, ou com uma pequena horta de tomates na varanda. Mas o caos permanece.

A mentalidade nas cidades, mais ainda que no cam- po, é marcada pelo individualismo, pela mercantilização, pelo consumo e pela competição. O lar torna-se mercado- ria; aqueles que não têm dinheiro são desalojados. Todos se apressam, os rostos estão cansados nos elevadores, os olhos evitam o contato. Esta mentalidade, que transfor- mou as cidades em lugares de isolamento frio, está no centro da lógica do capitalismo neoliberal.

RECURSOS FINITOS

A máquina do capital é mantida em funcionamento pela concorrência – o princípio de “todos contra todos” – e pela constante compulsão à acumulação, ou seja, para fazer mais capital a partir do capital. A natureza não apa- rece nos cálculos deste sistema econômico e político, mas sua exploração é hoje tão intensa que não pode mais ser ignorada. Durante milhões de anos, os seres humanos e seus antepassados não ousaram remover mais da natureza do que ela poderia substituir. Hoje em dia, com a moder- nidade capitalista, tudo isso mudou. Caçando e pescando em grande escala, espécies inteiras foram quase – e em alguns casos – completamente exterminadas; os rebanhos de bisontes desapareceram da América do Norte, assim como várias espécies de baleias das costas asiáticas. A na- tureza foi rebaixada para uma loja de conveniência, um fornecedor de matérias-primas.

Como gerações inteiras crescem em barracos de metal retorcido entre lixeiras, a poluição do ar e da água está se tornando um problema cada vez maior. Ilhas de lixo com centenas de quilômetros de diâmetro se acumulam nos
oceanos, enquanto a água potável está cada vez mais con- taminada com substâncias tóxicas. As agências governa- mentais do mundo ainda não encontraram uma solução para o armazenamento do lixo nuclear – muito provavel- mente porque não há solução. Poderíamos ser tentados a pensar que as falsas promessas da modernidade capi- talista finalmente se tornariam claras, pelo menos neste ponto, mas atualmente mais usinas nucleares estão sendo construídas na China e em outras economias emergentes como nunca antes.

Como se as megacidades cheias de fumaça, a pesca in- dustrial, a água potável contaminada e as cadeias de abas- tecimento de alimentos envenenados não fossem suficien- tes, a maior catástrofe de todas já se anunciou com força feroz: a mudança climática. É um dos principais efeitos da pecuária, da indústria e do tráfego. O clima da Terra é um sistema delicadamente equilibrado e sempre foi sensível às mudanças; no entanto, essas mudanças raramente le- varam a grandes problemas para o equilíbrio da natureza, ou para as relações entre água, ar, flora e fauna. Mudanças anteriores no clima levaram a adaptações evolutivas em animais e plantas às mudanças nas condições de vida do seu ecossistema, contribuindo assim para uma maior di- versidade. Mas a súbita mudança climática causada pelo modo capitalista de produção inverte essa tendência, pois a flora e a fauna não conseguem se adaptar com rapidez suficiente. Cada vez mais espécies desaparecem, levando à extinção global a um nível que a Terra não vê há sessenta milhões de anos.

EFEITO ESTUFA

A ligação entre os gases com efeito de estufa e o aque- cimento global é bem conhecida. Estes gases retardam a fuga do calor do sol da Terra, tendo o mesmo efeito que o vidro numa estufa. Os gases de efeito estufa não são pro- duzidos apenas pela combustão de carvão, petróleo e gás nas indústrias, veículos e sistemas de aquecimento, mas também cada vez mais pela pecuária, seja em indústrias de animais ou em fazendas orgânicas. Embora a quantidade de gás metano liberada (especialmente de vacas, ovelhas e outros ruminantes) durante a digestão seja menor do que a quantidade de dióxido de carbono expelida dos motores de combustão interna, o impacto do metano na atmosfera é mais forte do que o do dióxido de carbono.


Mesmo que muitas pessoas nos centros da modernida- de capitalista tenham perdido a capacidade de notar mu- danças no seu clima local, os efeitos das mudanças climá- ticas são sentidos diretamente por mais e mais pessoas: as geleiras estão derretendo e as catástrofes naturais, incluin- do tempestades devastadoras, secas e incêndios florestais, são mais frequentes. Cada vez mais regiões do hemisfério sul estão secando e os desertos estão se espalhando por causa da falta de chuva.

É evidente que isto é apenas o começo. Já foram lançados na atmosfera tantos gases de efeito estufa que mesmo que não fossem produzidos mais a partir de amanhã, o aquecimento continuaria a ser ine- vitável. No final deste século, a atmosfera do mundo terá aquecido de três a seis graus, com efeitos drásticos sobre o clima, a flora e a fauna.

O mundo tal como o conhecemos em breve será irre- conhecível. O aquecimento global está levando a mudanças nas correntes de ar e, portanto, a condições climáticas cada vez mais extremas. À medida que os desertos se es- palham em algumas regiões, em outras, as inundações e as chuvas aumentam. Mesmo as correntes oceânicas, que dependem tanto das diferenças de calor como de um sis- tema sensível de água doce e salgada, são afetadas pela maior taxa de aquecimento e derretimento das reservas de água doce congelada nos pólos. Devido à interrupção ma- ciça dos fluxos de água, as costas com um clima até agora ameno podem sofrer períodos de frio nas próximas déca- das, como não acontece há milênios. Ao mesmo tempo, as encostas de montanhas anteriormente cobertas de neve tornam-se cinzentas e as florestas verdes transformam-se em estepes.

O clima quente derrete o gelo nos pólos Sul e Norte, e o nível do oceano aumenta. Aldeias costeiras e cidades do mundo inteiro estão ameaçadas pela alta do nível do mar e por furacões mais frequentes. O aquecimento do clima aumenta desproporcionadamente, no início len- tamente e depois cada vez mais rápido. O derretimento das calotas polares é outra razão para isso: elas funcionam como um grande espelho, já que o branco do gelo e da neve reflete grande parte dos raios solares – quanto mais as calotas polares derretem, menos luz solar elas refletem e mais rápido a Terra aquece. O descongelamento dos so- los permafrost é outra causa de uma taxa exponencial de aquecimento. Estes solos, comuns na Sibéria e no Alasca, têm estado congelados durante dezenas de milhares de anos e armazenam enormes quantidades de gás metano.

À medida que o permafrost descongela, este gás é libertado para a atmosfera.

FLORESTAS EM CHAMAS

Outro problema é a destruição das florestas primitivas, especialmente na América do Sul e na Ásia. Estas florestas armazenam enormes quantidades de dióxido de carbono. Através do desmatamento, essa capacidade de armazena- mento de dióxido de carbono é perdida. Dióxido de car- bono adicional é liberado através da exploração florestal de corte e queima. Na maioria dos casos, as monoculturas são implantadas nas áreas queimadas. Essas práticas des- troem o equilíbrio ecológico, desgastam o solo e tornam as plantações altamente suscetíveis a pragas que estão se espalhando por causa do aumento do calor através das árvores enfraquecidas nas áreas vizinhas.
Seguindo a lógica da chamada produção eficiente, são utilizados cada vez mais fertilizantes químicos e insetici- das, que envenenam o solo e a água. Frequentemente, as áreas queimadas também são usados para a pecuária ou para a produção de plantas forrageiras como a soja e o milho destinados à pecuária, o que agrava o problema.

Como os mecanismos de evolução não estão adapta- dos ao ritmo das mudanças climáticas antropogênicas, especialistas em todo o mundo estão tentando encontrar maneiras de adaptar artificialmente a natureza. Mas a corrida com o clima não pode ser vencida. Como sabem disso, governos e mídia estão felizes em difundir imagens distópicas da catástrofe que se aproxima. Em estado de choque, incapazes de intervir, a humanidade cambaleia em direção ao abismo. O que geralmente se ignora é que não precisamos esperar pela grande catástrofe do dia X, ela já está aqui. Em vez de esperar que os estados do mun- do nos forneçam soluções, devemos agir; a sociedade civil deve agir. Esperar ainda mais seria loucura.

ACIMA E ABAIXO

A destruição das nossas vidas e da nossa subsistência gera uma visão pessimista da humanidade para muitas pessoas. A própria humanidade é declarada um mal, o que sugere que todos os seres humanos têm a mesma res- ponsabilidade pela catástrofe ecológica. Até a revelação da catástrofe é transformada em mentira, pois não dizem quem se beneficia com a exploração da natureza e quem sofre. A contradição dos centros e da periferia, das classes dirigentes e oprimidas, é ignorada.
Lutas ambientais indígenas contra a destruição dos territórios, bloqueios de carregamentos de lixo nuclear e manifestações contra a pesca industrial tornaram impos- sível aos governantes negarem o impacto da economia capitalista sobre a natureza ou varrê-la para debaixo do tapete. Muitas vezes, os povos que vivem mais ou me- nos em harmonia com seu ambiente natural têm sido explorados, escravizados e massacrados juntamente com a destruição do ambiente que os sustentava. A ascensão dos centros capitalistas da Europa e da América do Norte foi construída não só sobre o controle dos recursos, ro- tas comerciais e mercados, mas também sobre os corpos mortos dos povos indígenas. Os assassinatos em massa e o genocídio de centenas de milhões de povos indígenas nos continentes americano, asiático e africano sempre fizeram parte da luta dos centros imperialistas pela he- gemonia – pelo poder total sobre os povos e a natureza. As guerras coloniais e neocoloniais foram sempre guerras contra a sociedade natural e contra a própria natureza. Para muitos povos do mundo, o avanço triunfante da modernidade capitalista significou espólio, incêndio flo- restal, desfoliantes e agente laranja[1].

As promessas de salvação dos missionários ocidentais não se concretizaram. Para centenas de milhões de pes- soas, o sistema capitalista deixou apenas o seu lixo – os sacos plásticos espalhados pelas estepes da África torna- ram-se um símbolo disso. As partes mais pobres da po- pulação mundial, o sub-proletariado global, suportam o peso das mudanças climáticas e da degradação ambiental. As sociedades da África, do Oriente Médio e do Sudes- te Asiático, ainda debilitadas por guerras, colonialismo e exploração neocolonial, são as mais atingidas pela seca e outros desastres ambientais, apesar de contribuírem com uma parte relativamente pequena das emissões de gases de efeito estufa.

Quanto mais “desenvolvida” uma nação, mais des- trutiva ela é. Por exemplo, as emissões de gases de efeito estufa dos EUA são 50 vezes superiores às do Paquistão, mas o Paquistão, e não os EUA, está entre os dez princi- pais estados que são afetados pelas mudanças climáticas.


Nas próximas décadas, dezenas de milhões de pessoas (especialmente no Sul global) terão que deixar suas casas porque o aumento da seca, o aumento da temperatura e os eventos climáticos extremos mais frequentes destrui- rão a base de sua agricultura e levarão a ainda mais fome e pobreza. Os centros mais ricos do Norte global, onde são tomadas as decisões sobre mercados mundiais, in- vestimentos, destruição social e ecológica, encontram-se paralisados. Por enquanto, foram construídos apressada- mente muros em torno da “Fortaleza Europa” e dos Esta- dos Unidos como um escudo contra aqueles que querem escapar da destruição dos meios de subsistência.

A ÚLTIMA DESCULPA

Mas os muros não podem deter a todos, e as catás- trofes naturais e climáticas começam agora a atingir os próprios centros capitalistas, por isso os seus governantes estão desesperadamente à procura de soluções. E o fazem com os mesmos métodos positivistas que levaram à mu- dança climática e à destruição ambiental num primeiro momento. A solução para a crise torna-se uma mera ques- tão de cálculos e técnicas corretas. A crise deve ser resolvi- da pelo capital, mesmo que tenha sido criada pelo capital.

Se você for esperto, pode ganhar muito dinheiro com energia renovável, carros elétricos e ovos de galinhas cria- das livremente. Nos outdoors, a boa notícia da classe dominante está escrita: “Go Green!”. Assim, muitos que saíam às ruas para exigir o fim da destruição da natureza, foram desviados pela ideia do capitalismo verde, que ten- ta reivindicar uma aliança contraditória tanto à acumula- ção de capital como à natureza.

Quando dizem que a natureza só pode ser protegida se tudo nela tiver um preço – um valor sob o capitalis- mo – os apologistas do capitalismo verde seguem a lógica da exploração sobre a defesa da ecologia. Eles afirmam ser capazes de retardar a degradação da natureza, simples- mente tornando-a mais cara. Mas a mercantilização ape- nas aprofunda a catástrofe. Proteger a natureza se torna um luxo para os ricos, que podem limpar a culpa de suas consciências com produtos orgânicos e carros elétricos. A economia de mercado, não importa quantas vezes seja pintada de verde, só se preocupa com a natureza se ela for rentável. Por trás desta fachada verde, a produção destru- tiva e suja continua. Não há nenhuma mudança funda- mental na compulsão à competição ou na exploração da força de trabalho humana.

MOMENTO DECISIVO

Em vez de atacar a causa da destruição da natureza – o próprio capitalismo – tratam-se, em vez disso, os sinto- mas. As conexões entre economia de mercado, explora- ção, destruição da natureza, guerra e migração mostram o resultado de quando sistemas centralistas e hierárquicos tentam subjugar a natureza. Uma solução que ignore estas relações, uma solução dentro do sistema existente, não é possível; a nossa sobrevivência não será possível se continuarmos a viver numa sociedade onde tudo é trans- formado numa mercadoria, baseada na propriedade pri- vada dos meios de produção e da terra, com todas as suas consequências destrutivas. Somente o controle direto e democrático dos meios de produção e da terra (e dos re- cursos ecológicos) pelo povo pode criar uma alternativa socioecológica.

Em vez de esperar que os Estados do mundo nos for- neçam soluções, devemos agir – a sociedade civil deve li- derar o caminho, juntos. Esperar mais seria uma loucura.

“Encontrar um fim para o beco sem saída da catástrofe ecológica provocada pela modernidade capitalista requer esforço e coragem para abrir novos caminhos. Os primeiros passos já foram dados,
mas a necessidade de uma revolução socioecológica significa que ainda há muito a fazer”.
- Comuna Internacionalista de Rojava


DESAFIOS ECOLÓGICOS EM ROJAVA: PERSPECTIVAS PARA UMA SOCIEDADE ECOLÓGICA


A região de Rojava estende-se ao longo da fronteira turco-síria, à sombra das montanhas Taurus, desde o Ira- que até quase o Mar Mediterrâneo. No sul, o deserto es- tende-se até ao coração da Síria. A zona climática em que a Rojava está localizada é descrita como uma estepe, entre o deserto e um clima úmido; chove de outubro a abril. Com este clima, há boas condições para a agricultura. As margens do Eufrates, Xabur e Tigre, assim como todo o cantão de Afrin, apresentam solos férteis.

ROJAVA NO CONTEXTO DA POLÍTICA COLONIAL DA SÍRIA E DA TURQUIA

As consequências da mentalidade capitalista e da vio- lência do Estado contra a sociedade e o meio ambiente são claramente visíveis em Rojava. O regime Ba’ath não estava nem está interessado em uma sociedade ecológi- ca. Até 2012, Rojava estava em uma relação de depen- dência colonial com o regime sírio Assad, o que afetou fortemente a situação econômica e ambiental na região. A exploração máxima dos recursos e os altos índices de produção agrícola sempre tiveram maior prioridade. As duas foram orientadas para a exportação destinada a ou- tras regiões da Síria e ao exterior. O desmatamento siste- mático das florestas permitiu monoculturas de trigo no cantão de Cizîrê, de azeitonas em Afrin, e uma mistura de ambas em Kobane. Estas monoculturas moldam a paisagem de Rojava.

Durante décadas foi proibido plantar árvores ou cul- tivar hortas. Ainda hoje, os efeitos desta política colonial moldam a vida das pessoas e o meio ambiente, criando um grande contraste entre a maioria curda com as cidades e áreas de maioria árabe. A população era mantida depen- dente da política repressiva e do subdesenvolvimento da região, bem como da proibição do cultivo de alimentos para uso próprio, e sistematicamente forçada a emigrar e fornecer mão-de-obra barata às metrópoles sírias vizinhas, como Aleppo, Raqqa e Homs. Muitos trabalhavam nes- sa região no setor de processamento de matérias-primas apoiadas pelo regime, que era abastecido com matérias-primas que vinham de Rojava.

A produção e consumo de energia, a eliminação ina- dequada de lixo e o uso massivo de produtos químicos na agricultura poluíram fortemente o solo, o ar e a água. No entanto, o povo de Rojava e o autogoverno democrático não estão apenas lutando contra o legado ambiental do regime Ba’ath. Outra séria ameaça é a política hostil do Estado turco contra Rojava. Além dos ataques militares, a constante ameaça de invasão e um embargo econômico, a construção de barragens no Curdistão turco ocupado do Norte e a extração massiva de mananciais para a agricul- tura turca é um problema. Como resultado, tem havido um declínio dramático na quantidade de água que flui do norte para os rios de Rojava e uma queda constante no nível dos lençóis freáticos. Além disso, tem sido uma prática comum dos militares turcos, durante anos, atear fogo nas florestas, especialmente nas oliveiras do Cantão de Afrin. Um dos objetivos desta política é tirar o susten- to das pessoas, tanto econômica quanto ecologicamente, e assim forçá-las a deixar suas terras.

As políticas do regime sírio levaram a uma crescente alienação do povo de Rojava em relação à natureza. O conhecimento social e a prática da agricultura orgânica, o cultivo de legumes e o conhecimento da flora e fauna locais foram perdidos. Assim, hoje em dia, a falta de ha- bilidade e iniciativa do povo para se organizar, cultivar e desenvolver suas terras é um problema que a revolução em Rojava deve resolver.

AGRICULTURA E FLORESTAS

Monocultura e fertilização química

Do ponto de vista da maximização do rendimento a curto prazo, as monoculturas parecem mais produtivas e mais fáceis de cultivar; contudo, estudos de longo pra- zo mostram que as monoculturas esgotam o solo porque
têm um impacto negativo na sua composição nutritiva. Os nutrientes são removidos do solo e, em última análi- se, perdem-se para sempre. Além disso, as monoculturas levam ao aumento de pragas e muitas vezes representam um problema para o abastecimento de água devido à desidratação do solo – ressecamento extremo através da perda de umidade. Isto significa que as monoculturas re- querem geralmente um abastecimento artificial de água e altas quantidades de fertilizantes, que muitas vezes são produzidos quimicamente. Numa escala global, o uso de fertilizantes químicos degradou de tal forma os solos onde são utilizados que esta forma de agricultura só pode ser praticada por cerca de cinquenta vezes. Depois disso, o solo para o cultivo de alimentos será simplesmente inútil. O retorno a um sistema agrícola baseado em fertilizantes orgânicos é inevitável – trata-se de uma questão de quan- do, e não de se.

As monoculturas também têm um impacto negativo na diversidade ecológica, na interação sensível da flora e da fauna. Para combater o aumento da infestação por in- setos, plantas e fungos, são utilizados venenos químicos que, combinados com o fertilizante, têm um poderoso impacto negativo na qualidade do solo e da água. Estes problemas podem ser observados em Rojava, especial- mente no Cantão de Cizîrê, que tem um forte destaque no cultivo do trigo – o trigo é cultivado ao longo da fron- teira turco-síria, numa faixa de cerca de dez quilômetros de largura. Em Afrin, a agricultura está fortemente cen- trada nas monoculturas de oliveiras, uma política que foi conduzida pelo regime durante duas décadas antes da re- volução. Os antigos bosques foram cortados para facilitar a cultura da oliveira, o que também afetou significativamente a diversidade ecológica.

Uso de pesticidas

O uso de pesticidas em Rojava aumentou acentuada- mente nos últimos 20 anos. Eles ainda são importados da Turquia e da China, por intermédio do regime sírio. An- tes da Revolução em Rojava, o regime obrigava os agricul- tores a usar pesticidas. Hoje, os efeitos desta política estão se tornando claros: embora não existam estudos oficiais, doenças como o câncer são particularmente prevalecen- tes nas regiões predominantemente habitadas por curdos da Síria. Isto deve-se quase certamente ao intenso uso de pesticidas cancerígenos. Muitas vezes os ingredientes dos pesticidas e o seu uso adequado não foram especificados. Isto foi especialmente válido para os pesticidas da Tur- quia, que foram obrigados a sair de circulação devido a ingredientes nocivos, mas que continuaram a ser expor- tados para a Síria e utilizados em Rojava, em uma prática conhecida como “dumping”.

Pragas agrícolas

A agricultura de Rojava é afetada por várias pragas, o que tem significado uma dependência do uso de pestici- das. Os maiores problemas são os escaravelhos da bata- ta do Colorado, os gafanhotos e as infestações fúngicas. Essas pragas não são originárias da Síria, mas foram im- portadas; acredita-se que o governo turco está deliberada- mente promovendo a disseminação de pragas de lavoura da Turquia/Norte do Curdistão para Rojava, usando pro-
dutos químicos que não matam as pragas, mas as empur- ram para o sul, para os campos próximos de Rojava.

Uso sustentável da água e diversificação da agricultura de acordo com as necessidades do povo

A agricultura orgânica em Rojava não é possível sem a superação das monoculturas e a redução do consumo de água. O Comitê de Proteção Agrícola tomou uma série de medidas para diversificar a agricultura e para promover o uso sustentável da água.

Para controlar a retirada das águas subterrâneas, todos os poços de água foram registrados pelo comitê e foi proi- bida a perfuração de outros poços para uso agrícola. Além disso, apenas 60% das áreas agrícolas podem dedicar-se a culturas que requerem irrigação. Estas medidas também têm um efeito positivo na diversificação da agricultura, uma vez que mais variedades de culturas que não neces- sitam de irrigação adicional estão agora a ser plantadas. Estas incluem lentilhas, grãos-de-bico e feijões. O cultivo destes tipos de culturas representa agora cerca de 25% do total de terras agrícolas. Outros 15% são dedicados à plantação de legumes e algodão, que requerem irrigação intensiva. A maior parte, cerca de 50%, continuará a ser cultivada com trigo. Os 10% restantes são deixados em descanso e podem se regenerar por um ano. Além dis- so, os agricultores são encorajados a alternar as culturas que plantam, para que o solo possa se recompor. Embora ainda haja uma forte ênfase no cultivo do trigo, uma di- ferença real pode ser vista desde alguns anos atrás, quando plantações como lentilhas e feijões não representavam mais do que 10% da área.

Em Afrin, os projetos de diversificação da agricultura também têm sido promovidos desde o início da revolu- ção. Foram plantadas mangueiras, videiras e citrinos, que se adaptam ao clima mediterrânico do local.
Outra mudança crucial na agricultura de Rojava é a orientação da produção para o consumo local e afastada das exportações, tanto para outras partes da Síria como para o exterior. Por exemplo, o cultivo de algodão foi re- duzido e o cultivo de hortaliças aumentou. O cantão de Cizîrê já não exporta alimentos de Rojava, mas envia al- guns para os outros cantões de Rojava – Afrin e Kobane – assim como para as zonas necessitadas de ajuda que foram libertadas recentemente do Estado Islâmico.

Agroflorestamento

Um sistema de diferentes combinações de culturas pode resolver problemas ambientais causados pela mo- nocultura e aumentar o rendimento – e uma combina- ção de culturas agrícolas e arbóreas também pode ajudar. Esta combinação de agricultura e silvicultura é conhecido como agroflorestamento.

O agroflorestamento fornece mais habitat para os ani- mais e reduz a erosão. As raízes das árvores asseguram a penetração de água no solo, ajudando assim a melhorar o lençol freático. Ao mesmo tempo, as árvores reduzem a quantidade de fertilizante necessária para o grão. O sis- tema de raízes retira nutrientes e água das camadas mais profundas do solo para cima; com a queda das folhas,
estes nutrientes voltam a entrar na camada superior do solo e depois são absorvidos novamente.

O cultivo de álamos e trigo ou outros cereais é prati- cado em latitudes subtropicais como a de Rojava. O agro- florestamento pode ser praticado mesmo em unidades menores, como hortas urbanas. As camadas de vegetação em diferentes alturas garantem uma ótima recepção da luz e permitem o aumento da produção, em um espaço relativamente pequeno. Através de uma seleção inteligen- te de comunidades vegetais cooperativos, os hortos flo- restais podem ser estabelecidos. A diversidade ecológica também garante flexibilidade e estabilidade.

Agricultura urbana: autonomia e segurança alimentar nas zonas urbanas

A agricultura urbana – a plantação em antigas zonas comerciais ou industriais nas cidades ou jardins no te- lhado – poderia ajudar a descentralizar o sistema agrícola de Rojava. As necessidades de frutas e vegetais da cidade, assim como a remoção de seus resíduos orgânicos, podem ser resolvidas desta forma. A descentralização de parte da produção alimentar para as famílias e comunidades em áreas urbanas também aumenta sua autonomia e pro- porciona maior segurança alimentar. Um bom exemplo é Havana, capital cubana, onde cerca de 90% das frutas e legumes consumidos são cultivados na própria cidade, e as áreas agrícolas urbanas de pequena escala adubadas com resíduos orgânicos domésticos.

Reservas naturais e arborização – melhorar a qualidade da água e preservaçãoda biodiversidade

A criação e preservação das reservas naturais é uma das atividades centrais do Comitê para a Conservação da Natureza no cantão de Cizîrê. No cantão de Cizîrê, duas reservas já foram criadas: Hayaka, ao redor do lago Sefan, e Mizgefta Nû.
A agricultura, a caça e a pesca foram proibidas dentro das reservas. A proibição contribui agora para a melhoria da qualidade da água potável, assim como para a proteção de várias espécies animais e vegetais. Um projeto signifi- cativo nas reservas, mas não somente, é o reflorestamento tanto em áreas rurais como urbanas. Em 2016 e 2017, o Comitê de Áreas de Conservação plantou cerca de 8.000 árvores, inclusive nas Reservas de Hayaka e Mizgefta Nû e nas cidades de Çilaxa e Hesekê. Na Área de Conserva- ção de Hayaka, está prevista a plantação de mais 100.000 árvores nos próximos anos.

ESCASSEZ DE ÁGUA, POLUIÇÃO DA ÁGUA E POSSÍVEIS SOLUÇÕES

Escassez de água em Rojava

O abastecimento de água potável às cidades e vilas vem principalmente de nascentes e lagos. No cantão de Cizîrê, o lago Sefan abastece as cidades de Dêrîk e Qamislo.
O abastecimento de água tanto para uso doméstico como agrícola é um dos problemas centrais de Rojava.

A mudança climática significou menos chuva e um en- curtamento da estação das chuvas. Desde os anos 90, a precipitação na região de Cizîrê caiu cerca de 10 a 15%. A política turca de cortar o abastecimento de água à Rojava, restringe severamente o fluxo de água nos principais rios (como o Eufrates e o Xabur). Além disso, muitos novos poços foram perfurados na Turquia/Norte do Curdistão; este uso excessivo de água tanto na Turquia como em Ro- java, tem feito o nível do lençol freático baixar significa- tivamente nas últimas décadas. Existem mais de 30.000 poços em uso somente no cantão de Cizîrê, e apesar da tentativa de registrar todos eles, pode-se assumir que este número é ainda maior.
Há apenas alguns anos atrás, os lençóis freáticos po- diam ser explorados a partir de uma profundidade média de 100 metros: agora caíram para cerca de 150 metros. A escassez de água subterrânea tem sido agravada pela uti- lização intensiva de água na agricultura; como resultado, os rios de Rojava estão com pouca água, o que tem con- tribuído para o desaparecimento de florestas ao longo das margens dos rios. Mais uma vez, isto só agrava o proble- ma da captação de água.

O ISIS também tem contribuído para o problema da escassez de água: como recuaram, o ISIS bloqueou nas- centes e poços. Esta foi uma política deliberada e vingati- va do ISIS para prejudicar a população e a sua agricultura, mesmo com a derrota.

A situação do rio Xabûr, que era o principal reserva- tório de água para as cidades de Til Abiyad (Girê Spi) e Hesekê, bem como para a agricultura da região vizinha, é um bom exemplo de vários problemas convergentes: A Turquia quase interrompeu o fluxo do rio; fechou outras nascentes; e introduziu resíduos que contaminaram con- sideravelmente a água.

Poluição da água e possíveis alternativas

Grande parte do esgoto de Rojava vai parar nos rios, que são usados na irrigação da agricultura. O despejo de esgoto nos rios também é comum no norte do Curdistão. Por exemplo, a cidade de Nisêybîn, com uma população de 100.000 habitantes, despeja seu lixo não tratado no rio Chax Chax, que depois atravessa a cidade de Qamislo.

O descarte descontrolado do esgoto e seu posterior uso na agricultura é muitas vezes causador de doenças e afeta os sistemas ecológicos dos rios; no entanto, se devi- damente tratado, o esgoto pode se tornar uma fonte segu- ra para uso na agricultura. A separação rápida das águas cinzas (águas residuais de lavatórios, chuveiros, etc.) e negras (águas residuais de sanitários) torna este processo muito mais simples. O uso da água cinza é de particular importância para Rojava, pois o abastecimento de água é um problema em muitas regiões e a dependência do Estado turco dificulta a melhoria da situação.
O uso de águas cinzentas na agricultura também pode aumentar a produção. O nível de tratamento necessário das águas cinzas antes da sua utilização posterior é deci- dido com base no uso planejado. Por exemplo, é possível utilizá-la para regar as árvores após uma simples filtração grosseira através de uma peneira. Com uma filtragem mais
intensiva através de areia ou material similar, a água cinza também pode ser utilizada para a irrigação das plantações.
Particularmente em países com elevada escassez de água, o uso de água cinza está se tornando cada vez mais importante. Por exemplo, em partes da Austrália, sua se- paração é agora legalmente exigida. A reutilização da água cinza não só reduz o consumo total de água, como tam- bém evita a poluição do solo e dos rios.

O uso de águas negras para fertilização

Os dejetos humanos são a maior fonte de nutrientes disponíveis para a agricultura a partir de resíduos orgâni- cos. O Instituto Ambiental de Estocolmo estima que os dejetos orgânicos de uma pessoa seriam suficientes para cultivar 230 quilos de grãos por ano. A urina é mais rica em nutrientes (especialmente nitrogênio) e mais versátil, por isso pode ser usada em qualquer tipo de cultivo. As fezes também contêm muitos nutrientes e são excelen- tes para melhorar os solos; no entanto, sem uma com- postagem longa, só deve ser usada para fertilizar árvores, arbustos ou grãos para alimentação animal. Após a com- postagem durante pelo menos um ano, também pode ser utilizado com segurança para fertilizar plantações que se destinam ao consumo humano.

O uso agrícola das fezes também evita que estas entrem em contato com a água, o que é inevitável na maioria dos sistemas convencionais de esgotos, e uma das principais causas de poluição e doenças. Uma vez que os resíduos sólidos são misturados com água ou urina, a água negra resultante torna-se mais difícil de tratar. O tratamento na maioria dos sistemas de esgoto concentra-se na separação dos materiais sólidos e líquidos. A água negra também pode ser usada para compostagem e, após um período de tempo razoável, o composto também seria adequado para uso em plantações destinadas ao consumo humano.

Existem muitos exemplos em todo o mundo do uso de resíduos humanos como fertilizante agrícola. De acordo com pesquisas da Universidade Agrícola do Sul da China, os fertilizantes orgânicos foram a principal fonte na China até os anos 80, e cerca de 30% dos fertilizantes utilizados no país ainda provêm de dejetos humanos. Os problemas associados tanto aos fertilizantes químicos como à pro- cura de alternativas ao consequente aumento dos esgotos levaram as autoridades retornarem aos orgânicos no início dos anos 2000. A coleta de urina fornece o fertilizante para a agricultura urbana em toda a China, e muitos es- gotos urbanos são transportados para áreas agrícolas em tubulações ou caminhões-tanque. Na cidade de Dong- sheng os novos apartamentos possuem banheiros secos separadores de urina. Os excrementos são descartados em baldes e usados para compostagem, a urina é armazenada em tanques e usada diretamente como fertilizante.

Na Suécia, estão sendo feitas pesquisas intensivas so- bre saneamento ecológico e vários sistemas já foram im- plantados. Desde 2002, o município sueco de Tanum (população média de 36.000 habitantes) introduziu uma política de higiene ecológica que promove o uso de ba- nheiros secos e a separação de urina. A urina é armazena- da em tanques e depois entregue em caminhões-tanque aos agricultores locais, junto com a água negra das fossas sépticas. O município de Trosa (11.000 habitantes), perto de Estocolmo,cf armazena sua água negra durante seis meses e depois a entrega em fazendas fora da cidade, onde é usada como fertilizante.

PRODUÇÃO DE ENERGIA: ENTRE ENERGIAS RENOVÁVEIS E COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS

Extração e processamento de petróleo

A maioria dos campos de petróleo da Síria estão em Rojava, especialmente no Cantão de Cizîrê. Como a po- lítica do regime era colocar todas as indústrias na região metropolitana da Síria, a transformação do petróleo bruto em combustível não era feita em Rojava, mas nos centros industriais do regime. Com a revolução, o refinamento do petróleo de Rojava se iniciou. As maiores necessidades de combustível são para eletricidade de emergência (de pequenos geradores) e para o transporte. No inverno, o diesel também é usado para acender fogões domésticos.

Atualmente, cerca de 5% de todo o petróleo produzi- do no Oriente Médio vem dos campos de Rojava; entre- tanto, devido à falta de componentes e ao embargo, essa produção é realizada em um nível técnico muito baixo. Como a procura atual excede a capacidade das refinarias existentes, grande parte do petróleo bruto é processado apenas a um nível muito baixo. Isto acentua o impacto negativo da indústria petrolífera, já muito poluente. Assim, a produção e o transporte estão associados à poluição do ambiente, do solo, da água e do ar. Estes danos são particularmente visíveis nas lagoas criadas pela extração e processamento do petróleo. Não existem neste momento métodos técnica ou financeiramente viáveis para evitar esta sobrecarga ecológica em Rojava.

Produção de eletricidade

A energia eléctrica produzida em Rojava tem três fon- tes: as centrais hidroelétricas, o gás natural e o sistema de fornecimento de energia por geradores a diesel que funcionam a nível comunal. A produção geral das cen- trais elétricas está dividida em aproximadamente 75% hídrica e 25% gás natural (o subproduto da extração de petróleo), embora esta proporção varie. A maior parte do território de Rojava não tem eletricidade suficiente. Em cidades como Dêrîk, a eletricidade está disponível apenas seis horas por dia, enquanto em outras cidades, como Ko- bane, são doze horas. Apesar do fornecimento adicional de energia dentro das comunas, atualmente não é possível um fornecimento permanente e de âmbito nacional.
Os pilares da geração de energia de Rojava são as cen- trais hidroelétricas, que funcionam nas barragens de Tis- chrin e Tabqa, no Eufrates. A eletricidade é então trans- ferida para as cidades através de longas linhas elétricas. Teoricamente, o fornecimento total de energia para Roja- va seria possível a partir das usinas hidrelétricas existentes se elas fossem operadas em plena capacidade – mas não são, por duas razões.

Primeiro, faltam componentes necessários para o re- paro das usinas. A guerra na Síria, que se arrasta há mais de sete anos, tem afetado severamente esses sistemas vitais de geração de energia. Infra-estruturas destruídas, linhas elétricas e subestações impedem o fornecimento total de eletricidade a muitas regiões de Rojava. A sua reconstru- ção é um empreendimento difícil, dado o embargo eco- nômico e a falta de recursos financeiros.

Em segundo lugar, a geração de eletricidade depende fortemente da política hídrica do Estado turco, porque os principais rios têm suas fontes na Turquia. Nos últimos anos, o governo turco tem impulsionado cada vez mais a construção de barragens, o que tem tido um impacto pro- fundamente prejudicial no abastecimento de água da Síria – consolidando e ampliando o poder geopolítico tur- co. Apesar dos acordos contratuais entre os governos sírio e turco para a transposição de quantidades fixas de água, a Turquia usa seu controle sobre a água para influenciar o desenvolvimento político na Síria. Desde que as forças democráticas no norte da Síria (apoiadas pelas estruturas políticas do movimento de libertação curdo) puseram em prática o seu sistema de autogoverno democrático, a po- lítica do governo turco tornou-se ainda mais restritiva.

As consequências ecológicas e sanitárias do uso de combustíveis fósseis para a geração de calor e energia, combinadas com a incerteza do fluxo de água provocada pela política de poder do Estado turco, é mais uma razão para a descentralização da produção de energia.

As energias renováveis e a construção ecológica

A posição geográfica de Rojava e as condições climá- ticas da região tornam-na adequada para várias formas de produção de energia renovável.

Sistemas simples e baratos de aquecimento de água por energia solar em telhados, geração de eletricidade por energia solar com tecnologia fotovoltaica, energia eólica, etc., podem ser os primeiros passos para um sistema ener- gético descentralizado. Isto reduziria a dependência das pessoas tanto do sistema hidroelétrico como dos combus- tíveis fósseis.

A forma como os edifícios são construídos desempenha um papel importante na economia de energia: quanto me- nos energia consumida, menos será produzida. Em Rojava, muitos edifícios menores são feitos de insumos naturais como argila, madeira e pedra, que, em comparação com materiais de construção padrão como concreto, aço e ci- mento, causam menos poluição e utilizam menos energia durante a construção. Além disso, esta edificação ecológica é cerca de um terço mais barata do que a arquitetura con- vencional. As casas que são construídas desta forma tam- bém são mais refrigeradas no verão e aquecidas no inverno, reduzindo o consumo de eletricidade e combustível.

TRATAMENTO DE DEJETOS, RECICLAGEM E COMPOSTAGEM

Reciclagem

Nos últimos anos, foi criado um sistema de tratamen- to de lixo que funciona na maioria das cidades de Rojava. O lixo é trazido de casas ou ruas para aterros sanitários próximos e ali é incinerado. Não existe nenhum sistema de separação ou reciclagem de lixo municipal em Rojava.

Como resultado, a qualidade da água e do solo é severa- mente afetada, causando problemas de saúde (especial- mente em crianças). As partículas resultantes da incinera- ção poluem o solo, a água e se espalham pelo ar, inclusive para zonas agrícolas, onde entram na cadeia alimentar.

A reciclagem é uma alternativa a esta forma de trata- mento de lixo, e alguns projetos estão sendo cogitados pelos órgãos governamentais, incluindo uma usina de re- ciclagem de papel. Isto envolveria a separação do papel de outros tipos de lixo a nível doméstico, e que seriam reutilizados na fabricação de papel. O projeto, estimado em US$ 70 milhões de dólares, ainda está em fase em- brionária devido à falta de recursos.

Existem também métodos de reciclagem muito mais simples e baratos. A reciclagem do plástico duro, por exemplo, não é complicada e pode ser feita com máquinas simples. Isto permite formas de reciclagem em pequena escala e descentralizadas que já são praticadas em muitas partes do mundo.

Compostagem: adubo orgânico para a agricultura rural e urbana

O uso de lixo orgânico também desempenha um pa- pel importante em uma sociedade ecológica. O esterco animal já é usado na agricultura de Rojava; contudo, este uso pode e deve ser ampliado. O fertilizante químico uti- lizado em Rojava custa 35 milhões de dólares por ano. Este fertilizante químico é importado, criando uma de- pendência significativa dos vários regimes da região. Uma reciclagem mais eficiente do lixo orgânico reduziria muito
– se não eliminaria totalmente – a necessidade de impor- tar fertilizantes químicos, aumentaria a produção agríco- la e aumentaria a autonomia dos agricultores. De uma perspectiva global, a transição de fertilizantes químicos para orgânicos deve ser feita o mais rápido possível: sem mudanças fundamentais, o modo atual de agricultura só pode ser praticado por cinquenta vezes.

A compostagem requer condições favoráveis para a decomposição dos resíduos orgânicos em substâncias hú- micas biologicamente estáveis, que podem ser utilizadas na agricultura e na silvicultura. Para além dos nutrientes, o composto aumenta a fertilidade do solo ao melhorar a sua estrutura (melhorando a mobilidade do ar, água e nu- trientes no solo), adicionando micróbios benéficos e au- mentando a disponibilidade de nutrientes. O uso de lixo orgânico para a agricultura é comum em muitos países, e precauções simples podem minimizar riscos potenciais à saúde. A sua utilização na agricultura e silvicultura poupa dinheiro, previne a erosão do solo e reduz a poluição. A compostagem é de particular importância para uma so- ciedade cujo acesso a fertilizantes químicos pode ser facil- mente restringido por governos e corporações.

Cerca de 50% de todo o lixo doméstico é orgânico. Em média, cada pessoa produz cerca de meio quilo de lixo compostável por dia. Após os processos naturais de compostagem, esta quantidade é reduzida para 50 gra- mas de composto pronto. A compostagem em pequena escala em agregados familiares individuais é mais fácil nas zonas rurais, mas também é possível nas cidades. Este é o caso, em particular, se utilizada em conjunto com a agricultura urbana – como em Cuba, onde é uma parte importante da produção alimentar do país. Tam- bém é possível desenvolver instalações de compostagem em grande escala para a agricultura rural. Isto é comum nos países ocidentais, onde o lixo orgânico doméstico é recolhido e convertido em composto agrícola. Para uma cidade do tamanho de Dêrîk (com uma população de cerca de 40.000 pessoas), isso significaria uma produção diária de 20 toneladas de lixo orgânico para a produção diária de duas toneladas de composto.

Existem muitos sistemas de compostagem, tais como simples pilhas ou caixas de compostagem. Desde que cer- tas condições (incluindo temperatura e humidade) sejam regularmente verificadas e ajustadas se necessário, o com- posto irá decompor-se até estar pronto para uso.

TRÂNSITO E POLUIÇÃO DO AR

A maior parte do consumo de diesel e gasolina em Ro- java é para o transporte, que é também a principal fonte de poluição do ar, sobretudo nas grandes cidades. A ex- pansão do transporte público é uma forma de minimizar esse impacto.
A qualidade do ar urbano também pode ser melho- rada através do plantio de árvores. Uma das estratégias centrais dos municípios, em colaboração com as comis- sões responsáveis pela ecologia, é plantar mais árvores nas áreas urbanas, e manter as já existentes. Os projetos atuais incluem o plantio de uma das principais vias da cidade de Qamislo, que custará 60.000 dólares. Na cidade de Tabqa, que foi libertada do ISIS no verão de 2017, terá início este ano uma campanha para substituir as árvores da ci- dade, 75% das quais já secaram ou foram totalmente des- truídas. Este dano às árvores tem suas raízes nas políticas fracassadas da administração da cidade sob o regime sírio. A guerra nas áreas urbanas também teve um impacto no número de árvores a nível municipal. Devido ao clima e à escassez de água, o reflorestamento é um processo de mão-de-obra intensiva.

Projetos como estes proporcionam melhor qualidade do ar urbano, dão sombra nos meses de verão (quando as temperaturas podem subir até 50 graus ou cerca de 120 graus Fahrenheit), criam espaços para as aves e melho- ram a qualidade de vida em geral. No âmbito do trabalho ecológico do autogoverno, as comunas e as populações locais do cantão de Cizîrê estão sendo questionadas sobre suas necessidades particulares em relação às árvores. Mais árvores serão plantadas nas comunidades, com base nesta informação.

EFEITOS DA GUERRA

Os efeitos da guerra para a situação ecológica em Ro- java têm sido consideráveis, em particular a poluição do solo e da água por munições. A utilização de cartuchos de urânio empobrecido pela Coalizão Internacional causa graves problemas de saúde e os seus resíduos permanecem no ambiente durante muito tempo. As munições de mor- teiro, foguetes e outras armas explosivas incluem metais pesados e TNT, que são cancerígenos. Quando estas ar- mas foram utilizadas em áreas urbanas, por exemplo, em Kobane e Hesekê, estas substâncias misturaram-se com o pó dos edifícios destruídos e entraram nas vias respirató- rias dos habitantes, na água e em áreas agrícolas. De lá, entraram na comida. As consequências a longo prazo são ainda desconhecidas.

Uma das táticas do Estado Islâmico para se proteger dos ataques aéreos era iniciar grandes incêndios com fu- maça espessa. Estes eram produzidos pela queima de pe- tróleo, juntamente com outros materiais, como plásticos, que poluíam fortemente o ar, o solo e a água.

A poluição adicional do ar, da água e do solo resultou da destruição de instalações industriais, que liberavam ga- ses tóxicos e produtos químicos. Embora o impacto que isto terá em Rojava ainda não seja visível, estimativas da organização não governamental PAX afirmam que esta carga sobre o meio ambiente terá efeitos a longo prazo na saúde.

ROJAVA – UMA SOCIEDADE ECOLÓGICA DEMOCRÁTICA EM CONSTRUÇÃO

Autossuficiência local e cooperativas: “Cole- tivizar nossa terra, água e energia” (Öcalan)

As relações entre produção e uso, cidade e país, centro e periferia, devem ser repensadas e redesenhadas para construir uma sociedade ecológica. Na sociedade de Rojava, o objetivo é uma cooperativa, um modo de produção ecoló- gico e descentralizado. Todos os bens, ou recursos naturais, devem ser socializados e a economia deve ser democratizada. É crucial que a produção seja determinada com base num processo democrático de negociação. Ela deve se ba- sear nas potencialidades de um sistema ecológico intacto e equilibrado e nas capacidades das próprias pessoas.

As comunas baseiam-se na auto-suficiência coletiva. Isso elimina a separação entre os locais de produção e uso, reduz as longas rotas de transporte e garante a segurança do abastecimento das pessoas. Além disso, permite o cres- cimento e a conservação do conhecimento coletivo sobre agricultura, processamento e colheita.

Ao contrário dos modos de produção capitalistas, as cooperativas são capazes de produzir de acordo com as necessidades das pessoas, já que não precisam estar su- jeitas à lógica do crescimento constante e da maximiza- ção do lucro. Também é possível para elas considerar as consequências a longo prazo para a natureza e projetar a produção com isto em mente; de fato, o cuidado com a comunidade é um dos sete princípios cooperativos. Nas formas cooperativas de economia, o conhecimento é par- tilhado entre as pessoas que trabalham em conjunto, uma vez que não existe uma separação clássica ou hierarquia das etapas individuais do trabalho, mas sim uma aborda- gem holística.

O sistema de Rojava se baseia no autogoverno comu- nitário e na produção em cooperativas. O objetivo é que todos os recursos, tais como água, energia e terra, se tor- nem bens comuns. Já existem 57 cooperativas, compostas por cerca de 8.700 famílias, só no Cantão de Cizîrê.

Entre a reivindicação e a realidade – Rojava e a sociedade ecológica

Os desafios ambientais em Rojava/Norte da Síria são enormes. Rojava ilustra como os problemas ecológicos se entrelaçam com questões sociais e econômicas; como a centralização, a economia capitalista e a exploração do homem e da natureza estão interligadas.

Num futuro próximo, algumas contradições não po- derão ser resolvidas, mas os efeitos negativos poderão ser minimizados a curto prazo e a população poderá ser informada de seus perigos. Medidas adequadas podem ser implementadas sem grandes investimentos de recur- sos ou dinheiro. As medidas tomadas pelas estruturas do autogoverno democrático para lidar com os problemas ecológicos visam a proteção dos ecossistemas existentes, o reflorestamento e o fortalecimento da consciência eco- lógica. Estes são os primeiros passos, mas estão longe de ser suficientes.

Mostramos alguns dos processos que aproximariam as comunas de Rojava da autonomia democrática de uma forma ecológica e descentralizada. Encontrar um cami- nho para sair do beco sem saída da catástrofe ecológica provocada pela modernidade capitalista requer esforço e coragem para abrir novos caminhos. Os primeiros passos já foram dados, mas a necessidade de uma revolução socioecológica significa que ainda há muito a fazer.


A CAMPANHA MAKE ROJAVA GREEN AGAIN

A campanha “Make Rojava Green Again” foi lançada no início de 2018 pela Comuna Internacionalista de Ro- java, em cooperação com o Comitê de Reservas Naturais da Comissão de Economia, e o Comitê de Ecologia (da Comissão de Municípios e Ecologia do autogoverno de Rojava) com o objetivo de apoiar e desenvolver a socie- dade ecológica no norte da Síria. A campanha tem três eixos: educação, trabalhos práticos e a organização da so- lidariedade global.

Educação

O desenvolvimento de uma consciência ecológica e democrática é a base para a compreensão do equilíbrio entre a humanidade e a natureza. Trata-se de mais do que apenas conhecimento científico e uma compreensão ra- cional: para superar a alienação das pessoas da natureza e, portanto, de si mesmas, a humanidade de hoje deve voltar à natureza, para experimentá-la e apreciá-la, a fim de pro- tegê-la. Por esta razão, o trabalho teórico/educacional em
todos os níveis da sociedade, assim como as experiências concretas na e com a natureza, serão partes essenciais na construção de uma sociedade ecológica.

Educação para os internacionalistas

A Academia Internacionalista, que está em construção desde o verão de 2017, será o centro do nosso trabalho educacional. Aqui, os internacionalistas podem ser for- mados de acordo com os princípios da democracia radi- cal, libertação das mulheres e ecologia, e preparados para o trabalho na sociedade de Rojava através de uma edu- cação intensiva da língua e da cultura. Haverá palestras, seminários e discussões sobre a necessidade da sociedade ecológica, como ela poderia ser e que passos serão ne- cessários para alcançá-la. Complementando a formação teórica na Academia, todos os internacionalistas terão a oportunidade de desenvolver um verdadeiro senso de na- tureza através do trabalho prático na cooperativa florestal e nos projetos de reflorestamento que apoiamos. O traba- lho prático com o solo, o manejo e cuidado das plantas e animais na academia e no berçário de árvores, mostrará as possibilidades – e beleza – de uma vida em harmonia com a natureza. Com a ajuda dos internacionalistas, queremos desenvolver uma mentalidade ambientalmente conscien- te e um entendimento e conhecimento prático da vida ecológica, tanto entre nós como através das estruturas po- líticas e da sociedade de Rojava.

A Academia – que, juntamente com a vida e o traba- lho dentro dela, ainda está em construção – é concebida de acordo com princípios ecológicos. A melhor maneira de utilizar a água, o solo, o ar, a energia e os resíduos não é apenas discutida em teoria, mas também implementada de fato. Ao fazer isso, queremos minimizar a nossa pró- pria contribuição para a poluição, bem como nos tornar- mos um exemplo para projetos similares que trabalham para uma Rojava mais ecológica.

Educação na sociedade

Os internacionalistas irão trabalhar em conjunto com as estruturas locais para organizar a educação destinada ao desenvolvimento da consciência ecológica e do conhe- cimento. Ela acontecerá em escolas, centros para jovens, municípios, comunas e outras instituições. Esta parte do currículo também envolverá o afastamento da sala de aula: viagens à reserva natural Hayaka, participação no trabalho de plantação e a criação de hortas escolares tor- narão a natureza mais vital e relevante.

Arborização dos terrenos da Academia

No outono de 2018, iniciaremos a arborização dos terrenos da Academia. 7.200 metros quadrados a oeste, norte e leste da Academia serão plantados 2.000 árvores, a maioria pinheiros e árvores frutíferas, como maçã, pis- tache, romãzeira, cerejeira, pêra, figo e damasco. Estas se- rão irrigadas e fertilizadas com a água cinza e fertilizante orgânico produzido na própria Academia. Nos próximos anos, oliveiras, uvas e carvalhos serão plantados numa área de 12.500 metros quadrados na encosta rochosa ao sul da Academia, criando assim uma floresta que protege o ambiente e proporciona um porto seguro para a flora e fauna locais.

Gestão e reciclagem de lixo

A separação é a base da gestão de lixo na Academia. O lixo orgânico (como restos de alimentos e papel) é ime- diatamente separado do lixo não orgânico (como plástico ou metal). Evitar a mistura dos resíduos elimina a desa- gradável e demorada tarefa de os separar novamente. O lixo inorgânico é ainda subdividido por tipos.

Em vez de queimar ou enterrar o lixo inorgânico e contaminar a água, o ar e o solo, o lixo é separado e ar- mazenado. A primeira separação é entre os resíduos que representam um perigo direto para a água e o solo, tais como baterias ou lixo eletrônico, e os resíduos plásticos ou metálicos não perigosos. O lixo perigoso é armazenado longe de onde possa contaminar as fontes de água. Os resíduos não perigosos, inorgânicos, são limpos por razões de higiene e também armazenados. Existem planos para a reciclagem do lixo plástico e metálico, seja na própria sede da Academia ou em futuros projetos conjuntos com as estruturas democráticas do autogoverno.

O lixo orgânico produzido pela Academia é conver- tido em fertilizante a ser usado. Isto evita problemas de higiene que surgem quando estes resíduos são descartados em aterros sanitários, e também economiza custos com a compra de fertilizantes químicos. Os restos de alimen- tos, papel e papelão são recolhidos e compostados. Após alguns meses, o composto transforma-se em húmus rico em nutrientes que pode ser utilizado na fertilização de árvores e vegetais nos terrenos da Academia. Espera-se que a Academia produza cerca de dez toneladas de lixo orgâ- nico por ano, o que por sua vez produzirá cerca de uma tonelada de húmus. A água cinza dos nossos lavatórios e chuveiros também será utilizada para irrigação e fertiliza- ção, e o sistema de sanitários secos reduz a quantidade de água negra produzida, permitindo a utilização ecológica do lixo resultante como fertilizante.

Gestão hídrica

A água potável vem de um poço no terreno da Aca- demia. As águas residuais podem ser divididas em duas categorias: água cinza (ou seja, a água dos chuveiros, da cozinha, etc.) e água negra dos sanitários. A maior parte da água cinza da Academia é recolhida e utilizada tanto para irrigação como para fertilização. Isto evita a polui- ção e poupa água e fertilizantes. A água cinza é primei- ro enviada para um tanque onde se filtram sedimentos e gorduras. De lá, a água flui para outro tanque, onde é armazenada para uso. A água cinza é então utilizada, prin- cipalmente para regar as árvores. Este sistema poupa cerca de 2.500 litros de água por dia. A água negra produzida é armazenada em um tanque separado. A pesquisa sobre a implementação técnica e o uso da água negra como ferti- lizante na Academia ainda está em curso.

Trabalhos práticos

Embora a circulação do conhecimento e a criação de uma consciência ecológica seja certamente um dos traba- lhos estratégicos no processo de construção da sociedade ecológica, estas atividades educativas devem ser acompa- nhadas de passos concretos. Um dos maiores problemas de Rojava é a ausência de florestas, o que tem efeito negativo na qualidade do ar, na erosão do solo, na crescente escassez de água e no bem-estar econômico e psicológico da população. O plantio de árvores é uma solução para muitas questões prementes: reduz a erosão do solo pelo vento e pela água além de preservar a fertilidade das áreas agrícolas circundantes. Em áreas como a Reserva Natural Hayaka, o reflorestamento também serve para proteger as bacias hidrográficas e restaurar a biodiversidade. Embora atividades econômicas como a produção de madeira ou o agroflorestamento possam desempenhar um papel impor- tante a longo prazo, a redução drástica de CO2 para re- duzir o efeito estufa é vital para toda a humanidade. Para tornar tudo isso possível, é necessário muito trabalho em Rojava; saberes perdidos, falta de consciência e problemas econômicos exigem soluções sistemáticas e práticas.

A cooperativa de árvores

Uma parte essencial da estratégia ecológica do autogo- verno de Rojava é o desenvolvimento de viveiros de árvo- res. A maioria dos viveiros existentes no norte da Síria são propriedade de empresas privadas, tornando a plantação de árvores um assunto caro para muitos.

Para ajudar a resolver este problema, nós começamos a construção de um viveiro nos terrenos da Academia In- ternacionalista. Só em 2018, mais de 50.000 brotos serão plantados e cultivados numa área de 5.000 metros qua- drados. O foco será em árvores frutíferas, com especial destaque para plantas tolerantes a condições áridas, como a oliveira e o carvalho. O viveiro fornecerá árvores e ou- tras plantas tanto à Reserva Natural Hayaka como às es- truturas políticas locais (tais como comunidades, coope- rativas, instituições e municípios). Será também um local para pesquisa prática. Através de intervenções específicas e do uso de métodos e tecnologias alternativas nas áreas de utilização da água, fertilização e reciclagem, contribui- remos para o reflorestamento de Rojava.

O viveiro será organizado como uma cooperativa sem fins lucrativos e o trabalho nela realizado fará parte da for- mação da Academia Internacionalista. Todos os interna- cionalistas contribuirão com a sua força de trabalho para o projeto de reflorestamento. Isto nos permitirá entregar árvores a um preço acessível. O nosso objetivo é fornecer árvores pela metade do custo das árvores de viveiros com fins lucrativos. O excedente da cooperativa de árvores, de- pois de deduzidos todos os custos como transporte, tec- nologia, construção, ferramentas e materiais de trabalho, será investido na expansão do viveiro (25%); nas obras da Academia Internacionalista (25%); e no reflorestamento da Reserva Natural Hayaka (50%).

A Reserva Natural de Hayaka

A reserva natural de Hayaka fica a poucos quilômetros a oeste da cidade de Dêrîk, no Cantão de Cizîrê. Tem o nome da aldeia adjacente e compreende uma área florestal de mais de 200 hectares coberta principalmente por ála- mos e o reservatório do lago Sefan, que foi criado nos anos 90 pelo represamento de 31 riachos de fontes diferentes.

Muitas espécies de vida selvagem e plantas que foram des- locadas pelo desmatamento e monocultura encontraram refúgio na Reserva Natural Hayaka. Apesar da perda do habitat e da caça, lobos, raposas, porcos selvagens, mui- tas espécies diferentes de aves e outros pequenos animais conseguiram sobreviver nas pequenas áreas de floresta ao redor do lago. Para preservar esta biodiversidade natural e parte da última floresta da região, o autogoverno demo- crático declarou a área como reserva natural em 2014. A caça, a pesca, a construção de edifícios e a agricultura foram proibidas na reserva. Ao mesmo tempo, teve iní- cio o reflorestamento da margem do lago, com um plano de longo prazo para plantar mais de 100.000 árvores no seu entorno, ao longo de 14 quilômetros. Também estão sendo feitos trabalhos para estabelecer a apicultura na re- serva, e para tornar a variedade de ervas disponíveis ali acessível para a pesquisa médica.

A preservação, a expansão e a continuação da arbori- zação da Reserva Natural de Hayaka são parte integrante da campanha. Tanto através do trabalho prático dos in- ternacionalistas na reserva natural como através do apoio financeiro do reflorestamento, pretendemos desenvolver uma perspectiva ecológica para a região que englobe a po- pulação local e as suas necessidades econômicas.

Organização da solidariedade internacional

O terceiro aspecto principal da campanha Make Ro- java Green Again será a organização da solidariedade glo- bal. Através da nossa campanha e divulgação, queremos construir uma ponte entre as entidades comunitárias lo-
cais do autogoverno democrático e projetos ecológicos no norte da Síria, e ativistas, especialistas, acadêmicos, insti- tuições e organizações interessadas de todo o mundo. Na- turalmente, uma das melhores formas de promover este trabalho ecológico é participar aqui em Rojava. Mas esta possibilidade não está aberta a todas as pessoas: chegar à Rojava é difícil devido à situação política dos países vizi- nhos, e às vezes o caminho está completamente fechado. É por isso que devem ser planejados vários meses para qualquer estadia no norte da Síria. No entanto, há mui- tas maneiras de ajudar: seja em Rojava ou do exterior, a solidariedade e a luta por uma sociedade ecológica não conhecem fronteiras.

Apoio financeiro das obras

Embora muitos dos trabalhos ecológicos em Rojava, assim como o trabalho dos internacionalistas na coope- rativa de árvores e na Reserva Natural de Hayaka, sejam voluntários e não remunerados, nós, assim como as ou- tras estruturas locais, dependemos de recursos financei- ros. Tecnologia, maquinaria, ferramentas, materiais e cus- tos de transporte, bem como salários para mão-de-obra local qualificada, custam dinheiro. Se quiser fortalecer a campanha e outros projetos ecológicos no norte da Síria e protegê-los a longo prazo, você pode contribuir para a construção da sociedade ecológica através de apoio fi- nanceiro. Para dar mais segurança ao planejamento dos projetos, as doações mensais regulares são ainda melho- res e muito apreciadas. Todas as doações serão utilizadas para construir, manter e desenvolver projetos ecológicos em Rojava, começando com a cooperativa de árvores e o apoio à Reserva Natural de Hayaka.

Troca de saberes, desenvolvimento de projetos e ideias para uma Rojava ecológica

No norte da Síria, há uma grande necessidade de mais consciência ecológica, conhecimento especializado e cien- tistas comprometidos. As possibilidades incluem a trans- missão remota de vídeos, o treinamento de especialistas em Rojava ou no exterior, ou o trabalho direto em proje- tos no norte da Síria. Assim como o mundo pode apren- der com Rojava de muitas maneiras, Rojava também tem muito a aprender com o mundo. É por isso que estamos procurando ativistas interessados e comprometidos, especialistas, pessoas com habilidades técnicas e cientistas com ideias para planejar e implementar projetos ecológicos no norte da Síria e para desenvolver uma Rojava mais ecológica. Em particular, estamos à procura de pessoas com conhecimentos e experiência nas seguintes áreas:

• Silvicultura e agricultura sustentáveis em regiões semi-áridas;
• Uso da água e saneamento;
• Sustentabilidade ecológica e energias renováveis;
• Engenharia mecânica e elétrica;
• Física, química e biologia (e especialmente botâ- nica).


CONCLUSÃO

Pouco há a dizer no final deste livro. Nossas discussões e trabalhos estão apenas começando e não nos permitem dizer muito sobre sucessos e conquistas.
No entanto, esperamos poder contribuir para encon- trar caminhos que permitam sair da crise ecológica atual. Diante desta crise, muitas coisas parecem perdidas e irre- versíveis. Mas acreditamos que as pessoas podem tornar a vida melhor com seu poder criativo, sua compreensão da justiça e sua vontade de mudar. Um dos objetivos mais importantes deste livro é expressar essa confiança.
Para nós, o plantio de árvores simboliza esta vontade de contribuir para a construção de uma sociedade ecoló- gica, uma contribuição cujos resultados não serão visíveis dentro de um ano ou dois, mas que irá além das nossas vidas e será o nosso presente para as gerações futuras.
Este livro é um convite para participar do nosso traba- lho: fazer parte da construção de uma sociedade ecológica em Rojava e dar vida à solidariedade internacional.

Comuna Internacionalista de Rojava
Setembro de 2018



APÊNDICE
OS 7 PRINCÍPIOS COOPERATIVOS


As cooperativas baseiam-se nos valores de auto-ajuda, auto-responsabilidade, democracia, igualdade, equida- de e solidariedade. Na tradição dos seus fundadores, os membros das cooperativas acreditam nos valores éticos da honestidade, da transparência, da responsabilidade social e do cuidado com os outros. Todas as cooperativas são guiadas por sete Princípios Cooperativos. Os Princípios Cooperativos são às vezes conhecidos como os Princípios de Rochdale, denominados após os primeiros defensores do movimento cooperativo, os Pioneiros de Rochda- le (1844). A Aliança Cooperativa Internacional (ACI) é uma organização não governamental independente, esta- belecida em 1895, para unir, representar e servir as coo- perativas em todo o mundo. Em 1995, a ACI atualizou os princípios cooperativos, e hoje os princípios seguidos por todas as cooperativas do mundo inteiro são:

1. Participação voluntária e livre
As cooperativas são organizações voluntárias, abertas a todas as pessoas capazes de utilizar os seus serviços e dis-
postas a aceitar as responsabilidades de membro, sem dis- criminação de gênero, social, racial, política ou religiosa.

2. Controle democrático pelos membros
As cooperativas são organizações democráticas contro- ladas pelos seus membros, que participam ativamente na definição das suas políticas e na tomada de decisões. Ho- mens e mulheres que servem como representantes eleitos são responsáveis perante os membros. Nas cooperativas primárias os membros têm direitos iguais de voto (um membro, um voto) e as cooperativas em outros níveis são, também, organizadas de maneira democrática.

3. Participação econômica dos membros
Os membros contribuem equitativamente para o ca- pital da sua cooperativa e controlam-no democraticamen- te. Pelo menos parte desse capital é normalmente proprie- dade comum da cooperativa. Os membros geralmente recebem uma compensação limitada, se houver, sobre o capital subscrito como condição de filiação. Os membros alocam excedentes para qualquer um ou todos os seguin- tes fins: desenvolver sua cooperativa, possivelmente crian- do reservas, das quais pelo menos parte seria indivisível; beneficiar os membros na proporção de suas transações com a cooperativa; e apoiar outras atividades aprovadas pelos membros.

4. Autonomia e Independência
As cooperativas são organizações autônomas, de au- toajuda, controladas pelos seus membros. Se elas cele-
bram acordos com outras organizações, incluindo gover- nos, ou obtêm capital de fontes externas, fazem-no em termos que asseguram o controle democrático pelos seus membros e mantêm a sua autonomia cooperativa.

5. Educação, Formação e Informação
As cooperativas oferecem educação e treinamento para seus membros, representantes eleitos, gestores e associados para que eles possam contribuir efetivamente no desenvol- vimento de suas cooperativas. Elas informam o público em geral – particularmente os jovens e líderes comunitários – sobre a natureza e os benefícios da cooperação.

6. Cooperação entre as Cooperativas
As cooperativas servem os seus membros da forma mais eficaz e fortalecem o movimento cooperativo, tra- balhando em conjunto através de estruturas locais, nacio- nais, regionais e internacionais.

7. Preocupação com a Comunidade
As cooperativas trabalham para o desenvolvimen- to sustentável das suas comunidades através de políticas aprovadas pelos seus membros.



BIBLIOGRAFIA E FONTES

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ANF News, “Efrîn Canton Ministry of Agriculture launches first project”.
ANF News, “Rapid efforts for agricultural sector in al-Tabqa’s”.
ANF News, “Al-Tabqa: Massive forestation cam- paign to be launched by 2018”.
ANF News, “Li Cizîrê projeya parzgeha xwezayî”. Anja Flach, Ercan Ayboga, Michael Knapp, “Rev- olution in Rojava”.
Executive Summary (UNEP – WHO), “Guidelines for the Safe Use of Excreta and Wastewater in Agri- culture and Aquaculture”.
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Murray Bookchin, “The Ecology of Freedom: The Emergence and Dissolution of Hierarchy”.
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Pieter Both & Wim Zwijnenburg, “Syria – the toxic footprint of war”.
Rêveberiya parêzgehan a Kantona Cizîrê, “Ji bo parastina parêzgehan biryarên girîng”.
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Swedish Institute for Infectious Disease Con- trol, “Guidelines on the Safe Use of Urine and Faeces in Ecological Sanitation Systems”.
Swiss Federal Institute of Technology, “Grey-water treatment on household level in devel- oping countries”.
The 0Rodale Book of Composting University Press of Florida, “Sustainable Urban Agriculture in Cuba”.

[1] O agente laranja foi um dos herbicidas e desfoliantes utilizados pelos militares estadunidenses como parte de seu programa de guerra química.
São também os povos dos chamados países em desenvol- vimento que são mais afetados pela crescente escassez de água. A água já está sendo usada como arma em conflitos militares e sociais, e as guerras por recursos hídricos se intensificarão.