Onde começa a história humana?

É possível que a tecnologia não tenha se espalhado inteiramente por adoção, que os caçadores-coletores foram exterminados ou deslocados pelo avanço do imperialismo agrícola? O registro sugere que, embora tenha ocorrido alguma adoção, em geral a agricultura se espalhou por meio do genocídio.

– Richard Manning, Against the Grain: How Agriculture Has Hijacked Civilization

Onde começa a história humana? Seria com a criação da agricultura no crescente fértil, que permitiu ao ser humano se estabelecer num lugar fixo, acumular excedente, criar a linguagem escrita, desenvolver a ciência e a tecnologia, criar cidades, estabelecer rotas comerciais e progredir em todos os sentidos? Ou seria o crescente fértil apenas uma parte da história humana? Seria, talvez, o começo de uma das histórias humanas, ou ainda, da história de um dos modos de vida humanos, de uma das culturas humanas? Este será o assunto central deste texto.

Vamos começar perguntando sobre o que começou no crescente fértil. O que é a agricultura? As pessoas sempre favoreceram o crescimento de plantas das quais se alimentam (MANNING, 2004). O que realmente foi introduzido com o advento da agricultura no crescente fértil, há cerca de 10 mil anos? Em primeiro lugar, o que surgiu ali não se espalhou pelo mundo pacificamente. Esta técnica de cultivo possibilitou acúmulo de excedente e expansão territorial de um modo nunca antes experimentado. Ela representa o começo da história de um povo que se espalhou pelo globo como nenhum outro. A história desse povo não é a história da humanidade, embora sua visão de mundo tenha se espalhado pelo planeta. Esta visão de mundo se opõe a tudo que existia antes. Nela, a natureza não é simples provedora da vida, ela é uma hostil carcereira de uma prisão que limita o potencial humano. Os criadores da agricultura queriam mais do que a vida natural tinha a oferecer, e estavam determinados a conquistar isso, custe o que custar…

Ao invés de uma dádiva da evolução ou do desenvolvimento técnico humano, a centralidade da agricultura é um atributo cultural de uma sociedade voltada à conquista e colonização. Ela está imbuída desse valor cultural desde seus fundamentos. Este não é o modo mais eficiente de incentivar o crescimento das plantas para a alimentação humana, como o determinismo agrário pregou (GOWDY, 1997). É na verdade muito mais trabalhoso e insalubre para a população, pois exige um controle rígido sobre a terra e os excedentes (MANNING, 2004; ZERZAN, 2005). Ela é muito diferente das técnicas de cultivo utilizadas pela maioria das culturas humanas. Por que esse modelo de uso da terra, que culmina na agricultura industrial, tomou conta do mundo? Todos os outros povos que dependeram desse grau de controle sobre a terra entraram em colapso (DIAMOND, 2017). O que possibilitou que esse modo de vida se espalhasse foi uma mitologia sobre a superioridade do modo de vida agrícola (MANICARDI, 2012). Este modo de vida estava focado no aumento rápido da produção, o que possibilitou um aumento exponencial da população e da concentração de poder, e reduziu a qualidade de vida das pessoas (LARSEN, 2002). Esta técnica agrária quebra uma regra de convivência que foi seguida por centenas de milhares de anos e cria um imperativo de crescimento com fim em si mesmo (MANICARDI, 2012). Com o passar do tempo, os outros modos de vida foram desaparecendo. O que aconteceu com eles?

Esta técnica de cultivo é a primeira técnica de controle violento sobre a natureza, e não por coincidência, surgiu ao mesmo tempo em que o patriarcado (MANICARDI, 2012). Este modo de vida foi construído em torno das técnicas de dominação da terra e da mulher. Além de exigir muito mais trabalho, isso exige uma organização social complexa e hierárquica, com crescente divisão de trabalho e dependência tecnológica (WRIGHT, 2007). A geometria, que significa medição de terra, era um requisito para aprender filosofia com Platão. Que povos poderiam desenvolver a geometria, senão aqueles com um modo de vida agrário? Ela foi criada para resolver problemas que só povos agricultores poderiam ter. Isso é suficiente para concluir que este modo de vida não compreendeu outros modos de vida como iguais, mas como menos racionais e menos desenvolvidos. Uma crença profunda na própria superioridade está na raiz desta cultura. Ela acredita ter um modo de vida superior, acha que todas as pessoas estariam vivendo melhor se vivessem desse modo (WRIGHT, 2007). Essa é uma crença estrutural, uma visão de mundo a qual todos os membros desta cultura estão comprometidos.

Na história desta cultura, a agricultura é identificada como o despertar do homem, e até meados do século XIX, todos os seus pensadores tinham como certeza indubitável que o homem é inseparável deste modo de vida, considerando a técnica agrária como simples desenvolvimento das técnicas humanas de sobrevivência. Eles tinham certeza que o homem nasceu para criar cidades e impérios, e que a evolução do homem estava intrinsecamente ligada a esse progresso. Que tudo isso era uma grande conquista humana. Esta crença cultural estava escondida na própria definição de ser humano: um animal político e racional. As fundações do pensamento civilizado foram criadas por pessoas que acreditavam que este homem (que tratava mulheres, escravos, animais e a terra como propriedade) era de fato superior aos brutos, incultos, selvagens e incivilizados bárbaros ou “homens das cavernas”. A cidade, não a floresta, seria o verdadeiro habitat humano. Para eles, fazia muito sentido pensar que o ser humano se torna humano com a criação da agricultura e tudo que somente ela possibilita. Até hoje essa crença é reproduzida em salas de aula, quando exaltamos a filosofia, a ciência, a escrita e a capacidade de construir enormes monumentos…

A ideia de que o ser humano evoluiu para colonizar a terra tem sido questionada (ZERZAN, 2005). Estudos nos permitiram afirmar que o ser humano não existe há apenas 10 mil anos, ele é muito, muito mais antigo (DIAMOND, 2017). Isto deveria ter mudado toda a concepção ocidental de história. Se o ser humano não surgiu já propenso a criar este modo de vida, o que ele estava fazendo este tempo todo? Para os teóricos principais da filosofia política, ele estava numa condição miserável. Ao invés de abalar a estrutura das concepções sobre o humano, os teóricos preferiram chamar sua própria história de “história da humanidade”, e o resto de “pré-história”. Os outros povos seriam coadjuvantes dessa história. Os fundamentos dessa cultura foram criados por pessoas que tinham uma concepção de história e de humanidade que hoje é considerada equivocada. Mas essas descobertas não mudaram radicalmente a concepção desse povo. Ele continua dizendo que sua história é a história da humanidade, embora não seja um representante mais fiel dessa história do que os povos que ainda resistem ao progresso, onde o genocídio e a colonização ainda não terminaram (WRIGHT, 2007).

Se a história desse povo não é a história da humanidade, é a história de QUEM? Em outras palavras, se esse povo não é a humanidade, quem ele é? Como chamá-lo? Que nome pode se referir a ele? Tem que haver um conceito capaz de desfazer o equívoco milenar que confundiu de modo etnocêntrico a história da humanidade com a história de uma cultura colonizadora. Não apenas a história desse povo é muito mais recente que a história da humanidade como um todo, como não está em plena continuidade com ela, não é um estágio mais avançado da história humana. A história do modo de vida agrário é apenas um capítulo dessa história. Ela pode, dependendo do critério, até mesmo ser considerada como a negação da história humana, já que não seguiu os mesmos princípios que todos os outros, e ainda assim se pretende universal. Se este modo de vida não apenas se diferencia, mas se opõe fundamentalmente a outros modos de vida, considerando-os inferiores, então seus pensadores basilares estavam extremamente errados ao afirmar que sua própria história representa o avanço universal da história humana. Este é o primeiro passo para entender a civilização enquanto problema.

Uma das propostas para resolver esse impasse é adotar o conceito de “civilização” de um ponto de vista crítico. O que autores como Zerzan e outros citados aqui sugerem é uma diferenciação entre a história da humanidade e a história da civilização. Civilização seria um termo geral para falar deste modo de vida que surge com o controle violento sobre a terra e a ideia de superioridade. Este conceito, com todas as suas controvérsias e ambiguidades, permanece relevante nas discussões da teoria crítica, sendo que hoje em dia é comum falar em “crítica à civilização”. É a partir desse conceito que vou desenvolver o resto do texto.

A crítica à civilização

A civilização se origina na conquista do exterior e na repressão em casa.

– Stanley Diamond, In Search of the Primitive: A Critique of Civilization

Quando se torna inegável que o desenvolvimento da sociedade civilizada não aponta exatamente para a melhoria da vida humana, os pensadores são pressionados a explicar o que deu errado. Eles procuraram respostas em diversas perspectivas históricas, culturais, sociais, filosóficas, econômicas, jurídicas, psicológicas e políticas. O que resta criticar, senão os próprios fundamentos da civilização? Os problemas sociais civilizados não tem origem na natureza humana, mas numa estrutura social que legitima certas relações de poder. Povos que não desenvolveram as mesmas instituições não desenvolvem os mesmos problemas. A civilização é considerada inevitável porque está fundada num mito de “destino manifesto”. Ela é processo histórico e também ideal normativo. Suas promessas não cumpridas são sempre explicadas colocando-se a culpa em outra coisa, e se renovam na crença de que deve ser possível chegar lá, porque o contrário seria “voltar para o mato”, e obviamente ninguém iria querer isso. Qualquer solução deve promover o progresso, nunca substituí-lo por outra coisa. Essa crença no progresso é a crença no controle da natureza por meio de uma organização racional que tem a civilização como fim. Tudo que não leva a civilização a se tornar mais civilizada é considerado errado por princípio.

Essa linha de raciocínio levada às últimas consequências afirma que o grande obstáculo que se coloca entre o homem civilizado e a realização de seu grandioso projeto é a própria vida natural. Não há caminho para o progresso da civilização senão por meio da colonização da natureza em nome do desenvolvimento técnico. Por isso a colonização e a domesticação (controle dos comportamentos) são necessárias para o desenvolvimento de qualquer grande civilização. Os fundamentos da civilização parecem tão inescapáveis que sugerir que podem ser um problema em si é rapidamente equiparado com uma misantropia ou um catastrofismo. A crítica à civilização é o tabu dos tabus, a maior das heresias intelectuais. Tudo pode ser criticado, menos a civilização. A crença na santidade da civilização é o maior dogma de todos.

Que outra linha de raciocínio poderia ser seguida? Problemas sociais existem em qualquer modo de vida, por que gastar tempo com uma crítica tão distante de qualquer resolução? Por que não apenas tentar fazer o possível para melhorar a vida das pessoas menos privilegiadas aqui e agora? Se há algum problema real com a civilização, por que não deixar isso para depois de resolvermos os problemas sociais mais urgentes? Estas são ótimas perguntas. Mas elas também podem representar uma reação de defesa. É verdade que antes de resolver os problemas mais profundos, é preciso resolver os mais urgentes. Porém, há situações em que o que parece mais urgente não pode ser realmente contido sem uma solução mais estrutural, menos paliativa. Se alguém está jogando crianças no rio para se afogarem, pular no rio para salvá-las é urgente, mas se ninguém lidar com a causa do problema, a pessoa que está jogando elas no rio, o problema não será resolvido.

Sabemos que o problema não está no ser humano em si, e sabemos que a estrutura econômica vigente é o principal pivô dos problemas sociais e ambientais atuais. Mas não podemos eliminar tão facilmente a hipótese de que a raiz dos problemas da sociedade moderna não é simplesmente o sistema econômico vigente (o capitalismo). O modo como a civilização foi organizada desde o crescente fértil tem suas próprias problemáticas. Será que os fundamentos da civilização foram examinados com a criticidade necessária, ou foram tomados como universais e verdadeiros pelo mesmo motivo que o patriarcado permaneceu basicamente inquestionado por tanto tempo? A crítica social dos principais pensadores da civilização foi tímida nesse aspecto, justamente porque se tratava de seus próprios privilégios. Algumas perguntas estão surgindo somente com as perspectivas antropológicas, decoloniais, feministas e anarquistas.

Crescimento da população mundial Crescimento da população mundial

A civilização se tornou responsável por seu próprio suprimento de comida. Isto significa que ela se tornou responsável pela sua própria proliferação e limitação. Como assumir tamanha responsabilidade? Sua população cresceu tão extraordinariamente nos últimos séculos que a demografia chama isso de curva J. Isso não é um sinal de incrível sucesso evolutivo, mas sim uma evidência nítida de desequilíbrio ecológico. A curva J só é possível a partir da criação de um modo de vida baseado em agricultura civilizatória. Ela depende de controle violento da natureza, aumento compulsivo da produção e da eficiência, rapidez e complexidade do modo de vida e colonização de tudo que está ao redor… Estes são os fundamentos da civilização.

Superpopulação não é um mero problema de espaço ou quantidade de recursos. O aumento da população numa mesma área aumenta a complexidade social e as necessidades estruturais. Assim como em todas as populações, a população humana é limitada por diversos fatores ambientais e ecológicos. A população aumenta em função da produção de comida (HOPFENBERG; PIMENTEL, 2001). Quando a produção civilizada se estabilizará? Qual será o efeito de ocupar todo esse espaço na biomassa do planeta? É possível que a civilização se torne sustentável?

Vivendo a partir de outros fundamentos

Quanto maior o impulso para o sofrimento existencial, maior a força aplicada pela civilização para se preservar. Fazendo com que percamos o rumo, dando-nos alvos enganosos, canalizando as melhores energias para a consolidação do status quo, desviando qualquer reconhecimento crítico. E quanto mais a civilização nos empurra para fora dos trilhos, mais insistentemente se recusa a reconhecer os sintomas do descontentamento que nos impõe.

– Enrico Manicardi, Free from Civilization: Notes Toward a Radical Critique of Civilization’s Foundations

Há milhares de anos, um grupo de seres humanos se livrou da provisão natural de comida que limitou todos os seus ancestrais, criando um modo de vida fundamentado na crença de superioridade e no controle. Este modo de vida precisa se expandir para continuar de pé e depende do avanço constante dos modos de produção. Este fundamento nos permite desenvolver tecnologias, mas também abre as comportas para uma acumulação de poder incontrolável. O problema nunca foi o ser humano, mas um modo de vida que não foi criado para humanos e sim para seres ideais e superiores. Possibilitar a expansão do poder humano é a função da civilização. Acreditar que este modo de vida deve ser perpetuado a qualquer custo e que não há nada que possa superá-lo ou substituí-lo é reproduzir sua mitologia básica.

Estes valores estão profundamente enraizados na mente de quem foi socializado na cultura civilizada. Devido à densidade desse assunto, é muito comum distorcer e tirar conclusões erradas sobre isso. Não afirmei que a humanidade destrói a Terra, que a agricultura ou a tecnologia é simplesmente ruim, que precisamos voltar para as cavernas, que outros povos vivem no paraíso ou coisa do tipo. O que eu afirmei é que este modo de vida está fundado numa crença de superioridade que não corresponde à realidade, e sim a uma visão mitológica. Exatamente por isso ele almeja tanto um paraíso, um lugar que se distingue da natureza. A agricultura civilizada é violenta e por isso insustentável. Não é uma questão de eficiência ecológica, mas de pressupostos como a propriedade sobre a terra e animais, seja ela coletiva ou privada. A civilização inaugura uma competição com a comunidade da vida, rejeitando a cooperação, negando-se a viver em comunidade com outras formas de vida. Os povos nativos ou sem Estado têm modos de vida mais próximos da natureza, mas não se trata de imitar seus modos de vida, e sim de recuperar aquilo que perdemos. O problema não está na natureza humana nem apenas no sistema econômico dominante. O problema está nos fundamentos desse modo de vida. Mudá-los é uma tarefa incrivelmente difícil, mas possível. As referências usadas neste texto indicam algumas alternativas.

O objetivo desse texto é provocar diálogos sobre o assunto. Caso essas ideias tenham chamado sua atenção ou tenha críticas, dúvidas, comentários, algo a adicionar ou um problema a discutir, entre em contato. O debate está aberto. Vamos conversar.

A civilização é um experimento, um modo de vida muito recente na história humana, e tem o hábito de caminhar para o que estou chamando de armadilhas do progresso. Uma pequena aldeia em boa terra ao lado de um rio é uma boa ideia; mas quando a aldeia cresce para uma cidade e pavimenta a terra boa, torna-se uma má ideia. Embora a prevenção possa ter sido fácil, uma cura pode ser impossível: uma cidade não é facilmente movida.

– Ronald Wright, Breve história do progresso

Referências:

DIAMOND, Stanley. In search of the primitive: A critique of civilization. Routledge, 2017.

GOWDY, John (Ed.). Limited wants, unlimited means: A reader on hunter-gatherer economics and the environment. Island Press, 1997.

HOPFENBERG, Russell; PIMENTEL, David. Human population numbers as a function of food supply. Environment, development and sustainability, v. 3, n. 1, p. 1-15, 2001.

LARSEN, Clark Spencer. Skeletons in our closet: revealing our past through bioarchaeology. Princeton University Press, 2002.

MANICARDI, Enrico. Free from Civilization: Notes Toward a Radical Critique of Civilization’s Foundations. Green Anarchy Press, 2012.

MANNING, Richard. Against the grain: how agriculture has hijacked civilization. Macmillan, 2004.

WRIGHT, Ronald. Breve história do progresso. Editora Record, 2007.

ZERZAN, John (Ed.). Against civilization: readings and reflections. Feral House, 2005.