Gilles Deleuze

A Grandeza de Yasser Arafat

Setembro de 1983

A causa palestina trata-se, antes de tudo, do conjunto de injustiças que essas pessoas sofreram e continuam a sofrer. Essas injustiças são atos de violência, mas também ilogicidades, raciocínios falaciosos e falsas garantias que pretendem compensá-las ou justificá-las. Arafat precisou de apenas uma palavra para descrever as promessas quebradas, os acordos violados, no momento dos massacres de Sabra e Shatila: [1] vergonha, vergonha.

Foi dito que isso não é um genocídio. E, ainda, essa é uma história que consiste em um amontoado de [2] Oradours, desde o início. O terrorismo sionista foi praticado, não apenas contra os ingleses, mas, também, contra as aldeias árabes que tiveram de desaparecer; [3] Irgun foi muito ativo nesse aspecto (Deir Yassin). Do começo ao fim, isso envolveu agir não somente como se os palestinos não devessem existir, mas também como se nunca sequer existiram.

Os conquistadores foram aqueles que sofreram o maior genocídio da história. Desse genocídio, os sionistas têm feito um mal absoluto. Mas transformar o maior genocídio da história em um mal absoluto é uma visão religião e mística, e não uma visão histórica. Isso não para o mal; ao contrário, isso dispersa o mal, faz com que isso se derrame novamente sobre outros inocentes, exige reparações que façam com que esses outros sofram parte do que os judeus sofreram (expulsão, confinamento em guetos, desaparecimento como povo). Com meios "mais frios" do que genocídio, chega-se ao mesmo resultado.

Os Estados Unidos e a Europa deviam reparação aos judeus. E fizeram com que um povo, sobre o qual o mínimo que se poderia dizer é que não teve participação alguma e era singularmente inocente de qualquer holocausto, nem sequer tinha ouvido falar dele, pagasse essa reparação. É aqui em que o grotesco começa, assim como a violência. Sionismo, e então o Estado de Israel demandará que os palestinos reconheçam seu direito (ou seus direitos). Mas o Estado de Israel jamais deixará de negar a própria existência de um povo palestino. Eles nunca vão falar dos palestinos, mas sim dos árabes da Palestina, como se tivessem chegado lá por obra do acaso ou por engano. E depois, eles vão agir como se os palestinos expulsos viessem de fora, não falarão da primeira guerra de resistência que os palestinos travaram sozinhos. Já que não reconheceram o direito de Israel, serão transformados em descendentes de Hitler. Mas Israel reserva-se ao direito de negar sua existência de fato. Aqui começa uma ficção que teve de se estender cada vez mais e pesar sobre todos aqueles que defenderam a causa palestina. Essa ficção, essa aposta de Israel, visava fazer com que todos aqueles que contestassem as condições e ações de facto do Estado sionista parecessem antissemitas. Essa operação tem sua origem na política fria de Israel em relação aos palestinos.

Desde o início, Israel nunca escondeu seu objetivo: esvaziar o território palestino. E, melhor ainda, agir como se a Palestina estivesse vazia, destinada sempre aos sionistas. Isso foi claramente uma questão de colonização, mas não no sentido da Europa do século XIX: os habitantes locais não seriam explorados, seriam obrigados a partir. Os que permanecessem seriam transformados, não em uma força de trabalho territorial dependente, mas sim em uma força de trabalho móvel e desvinculada, como se fossem imigrantes colocados em um gueto. Desde o começo, as terras são compradas sob a condição de estarem desocupadas ou poderem ser desocupadas. É um genocídio, mas um no qual o extermínio físico permanece subordinado à evacuação geográfica: sendo todos árabes, os palestinos sobreviventes devem se misturar com os demais árabes. O extermínio físico, embora possa ou não ser confiado a mercenários, certamente está presente. Mas isso não é um genocídio, dizem eles, já que não é o "objetivo final": na realidade, é apenas um meio entre outros.

A cumplicidade dos Estados Unidos com Israel não ascende somente do lobby sionista. Elias Sanbar tem mostrado claramente como os Estados Unidos redescobriram em Israel um aspecto da sua própria história: o extermínio dos índios que, também nesse caso, foi apenas em parte diretamente físico. Tratava-se de um esvaziamento, como se nunca tivessem existido índios, exceto nos guetos que foram criados para eles como imigrantes vindos de dentro. Em muitos aspectos, os palestinos são os novos índios, os índios de Israel. A análise marxista revela os dois movimentos complementares do capitalismo: impor limites constantemente, dentro dos quais desenvolve e explora seu próprio sistema; e sempre ampliar esses limites, ultrapassá-los para recomeçar sua própria fundação em uma escala maior e mais intensa. Ultrapassar limites foi um ato do capitalismo americano, o Sonho Americano, apropriado por Israel, assim como o sonho de uma Grande Israel em território árabe, às custas dos árabes.

Como o povo palestino aprendeu a resistir e eles ainda estão resistindo; como um povo de uma linhagem antiga se tornou uma nação armada; como eles criaram um corpo que não apenas os representava, mas os incorporava, fora de seu território e sem um Estado: todos esses eventos exigiam um grande personagem histórico, alguém que, poderíamos dizer do ponto de vista ocidental, poderia ter saído de Shakespeare, e esse foi Arafat. Essa não foi a primeira vez na história que algo assim aconteceu (a França pode pensar na França Livre, exceto pelo fato de que tinha uma base popular menor no início). E todas as ocasiões em que uma solução ou um elemento de solução era possível, ocasiões que os israelenses destruíram deliberadamente e conscientemente, também não estão acontecendo pela primeira vez na história. Os israelenses se apegaram à sua posição religiosa de negar não apenas o direito palestino, mas também o fato palestino. Eles se livraram do próprio terrorismo tratando os palestinos como terroristas externos. E precisamente porque os palestinos não eram isso, mas sim um povo específico, tão diferente dos outros árabes quanto os europeus podem ser entre si, eles só podiam esperar ajuda ambígua dos próprios estados árabes, ajuda que às vezes se transformava em hostilidade e extermínio quando o modelo palestino se tornava perigoso para eles. Os palestinos passaram por todos os ciclos infernais da história: o fracasso das soluções sempre que elas eram possíveis, as piores inversões de aliança das quais sofreram as consequências, as promessas mais solenes não cumpridas. E foi com tudo isso que sua resistência se alimentou.

É bem possível que um dos objetivos dos massacres de Sabra e Shatila tenha sido desacreditar Arafat. Ele só consentiu com a retirada dos combatentes, cuja força permaneceu intacta, sob a condição de que a segurança de suas famílias fosse absolutamente garantida pelos Estados Unidos e até mesmo por Israel. Após os massacres, sua única palavra foi "vergonha". Se a crise subsequente para a OLP resultou, a longo prazo, em uma integração a um Estado árabe ou em uma dissolução no fundamentalismo islâmico, então se poderia dizer que o povo palestino efetivamente desapareceu. Mas isso ocorreria em tais condições que o mundo, os Estados Unidos e até mesmo Israel não deixariam de lamentar as oportunidades perdidas, incluindo aquelas que ainda permanecem possíveis hoje. À arrogante fórmula de Israel, "Não somos um povo como os outros", respondem os palestinos, sem cessar, com o grito que foi invocado na primeira edição da Revue d'études palestiniennes: "só queremos ser isso..."

Ao liderar a guerra terrorista no Líbano, Israel acreditava que poderia suprimir a OLP e privá-la do apoio do povo palestino, já destituído de suas terras. E talvez esteja conseguindo, visto que em Trípoli, cercada por tropas, não há nada além da presença física de Arafat entre os seus, em uma espécie de grandeza solitária. Mas o povo palestino não perderá sua identidade sem que, em seu lugar, seja criado um duplo terrorismo: o de Estado e o da religião, que se beneficiará de seu desaparecimento e tornará impossível qualquer acordo pacífico com Israel. Da guerra no Líbano, o próprio Israel não sairá apenas moralmente dividido e economicamente desorganizado; encontrará o reflexo de sua própria intolerância. Uma solução política, um acordo pacífico, só é possível com uma OLP independente, que não tenha desaparecido em um Estado já existente e não se perca entre os diversos movimentos islâmicos. O desaparecimento da OLP seria apenas uma vitória para as forças cegas da guerra, indiferentes à sobrevivência do povo palestino.




NOTAS DO TRADUTOR:


[1] Massacres de Sabra e Shatila: Massacres de palestinos em campos de refugiados no Líbano, em 1982, perpetrados por falangistas libaneses com o auxílio do exército israelense.

[2] Oradour: Aldeia francesa destruída pela ocupação das tropas nazistas em retaliação à atividade da Resistência logo após o início da invasão do Dia D.

[3] Irogun: Organização sionista de extrema-direita que usou táticas terroristas contra as forças britânicas e outras, na Palestina pós-guerra.


https://www.jstor.org/stable/41389494. Discourse, Vol. 20, No. 3, Gilles Deleuze: Areason to Believe in this World (outono de 1998), p. 30-33. Publicado pela Wayne State University Press, traduzido por Timothy S. Murphy.
Tradução para o português feita por Paulo Bagre, em 27 de março de 2026. Edição original publicada na Revue d'études palestiniennes (Revista de estudos palestinos), em 1983, traduzido do francês para o inglês por Timothy S. Murphy.