O sentido usual de civilização é o de sociedade humana avançada (ABBAGNANO, 1998). Como tal, é também um ponto de referência a ser buscado por todos os seres humanos. Civilizado seria o indivíduo que se submete a certa estrutura social considerada avançada, e nesse sentido o termo se relaciona à educação. Seria em resumo todo modo de vida organizado, sendo assim considerado moralmente superior. Ao longo da primeira parte deste artigo, resumirei diferentes concepções de civilização. Na segunda parte, resumirei a crítica à civilização. Finalmente, na terceira parte, falarei algumas palavras sobre o que fazer.

1. Conceitos de civilização

1.1. Civilização enquanto ferramenta da cultura

Arnold Toynbee fala de civilizações, no plural, como representantes de um tipo de sociedade que se contrapõe às sociedades primitivas (BARROS, 2009). Estas últimas apresentam um menor número de membros, ocupam menor espaço geográfico, duram menos tempo e existem em maior variedade do que as civilizações. Ou seja, civilizações são formas de aumentar a durabilidade de uma sociedade específica, em face ao curto tempo de vida oferecido pela natureza. Isto depende do aumento da população e da expansão do território ocupado.

Toynbee considera a civilização, no sentido geral, como o conjunto de ferramentas criadas pelo homem para superar o desafio imposto pela natureza na luta pela sobrevivência. A civilização seria uma consequência natural da relação hostil entre o homem e a natureza. Essas ferramentas são técnicas e também simbólicas, e se condicionam mutuamente. Esta ideia sugere que não haveria civilização se o homem não se visse desafiado a progredir sempre, ou não encarasse certas condições naturais como desafios a serem superados. Há, portanto, no princípio organizacional da civilização, uma vontade de superar as limitações naturais.

O critério oferecido por Toynbee para avaliar o significado de civilização é sua eficiência para gerar progresso. A relação entre civilização e progresso se compromete com a teoria da evolução cultural, como se pode ver em autores como Morgan, Tylor e Frazer (CASTRO, 2005). Se a relação entre evolução e progresso é questionada, a noção de civilização como consequência do desenvolvimento humano também entra em crise. É exatamente na crítica ao progresso que se erigirá uma crítica ao evolucionismo cultural.

1.2. Civilização enquanto produto da racionalidade

Certo sentido de civilização, como aparece nos termos ‘civilização islâmica’ ou ‘civilização ocidental’, se distingue do sentido geral. No livro Princípios filosóficos do ser racional, Roger Ellman (2007) responde “o que é civilização” de forma bastante direta: É um modo de vida em cidades, onde a característica principal é a cooperação. Para Ellman, se uma grande quantidade de pessoas consegue ocupar um mesmo ambiente, então deve haver maior cooperação ali do que em pequenas comunidades. A civilização representa o oposto do individualismo, que é caracterizado pela ‘sobrevivência do mais apto’, ou seja, por regras estritamente biológicas. Apenas a civilização possibilita a melhoria da qualidade de vida, e por isso ela afasta o homem do seu estado original. Mas o sentido de cooperação sendo usado é “estrutura que possibilita maior capacidade de agregação de pessoas de diferentes pertenças num mesmo espaço”.

Para Ellman, a civilização se fundamenta na “única vantagem biológica real”: a racionalidade. Sendo assim, ou avançamos rumo a uma sociedade de crescente cooperação (urbanidade globalizada), ou regressaremos à condição animal da competição (comunidade local). Apoiar a civilização é ser civilizado, se opor a ela é ser primitivo. O propósito da civilização é a segurança, a plenitude e a felicidade do indivíduo. Os indivíduos não existem para a sociedade, mas é a sociedade que existe para seus membros. Ellman vê o estado original do homem como competitivo. A civilização seria aquilo que nos afasta da natureza (competição) e nos aproxima de nós mesmos (cooperação), ou seja, centraliza a sociedade no bem-estar do indivíduo.

Por outro lado, em Regresso ao admirável mundo novo, Aldous Huxley (1985) expõe a tese de que o homem é apenas moderadamente gregário. Diferente dos insetos sociais, ele não possui condições naturais de viver em grupos de milhares ou milhões de pessoas. Se isto é verdade, a tese de Ellman atribui valor positivo à alienação da excessiva agregação urbana. Por trás do conceito de Ellman, existe um ideal humanístico, o de união de todos os povos numa só sociedade de iguais. Mas o bem-estar dos indivíduos não significa fim da escravidão e da alienação. Segundo Huxley, felicidade, urbanização e escravidão não se anulam. Ao mesmo tempo, as condições do meio urbano impossibilitam e deformam uma série de características humanas. A ‘civilização do amor’ de Ellman é uma utopia humanista, de certo modo criticada nas distopias de Huxley.

1.3. Civilização enquanto elevação do homem

Yukichi Fukuzawa (1973), considerado um dos fundadores do Japão moderno, traduziu o termo ‘civilização’ para a cultura japonesa do século XIX. Para Fukuzawa, civilização significa bem-estar material e espiritual. O avanço da civilização significava a elevação da vida humana ao nível superior, rumo ao avanço do conhecimento e da virtude. Embora Fukuzawa apoiasse o capitalismo e Ellman fosse socialista, ambos concordariam quanto à relação entre civilização e progresso, mostrando que este progresso é visto como algo inerentemente positivo, mesmo quando as concepções de mundo e posições políticas são diferentes. A relação entre civilização e harmonização também reflete um ideal tanto liberalista quanto marxista, indicando o fim dos conflitos pela satisfação das necessidades materiais humanas. Civilização adquire não apenas o sentido de um estágio superior da sociedade, mas é o próprio direcionamento do avanço da humanidade.

Albert Schweitzer (1987), autor de A filosofia da civilização, definiu civilização do seguinte modo: “É a soma total de todo progresso feito pelo homem em toda esfera de ação e de todo ponto de vista, na medida em que o progresso se move em direção do aperfeiçoamento espiritual dos indivíduos como progresso de todo o progresso”. Schweitzer relacionou a civilização à ética, e não ao avanço técnico-científico. O progresso total do homem é medido pelo seu grau de civilização. Como em Fukuzawa, este direcionamento para o progresso envolve a elevação humana no seu sentido essencial. É o aperfeiçoamento daquilo que o homem é, e não apenas de como ele vive. Logo, segundo essa concepção, a civilização se relaciona com o espírito humano, mais do que com um atributo cultural, e está antes na alma humana do que no mundo.

1.4. Civilização enquanto sinônimo de sociedade

A filosofia política tem como ponto importante a distinção entre estado de natureza e sociedade civil, onde podemos destacar as contribuições de Locke, Hobbes e Rousseau (CHAUÍ, 2000). É comum imaginar que a crítica à civilização se relaciona com a teoria de Rousseau. Mas, para Rousseau, o que corrompe o homem é a sociedade, não a civilização. A crítica à sociedade não é uma crítica à civilização se considerarmos a distinção entre ambas. Para Rousseau, o estado de natureza só era benéfico porque ainda não era social. O estado de sociedade de Rousseau ou o estado de natureza de Hobbes seriam ameaçadores ao homem e não poderiam ter durado muito tempo. Ambos defendem o contrato social, que é a transferência de direitos naturais para um soberano. A única diferença é que para Rousseau este soberano é a ‘vontade geral’, mas esta não é menos artificial que o Leviatã de Hobbes, uma vez que depende de uma educação para o cosmopolitismo e para a emancipação humana.

Quanto a Locke, sua teoria liberal destaca que a propriedade privada não depende de soberano, mas é um direito natural, fruto do trabalho. Assim, a burguesia está acima tanto da nobreza, que ganha sem trabalhar, quanto dos pobres, que não ganham porque não trabalham o suficiente ou não poupam. Fica claro então que nenhum deles está criticando a sociedade civil em si, mas sim procurando meios de justificar alguma forma de poder que seja capaz de manter a civilização intacta.

Tocqueville (1998), em Democracia na América, argumentou que os indígenas estão no extremo da liberdade, e por isso não abdicam nem sequer uma pequena parcela dela para viver em sociedade. Preferem morrer a submeter sua vontade aos outros, e por isso sua liberdade consiste em negar os laços sociais e até mesmo a obediência voluntária. Assim, os selvagens não vivem nem em sociedade nem em comunidade, pois não têm conceito de lei. A ideia de que civilização como sinônimo de sociedade nos leva a concluir que não podemos nos opor à civilização, uma vez que não podemos deixar de viver em sociedade. A questão aqui é a centralidade do conceito de sociedade. Se por civilização entendermos somente a sociedade organizada aos moldes colonialistas, temos que nem toda sociedade é civilizada, dado que nem toda população humana seguiu tais moldes.

1.5. Civilização enquanto processo

Pode-se dizer que a civilização, enquanto ato de civilizar, se torna um substituto da educação religiosa. É um processo de ‘educação do espírito’ para a emancipação do homem. O termo foi usado neste sentido para justificar a colonização, e continua sendo usado neste sentido para falar de educação e civilidade. Os missionários que vieram para a América na colonização não estavam simplesmente levando a fé cristã para os povos indígenas, estavam antes de tudo civilizando-os.

O sociólogo Norbert Elias (1994), em Processo civilizatório, fala de civilização como termo que adquire sentidos diferentes para diferentes culturas. Para cada nação, civilização é a fonte de orgulho de cada cultura. O bom uso do conceito ‘civilização’ seria no sentido de controle da razão sobre a emoção, de autonomia do indivíduo sobre o controle de suas pulsões para a manutenção e progresso da sociedade. Neste sentido ela se opõe à violência, que é resultado da falta de autocontrole. Representa um movimento da repressão para o autocontrole, mas ambos teriam como resultado o progresso.

Civilização pode ser entendida como um processo inexorável que torna a sociedade cada vez maior, melhor e mais complexa. Ou pode ser o conjunto de produções materiais e culturais de uma sociedade. O termo ‘civilizado’ pode ser usado para contrapor o que é selvagem; arcaico ou primitivo. Também pode estar ligada a toda ação disciplinada ou com fins pacíficos. Civilização pode significar um estágio avançado do desenvolvimento da cultura humana ou um modo de vida caracterizado pelo avanço da tecnociência. Pode significar também um elevado padrão ético. Pode contrapor o barbarismo; a brutalidade ou a selvageria. Pode significar bons modos ou urbanidade. Pode equivaler a tudo aquilo que é construído pelo trabalho humano ou tudo aquilo que se opõe à natureza, ao instinto ou à animalidade. Pode ainda significar a cultura humana em geral ou toda organização social humana.

Mas em todos esses sentidos percebemos que há influência de uma visão de mundo, que reflete um ideal de emancipação humana. A civilização seria o lugar e o tempo em que o homem adquire sua historicidade. Seria o pano de fundo onde se desenrolam suas ações mais significativas para aquilo que chamamos de história. Em grande parte, podemos dizer que a agricultura, o uso de escravos e animais, a criação de leis, a escrita, o comércio e a expansão de territórios são características da civilização, embora possam existir de maneiras diferentes em povos considerados incivilizados, assim como serem consideradas características que podem ser abolidas da civilização no seu processo de maturação. Levar a outros povos essas técnicas de plantio ou de domesticação, de organização política, de comunicação e transmissão de conhecimento, de guerra e de comércio também poderia ser equivalente ao ato de civilizar.

1.6. Civilização enquanto controle social

No sentido em que Freud (1974) fala de civilização em Mal-estar na civilização, esta seria a condição em que se encontra o homem moderno. Condição que não pode mais ser desfeita, ou seja, se tornou necessária, provavelmente pela evolução, ainda que cause infelicidade proporcional ao seu desenvolvimento. Esta infelicidade, no entanto, significa o aumento pela demanda de satisfação do prazer, e depende de recursos materiais para se realizar. O controle das pulsões irracionais as canaliza para o trabalho, a fim de que o homem produza incessantemente sua própria satisfação. Quanto mais desenvolvida a civilização, maior o mal-estar de se viver nela, pois maiores são a exigências culturais, e maiores as demanda por prazer, o que pede mais trabalho, mais acúmulo e mais controle. O homem deve se adaptar a tal condição, para não colocar a civilização em risco.

Freud responde nesta mesma obra ao que ele apontou como uma tendência hostil em relação à civilização. O primeiro fator que Freud aponta como fonte dessa hostilidade é o cristianismo, que desvalorizou a ‘vida terrena’, negando o modo de vida baseado em acúmulo e satisfação dos prazeres. O segundo fator seria o contato com ‘povos e raças primitivas’, que levou a uma ideia equivocada de que estes povos viviam de forma menos neurótica, pois viviam sob uma generosidade da natureza, e tinham suas necessidades satisfeitas mais facilmente.

De fato Freud afirmou que seríamos mais felizes num modo de vida primitivo, mas ao mesmo tempo não podemos mais nos desfazer da civilização, nem escapar de sua inextinguível insaciabilidade. Este fatalismo não é a mera constatação de que não podemos retornar ao passado, mas a afirmação que não podemos mais nos direcionar para outro objetivo, orientados por outra força que não seja o acúmulo de poder humano sobre a natureza. Mesmo que o futuro seja incerto, as opções que são consideradas válidas são todas condizentes com a perspectiva civilizada da emancipação humana em relação aos poderes que a oprimem. Se a civilização significa desobedecer todos os limites em busca da felicidade, ao mesmo tempo significa manter-se contido nas rotinas civilizadas para evitar o ‘caos’ e a ‘anarquia’. Se a civilização é o desejo humano de ser senhor do seu próprio destino, ela também é a rebeldia dos homens contra qualquer força não humana que influencie a história e nos distancie dos desejos de poder.

1.7. Civilização enquanto domesticação

Apesar da afirmação de que a ‘civilização’ é algo inseparável do ser humano, e por isso inquestionável, é possível falar de civilização no sentido negativo, isto é, como algo que pode ser criticado sem que isso implique numa negação do humano. O senso comum tende a achar que criticar a civilização é equivalente a criticar as sociedades humanas que foram ‘bem sucedidas’ na história. E por isso é comum dizer que os críticos da civilização deveriam simplesmente se afastar do meio urbano, da tecnologia e de todo os outros ‘benefícios’ da sociedade tecnocrata. Este tipo de reação hostil contra a crítica à civilização está carregado de sentimentalismo, e não representa um argumento relevante. Ela desobriga o civilizado a pensar criticamente na sua própria condição, contanto que todos sejam igualmente dependentes dela para viver.

Quando autores como John Zerzan (1999) falam de civilização, não falam de algo inerente ou benéfico ao homem, mas sim de algo que se opõe à natureza humana, pois induz ao controle sobre a natureza e resulta na destruição da vida e na alienação humana. Todos os seres vivos, incluindo humanos, são afetados negativamente por aquilo que Zerzan chama de civilização. Embora se refira a muitos outros autores para compor sua crítica, seu conceito de civilização é diferente do conceito comum, e não está presente no pensamento da maioria dos autores que ele cita. Seu conceito de civilização parte de certa forma da crítica ao progresso.

1.8. Civilização enquanto eixo axiológico

Chegamos agora a um novo conceito de civilização, que será proposta agora. A civilização enquanto um conjunto de pressupostos ou um tipo de visão de mundo. A visão de mundo que se enquadra como civilizada é toda aquela que sustenta uma sociedade ou cultura de acúmulo de poder humano. ‘Civilizados’ são então todos os pressupostos ou crenças que permitem a construção de um modo de vida onde há expansão do poder humano, assim como todas as pessoas ou sistemas de pensamento que defendem essas crenças. Na ausência dessas crenças fundamentais ou axiomas, não é possível reproduzir uma sociedade de acúmulo, pois esta exige valores culturais que se baseiam nessas crenças. Logo, o modo de vida de acúmulo e expansão do poder reflete a presença de ‘civilização’, e a ausência dessas características reflete a ausência de civilização. O lugar próprio da civilização é, portanto, o sistema de crenças (QUINN, 1998).

Conformar-se à civilização é conformar-se a certos pressupostos, e não simplesmente a uma das diversas opiniões e visões aparentemente opostas que comportam esses mesmos pressupostos. Civilização é, em resumo, um modo de pensar e de apreender a realidade que apresenta características variáveis, mas que pode ser identificado com algum discernimento quanto ao tipo de sociedade que ele sustenta. De fato, ‘civilização’ também pode ser encarada como os pressupostos que validam positivamente a civilização, ou que fundamentam os conceitos anteriormente vistos de civilização.

2. Civilização enquanto problema

A cultura civilizada suporta uma sociedade altamente complexa e tecnocrática. Nossas relações com os mitos, com o mundo natural e com os outros seres humanos são radicalmente modificadas. A ideia que de pertencemos a algo maior é substituída pela ideia de que tudo deve pertencer a nós. A ideia de que vivemos com certos limites é substituída pela ideia de que os limites dependem somente da nossa capacidade de superação. O significado da vida é substituído pela satisfação dos desejos. Em outras palavras, o próprio sentido existencial se encontra cada vez diluído no mundo civilizacional.

Podemos dizer que a civilização gera esquemas mal-adaptativos. Ela propaga uma obsessão por acúmulo porque nela se perdeu a esperança de realização do significado da vida humana. Esta ruptura entre a experiência sagrada da vida e a experiência da civilidade causa uma sensação de desconforto, que é aliviada por substitutos civilizacionais, aprofundando nossa dependência em relação a esse modo de vida. A seguir veremos uma lista resumida de conceitos que se relacionam à problematização da civilização.

2.1. Domesticação

A origem da civilização se relaciona com a origem da domesticação expansiva de animais e plantas (pecuária e agricultura). Domesticação expansiva não significa a amizade entre humanos e outros seres vivos, mas o confinamento destes num ambiente artificial, com a finalidade de controlar sua reprodução. Este processo representa a rejeição de uma ordem natural. Ele surge em conjunto com um modelo dependente do trabalho com vias para o acúmulo, no qual o valor central é a eficiência de produção, e os seres vivos são tratados como recursos e produtos cujo valor depende do quanto eles satisfazem as necessidades humanas.

As relações agora são determinadas pela vantagem de um sobre o outro, e não mais por uma relação afetiva. O máximo que podemos fazer na civilização é preservar o meio enquanto fonte de recursos de nosso sistema econômico de produção em massa, mas não somos capazes de abandonar nossa posição de poder sobre a natureza. Nosso modo de vida apenas aumenta a necessidade de controle da natureza.

2.2. Insustentabilidade

Além da insustentabilidade material, a civilização apresenta uma insustentabilidade de pressupostos. As possibilidades de concebermos uma vida mentalmente saudável neste mundo estão sendo continuamente abaladas, e a preservação de nossa capacidade de sobrevivência biológica no mundo não garante a preservação de nossa integridade humana, quanto ao sentido existencial necessário para manter nossa sanidade. Artifícios são criados para sustentar o insustentável, o que resulta numa degradação da mente e do espírito.

2.3. Crescimento populacional

Na experiência da urbanidade, a cooperação ou sinergia existente em pequenas comunidades é substituída pela competição entre todos. Não há dúvidas que houve um crescimento populacional extraordinário nas últimas décadas. A população mundial dobrou em pouquíssimo tempo. Não se pode tomar este crescimento como um fato natural. Não é possível continuar vendo o crescimento populacional excessivo como um sinal do avanço da medicina e da capacidade de manter mais pessoas vivas por mais tempo. ‘Redução da mortalidade infantil’ e ‘aumento da expectativa de vida’ são expressões que escondem os efeitos destrutivos da civilização.

O que seria algo benéfico em condições normais se torna uma ameaça quando depende de condições bastante especiais, como um alto nível de industrialização. O crescimento da produção e do consumo é um problema quando este ultrapassa os limites do que pode ser produzido e consumido localmente. E não há cidade moderna que sobreviva consumindo apenas o que se produz localmente. A exportação é uma variável sem a qual nosso sistema econômico globalizado entraria em colapso.

Isso significa simplesmente que deveria haver menos gente no mundo, ou deveríamos rejeitar que o crescimento populacional exponencial possa ser um problema? O acúmulo permitiu a existência de bilhões de pessoas que não existiriam em outras condições. Mas dizer que basta se livrar de parte da população é tão equivocado quanto ignorar o problema. O excesso populacional não é a causa da civilização, e sim um efeito. Para resolver o excesso populacional a partir de sua raiz, é preciso encarar a civilização enquanto um problema. Matar pessoas ou sumir com elas não resolveria o problema, mesmo que isso fosse viável ou eticamente aceitável, não seria uma solução real.

O crescimento acelerado da densidade populacional humana cria a necessidade de uma contínua complexificação social. Sem um ideal de acúmulo, não há criação de técnicas mais avançadas de produção. Por isso as técnicas permaneceram praticamente inalteradas pela maior parte da história. É comum dizer que as técnicas só não avançaram porque havia restrições na capacidade cognitiva no cérebro do homem, mas esse argumento não se sustenta mais, e tende a levar à inferiorização dos povos que vivem sem essas técnicas.

2.3. Mito do progresso

O avanço escalar da tecnologia parece ser impulsionado pela necessidade de manter o alto fluxo de produção e consumo de uma sociedade com excesso de densidade populacional. Ele seria um efeito, não uma causa, da sociedade de acúmulo. A tecnologia interfere no cotidiano, mudando as relações afetivas para relações cada vez mais instrumentais. Sem acúmulo, a grande maioria dos supostos avanços sociais e tecnológicos seriam tão inúteis quanto uma Ferrari é inútil para um aborígene caçador-coletor.

2.4. Educação

Nossa educação visa atender uma demanda de mercado. O sistema educacional, assim como o político e o econômico, serve aos interesses do acúmulo de poder, e não irá mudar substancialmente sem colocar em risco este poder.

Nós somos dependentes de um emprego, logo somos forçados a cumprir uma função que sirva à sociedade na qual estamos inseridos. Quando não encontramos uma função que gere status suficiente, perdemos nosso valor para a sociedade. A escola se rendeu ao processo de modernização e se transformou numa fábrica de engrenagens para a máquina civilizacional, seja ela eficiente ou ineficiente. Sua eficiência depende mais do interesse de manutenção de uma ordem social capitalista: é interessante que somente alunos de classe alta se adaptem o suficiente para obter os cargos mais elevados, tendo acesso a uma “educação de qualidade”, por exemplo. Dar acesso à educação a pessoas pobres seria uma ameaça à manutenção do status social hereditário.

Nascemos na civilização, mas o processo de adaptação a este modo de vida é um processo de adestramento. É violento, tanto para o corpo como para a mente. Apesar disso, somos levados a crer que a crueldade e a injustiça estão na própria vida, e não na civilização, e que evitar tal adestramento e repressão resultaria em indivíduos inadaptados, que seriam excluídos da sociedade.

2.5. Assimilação

A economia de mercado tem uma expansão intrusiva, ela adentra todos os aspectos da vida humana. Mesmo as oposições ao mercado podem se tornar produtos para ser consumidos pelos descontentes. Chamamos isso de assimilação. O mercado absorve tudo que é usado contra ele numa velocidade incrível.

Para evitar a assimilação, é preciso negar os pressupostos, e não simplesmente os aspectos superficiais da economia e da cultura. Criar uma sub-cultura anti-mercado ou anti-capitalista é jogar na lógica do mercado.

2.6. Mito da natureza

Um dos efeitos da vida civilizada é que criamos uma imagem distorcida de tudo que é natural. É comum opor natureza à civilização, mas essa dicotomia é enganadora. Muito do que tentamos definir como natural e oposto à civilização é na verdade algo idealizado pela cultura civilizada. A natureza não é hostil nem dócil, não pode ser divinizada nem vista como maligna. Mesmo a concepção de uma natureza indiferente é tratada como uma concepção pessimista ou niilista, o que aponta para uma expectativa inerente desta cultura de que a natureza “tome partido” em relação à civilização.

2.7. Falsas oposições

A civilização gera falsos conflitos internos, isto é, falsas bifurcações. O progresso contínuo é a substituição contínua do velho pelo novo, e assim a civilização também pode criticar o que anteriormente a sustentava quando possui um substituto mais eficiente para fazer exatamente a mesma coisa. Muitos movimentos se perdem na crítica do que já é obsoleto à civilização, e defendem coisas que beneficiam novas formas de poder mais sutil, ao invés de criticar o poder em si. Quando a hipocrisia dessa crítica é desmascarada, reinicia o ciclo de defensores das formas de poder explicitamente autoritárias ou totalitárias.

2.8. História

A maioria das pessoas não consegue compreender o verdadeiro lugar da civilização na história humana. Quando pensamos em civilização, pensamos em algo tão abrangente que não vemos nada de humano fora dela. Mas o fato é que os homens não surgiram civilizados. A civilização é uma criação humana, e é totalmente opcional. Ela ocupa menos de 1% da história humana. O fato de que ainda usamos conceitos como “pré-história” apenas aponta que o conceito de história que nós usamos está contaminado pelo enviesamento civilizacional.

2.9. Desejo

Nascemos com as mesmas necessidades de nossos ancestrais mais distantes. Mas nós criamos novos desejos para preencher o vazio causado pela incapacidade de termos nossas necessidades mais profundas verdadeiramente supridas. Destituídas do seu sentido original, as necessidades que antes eram saudáveis se tornam buscas patológicas pelo que não pode ser alcançado, criando neuroses.

2.10. Ética

A ética civilizada tem como valor central a preservação de sua ordem social. Como a ordem social civilizada é dependente de seu sistema produtivo, podemos afirmar que o fundamento ético do modo de vida civilizado é a eficiência da produção. A ética do abolicionismo penal, da libertação animal ou libertação da terra, assim como a perspectiva ética de preservação das culturas nativas e da decolonialidade, tem relações estreitas com o que se poderia chamar de crítica ética à civilização.

2.11. Quantificação

A medição do tempo é essencial para o controle das ações humanas. Descartes, Galileu e Leibniz eram fascinados por relógios, e não é de se desprezar a influência dos conceitos mecânicos em nossa vida. Na análise quantitativa, os seres são decompostos e reduzidos à soma das funções observáveis de seus componentes. A própria sociedade passou a ser objeto de estudo quantitativo, e este conhecimento auxilia a manutenção de poder político e econômico.

Se o modelo de mundo da ciência mecanicista é o relógio, o modelo do paradigma informacional é o computador. A visão cibernética ou virtual da vida pretende abranger esta em todos os aspectos, sejam físicos, biológicos ou psicológicos. Não importa o quanto se critique a razão instrumental, os pressupostos da visão civilizadora continuam indicando a instrumentalização como único modo válido de interação. Todos os povos que criaram grandes desenvolvimentos técnicos e científicos estavam compromissados com a expansão e a concentração de poder, e estavam embasados por uma filosofia que dava um valor sublime, às vezes religioso, à matemática e à quantificação da vida.

2.12. Evolucionismo social

A teoria da evolução explica aquilo que se apresenta na natureza, mas é por vezes usada para explicar o que não se apresenta. O evolucionismo social geralmente serve a fins ideológicos, e não à verdade científica. Por exemplo, é comum pensar que nossa sociedade represente não apenas o próximo paradigma evolutivo para todo o universo, mas também uma nova base sobre a qual todo o resto da evolução deve necessariamente convergir e se expandir.

O verdadeiro objeto de foco do evolucionismo social é o cérebro. A evolução é transformada num imperativo que supera qualquer valor moral, e de fato qualquer outro valor constituído até então. A inteligência passa a significar poder de conseguir o que se quer. Ao invés de nos encontrarmos compreendidos no que é pré-existente, a afirmação da liberdade humana significa adaptar-se à inteligência civilizacional.

3. Esperança

Diante da possível validade de uma crítica radical à civilização, surge uma pergunta: o que poderia ser feito? Há alguma viabilidade na crítica à civilização, ou ela seria uma crítica vazia, meramente destrutiva, que visa apenas o niilismo conformista? Minha posição, tendo estudado isso desde 2004, é que essa viabilidade depende do interesse das pessoas, da disposição de encarar o desafio de repensar seus pressupostos e não se conformar automaticamente à civilização, por pura falta de opção. Há diversas maneiras de fazer isso, que não serão assunto desse artigo, mas que estão ao alcance de qualquer pessoa realmente interessada nesse assunto. Eu tenho me dedicado a conversar com pessoas sobre isso há muitos anos, essas experiências têm tido um saldo muito positivo.

Em primeiro lugar, é preciso evitar certa armadilha de exigir uma solução antes que o problema tenha sido de fato encarado e compreendido. Essa exigência serve mais como desculpa para evitar a crítica. A pessoa tende a pensar que se não houver uma solução dentro dos seus moldes, então não é um problema real. Para compreender o problema é preciso questionar os pressupostos mais profundamente arraigados em nossa sociedade. Em outras palavras, a perspectiva eco-anarquista de-civilizacional está atualmente restrita a uma pequeníssima parcela da população. Com a crise ambiental e política se aprofundando, e as discussões sobre civilização também, é possível que vejamos cada vez mais pessoas com uma perspectiva mais crítica quanto à civilização.

A primeira coisa a se fazer quando se compreende que a civilização é um problema seria conversar sobre isso com diversas pessoas. Este não é obviamente um problema trivial, como uma lâmpada queimada, que basta ir lá e trocar. É preciso um tempo para assimilar o que significa criticar a civilização, e então se encaminhar para alguma prática. Eu levei muitos anos, mesmo com bastante informação e disposição de aprender. Não espero que alguém saia criticando a civilização tendo somente lido esse texto. Seria extremamente precipitado se isso acontecesse.

Alguns problemas são tão grandes que não há nada que se possa fazer imediatamente, seja pessoalmente ou em grupo. Como se resolve o patriarcado, por exemplo? O que se pode fazer é criar formas de resistência, e aos poucos ir criando, coletivamente, outro mundo. Escrever textos como esse é a forma que eu encontrei de resistência e um chamado para essa criação. Outros encontram outras formas. Como não se trata de um problema técnico, político ou econômico no sentido tradicional, mesmo propostas socialistas ou anarquistas (superação da sociedade capitalista e transição para uma sociedade comunista, sem classes e sem propriedade privada dos meios de produção) e as ações políticas em movimentos sociais podem não ser amplas o suficiente para abranger uma crítica radical à civilização. Mas isso de modo algum significa que as duas coisas se excluem.

Este trabalho é apenas um resumo, uma apresentação de um trabalho muito maior, que está incompleto até o momento. Qualquer comentário, crítica ou correção será bem-vinda.

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