CONHECER O PASSADO, CONSTRUIR O FUTURO

Resenha do livro Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo en Colombia, editado pelo CILEP


Felipe Corrêa



“Nós do CILEP decidimos nos unir a esse movimento reconhecendo a herança

libertária do anarquismo do século XIX, mas enfatizando especialmente

a construção de um poder social alternativo e libertador que busca transformar,

desde as bases, nossos lugares de vida e de ação política. Assim, nosso

anarquismo, que também no sentido marxista elabora sua práxis partindo

das condições reais e materiais da sociedade, é um anarquismo que prefere

o trabalho conjunto em relação às etiquetas, às ideologias imutáveis e

aos sectarismos. Por essa razão, caminhamos e aprendemos na prática,

nos organizamos de baixo para cima e nos consideramos libertários

e libertárias na medida em que avançamos para a construção do socialismo

a partir da horizontalidade, da autogestão, da ação direta popular e da liberdade.”

CILEP. Hacia un Anarquismo Constructor de Poder Popular.



Ao saber da publicação de Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo en Colombia, organizado pelo Centro de Investigación Libertaria y Educación Popular [Centro de Pesquisa Libertária e Educação Popular] (CILEP) – da Colômbia e do qual sou pesquisador associado –, não pude deixar de ter dois sentimentos distintos: orgulho e surpresa.


Orgulho, pois, como outras obras que vêm sendo publicadas, o livro organizado pelos companheiros colombianos não deixa de refletir, como já coloquei em relação a outros livros recentemente publicados, a maturidade que o anarquismo contemporâneo vem atingindo em distintas localidades do mundo. Surpresa, pois é difícil aceitar que, ainda nos dias de hoje, muito da história clássica do movimento operário e do anarquismo na América Latina esteja por ser contada, e aqueles que se aventuram nesse sentido, encontram muitas dificuldades.


A tradição teórica do anarquismo, mesmo na América Latina, vem sendo permeada por uma noção em grande medida eurocêntrica, a qual tem por foco quase único as experiências fundamentais do nascimento do anarquismo e de seu desenvolvimento a partir de teóricos como P.-J. Proudhon, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin e de movimentos relevantes como a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Comuna de Paris entre tantos outros. Se por um lado é necessário afirmar que retomar esses teóricos e esses episódios clássicos é imprescindível, por outro cabe afirmar que a Europa Ocidental não constitui o único espaço geográfico para um estudo aprofundado do anarquismo e do sindicalismo.


Alguns trabalhos recentes vêm buscando fugir desse já clássico eurocentrismo no que diz respeito ao estudo do anarquismo e do sindicalismo e abarcar, para além dos relevantes casos da Europa, teóricos e experiências de outras partes da Europa, da Ásia, da Oceania, da África e das Américas – e creio que o livro de maior fôlego nesse sentido seja Black Flame: the revolutionary class politics of anarchism and syndicalism [Chama Negra: a política classista e revolucionária do anarquismo e do sindicalismo], de Michael Schmidt e Lucien van der Walt, publicado em 2009, e que precisa urgentemente de traduções para outros idiomas. Com um estudo mais amplo, como fazem esses dois africanos, é possível ir além da Revolução Russa e da Revolução Espanhola e analisar episódios também fundamentais em que o anarquismo foi responsável por impulsionar movimentos de massa envolvendo trabalhadores, camponeses e pobres de todo tipo. Casos ocorridos no México, na Coréia, na Bulgária e na América Latina que possuem toda relevância, tanto para a análise de sua prática quanto para oferecer elementos capazes de aprimorar a teoria anarquista.


Outro livro que vem contribuindo nesse sentido é Los Origines Libertarios del Primero de Mayo: de Chicago a America Latina (1886-1930) [As Origens Libertárias do Primeiro de Maio: de Chicago à América Latina (1886-1930)], organizado por José Antonio Gutiérrez Danton – o qual estamos traduzindo e publicaremos em breve no Brasil. O livro é uma compilação de artigos que refletem sobre o Primeiro de Maio, e portanto, sobre as relações entre o anarquismo e o sindicalismo, em vários países da América Latina: México, Brasil, Argentina, Cuba, Uruguai, Chile, Peru, Equador, Costa Rica e Bolívia, além da Colômbia, que é abordada por um artigo do próprio CILEP.


O artigo “Los Orígenes del Primero de Mayo en Colombia y la Influéncia del anarcosindicalismo” [As Origens do Primeiro de Maio na Colômbia e a Influência do Anarco-Sindicalismo] dos colombianos, assim como vários outros presentes nesse livro sobre o tema, já haviam me surpreendido por evidenciarem o quão pouco sabemos sobre o passado do anarquismo e dos movimentos populares na América Latina. Devo dizer que mesmo pesquisando o anarquismo há mais de 10 anos, a maior parte do conteúdo do livro era desconhecida para mim. Essa surpresa gerou uma reflexão relevante: temos um caldeirão de experiências de suma importância na América Latina, as quais envolveram a participação decisiva dos anarquistas nos movimentos populares – especialmente no sindicalismo – e pouco conhecemos dessas experiências; o que limita seriamente as possibilidades de as analisarmos mais profundamente, buscando delas extrair algumas lições para os dias de hoje.


Como pude ver em vários artigos de Los Origines Libertarios del Primero de Mayo, e como abertamente colocam os companheiros do CILEP em Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo em Colômbia, impressiona que em vários países pouco ou quase nada se conheça sobre a participação anarquista nos movimentos populares. Sobre isso, coloca o CILEP: “não obstante, quase de imediato [ao resolver estudar as origens do anarquismo e do sindicalismo na Colômbia], encontramos uma barreira: as fontes primárias sobre o anarco-sindicalismo colombiano dos princípios do século XX eram escassas”, caracterizadas por uma espécie de silêncio histórico ocorrido por “uma omissão e de uma censura deliberadas, não só da direita, mas também de setores da própria esquerda”. [“Introducción”, pp. 28-29]


Foi nesse contexto amadurecimento do anarquismo colombiano que os companheiros do CILEP decidiram editar Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo em Colômbia com um duplo objetivo: conhecer seu próprio passado de maneira a poder construir um novo futuro.


Para conhecer o passado, o CILEP selecionou quatro artigos sobre anarquismo e sindicalismo na Colômbia. Mauricio Flórez Pinzón, no artigo “Anarquismo y Anarcosindicalismo em Colômbia antes de 1924” [Anarquismo e Anarco-sindicalismo na Colômbia Antes de 1924], analisa o contexto pré-anarquismo do século XIX e o contexto do início do século XX, o qual possibilitou o surgimento de organizações populares, protestos de trabalhadores, e a emergência do próprio anarquismo, o que é destacado pelo autor por meio da experiência do peruano Nicolas Gutarra e a Liga dos Inquilinos de Barranquilla. No segundo artigo, “El Anarcosindicalismo Colombiano de 1924 a 1928” [O Anarco-Sindicalismo Colombiano de 1924 a 1928], o mesmo autor analisa o cume do movimento na Colômbia, enfatizando a participação anarquista nos três congressos operários, a formação do Partido Socialista Revolucionário e a participação estrangeira de militantes destacados como Evangelista Priftis (grego), Filipo Colombo (italiano) e Juan García (espanhol). “El Anarcosindicalismo Colombiano de 1924 a 1928: hacia la claridad ideológica, táctica y organizativa” [O Anarco-Sindicalismo Colombiano de 1924 a 1928: rumo à lucidez ideológica, tática e organizativa], terceiro artigo do livro, de Diego Paredes Goicochea, demonstra que o movimento sindical, a partir de 1924, adquire características em termos ideológicos, táticos/estratégicos e organizativos que distingue o sindicalismo de influência anarquista de então das outras correntes do movimento operário que atuavam nos anos 1920. Fechando as análises do passado, “El Final del Movimiento Autônomo: el anarquismo entre 1928 y 1930” [O Final do Movimento Autônomo: o anarquismo entre 1928 e 1930], de Mauricio Flórez Pinzón, analisa a participação dos anarquistas na greve das bananeiras e o subseqüente declínio do anarquismo colombiano, o qual se consolida durante os últimos anos da década de 1920.


Para pensar o presente e o futuro, a segunda parte do livro conta com dois artigos. O primeiro, “Alternativas a la Crisis Sindical Colombiana desde la Perspectiva del Anarcosindicalismo” [Alternativas à Crise Sindical Colombiana na Perspectiva do Anarco-Sindicalismo], de Luis Alfredo Burbano, que tem como objeto a crise contemporânea do sindicalismo colombiano, e, a partir das clássicas propostas dos anarquistas para o movimento sindical – muitas das quais foram levadas a cabo entre 1924 e 1928 – buscar elementos que sirvam de inspiração e guia para o sindicalismo colombiano, de maneira a superar a hegemonia leninista e social-democrata. Fechando o livro, há um artigo do CILEP, “Anarquismo y Poder Popular: reflexiones a partir de la historia del anarcosindicalismo colombiano de 1924 a 1928” [Anarquismo e Poder Popular: reflexões a partir da história do anarco-sindicalismo colombiano de 1924 a 1928], que volta ao período glorioso do anarquismo na Colômbia para buscar caminhos para o anarquismo contemporâneo; elementos como o abandono do sectarismo, a sintonia com o contexto colombiano e a preocupação em responder às demandas populares possibilitaram aos anarquistas terem uma influência significativa no movimento popular que culminava nos anos 1920. A partir dessas lições, o CILEP extrai elementos que apontam saídas para os problemas do anarquismo visando potencializar suas possibilidades. Para que o “anarquismo continue sendo uma alternativa de emancipação”, enfatiza o CILEP, “ele deve caminhar no mesmo ritmo das lutas do povo e colocar-se novamente no coração do movimento popular”. [Introducción, p. 32]


Com o fluxo e o refluxo, tanto do anarquismo quanto do movimento sindical influenciado pelas estratégias anarquistas, essa análise do passado torna-se fundamental para identificar os gatilhos que possibilitaram tanto a emergência do movimento popular colombiano como as características do anarquismo que lhe permitiram o protagonismo dos anos 1920. Essa análise é também fundamental para entender o que aconteceu para que o sindicalismo de matriz anarquista, o qual era, como dizemos no Brasil, o “vetor social do anarquismo”, entrasse em decadência e, junto com o próprio anarquismo, declinasse no país. Como em vários outros países, há certamente fatores externos e também aqueles que são de responsabilidade dos próprios anarquistas. Cabe, nesse sentido, compreender o fluxo e o refluxo desse movimento e extrair dele as melhores lições, que permitirão seguir caminhando. E essa análise tem de possuir, como coloca nosso companheiro, e também pesquisador do CILEP, José Antonio Gutierrez Danton, a necessária autocrítica:


“Ainda hoje, estamos acostumados a culpar os autoritários, os burocratas e os reformistas por nossas derrotas, e, assim, lavamos nossas mãos das responsabilidades que nos cabem por não termos sido capazes de imprimir uma orientação diferente aos movimentos. Devemos, antes de ser críticos, ser autocríticos. Pois se não somos capazes de reconhecer a porção de responsabilidade que nos cabe, primeiramente, isso significa que não seremos capazes de aprender as lições que nos dizem respeito para poder avançar. Mas também significa que assumimos nossa impotência e nossa irrelevância nas lutas populares. Pois, se a culpa sempre é dos outros, estamos assumindo que nossa presença, como anarquistas, não faz nenhuma diferença, não tem nenhum efeito. Então, a autocrítica deve sempre preceder a crítica na hora de avaliar os fracassos e derrotas. E podemos ir jogando a autocomplacência pela janela: sempre há algo que poderíamos (ou que podemos) fazer melhor. Negar isso não tem nada de revolucionário, mas sim de conservador e de reacionário.” [Problemas e Possibilidades do Anarquismo, p. 112]


A primeira parte de Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo en Colombia dá subsídios para que uma análise crítica e autocrítica se realize e que se possa pensar, a partir dela, a construção de um novo futuro, o que se tenta realizar na segunda parte do livro. Pensando o anarquismo desde uma perspectiva classista e combativa, os artigos do livro têm por objetivo fazer com que o anarquismo retome seu “vetor social”, ou seja, que ele seja capaz de organizar o desorganizado, participar dos setores populares já organizados e, a partir de seus programas, impulsionar um projeto de poder popular capaz de transformar radicalmente a sociedade em que vivemos.


É nisso que o livro tem a contribuir e, por esse motivo, deve ser lido, fundamentalmente pelos latino-americanos, que querem aprender com as histórias de lutas, sangue, suor e barricadas de nosso povo tão sofrido.




Bibliografia:


CILEP (org.). Pasado y Presente del Anarquismo y del Anarcosindicalismo em Colombia. Buenos Aires: Libros de Anarres, 2011.

Danton, José Antonio Gutiérrez. Los Origines Libertarios del Primero de Mayo: de Chicago a America Latina (1886-1930). Santiago: Quimantú, 2010.

__________________________. Problemas e Possibilidades do Anarquismo. São Paulo: Faísca Publicações Libertárias, 2011.

Schmidt, Michael; van der Walt, Lucien. Black Flame: the revolutionary class politics of anarchism and syndicalism. Oakland: AK Press, 2009.