Título: Stirner não apoiava o Capitalismo, seu Maldito Idiota!
Autor: Dr. Bones
Data: 18/11/2016
Fonte: https://theanarchistlibrary.org/library/dr-bones-the-stirner-wasn-t-a-capitalist-you-fucking-idiot-cheat-sheet
Notas: Traduzido por Insubordinados! e Guilherme Henrique C.

“é verdade que devemos primeiro fazer uma coisa por nossa própria causa, egoísta, antes de podermos fazer algo a respeito – e, nesse sentido, mesmo à parte de quaisquer esperanças materiais, também somos comunistas por egoísmo, por egoísmo queremos ser humanos, não meros indivíduos”. (Engels á Max Hildebrand, comentando sobre Stirner, 1889)*


O meio egoísta é uma fera estranha e complexa, nitidamente dividido entre alguns dos leitores mais antigos de Stirner e a nova leva de jovens. Debates acalorados fervilham pela internet (embora eu preferisse vê-los nas ruas) sobre o que diabos Stirner estava tentando transmitir em sua obra-prima, O Único e sua Propriedade [1].

As trincheiras parecem estar traçadas em linhas geracionais: os leitores mais velhos de Stirner, principalmente da Geração X, parecem acreditar que Stirner é um arqui-capitalista ou um grande vilão que defende a competição ilimitada a qualquer custo; os leitores mais jovens veem Stirner como um defensor de um egoísmo que desafia as leis, a moral e as regras dos ricos, inspirando os pobres a começarem a trabalhar em seu próprio interesse.

É claro que existem outros que são universalmente ridicularizados por sua pura idiotice (Paul O'Sullivan me vem à mente) que, de alguma forma, pensam que Stirner era um defensor do nacionalismo branco. Se você algum dia os encontrar no mundo real, é aconselhável cuspir na cara deles enquanto grita "BELOS SPOOKS, NERD![2]".

Ok, Estou divagando.

O que sempre me intrigou nessa divisão é que os leitores mais velhos de Stirner nunca pareciam chegar ao fim de "O Único e sua Propriedade", ou sequer se davam ao trabalho de ler a explicação de Stirner sobre alguns de seus conceitos mais complexos em "Os Críticos de Stirner" (Stirner’s Critics) [3]. Eles o viam criticar o comunismo, riam e concluíam que Stirner DEVE ser capitalista, pelo tanto que ele fala sobre como o comunismo é uma merda.


O que essas pessoas se esquecem é que o comunismo contra o qual Stirner pregava era do mesmo tipo criticado por Kropotkin e Bakunin, a variante marxista obcecada pelo controle total e pela tomada do poder estatal. Stirner percebeu corretamente que o marxismo não libertava os pobres, mas os fetichizava. Eles permaneceriam para sempre “o proletariado”, em vez de se tornarem os indivíduos únicos que sempre foram. Uma breve visita à União Soviética comprova isso. Ainda assim, Stirner não era capitalista, e a segunda metade de “O Único e sua Propriedade” aborda seu conceito de União, bem como a insensatez da “sociedade de mercantes” que ele observava ao seu redor.


Não acho que seja um grande salto presumir que os mais velhos nunca se deram ao trabalho de LER Stirner, e depois do 45º debate online sobre “você não pode ter comunismo e egoísmo ao mesmo tempo”, cansei de desenterrar exemplares de "O Único e sua Propriedade", lê-los atentamente e fornecer as citações que esses porcos capitalistas imbecis nunca se deram ao trabalho de ler.


Percebi que outros também estavam cansados ​​disso.


Então, num ato de amor egoísta, compilei as citações aqui para que você as use e estude livremente sempre que o fantasma do "livre mercado" ou outras bobagens vis ousarem macular o nome de São Max. Esta página será atualizada conforme novas citações forem encontradas e mais argumentos forem apresentados.

Na Guerra de Todos Contra Todos, somos aconselhados a agir em nosso próprio interesse, e só um tolo confundiria o interesse de seus chefes com o seu próprio. Aproveite!

“Stirner se opunha totalmente ao socialismo em qualquer forma!”


Egoísmo, como Stirner o usa, não se opõe ao amor nem ao pensamento; não é inimigo da doce vida de amor, nem da devoção e do sacrifício; não é inimigo do calor íntimo, mas também não é inimigo da crítica, nem do socialismo, nem, em suma, de qualquer interesse real. Não exclui nenhum interesse. Dirige-se apenas contra o desinteresse e o que não interessa; não contra o amor, mas contra o amor sagrado, não contra o pensamento, mas contra o pensamento sagrado, não contra os socialistas, mas contra os socialistas sagrados, etc.” – Stirner’s Critics.


“Stirner se opunha a ideias tolas como o amor e trabalho em grupo!”

“Mas ‘o egoísta é aquele que pensa apenas em si mesmo!’ — Este seria alguém que não conhece nem aprecia todas as alegrias que advêm da convivência com os outros, ou seja, de pensar também nos outros, alguém que carece de inúmeros prazeres — portanto, um tipo de pessoa pobre. Mas por que esse solitário desolado seria um egoísta em comparação com outros tipos mais ricos? Certamente, por muito tempo, nos acostumamos a considerar a pobreza uma desgraça, um crime, e os socialistas sagrados provaram claramente que os pobres são tratados como criminosos. Mas os socialistas sagrados tratam aqueles que, aos seus olhos, são desprezivelmente pobres dessa maneira, da mesma forma que a burguesia trata os seus pobres.”

Mas por que alguém que é menos apegado a um determinado interesse deveria ser considerado mais egoísta do que aquele que possui esse interesse? A ostra é mais egoísta do que o cachorro? O mouro é mais egoísta do que o alemão? O catador de sucata judeu, pobre e desprezado, é mais egoísta do que o socialista entusiasta? O vândalo que destrói obras de arte pelas quais não sente nada é mais egoísta do que o conhecedor de arte que trata as mesmas obras com grande amor e cuidado porque tem apreço e interesse por elas? E agora, se alguém — deixamos em aberto se tal pessoa pode realmente existir — não encontra nenhum interesse “humano” nos seres humanos, se não sabe como apreciá-los como seres humanos, não seria essa pessoa um egoísta mais pobre em relação a esse interesse, em vez de ser, como afirmam os inimigos do egoísmo, um modelo de egoísmo? Quem ama um ser humano é mais rico, graças a esse amor, do que quem não ama ninguém.” – Stirner’s Critics.


“Stirner era a favor do livre mercado e da competição!”

Será que a ‘livre concorrência’ é realmente ‘livre’? Aliás, será mesmo uma ‘concorrência’ — ou seja, uma concorrência entre pessoas — como se apresenta, pois é nesse título que fundamenta seu direito? Ela teve origem, como se sabe, na libertação das pessoas de todo domínio pessoal. Será que é ‘livre’ uma concorrência que o Estado, esse governante do princípio cívico, cerca com mil barreiras? Há um rico fabricante fazendo um negócio brilhante, e eu gostaria de competir com ele. ‘Vá em frente’, diz o Estado, ‘não tenho objeções a fazer à sua pessoa como concorrente’. ‘Sim’, respondo, ‘mas para isso preciso de espaço para construir, preciso de dinheiro!’ ‘Que pena; mas, se você não tem dinheiro, não pode competir’. “Você não deve tomar nada de ninguém, pois eu protejo a propriedade e lhe concedo privilégios.” A livre concorrência não é “livre”, porque me faltam as COISAS para competir. Contra a minha pessoa não se pode fazer objeção, mas como não tenho as coisas, a minha pessoa também deve recuar. E quem tem as coisas necessárias? Talvez aquele fabricante? Ora, dele eu poderia tomá-las! Não, o Estado as possui como propriedade, o fabricante apenas como feudo, como posse.

Mas, como não adianta tentar com o fabricante, vou competir com aquele professor de jurisprudência; o homem é um tolo, e eu, que sei cem vezes mais do que ele, esvaziarei sua sala de aula. “Você estudou e se formou, amigo?” Não, mas e daí? Entendo perfeitamente o que é necessário para o ensino nessa área. “Desculpe, mas a competição não é ‘livre’ aqui. Contra você não há nada a dizer, mas o que falta é o diploma de doutor. E esse diploma eu, o Estado, exijo. Peça-me respeitosamente primeiro; depois veremos o que fazer.”

Esta é, portanto, a “liberdade” de competição. O Estado, meu senhor, é quem primeiro me qualifica para competir.

Mas será que as pessoas realmente competem? Não, novamente, apenas coisas! Dinheiro em primeiro lugar, etc.” – O Único e sua Propriedade.


“Stirner era totalmente oposto a uma sociedade sem mercado/movimentos de massa /luta de classes!”


As pessoas introduziram a competição porque a viam como benéfica para todos; concordaram com ela e a experimentaram coletivamente. Essa coisa, esse isolamento e separação, é em si um produto da associação, do acordo, das convicções compartilhadas, e não apenas isolou as pessoas, mas também as conectou. Era um status legal, mas essa lei era um laço comum, uma federação social. Na competição, as pessoas chegam a um acordo, talvez da mesma forma que caçadores em uma caçada podem achar benéfico para a caçada e para os objetivos de cada um se dispersarem pela floresta e caçarem "isolados". Mas o que é mais útil é discutível. E agora, certamente, descobre-se — e, aliás, os socialistas não foram os primeiros a perceber isso — que na competição, nem todos encontram seu lucro, sua desejada "vantagem privada", seu valor, seu interesse real. Mas isso só se manifesta por meio de cálculos egoístas ou mesquinhos.

Entretanto, alguns elaboraram sua própria definição de egoísmo e o consideram simplesmente como “isolamento”. Mas o que o egoísmo tem a ver com isolamento? Eu me torno egoísta assim, por fugir das pessoas? Posso me isolar ou me sentir sozinho, mas não sou, por isso, nem um pouco mais egoísta do que aqueles que permanecem entre as pessoas e desfrutam do contato com elas. Se me isolo, é porque não encontro mais prazer na sociedade, mas se, ao contrário, permaneço entre as pessoas, é porque elas ainda me oferecem muito. Permanecer não é menos egoísta do que se isolar.

É claro que, na competição, cada um age por si; mas se a competição desaparecesse porque as pessoas percebem que a cooperação é mais útil do que o isolamento, não seria cada um ainda egoísta em sociedade, buscando apenas o próprio benefício? Alguém objetará que isso acontece às custas dos outros. Mas ninguém busca o benefício às custas dos outros, porque os outros já não querem ser tão tolos a ponto de deixar que alguém viva às suas custas.” – Stirner’s Critics





“Stirner não dava a minima para os pobres!”

(Nota: No Único e sua Propriedade, Stirner apresenta um argumento incrível em defesa da forma mais pura de comunização em um parágrafo extenso, razão pela qual acredito que muitos não o leram. Vou dividi-lo em partes menores para facilitar a leitura.)


Então, de que se protege a vossa propriedade, criaturas privilegiadas? — e respondem a si mesmos: Pela nossa abstenção de interferência! E pela nossa proteção! E o que nos dão em troca? Chutes e desprezo para com o “povo comum”; vigilância policial e um catecismo cuja frase principal é: “Respeite o que não é seu, o que pertence aos outros! Respeite os outros, e especialmente os seus superiores!” Mas nós respondemos: “Se queres o nosso respeito, compra-o por um preço que nos seja conveniente. Deixaremos a vossa propriedade, se nos derem uma contrapartida justa por esta entrega.


Na verdade, que equivalente um general em tempos de paz oferece pelos muitos milhares de sua renda anual? — e que equivalente oferece pelas centenas de milhares e milhões anuais? Que equivalente vocês oferecem por mastigarmos batatas e observarmos calmamente enquanto vocês engolem ostras? Apenas comprem nossas ostras pelo mesmo preço que pagamos pelas batatas de vocês, e então poderão continuar a comê-las. Ou vocês acham que as ostras não nos pertencem tanto quanto a vocês? Vocês vão protestar contra a violência se estendermos as mãos e ajudarmos a consumi-las, e vocês têm razão. Sem violência, não as obtemos, assim como vocês não as obtêm sem nos violentarem.”

Mas aceitem as ostras e pronto, e vamos considerar nossa propriedade mais próxima, o trabalho; pois o resto é apenas posse. Nós nos esforçamos por doze horas, suando a camisa, e vocês nos oferecem alguns groschen [4] por isso. Então aceitem o mesmo pelo seu trabalho também. Não estão dispostos? Vocês imaginam que nosso trabalho é ricamente recompensado com esse salário, enquanto o de vocês, por outro lado, vale um salário de muitos milhares. Mas, se vocês não valorizassem tanto o seu trabalho e nos dessem uma chance melhor de obter valor com o nosso, então poderíamos, se a situação exigisse, realizar coisas ainda mais importantes do que vocês realizam por muitos milhares de táleres [5]; e, se vocês recebessem apenas salários como os nossos, logo se tornariam mais trabalhadores para receber mais.

Mas, se vocês nos prestarem algum serviço que nos pareça valer dez ou cem vezes mais do que o nosso próprio trabalho, porque, então receberão cem vezes mais por ele também; nós, por outro lado, também pretendemos produzir para vocês coisas pelas quais vocês nos recompensarão mais do que com o salário diário comum.

Nós estaremos dispostos a conviver em harmonia a noite toda, contanto que primeiro concordassemos com isto: que nenhum de nós precise mais oferecer nada ao outro. Então, talvez possamos ir tão longe a ponto de até mesmo pagar aos aleijados, doentes e idosos um preço justo para que não nos abandonem pela fome e pela miséria; pois, se queremos que vivam, é justo que também compremos a realização da nossa vontade. Digo "comprar", e, portanto, não me refiro a uma miserável "esmola". Pois a vida deles pertence até mesmo àqueles que não podem trabalhar; se (seja qual for o motivo) não quisermos que nos tirem esta vida, só podemos garantir isso por meio de compra; aliás, talvez (talvez por gostarmos de ter rostos amigáveis ​​ao nosso redor) até desejemos uma vida confortável para eles. Em suma, não queremos que vocês nos ofereçam nada, mas também não lhes ofereceremos nada.

Durante séculos, distribuímos esmolas a vocês por pura bondade — e estupidez —, demos aos pobres apenas o mínimo necessário e entregamos aos senhores o que lhes pertence, e não o que lhes é devido. Agora, abram suas carteiras, pois, a partir de agora, nossos produtos terão um aumento de preço considerável. Não queremos tirar nada de vocês, absolutamente nada, apenas que paguem melhor pelo que desejarem.


O que você tem então? “Tenho uma propriedade de mil acres.” E sou seu lavrador, e de agora em diante cuidarei de seus campos por apenas um táler por dia de salário. “Então, aceitarei outro.” Você não encontrará nenhum, pois nós, lavradores, não fazemos mais de outra forma, e, se aparecer alguém que aceite menos, tome cuidado conosco. Há também a empregada doméstica, que agora exige o mesmo valor, e você não encontrará mais nenhuma por menos do que isso. “Porque, então, acabou para mim.” Não tão depressa! Você certamente ganhará tanto quanto nós; e, se não for assim, tiraremos tanto que você terá com o que viver como nós. “Mas estou acostumado a viver melhor.” Não temos nada contra isso, mas não é da nossa conta; se você conseguir lucrar mais, vá em frente. Será que vamos alugar por um preço menor para que você tenha uma vida boa? O rico sempre se esquiva dos pobres com as palavras: “O que me importa a sua necessidade? Cuide de como você se vira no mundo; isso é problema seu, não meu.” Pois bem, que seja problema nosso, então, e que não deixemos que os meios que temos para gerar valor para nós mesmos sejam roubados pelos ricos.

“Mas vocês, incultos, realmente não precisam de tanto.” Bem, estamos aceitando um pouco mais para que, com isso, possamos adquirir a cultura de que talvez precisemos. “Mas, se vocês rebaixarem os ricos dessa forma, quem sustentará as artes e as ciências no futuro?” Ah, bem, precisamos compensar isso com a quantidade; nos juntamos, o que rende uma boa quantia — além disso, vocês, ricos, agora só compram os livros mais sem graça e as Madonas [6] mais lamentáveis ​​ou um par de pernas de dançarinas animadas. “Ó, igualdade maldita!” Não, meu bom senhor, nada de igualdade. Só queremos valer o que merecemos e, se você vale mais, contará com mais também. Só queremos valer o nosso preço e que pense em nos demonstrar que vale o preço que você está disposto a pagar.” – O Único e sua Propriedade


“Stirner era contra revolução/comunismo!”

“O egoísmo adota outro método para erradicar a ralé despossuída. Ele não diz: Espere pelo que o conselho da equidade lhe concederá em nome da coletividade (pois tal concessão ocorria nos “Estados” desde os tempos mais remotos, cada um recebendo “segundo a sua porção”, e, portanto, de acordo com a medida em que cada um era capaz de merecê-lo, de adquiri-lo pelo serviço), mas sim: Apodere-se e tome o que você precisa! Com isso, declara-se a guerra de todos contra todos. Só eu decido o que terei.”

Ora, isso não é realmente nenhuma novidade, pois os egoístas sempre agiram assim! Também não é necessário que a coisa seja nova, basta que haja consciência de seu presente. Mas esta última não poderá reivindicar grande antiguidade, a menos que se leve em conta o direito egípcio e espartano; pois quão pouco corrente ela é fica evidente até mesmo na restrição acima, que fala com desprezo dos "egoístas". É preciso saber apenas isto: que o procedimento de se apropriar não é desprezível, mas manifesta o ato puro do egoísta em comunhão consigo mesmo.

Somente quando não espero nem de indivíduos nem de uma coletividade o que posso dar a mim mesmo, somente então me liberto das armadilhas do amor; a ralé deixa de ser ralé apenas quando toma posse. Somente o temor de se apoderar, e a punição correspondente, a transforma em ralé. Somente esse apoderar-se dela é pecado, crime — somente esse dogma cria uma ralé. Pois o fato de a ralé permanecer o que é, é culpa dela (por conferir validade a esse dogma), assim como, principalmente, daqueles que, "em benefício próprio" (para usar sua palavra favorita), exigem que o dogma seja respeitado. Em suma, a falta de consciência dessa "nova sabedoria", a velha consciência do pecado, é a única culpada.

Se os homens chegarem ao ponto de perder o respeito pela propriedade, todos terão propriedade, pois todos os escravos se tornarão homens livres assim que deixarem de respeitar o senhor como senhor. As uniões, então, também nesse aspecto, multiplicarão os recursos do indivíduo e protegerão sua propriedade atacada.” – O Único e sua Propriedade


“Stirner não advogava pelo Comunismo!”

Abolir a concorrência não equivale a favorecer a guilda. A diferença é a seguinte: na guilda, a panificação, etc., é assunto dos membros da guilda; na concorrência, é assunto de concorrentes ocasionais; na união, daqueles que necessitam de produtos de panificação e, portanto, o meu assunto, o seu, não é assunto nem do padeiro da guilda nem do padeiro concessionário, mas sim assunto dos associados.”

Se eu não me preocupar com os meus próprios assuntos, terei de me contentar com o que os outros me concederem. Ter pão é assunto meu, meu desejo e anseio, e, no entanto, as pessoas deixam isso para os padeiros e esperam, no máximo, obter, através de suas disputas, de suas tentativas de se sobressair, sua rivalidade — em suma, de sua competição — uma vantagem com a qual não se podia contar no caso dos membros da guilda que detinham integralmente e exclusivamente a propriedade da franquia de panificação. — O que cada um precisar, cada um também deve ajudar a obter e produzir; é assunto seu, propriedade sua, não propriedade do mestre da guilda ou do mestre da concessionária.” – O Único e sua Propriedade.


“ {Nós} é um Spook/Stirner não advogava grupos de nenhum tipo!”

(Stirner é contra a Sociedade e nós também, porém nos desejamos A UNIÃO!)


Você traz para uma união todo o seu poder, sua competência, e se faz contar; em uma sociedade, você é empregado, com sua força de trabalho; na primeira, você vive de forma egoísta, na segunda, de forma humana, isto é, religiosa, como um “membro do corpo deste Senhor”; a uma sociedade você deve o que tem e está vinculado a ela por dever, possuido por “deveres sociais”; numa união você a utiliza e a abandona de forma desonesta e infiel quando não vê mais como usá-la. Se uma sociedade é mais do que você, então ela é mais para você do que você mesmo; uma união é apenas seu instrumento, ou a espada com a qual você afia e aumenta sua força natural; a união existe para você e através de você, a sociedade, por sua vez, reivindica você para ela e existe mesmo sem você; em suma, a sociedade é sagrada, a união é sua; a sociedade o consome, você consome a união.

Contudo, as pessoas não hesitarão em objetar que o acordo firmado possa se tornar novamente um fardo para nós e limitar nossa liberdade; dirão que nós também chegaríamos a essa conclusão, que “todos devem sacrificar parte de sua liberdade em prol do bem comum”. Mas o sacrifício não seria feito em benefício do “bem comum”, assim como não firmei o acordo em benefício do “bem comum” ou de qualquer outro indivíduo; antes, o fiz apenas em meu próprio benefício, por egoísmo. [Literalmente, “benefício próprio”] Mas, quanto ao sacrifício, certamente “sacrifico” apenas aquilo que não está ao meu alcance, ou seja, não “sacrifico” absolutamente nada.” – O Único e sua Propriedade.

OU

Seria outra coisa, de fato, se Hess quisesse ver uniões egoístas não no papel, mas na vida real. Fausto se encontra em meio a uma dessas uniões quando exclama: “Aqui sou humano, aqui posso ser humano” — Goethe diz isso em preto e branco. Se Hess observasse atentamente a vida real, à qual tanto atenta, veria centenas dessas uniões egoístas, algumas passageiras, outras duradouras. Talvez neste exato momento, algumas crianças estejam brincando juntas do lado de fora de sua janela. Se ele as observasse, veria uma união egoísta e lúdica. Talvez Hess tenha um amigo ou um ente querido; então ele sabe como um coração encontra o outro, como seus dois corações se unem egoisticamente para se deleitarem (desfrutarem) um do outro, e como ninguém “fica em desvantagem” nisso. Talvez ele encontre alguns bons amigos na rua e eles o convidem para acompanhá-los a uma taverna para tomar vinho; ele os acompanha como um favor ou se “une” a eles porque isso lhe promete prazer? Deveriam agradecê-lo sinceramente pelo “sacrifício”, ou sabem que, juntos, formam uma “união egoísta” por um breve período?

Certamente, Hess não daria atenção a esses exemplos triviais, pois são tão puramente físicos e tão distintos da sociedade sagrada, ou melhor, da “sociedade humana fraterna” dos socialistas sagrados.” – Stirner’s Critics


“Ajudar as pessoas/querer o melhor para elas/desejar um mundo melhor/literalmente qualquer coisa assim não é Egoísmo!”


Ora, vocês supõem que o altruísmo seja irreal e inexistente em lugar nenhum? Pelo contrário, nada é mais comum! Pode-se até chamá-lo de artigo de moda no mundo civilizado, considerado tão indispensável que, se custa muito em material sólido, as pessoas ao menos se adornam com sua falsificação brilhante e fingem tê-lo. Onde começa o altruísmo? Exatamente onde um fim deixa de ser nosso fim e nossa propriedade, da qual nós, como donos, podemos dispor à vontade; onde se torna um fim fixo ou uma ideia fixa; onde começa a nos inspirar, entusiasmar, fantasiar; em suma, onde se torna nossa obstinação e nosso senhor. Não se é altruísta enquanto se mantém o fim em seu poder; torna-se altruísta apenas naquele que diz: “Aqui estou, não posso fazer diferente”, a máxima fundamental de todos os possuídos; torna-se altruísta no caso de um fim sagrado, através do zelo sagrado correspondente.

Não sou altruísta enquanto o fim permanecer meu, e eu, em vez de me entregar para ser o meio cego de sua realização, deixo-o sempre em aberto. Meu zelo não precisa, por isso, ser mais frouxo do que o do mais fanático, mas, ao mesmo tempo, permaneço em relação a ele gélido, incrédulo e seu inimigo mais irreconciliável; permaneço seu juiz, porque sou seu dono.”

….

“Vocês acreditam que tem seus pensamentos para vocês mesmos e que não precisam prestar contas a ninguém, ou, como vocês também dizem, que só pode prestar contas deles a Deus? Não, seus pensamentos, grandes ou pequenos, pertencem a mim, e eu os manipulo como bem entender.

O pensamento só me pertence quando não tenho receio algum de o expor ao perigo de morte a cada instante, quando não preciso temer a sua perda como uma perda para mim, uma perda de mim mesmo. O pensamento só me pertence quando posso, de fato, subjugá-lo, mas ele nunca pode me subjugar, nunca me fanatiza, nunca me transforma no instrumento da sua realização.

Assim, a liberdade de pensamento existe quando posso ter todos os pensamentos possíveis; mas os pensamentos só se tornam propriedade minha por não poderem se tornar meus mestres. No tempo da liberdade de pensamento, os pensamentos (ideias) governam; mas, se eu alcançar a propriedade sobre o pensamento, eles permanecem minhas criaturas.” – O Único e sua Propriedade.


Os princípios do Ego-Comunismo ou A União dos Egoístas nas próprias palavras de Stirner


“Não sou altruísta enquanto o objetivo final permanecer o meu, e eu, em vez de me entregar para ser o meio cego para a sua realização, deixo-o sempre em aberto.”

A liberdade de pensamento existe quando posso ter todos os pensamentos possíveis; mas os pensamentos só se tornam propriedade apenas quando não podem se tornar mestres.”


“Não contra o amor, mas contra o amor sagrado; não contra o pensamento, mas contra o pensamento sagrado; não contra os socialistas, mas contra os socialistas sagrados, etc.”


“A concorrência livre não é “livre”, porque me faltam as COISAS para concorrer”.


“Que isso seja assunto nosso, então, e que não permitamos que os meios que temos para gerar valor a partir de nós mesmos sejam roubados de nós pelos ricos.”


“Vocês vão protestar contra a violência se estendermos as mãos e ajudarmos a consumi-los, e vocês têm razão. Sem violência, não os obtemos, assim como vocês os obtêm ao praticar violência contra nós.”


“Se os homens chegarem ao ponto de perder o respeito pela propriedade, todos terão propriedade, pois todos os escravos se tornarão homens livres assim que deixarem de respeitar o senhor como tal. As Uniões, então, também nesse aspecto, multiplicarão os recursos do indivíduo e protegerão sua propriedade atacada.”


“Aquilo que todos necessitam, todos devem também ajudar a adquirir e produzir.”

Se uma sociedade é mais do que você, então ela é mais para você do que você mesmo; uma união é apenas o seu instrumento, ou a espada com a qual você afia e aumenta sua força natural; a união existe para você e através de você, a sociedade, por sua vez, reivindica você para ela e existe mesmo sem você; em suma, a sociedade é sagrada, a união é sua; a sociedade o consome, você consome a união.”


Notas da tradução:


*ver: https://anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/o-martelo-filosofico-de-max-stirner2


[1] Consideramos o título da obra em português equivocado, ao passar a ideia errada de alguns conceitos Stirnerianos. O título em inglês, que numa tradução livre poderia ser algo como “O ego e o seu próprio” parece falar mais do que Stirner queria dizer, ainda que também seja um título limitado.


[2] Como bom aluno de Hegel, Stirner usa a ideia de fantasmas (do Inglês, Spooks) para se referir a falsos conceitos, de forma parecida como Marx emprega a ideia de ideologia, ainda que com diferenças significativas. A Internet popularizou os memes com o termo “Spook” e optamos por isso em manter o título original.


[3] No inglês, Stirner’s Critics. Livro onde Stirner aprofunda certos conceitos, respondendo os críticos de sua obra anterior, O Único e sua Propriedade. Até o momento dessa tradução, não encontramos uma tradução desse material em português, aparentemente ela existe, sob o título de Resposta aos Críticos (1846). Optamos por manter, onde se encontra, o nome do livro em inglês, já que as citações usadas por Bones vem da tradução estadunidense. (E por ser mais fácil também).


[4] groschen. Moeda corrente da Alemanha na época de Stirner.


[5] táleres. No inglês, thalers (ou, em português, táleres ou táler) eram grandes moedas de prata que circularam na Europa por quase 400 anos e são as precursoras de moedas modernas como o dólar ou o tólar esloveno.


[6] Madona é um título referente a virgem maria no catolicismo (vem do italiano, ma donna, minha senhora). Provável referência a estátuas ou quadros católicos da mesma. Qualquer semelhança com a cantora pop dos anos 80 é mera coincidência.