Henri Zisly, no jornal A Aurora, Porto, número 233.
Não o dissimulemos, não vivamos de ilusões: o militarismo alemão é detestável, de acordo, mas será melhor o militarismo dos outros países? Com ser menos despótico — coisa a averiguar — é sempre o militarismo, defensor confesso do Capital e das Igrejas de todos os cultos gerador dos conflitos armados entre povos e opressor da classe operária, e por todas essas razões válidas, nós, indivíduos conscientes, devemos combatê-lo com todas as nossas forças, por todos os meios.
Democratas, socialistas, sindicalistas e certos comunistas-anarquistas das nações beligerantes pensam e esperam (hipóteses…) que uma vez terminada a guerra, a Paz benéfica há-de tornar a florir sobre a Terra sob a forma de desarmamento gradual; que o patronato há-de ser mais sociavel, menos explorador para com os produtores, que os governantes, enfim, animados de sentimentos de cordialidade serão mais equitativos para com os governados, etc. Tudo isso são promessas, que o vento leva…
Camaradas há que (teem) censurado, nosso ver justificadamente, a alguns anarquistas comunistas de renome o terem-se posto em oposição ás suas convicções com o seu apoio imprevisto em favor dos governos empenhados na guerra chamada de <<libertação>>; para dizer a verdade, há nisso, creio eu, duas atitudes inevitáveis em todas as doutrinas sociais e opiniões politicas, dado que é preciso ter em conta — pois que existem — as diferenças de caracteres, temperamentos, situações pessoais também; e sendo embora partidários da mesma concepção, um orientar-se há para essa tática que ele julgue superior e susceptível de dar bons resultados, outro para outra diversa, segundo as suas afinidades e capacidades de luta.
Responder-me hão que quem se desvia da doutrina não deva proclamar-se anarquista, pois que do anarquismo se retira em parte. Isso é verdade, e a esse compete escolher outro letreiro que precisa exactamente as suas aspirações novas, afim de dissipar qualquer equivoco.
Deploro esses desvios, pois seria preferível conservar na batalha social o mesmo conceito para exercer uma acção mais vasta; mas isso é inevitável e outro remédio não há senão acomodarmo-nos ao facto, de nada nos servindo as lamentações incessantes a tal respeito. Dir-me hão que é preciso correr com esses novos impostores (o palavrão é talvez excessivo). Quanto a mim, que não sou sectário, custa-me tomar partido declarado, pois acho que, até certo ponto, os anarquistas- <<guerreiros>>e os sindicalistas revolucionários atenuam — com a pena, a palavra e os actos — a corrente parioteira e militarista que envolve a Europa actual.
Os nossos camaradas doutrinários responderão ainda que não queremos saber duma atenuação do mal, visto desejar-mos a sua supressão completa. E isso é verdade… embora ainda certos camaradas doutrinários exprimam a opnião de que a supressão completa só se pode dar pouco a pouco, isto é, começando por atenuações sucessivas.
Mas se devo imparcialmente registrar as duas tendenciais em conflito, para a ideia inteira é que irão moral e praticamente as minhas preferencias, é ela que eu primeiro que tudo sustentaria.
Henri Zisly
Paris, Dezembro de 1914
A Aurora, Porto, 10 de janeiro de 1915, número 233.
Redator principal — Antonio Alves Pereira.
Fonte: https://docs.revistasdeideias.net/extras/0000001366.pdf