#title Os Naturianos #author Henri Zisly #LISTtitle Naturianos, Os #date 1º de dezembro de 1896 #source L’Enclos, 1º de dezembro de 1896 #lang pt #pubdate 2025-12-21T22:48:01 #authors Henri Zisly #topics naturalismo, natureza, anarconaturalismo, anarco-naturalismo Em julho de 1894, quando todo movimento revolucionário consciente acabava de ser sufocado pelas perseguições governamentais contra os anarquistas, surgiu o jornal L’État Naturel, com este subtítulo, incitando ao estudo e à reflexão: A parte do proletário na Civilização, publicado e ilustrado pelo desenhista Émile Gravelle. Este colocava, em oposição à Civilização industrial, social e comercial, o Estado natural anarquizado, livre, harmônico, mas não o estado natural primitivo dos primeiros tempos da humanidade, cujo retorno seria absolutamente impossível e que, nesse sentido, não poderia constituir um progresso social. Ele queria sobretudo fazer admitir, pela classe operária, este ponto que, para ele, era importante: que, no estado natural, todo indivíduo tinha moradia — caverna, cabana ou chalé, rústicos é verdade, mas habitações naturais, saudáveis, onde era bom viver — ; alimentação — caça, aves, gado, frutas, legumes, plantas, etc. — ; e vestimenta, feita de peles de animais, sem luxo algum, mas que não trazia o incômodo de apertar o corpo como nossas roupas civilizadas modernas, sob as quais ainda assim se podia enfrentar frio e chuva. E tudo isso era gratuito, pois a propriedade individual ainda não existia, e o homem era livre, independente e podia, consequentemente, desenvolver sua individualidade. No seu aparecimento, L’État Naturel fez bastante barulho na imprensa. Os jornais diários publicaram diversas entrevistas de Gravelle, que em geral deturpavam as ideias naturianas. — Não é esse, afinal, o papel de toda imprensa governamental que se preze? Assim se dizia que os naturianos queriam de todo modo o estado primitivo, que não passavam de trogloditas — e outras insanidades do mesmo gênero. Nenhuma cultura¹ — ou muito pouca — é admitida pelo estado natural; pois a Terra se fecunda a si mesma, e a cultura — e o desmatamento, portanto! — só servem para empobrecer a terra; hoje somos obrigados, para fazê-la produzir, a acrescentar quantidades de adubos químicos, já que o húmus desapareceu. Contudo, admite-se uma cultura restrita, indispensável, mas não uma cultura de comércio, de especulação, portanto antinatural e intensiva. Porém, mesmo como está atualmente, a Terra pode contribuir amplamente para a existência da humanidade, sempre, sem necessidade de cultura intensiva. Na primavera de 1895, tentou-se estabelecer uma colônia naturiana em Cantal, para demonstrar a satisfação de todos pelo estado natural. Mas, por diversas razões, o projeto fracassou. Em 20 de agosto, publiquei, com a ajuda dos camaradas Beaulieu, Bigot, etc., o primeiro número da Nouvelle Humanité, órgão autógrafo mensal, tratando de Artes, Questões Sociais, Literatura, Naturalismo, e sobretudo totalmente livre de sectarismos de escola. Esta modesta folha está agora em seu décimo segundo número, sustentada por subscrições voluntárias.
Oito pessoas ajudaram sobretudo a difundir a ideia naturiana: Gravelle, desenhista, que concebeu a vida em estado natural na América do Sul; Henri Zisly, operário e literato, cujas correspondências credenciaram o naturismo no estrangeiro; Henri Beaulieu; Honoré Bigot, guarnecedor e seleiro, militante do grupo da Bastilha; Dutheil, alfaiate; Rappelin, escultor-ebenista; e Louis Martin, que é o verdadeiro orador naturiano. Outros indivíduos, supostamente convictos, fizeram mais mal do que bem à expansão dessa ideia. Pois, talvez inconscientemente, a desfiguravam ao tentar demonstrá-la: Mathilde Tremulot, Alfred Marné, Jules Bariol — este último, um excelente camarada. Nenhum órgão anarquista de Paris quis discutir o naturismo, e apenas para “comunicados de reuniões” o Libertaire e o Père Peinard cederam suas colunas. Les Temps Nouveaux foi mais longe, recusando (o que pouco importava, pois a ideia não deixa de existir) o título de anarquistas aos naturianos, o que provocou uma pequena polêmica entre Grave e eu na Tribune Libre (Estados Unidos). Silêncio absoluto de Les Temps Nouveaux. Apenas os órgãos comunistas anarquistas estrangeiros pediram e aceitaram divulgar a ideia, notadamente La Débâcle Sociale (Bélgica), An-archie (Holanda), Prolétaren (Dinamarca), a Tribune Libre e outros jornais da Argentina. La Revue d’un Passant, L’Enclos, Le Phare de Montmartre, publicações independentes, pediram-nos estudos sobre o naturismo. Le Réveil de la Gaule, publicado por J. Baflier, também ajuda a destruir nossa civilização e substituí-la por uma sociedade mais justa e, portanto, mais natural! — Em vários grupos anarquistas, a ideia foi discutida. “… Nós também, como tantos outros, acreditamos que o maquinismo extraordinariamente desenvolvido seria uma grande fonte de ajuda e de felicidade numa sociedade libertária, e certos escritores de ilusão fácil já faziam cintilar diante de nossos olhos, demasiado depressa deslumbrados, máquinas incomparáveis para todos os trabalhos, por mais repugnantes que fossem. Mas após maduras reflexões, evoluímos para um sonho mais terreno, pois essas máquinas ainda não foram construídas e seus planos nem sequer foram traçados. Ao nos dizerem que provavelmente, talvez e mesmo certamente haverá máquinas que executarão todos os trabalhos de modo admirável, não se apoiam senão em simples hipóteses, jogam com os sentimentos do indivíduo… Suponhamos: a Revolução está feita e a Anarquia triunfante. O maquinismo que se esperava ainda não chegou ao seu pleno aperfeiçoamento. Pois bem, enquanto esperamos esse aperfeiçoamento, viveremos o estado natural, prontos, após esforços coroados de êxito, a voltar ao maquinismo salvador.”
— H. Zisly (
An-archie, Amsterdã, julho de 1896). “Atualmente, a Natureza ainda é suficientemente rica para suprir as necessidades de todos, os cadastros oficiais o demonstram: há de 1 a 1,5 hectare de terra produtiva — vegetação espontânea — por ser humano, o que assegura abundância para cada um.
Mas o que tinham — os Primitivos — era o direito natural de caça e coleta para alimentação, a caverna ou a cabana para abrigo, peles para se cobrir, e tinham a Liberdade, pois quando os homens têm de que comer, de que se abrigar e de que se vestir, são independentes, e a Natureza, somente, lhes assegurava tudo isso — gratuitamente…”
— Em. Gravelle (
Débâcle sociale, Bélgica, fevereiro de 1896).
Os anarquistas puros querem luxo burguês, enquanto os naturianos preferem o luxo intelectual, e nenhum luxo material. Henri ZISLY.
L’Enclos, 1º de dezembro de 1896 1. “Cultura” é usada no sentido da agricultura.