Kubo Yuzuru

Sobre Luta de Classes e Luta Diária Kubo Yuzuru

1928

Sobre Luta de Classes e Luta Diária ( Kubo Yuzuru)

Kubo Yuzuru (1903–1961) foi um anarco-sindicalista japonês. Neste artigo, “Sobre Luta de Classes e Luta Diária”, originalmente publicado no Kokushoku Undo em 1928, ele responde a algumas das críticas ao anarco-sindicalismo feitas pelos “anarquistas puros”.


Não é de se admirar que o anarquista promova a luta de classes e a luta diária, pois não há razão para impedir tal propaganda através de um instrumento. Pode haver alguns ideólogos intolerantes entre os anarquistas japoneses que acusam a luta de classes de ser um amálgama do marxismo. Mas a tática da luta de classes não é monopólio dos marxistas. O capitalismo divide a sociedade em duas classes, to opressor e o oprimido, o explorador e o explorado. Aí ficamos cara a cara com o confronto de classes e a contenda entre elas. A existência de classes engendra a luta de classes. Onde a luta de classes for um fato, aí estará nosso movimento. Na verdade, o problema é uma questão de objetivos e o método de luta. Então podemos ver duas tendências principais da luta de classes, uma baseada no marxismo autoritário, a outra na federação livre. De acordo com a concepção marxista da luta de classes, o proletariado assumirá a posição da classe capitalista usurpando o poder político através da luta política. Seu objetivo é o poder político. Isso significa o monopólio de um partido, ou seja, a luta de classes marxista não acaba com a contenda ou a contradição de classes, mas inverte as posições das classes opostas. Nominalmente, é a ditadura do proletariado, embora de fato os marxistas não se preocupem com as intenções de emancipação de seus companheiros de trabalho, apesar de possuírem força numérica. Entre eles (do marxismo), as ideias de federação livre e espontaneidade, fatores essenciais para a construção da nova sociedade, são mortas. Portanto, nos opomos veementemente a eles. Nossa luta de classes se baseia nos princípios da propriedade comunal e do anti-autoritarismo, para acabar com o confronto de classes, em suma, para criar uma nova sociedade onde não haja explorador nem explorado, nem senhor nem escravo, revivida com espontaneidade e livre acordo mútuo como um todo integral. Afinal, nossa luta de classes é pela transformação radical das instituições econômicas e políticas por meio das organizações operárias baseadas no ideal da federação livre. O objetivo (dos marxistas) é substituir uma classe dominante por outra, mas o nosso é acabar com o antagonismo de classe. Por causa da exacerbação da luta de classes, você pode nos condenar como marxistas; então as federações livres de sindicatos que no passado tiveram uma plataforma revolucionária baseada na luta de classes devem ser condenadas como marxistas também. Há quem rejeite a luta de classes, mas a nega referindo-se à eliminação das contradições de classe. Este é um pretexto para evitar a terminologia da luta de classes. Também parece proclamar o fim da luta contra o senhor e o capitalista. Há uma série de táticas na estratégia marxista emprestadas dos sindicalistas e anarquistas. Vocês, pessoas de mente estreita, me lembram da fábula de um cachorro tendo peixe na boca que latiu para o próprio reflexo e perdeu o peixe, já que vocês indiscriminadamente nos acusam de apenas usar a mesma fraseologia dos bolcheviques. É possível argumentar que o movimento anarquista se divide em estágios econômicos e políticos. O movimento relacionado ao campo econômico trata da luta pela obtenção do pão de cada dia para o trabalhador. O desejo de obter um pão melhor, de conquistar o pão, foi, de fato, a fonte do socialismo moderno. Se os trabalhadores não tivessem o desejo do bem de amanhã, jamais teria existido um movimento de libertação. O anarquismo originou-se do fato da luta dos trabalhadores. Sem isso, não haveria anarquismo. Anarquismo tem um sentido muito mais grandioso que desonrar as lutas econômicas dos trabalhadores como mero reformismo. Não negligenciamos o fato de que existe uma distância entre o aumento dos salários, a reforma das condições e a sociedade ideal. No entanto, é nosso papel avançar passo a passo contra os fundamentos do capitalismo. Não preciso salientar que aumentar os salários e melhorar as condições de trabalho não são nossos objetivos em si. Ao contrário, eles não são nada além de um meio ou justificativa razoável, mas por tais meios devemos instigar a ação direta e cultivar um broto de anarquismo através da luta diária, que acredito, será a preparação para a revolução. Além da luta econômica, existe também a luta política. Além da opressão econômica do capitalista, há também a tirania política. Devemos liderar uma luta direta dos movimentos revolucionários do povo contra todas as instituições políticas e medidas opressoras, como a pesada carga tributária em benefício dos capitalistas. Então criamos uma consciência de anti-autoritarismo. Devemos aproveitar todas as oportunidades nas lutas econômicas e políticas para que o pensamento anarquista prevaleça. Urgimos agarrar todas as oportunidades e aproveitar qualquer momento para abalar os alicerces da sociedade. Ou seja, a luta diária é uma luta incessante.


Robert Graham (Ed.), Anarchism: A Documentary History of Libertarian Ideas; Volume One: From Anarchy to Anarchism (300 CE to 1939).
Título Original: On Class Struggle and the Daily Struggle Tradução: Pedro Henrique Silveira Assis