#title “Quanto Pior Estiver, Melhor Será” #author Errico Malatesta #LISTtitle Quanto Pior Estiver, Melhor Será #date 26 de junho de 1920 #source MALATESTA, Errico. **Anarquistas, socialistas e comunistas**. São Paulo: Intermezzo; Imaginário, 2014 #lang pt #pubdate 2025-11-28T14:43:33 #authors Errico Malatesta #topics Anarquismo; Reforma; Reformismo; Antimarxismo; #notes Umanità Nova, n° 102. Texto retirado de coletânea impressa Quando, em uma polêmica, quer-se parecer ter razão, é bem cômodo e, portanto, muito comum atribuir certos erros grosseiros ao adversário para, em seguida, refutá-los triunfalmente. Se isso é cômodo, não é, certamente, honesto. Mas os escrúpulos deste gênero não sufocam certos jornalistas nem certos oradores. É assim que, frequentemente, aconteceu-me de ver atribuída a mim a teoria segundo a qual “quanto pior estiver, melhor será”. Tenho aqui sob os olhos o Lavoro de Genebra (20-6-1920) onde está reproduzido um de meus artigos, habilmente truncado, para dele tirar conclusões totalmente opostas ao que quero dizer, e onde se afirma que a teoria segundo a qual “quanto pior estiver, melhor será” é uma “teoria claramente anarquista”. Ora, esta teoria é, quando muito, de origem marxista; se anarquistas puderam, às vezes, referir-se a ela, é porque se deixaram influenciar pelas ideias marxistas e não porque tivesse algo a ver com o anarquismo propriamente dito. São os marxistas que se poderiam perfeitamente felicitar ao verem agravar-se a condição do proletariado: eles consideram, ou pelo menos consideravam a evolução social como determinada por leis fatais e inelutáveis; para eles, a transformação da sociedade deveria vir da concentração, suposta como automática, do capital nas mãos de um número sempre menor de capitalistas; e proclamaram a miséria crescente como uma verdade geral e inevitável. Mas não nós, porque, para nós, o principal fator que determina o sentido da evolução da sociedade é a vontade do homem; apoiamos tudo o que desenvolve e fortalece a vontade e rejeitamos tudo aquilo que a enfraquece. Se quiséssemos resumir em uma única fórmula — o que é sempre arriscado — o que pensamos sobre este problema da influência que as condições materiais exercem sobre o desenvolvimento moral dos indivíduos e, consequentemente, sobre sua vontade, não diríamos “quanto pior estiver, melhor será”, mas, ao contrário, “o apetite vem do comer”. A miséria enfraquece e embrutece, a miséria nunca fez revoluções, quando muito insurreições sem futuro. Eis por que incitamos os trabalhadores a querer e a impor todas as melhorias possíveis e impossíveis, e é por isso que gostaríamos que eles não se resignassem a viver em más condições hoje, esperando o paraíso futuro. E se somos contra o reformismo, não é porque as melhorias parciais não nos interessam, mas porque acreditamos que o reformismo é um obstáculo não somente à revolução, mas até mesmo às reformas. Aquele que se resigna ao mal acaba por habituar-se a ele e por não sentir mais seu peso. Para provar isso, basta lembrar o fato de que, habitualmente, as regiões mais pobres e as categorias mais miseráveis do proletariado são também as menos revolucionárias. Um recrudescimento da miséria, uma grande crise industrial e comercial podem desencadear um movimento insurrecional e ser o ponto de partida de uma transformação da sociedade, porque tocam e atingem pessoas que se habituaram a um bem-estar relativo e toleram mal um agravamento de sua condição. Mas se o movimento não acontece rapidamente, se se deixa passar tempo suficiente para que o povo habitue-se pouco a pouco a um nível de vida inferior, então, a miséria que ocorre perderia todo seu valor revolucionário e outra coisa não seria senão a causa de seu enfraquecimento e embrutecimento. A situação na Itália, hoje, é totalmente revolucionária precisamente porque as condições de vida do proletariado são melhores, e porque o que ele quer aumentou proporcionalmente, enquanto o estado atual da economia nacional é tal que um agravamento considerável e eminente é inevitável se o atual sistema estatal e capitalista subsistir. Hoje, ou é a revolução, e com ela a reorganização da produção em benefício de todos, ou é a miséria abjeta. E o proletariado já está cheio desta miséria.