Título: A Revolução Será Coletivista?
Data: 1913
Fonte: Adquirido em 27/11/2025 de: https://theanarchistlibrary.org/library/petr-kropotkin-will-the-revolution-be-collectivist
Notas: Tradução feita por Samuel Marques, do coletivo Letra A.

Ouvimos muitas vezes, dos próprios anarquistas, que a Anarquia é um ideal muito distante; que não tem qualquer chance de se concretizar em breve; que muito provavelmente a próxima revolução será coletivista, e que teremos de passar por um Estado operário antes de chegarmos a uma sociedade comunista, sem governo.

Esse raciocínio, para nós, parece absolutamente errôneo. Contém um erro de julgamento fundamental a respeito do curso da história em geral e do papel do ideal na história.

O indivíduo pode ser guiado em suas ações por um único ideal. Mas uma sociedade é composta por milhões de indivíduos, cada qual com o seu ideal, mais ou menos claro, mais ou menos consciente e fixo; de modo que, em dado momento, encontramos na sociedade as mais variadas concepções — a do reacionário, a do católico, a do monarquista, a do admirador da servidão, a do “livre contrato” burguês, a do socialista, a do anarquista. Contudo, nenhuma dessas concepções se realizará plenamente, precisamente por causa da variedade de concepções existentes em dado momento e das novas concepções que surgem muito antes de qualquer uma das antigas terem sido realizadas na vida.

Cada passo em frente da sociedade é resultado de todas as correntes de ideias existentes em um dado momento. E afirmar que a sociedade realizará primeiro este ideal e depois aquele outro é não compreender toda a marcha da história. O progresso alcançado sempre carrega a marca de todas as concepções existentes na sociedade, em proporção à energia do pensamento e, sobretudo, da ação de cada grupo. É por isso que a sociedade que resultará da Revolução não será nem uma sociedade católica, nem uma sociedade burguesa (muitas forças e toda a história da humanidade conspiram para demolir esses dois tipos de sociedade), nem um Estado operário, pelo simples fato de existir uma corrente anarquista de ideias e anarquistas bastante poderosos, tanto como força de ação quanto como força de iniciativa.

Vejam, de fato, a história. Os republicanos de 1793 sonhavam com uma República construída segundo o modelo das repúblicas da antiguidade. Sonhavam com uma república universal e, para fazer triunfar essa nova Roma ou Esparta na França, arrumaram um jeito de ser mortos neves dos Alpes, nas planícies da Bélgica, Itália e Alemanha.

Alcançaram eles essa República? — Não! Não somente o antigo regime, pesando sobre eles com todo o seu peso, os fez retroceder. Mas novas ideias impulsionaram a sociedade para a frente. E quando o sonho da República universal se concretizar um dia, essa República será mais socialista que qualquer coisa que ousaram sonhar, e mais anarquista do que qualquer coisa que Diderot ousou conceber em seus escritos. Não será mais uma República: será uma união de povos mais ou menos anarquistas.

Por quê? — Porque muito antes dos republicanos terem alcançado seu ideal de uma república igualitária (de cidadãos iguais perante a lei, livres e unidos por laços de fraternidade), novas concepções, quase imperceptíveis antes de 1789, surgiram e se desenvolveram. Porque esse mesmo ideal de liberdade, igualdade e fraternidade é irrealizável enquanto há servidão e miséria econômica, enquanto existirem Repúblicas — Estados — necessariamente impulsionadas por rivalidades e por divisões por fora e por dentro.

Porque o ideal dos Republicanos de 1793 era apenas uma pequena parte do ideal de Igualdade e Liberdade que reaparece hoje sob o nome de Anarquia.

Ou, pense nos comunistas das décadas de trinta e quarenta do século dezenove.

O ideal deles era um comunismo cristão, governado por uma hierarquia eleita de anciãos e eruditos. Esse ideal teve um impacto imenso. Mas esse comunismo não foi realizado — e jamais se será realizado novamente. O ideal era falso, incompleto, ultrapassado. E quando o comunismo começar a se desenvolver durante a próxima revolução, não será mais cristão nem estatista. Será, no mínimo, um comunismo libertário, baseado — não mais no evangelho, não mais na submissão hierárquica, mas na compreensão da necessidade do indivíduo por liberdade. Será mais ou menos anarquista, pela simples razão de que, na época em que a corrente de ideias expressa por Louis Blanc trabalhava para criar um Estado jacobino com tendências socialistas — novas correntes de ideias, anarquistas, já estavam emergindo — correntes das quais Godwin, Proudhon, Bakunin, Cœurderoy e até Max Stirner eram porta-vozes.

E será o mesmo para o ideal de Estado Operário dos social-democratas. Esse ideal não pode ser realizado: está ultrapassado.

Esse ideal nasceu do jacobinismo. Herdou dos jacobinos a sua confiança em um princípio governamental. Ainda acredita no governo representativo. Ainda acredita na centralização das diferentes funções da vida humana nas mãos de um governo.

Mas muito antes de esse ideal chegar sequer um pouco de sua realização prática, uma concepção de sociedade — a concepção anarquista — se apresentou, se anunciou, se desenvolveu. Uma concepção que resume a desconfiança popular em relação aos governos, que desperta a iniciativa individual e proclama este princípio, que se tornou cada vez mais evidente: “Não há sociedade livre sem indivíduos livres”, e este outro princípio, proclamado por todo o nosso século: “O livre acordo temporário, como base de toda organização, de todo agrupamento”.

E qualquer que seja a sociedade que surgir da Revolução Europeia, ela não mais será republicana no sentido de 1793, não mais será comunista no sentido de 1848 e não mais será um Estado operário no sentido da social-democracia.

O número de anarquistas está constantemente aumentando. E ainda hoje, a social-democracia é obrigada a levá-los em consideração. A difusão das ideias anarquistas ocorre não apenas pela ação dos anarquistas, mas — o que é ainda mais importante — independentemente da nossa ação. Testemunhas disso são a filosofia anarquista de Guyau, a filosofia da história de Tolstói e as ideias anarquistas que encontramos diariamente na literatura, das quais o suplemento para o La Révolte e Les Temps Nouveaux são um testemunho vivo.

Finalmente, a ação da concepção anarquista do ideal social-democrata é evidente; e essa ação depende apenas em parte da nossa propaganda: resulta sobretudo das tendências anarquistas que estão surgindo na sociedade e das quais somos apenas porta-vozes.

Basta lembrarmos o ideal centralizador e rigidamente jacobino dos social-democratas antes da Comuna de Paris. Naquela época, eram os anarquistas que falavam da possibilidade da comuna independente, da comunalização da riqueza, da independência das indústrias, organizadas internacionalmente. Pois bem, esses pontos já são apropriados hoje pelos próprios social-democratas. Hoje, a comunalização dos meios de produção — e não a nacionalização — é algo reconhecido, e vemos até políticos discutindo seriamente a questão da municipalização das docas de Londres. “Serviços públicos”, aquela outra ideia pela qual os anarquistas travaram tantas batalhas contra os jacobinos centralizadores nos Congressos da Internacional, hoje faz os possibilistas empalidecerem. Ou a greve geral, pela qual fomos chamados de loucos, e o antimilitarismo que nos fez ser chamados de criminosos pelos revolucionários da social-democracia!

Aquilo que agora é história antiga para nós, e nos provoca apenas um sorriso sonhador, como uma velha flor desbotada encontrada num livro antigo, é o custo dos atuais programas da social-democracia. Tanto que se pode dizer, sem exagero, que todo o progresso de ideias alcançado nos últimos vinte anos pela social-democracia nada mais foi do que coletar as ideias que a anarquia deixou cair em seu caminho à medida que continuava a se desenvolver. Basta reler os relatórios da Jura sobre serviços públicos, as Ideias sobre organização social, etc., pelos quais os eruditos estudiosos do socialismo tratavam os “Bakunits” como lunáticos raivosos. É dessas fontes que a social-democracia bebe hoje.

Assim, a Anarquia já modificou o ideal dos social-democratas. Ela o modifica todos os dias. Ela o vai modificar novamente durante a Revolução. E, seja o que for que resulte da Revolução, não será mais o Estado operário dos coletivistas. Será algo diferente — um resultado dos nossos esforços, combinados com os de todos os socialistas.

E esse resultado será ainda mais anarquista conforme os anarquistas desenvolverem energia — mais força vital, como se diz na mecânica — em sua direção. Quanto mais eles colocarem energia individual e coletiva, cerebral e muscular, vontade e devoção, a serviço de seu ideal puro e simples; quanto menos buscarem a conciliação, quanto mais claramente afirmarem, por palavras e por suas vidas, o ideal comunista e o ideal anarquista puro e simples, — tanto mais o resultado se inclinará para o seu lado, rumo ao Comunismo, rumo a Anarquia.