#title Palestina: A Solução Sem Estado #author James Herod #date Fevereiro de 2009 #source Publicado no 'Boletim Informativo' do Movimento Anti-Autoritário de Boston (BAAM), nº 18, fevereiro de 2009. #lang pt #pubdate 2026-03-27T23:00:00 #authors James Herod #topics Palestina #notes Traduzido por Paulo Bagre. Título original: "Palestine: The No-State Solution", de James Herod. Nem a solução de dois Estados nem a de um Estado resolverão o problema na Palestina. Somente a solução de ausência de Estado o fará [1]. A solução de ausência de Estado exige o desmantelamento do Estado de Israel e o abandono de qualquer tentativa de estabelecer um Estado palestino. Em vez disso, os povos que vivem no território da Palestina histórica progredirão para a forma social descentralizada avançada de uma associação de comunidades autônomas autogovernadas, baseada na democracia direta. O governo representativo será abolido. Esse salto histórico também deve abranger imediatamente o Líbano e a Jordânia, dois Estados artificiais criados pelos imperialistas ocidentais após a dissolução do Império Otomano. A solução de ausência de Estado permitiria que os habitantes da Palestina progredissem além das unidades territoriais governadas por classes dominantes capitalistas, independentemente de essas classes se definirem em termos étnicos, raciais ou religiosos, ou pelos chamados direitos civis do liberalismo humanista secular. O verdadeiro problema é o próprio Estado-nação, e não se ele é religioso ou secular, étnico (ou racial) homogêneo ou não, mono ou multicultural, liberal ou conservador. Esta bela proposta anarquista — uma solução óbvia — infelizmente nem sequer esteve na agenda durante todo o século de ataques sionistas contra os palestinos. Por quê? Em primeiro lugar, a vitória histórica do marxismo sobre o anarquismo no século XIX fez com que os anarquistas fossem marginalizados e mantidos fora da arena política por mais de cem anos. Em segundo lugar, o sistema de Estados-nação controlado pelo capitalismo é tão forte e arraigado que é difícil pensar fora dessa estrutura, e quase ninguém o fez. Agora, porém, algumas vozes inovadoras estão sendo ouvidas em favor da ideia, por exemplo, as de Bill Templer [2] ou Uri Gordon. [3] O problema com a solução de dois Estados é que ela concede legitimidade ao Estado sionista de Israel e, portanto, reconhece seu direito de existir. Mas Israel não tem direito algum de existir. Foi fundado na expulsão violenta dos habitantes nativos (e legítimos proprietários) da Palestina (aproximadamente 750.000 deles). A campanha terrorista de limpeza étnica dos sionistas, que se estende por quase um século, só foi possível porque as potências imperialistas ocidentais, especialmente os Estados Unidos, a apoiaram com enormes quantidades de ajuda militar, financeira e política. Para corrigir essa flagrante injustiça histórica, é necessário desmantelar o Estado militarista e racista de Israel e estabelecer o direito de retorno para os refugiados palestinos, que agora somam quase cinco milhões de pessoas. E essa sempre foi a intenção dos movimentos de libertação da Palestina, embora nem sempre de seus líderes, ou de certos intelectuais ocidentais. Quanto aos líderes, tanto a Organização para a Libertação da Palestina quanto o Hamas acabaram por aceitar a solução de dois Estados. Quanto aos intelectuais, Noam Chomsky sempre (e até recentemente, no mês passado) defendeu a solução de dois Estados. (Aliás, como é possível que Chomsky, que se diz anarquista, nunca proponha uma solução anarquista para qualquer questão de importância atual?) Então, por que dois Estados não foram estabelecidos? Porque o Israel sionista não quer um Estado palestino. Desde o início, seu objetivo sempre foi roubar todas as terras da Palestina — e ainda mais terras do Líbano, da Síria, da Jordânia e do Egito — para criar um Grande Israel e expulsar todos os habitantes não judeus da região. Além disso, o roubo sionista de terras palestinas prosseguiu sem cessar, a tal ponto que hoje quase não resta terra alguma para a construção de um Estado palestino. Os palestinos foram encurralados e presos em Gaza e em inúmeros pequenos enclaves isolados, semelhantes a bantustões, na Cisjordânia. Eles não controlam nada. Israel, na prática, descartou a solução de dois Estados. Além disso, após os massacres, bombardeios e invasões horrendos e horríveis perpetrados por Israel nos últimos anos em Jenin, no Líbano, e agora em Gaza, e após décadas de ataques brutais contra os palestinos, com assassinatos seletivos de seus líderes, demolições de casas, bloqueios, a construção do Muro, assassinatos indiscriminados, destruição de pomares e olivais, roubo de água, estrangulamento econômico, prisões sem julgamento, tortura, fome, roubo de dinheiro, restrição de viagens, destruição da sociedade civil, destruição de infraestrutura e assim por diante, ad nauseam, quem em sã consciência ainda poderia cogitar a continuidade da presença de Israel no Oriente Médio? Esses crimes foram tão inaceitáveis que destroem completamente qualquer alegação de legitimidade que alguns possam ter feito em favor de Israel, ou qualquer desejo de conviver em paz com o Estado israelense. Chegamos, então, à solução de um único Estado, que agora vem sendo mencionada com mais frequência e, por vezes, seriamente defendida. [4] Seus proponentes vislumbram um Estado laico para a Palestina histórica, no qual os direitos civis de todos os cidadãos seriam garantidos e no qual pessoas de diversas religiões e etnias poderiam viver juntas em igualdade, liberdade e paz. Tal Estado significaria, obviamente, o fim do projeto sionista e, portanto, é veementemente rejeitado pelos israelenses sionistas. Na verdade, o Estado laico não deveria ser endossado por ninguém. Seus supostos benefícios são, em grande parte, uma miragem. Dificilmente existe um Estado-nação que não pratique séria discriminação contra minorias raciais ou étnicas internas, sem mencionar a opressão aparentemente ineradicável da metade feminina da raça humana ou a exploração determinada e universal da classe trabalhadora. Com raras exceções, os Estados-nação do mundo são controlados por capitalistas. Aqueles poucos que caem em mãos socialistas acabam conluiando com os capitalistas de qualquer maneira. Durante décadas, os marxistas escreveram críticas detalhadas à “democracia burguesa”, como a denominavam, expondo-a como uma fraude. O mesmo fizeram os anarquistas. Kropotkin publicou um ataque contundente ao governo representativo há 124 anos, em 1885. [5] É como se ele o tivesse escrito no ano passado, especialmente para nós. A era do governo representativo está chegando ao fim. É imperativo que nos certifiquemos de que ela realmente termine. [6] É por isso que é tão importante pressionar pela solução de ausência de Estado na Palestina. O fato de isso parecer atualmente impossível é mais um motivo para nos esforçarmos ao máximo para divulgar a ideia, para colocar a proposta em discussão. Este é o primeiro passo. Só assim começaremos a ver como ela pode ser concretizada. Afinal, um mundo descentralizado, sem capitalismo ou Estados, parece impossível em todos os lugares. Mas pode não ser. Precisamos começar a lutar pelo que queremos e pelo que é justo, e não pelo que achamos que podemos obter. A organização social do mundo precisa ser alterada de forma fundamental se nós, seres humanos, quisermos ter alguma esperança de sobreviver às crises sem precedentes que enfrentamos e de criar uma sociedade habitável e sustentável.
Livros úteis: Edward Said, The Question of Palestine Edward Said, The End of the Peace Process (revised and updated edition, 2002) Norman Finkelstein, Image and Reality of the Israel Palestine Conflict James Petras, The Power of Israel in the United States
Sites úteis: Angry Arab News Service (o site de As’ad Abukhalil) Electronic Intifada Uruknet.info New England Committee to Defend Palestine
[1] William Bowles, “A Solução Final é uma Solução Sem Estado”, disponível na web em: Este breve artigo, que apareceu em vários sites na Internet em 28 e 29 de janeiro de 2009, não trata da ideia anarquista de uma solução sem Estado, como discutido neste ensaio, mas sim da conexão ideológica sionista com o nazismo e com uma doutrina que busca a erradicação de pessoas “impuras” de uma população ou território. “Sem Estado”, como usado por Bowles, significa que os palestinos não obterão nem a solução de dois Estados nem a solução de um Estado. Eles não obterão nada, nenhum Estado. Serão eliminados ou expulsos, e “Israel” será alvo de limpeza étnica. [2] Bill Templer, “Reclaiming the Commons in Palestine/Israel: Ya Basta! / Khalas!” na web em: [3] Uri Gordon, “Pátria: Anarquia e Luta Conjunta na Palestina/Israel”, Cap. 6 em seu livro Anarquia Viva! [4] Ali Abunimah, Um País: Uma Proposta Ousada para Acabar com o Impasse Israelense-Palestino; e Joel Kovel, Superando o Sionismo: Criando um Estado Democrático Único em Israel/Palestina [5] Piotr Kropotkin, “Governo Representativo”, Cap. 13 em seu livro Palavras de um Revoltado [6] Uma bibliografia de literatura que desacredita o governo representativo pode ser encontrada online em: , intitulada “Lista de recursos para a campanha antieleitoral/pró-anarquia”