Individualismo e Solidariedade

1903

Há alguns anos, certos literatos deram-se conta de ter descoberto Nietzsche, Stirner e até Schopenhauer. Uma vez seguindo-lhes o rasto, eis que tomaram conhecimento de que havia pelo mundo um indivíduo — o Indivíduo! —, que esse indivíduo era mais importante que tudo, tinha o direito de viver, gozar, desenvolver-se em toda a sua integralidade, segundo as suas faculdades e aptidões, sem ter que tomar em conta qualquer entrave, qualquer obstáculo, a não ser para os quebrar se o estorvassem, ou subjugá-los se lhe pudessem ser úteis.

E fabricou-se assim uma anarquiazinha que aspirava a nada menos do que elevar uma nova artistocracia: a aristocracia intelectual, que, como as outras, desprezava profundamente o resto da massa, não vendo nela mais que um rebanho de escravos bons para produzir e labutar para o «intelectual», que poderia assim desenvolver-se e crescer em força, inteligência e beleza!

Esta concepção do indivíduo, do intelectual, adulava demasiado a vaidade de alguns falhados para que eles não se tornassem os seus defensores resolutos. É uma teoria demasiado cómoda para justificar os atos mais contraditórios, para que não fôssemos brindados com esta nova escola

A liberdade mais completa para o indivíduo, o seu direito à satisfação integral de todas as suas necessidades, são reclamações absolutamente legítimas, e não havia nenhuma necessidade de ir desenterrar Nietzsche e Stirner para lhes dar uma qualquer consagração. É o que o homem procura desde que está no mundo, é este instinto primordial que o fez tentar as diferentes revoluções, mesmo as mais políticas, que ele realizou pelo caminho. E é o que nunca cessaram de reclamar os anarquistas comunistas.

Simplesmente, os anarquistas comunistas, que não se satisfazem com palavras e abstrações, partidários do método científico que requer que nos apoiemos em factos, não se contentaram com fazer metafísica, estudaram as condições de existência do indivíduo, e sem se gabarem de ter feito uma descoberta espantosa — pois salta à vista de todos —, viram que o indivíduo não era uma entidade, única, vivendo nas nuvens da dialética; mas um ser de carne e osso, com uma tiragem de cerca de dois biliões de exemplares, e que o que era verdadeiro para um, era igualmente verdadeiro para cada um desses dois biliões.

De resto, a necessidade de viver em sociedade não se discute. Foi porque se agrupou com os seus semelhantes que o homem adquiriu a faculdade da linguagem, e a de exprimir as suas ideias; foi na troca de ideias com os seus companheiros que ele conseguiu modificar e alargar as suas primeiras impressões, fazer delas tradições que as gerações se transmitiram, discutindo-as depois de as terem seguido cegamente, e das quais, de progresso em progresso, se constituiu a bagagem científica, artística e literária de hoje. O homem que quisesse completamente isolar-se dos seus semelhantes, retornaria ao estado de bruto, se as espécies mais bem armadas não o tivessem liquidado antes.

Então, aqui, o problema complica-se. Pelas necessidades dos seus organismos, e pela exiguidade do espaço em que estão encerrados, que forçosamente limita o seu campo de evolução, já não basta aos indivíduos afirmar os seus direitos; importa sobretudo procurar as condições em que os poderão exercer, sem dano para si próprios e sem dano para os outros, o que poderia trazer represálias e limitar os direitos afirmados demasiado brutalmente.

E a partir do momento em que o indivíduo não pode viver e desenvolver-se a não ser em sociedade, não lhe resta mais que dois modos de afirmar a sua liberdade: — agindo ao sabor da sua vontade, se for suficientemente forte para se impor aos outros, sem se preocupar com as suas reclamações quando os prejudica, ou pela artimanha fazendo-lhes crer que age assim no seu interesse… e então não é preciso reivindicar uma transformação social, pois temos a sociedade burguesa que nos fornece uma gama variada desses métodos e das suas diferentes combinações; — ou então os indivíduos entender-se-ão entre si para encontrar uma organização social que, trazendo-lhes o máximo bem-estar em troca do mínimo de esforços, lhes permita evoluir sem se estorvarem, conservando, por concessões recíprocas ou uma perfeita adaptação e combinação das aptidões, a maior soma de liberdade possível, ou seja, por uma inteligente prática da solidariedade.

J. GRAVE


Traduzido em 2020 por João Black, do original francês em iiif.lib.harvard.edu
Este escrito foi publicado com o título original «Individualisme et Solidarité» em 1903, no Almanach Illustré de la Révolution pour 1904, o qual pode ser consultado aqui: iiif.lib.harvard.edu