O naturianismo nasceu em Paris, em 1894, por iniciativa ousada do pintor e desenhista Émile Gravelle — filósofo e sociólogo à sua maneira — com a publicação de seu jornal ilustrado, ornado de desenhos sugestivos, intitulado: “O Estado natural — e a parte do proletário na civilização”.
Esse jornal despertou certa curiosidade na época e, ao mesmo tempo, foi severamente criticado por jornalistas de todas as tendências. Deu origem, em seguida, a inúmeras polêmicas, especialmente na imprensa anarquista da Europa e das Américas (do Norte e do Sul), porque essa nova concepção da existência individual vinha abalar por completo teorias estabelecidas, doutrinas firmadas e teses tidas como definitivas.
O que pediam, o que reivindicavam os partidários do retorno ao estado natural da Terra, à vida natural — e não ao retorno da humanidade ao estado primitivo, como afirmavam ou insinuavam alguns adversários desleais ou incompreensivos?
No Estado Natural (nº 1, julho de 1894), Émile Gravelle imaginava o homem primitivo, feliz de viver em liberdade, em abundância alimentar e robustez, colocado diante de quatro tipos de civilizados, manifestando sua surpresa ao vê-los tão grotescos e degradados, e dizendo-lhes:
Ao mineiro: Por que essas marcas negras em teu rosto pálido, essa magreza e esse abatimento em todo o teu ser?
— Resposta: Passo a vida nas entranhas da terra, a 150 metros de profundidade, para extrair o carvão negro que serve à indústria. Respiro lá uma atmosfera de ácido carbônico e sulfuroso; ganho apenas o suficiente para viver miseravelmente e, no fim, uma explosão de grisú encerra minha existência.
Ao operário: E tu, homem de rosto lívido, por que não tens dentes nem cabelos?
— Resposta: Ainda tinha dentes e cabelos há um ano, quando, estando sem trabalho, entrei numa fábrica de minium — esse minium indispensável para proteger o ferro da ferrugem. Durante seis semanas manipulei o mercúrio que é a base dessa substância, e isso bastou para cariar meus ossos e corromper meu sangue. Em troca, pagaram-me quarenta soldos por dia de trabalho.
Ao homem do campo: Por que pareces tão curvado, tão fatigado, e por que tuas mãos estão tão ásperas e gretadas?
— Resposta: Minha vida é dura. Sempre curvado sobre a terra, desbravo, lavro, semeio e colho. Dou ao mundo o trigo que faz o pão branco, mas desse pão nunca como. O meu é negro, é pão de centeio. Vendo o que recolho, porque é preciso pagar o imposto.
Ao empregado: Como é que, tendo membros tão finos, tens o rosto tão inchado e o ventre tão estufado?
— Resposta: Minha existência se resume a uma almofada de couro. Sempre sentado, apenas minha mão age, meus outros membros não têm exercício algum. Sou invadido por gordura malsã e pela bílis que segrega meu fígado monstruoso nesta inação.
E o homem primitivo concluía suas perguntas com esta resposta dolorida, cheia de surpresa:
“Ora, meus netinhos, se é isso o que vos dá o Progresso…!”
Em suma, sobre que fundamentos repousava esse novo método de viver conforme a própria natureza? Em que dados científicos ou naturais se apoiava essa concepção de uma idade de ouro, que seus partidários buscavam ardentemente reviver — supondo que tivesse existido algum dia?
Simplesmente nestes, redigidos sob o título: “Nossa Base”, publicados em O Estado Natural de julho de 1897:
“No estado natural, todas as regiões férteis da terra possuindo uma flora e uma fauna originárias, abundantes e variadas, e sendo a estatística capaz de estabelecer o número de superfície e de população dos países conhecidos, afirmamos:
— que a miséria não é de ordem fatal;
— que a simples produção natural do solo estabelece a abundância;
— que a saúde é a condição assegurada da vida;
— que os males físicos (epidemias, enfermidades, deformidades) são obra da civilização;
— que os flagelos ditos naturais (avalanches, deslizamentos, inundações, secas) são consequência das agressões do homem contra a natureza;
— que não existem intempéries, mas apenas movimentos atmosféricos todos favoráveis;
— que a ciência não passa de presunção;
— que a criação do artificial determinou o sentimento de propriedade;
— que o comércio ou especulação sobre o artificial engendrou o interesse, corrompeu o indivíduo e ABRIU A LUTA;
— que o Progresso material é fruto da escravidão;
— que as instituições e condições sociais estão em antagonismo com as leis da fisiologia humana;
— que a prostituição não existe no estado natural;
— que não há instintos bons ou maus no homem, mas apenas a frustração ou a satisfação dos instintos;
— que a Humanidade busca a felicidade, isto é, a Harmonia; e que a harmonia para a humanidade reside na Natureza.”
Essas declarações eram assinadas pelos “Naturianos propagandistas”, dentre eles Émile Gravelle, H. Beaulieu, Paul Paillette, H. Zisly, Spirus-Gay etc.
O surgimento de O Estado Natural, seguido de outras publicações, deu origem a vários “grupos naturianos” em Paris e em outras regiões, cuja existência foi mais ou menos efêmera, mas que provocaram certa agitação naturiana.
Chegou-se até a cogitar a realização do ideal naturiano na forma de uma colônia na França, pois um proprietário do Cantal havia doado um terreno favorável a esse fim; porém, mais tarde, o dito proprietário voltou atrás, e o projeto foi abandonado.
Na atualidade (anos 1920), esse movimento de vida simples, conforme as leis naturais, continuava a ter partidários e propagandistas que, de 1921 a 1925, se reuniam ao lado de Henry Le Fèvre, diretor da revista eclética das concepções naturianas e neó-naturianas intitulada Le Néo-Naturien.
Desde então, a sede dessa revista (Les Versennes, em Parthenay, Deux-Sèvres) transformou-se em centro de estudos e experiências neó-naturianas e naturocráticas, possuindo numerosos documentos importantes para a análise de todas essas questões.
É bem possível que os conceitos modernos de retorno à natureza — vegetarianismo, nudismo, naturismo — tenham surgido das primeiras manifestações naturianas, que fizeram figura de pioneiros e precursores.
Não devemos esquecer, tampouco, que os naturianos eram — e ainda são — sob o ponto de vista alimentar, onívoros, e mais frequentemente vegetarianos durante a estação do verão.
Jornais: L’État naturel, Émile Gravelle, vários números, 1894–1898; Le Sauvage, do mesmo (1898), ambos ilustrados. — Le Naturien, Honoré Bigot, vários números, 1898. — L’Âge d’or, Alfred Marné, 1900. — L’Ordre naturel, 1905, Henri Zisly.
Brochuras: En conquête vers l’état naturel, Henri Zisly (1899); Voyage au beau pays de Naturie, Henri Zisly (1900); La conception libertaire naturienne, Henri Beylie e Henri Zisly (1901); Le naturisme libertaire devant la civilisation, Tchandala (1903); Rapport: Le mouvement naturien, Henri Zisly (1901); Aux “Artistes” naturiens, Émile Gravelle; La Vie naturelle, Octave Guidu (1908); Résumé du naturisme libertaire, Henri Zisly (1907, em tcheco, em Praga, Boêmia); vários folhetos de Paul Paillette: Les Enfants de la Nature; Ce que pense un enfant de la nature; Normalement, etc.; La conception du naturisme libertaire, Henri Zisly (1919, em Alexandria, Egito); Naturisme pratique dans la civilisation, Henri Zisly (1928); Panoramas célestes, Henri Zisly (1929).
Revistas: La Vie naturelle, dirigida por Henri Zisly desde 1907, ainda em publicação; Le Néo-Naturien, sob a direção de Henry Le Fèvre, importante revista de documentos mundiais, 1921–1925, em Parthenay (Deux-Sèvres).
Livro: Civilisation et naturianisme, de Auguste Trousset (1905).
Nota final: O termo “Naturiano” foi criado por Émile Gravelle.