#title Sobre as Emoções
#subtitle Duas perspectivas e um quase
#LISTtitle Sobre as Emoções
#lang pt
#pubdate 2026-01-23T23:00:00
#authors Pink Mouth
#topics Emoções, Revolta, anarco-individualismo
Eu:
A liberdade não se trata de fazer tudo o que se quer, não… a liberdade é muitas coisas, fazer tudo que se quer sempre terá imposto de alguém como obstáculo, seja a sua vontade, suas forças e capacidades. Uma anarquia, ainda que estendendo de si aos tratados políticos, económicos, sociais e tudo, não vai ao sensacional e emotivo. As emoções… é que uma liberdade é também poder afastar-me das pessoas sem nisso sentir remorso, afastar-me sem em nada ter dor, e não importa quanta anarquia exista na sociedade, ainda isto mexe connosco porque é questão de sensação e nisso regras não existem. Fala-se tanto da revolta, do sentir de revolta, mas e depois? Vendo as coisas ser, vendo a ação ocorrer e o massacre gerar-se.
A anarquia, a bem dizer, mais efetiva seria se me impedisse de ter remorso, porque o remorso, o arrependimento, as dores, os problemas relacionados com isso, existem e cá estão. Mesmo na anarquia, eu ando com relações intensas a preencher tudo, e isso, pode bem simplesmente ser o meu opressor, parece até que os coletivistas não se nos dão a liberdade de sentir o isolamento em condições, não prego esse isolamento completo, bem sei que ele mal nos faz, mas prego uma boa dose de solidão. Ainda que muito se diga o quão social é o homem, nada disso se me importará se eu social não quiser ser.
O problema da anarquia política é que as emoções transcendem a política, transcendem essa limitação, esse Deus inexistente, essa balela. As emoções são emoções e naturais, indizíveis e dizíveis, exprimíveis em várias coisas como cor, palavras, movimentos… mas e então? É nisso que nem Bakunin, Kropotkin, Proudhon tocam. O que sentir, como sentir… É talvez idiota claro dizer que mais anárquico que fazer o que quiser, é fazer o que quiser e sentir o que quiser. Destruir tudo? Ação direta das massas? Todo esse federalismo não me é correto, é claro que isso nada de errado tem, mas eu percebo como doloroso e igualmente intenso o processo emocional que se passa em qualquer revolução. Doloroso pela luta, pois disso se faz a revolta, seja de luta física, ideológica, as gotas de suor caem, sangue cai, armas disparam, bocas berram, mas é igualmente intenso, porque tudo isso é vivido no talo de uma energia, de uma vontade comum que quer mudar, refazer e reestruturar. O meu ponto no meio disto tudo é simples, as emoções ainda existentes mesmo em anarquia, não têm um tom anárquico.
Trata-se de relações sociais que ainda me podem prender, trata-se de personalidade que me faça agir de uma maneira e não e outra, trata-se de ser diferente, trata-se que na anarquia, a liberdade do outro e a minha, tanto coagulam juntas e em paz, como se enfrentam cara a cara e com socos. Na anarquia, a liberdade do outro é o nosso principal opressor pois ele tem sobre nós um poder de ação que também nós, igualmente temos sobre ele. É me difícil crer que com o caos a ocorrer, um equilíbrio natural se viesse a dar, talvez se o caos fosse combatido e o combate durasse, não houvesse equilíbrio mas sim pouca aderência, porque o caos e a paz são antagónicos e difícil seria querer o caos à paz.
É que a anarquia da coletividade é difícil, pequenas comunidades, bem creio que possam existir, possivelmente sobre um código específico onde a pessoa aceita tal e tal aspeto, mas uma sociedade total… seriam demasiadas pessoas sobre o véu da anarquia e da autogerencia, do federalismo. Mas mais que isto, seria muito gente a quem as emoções teriam estalos, talvez eu viole alguém e nada disso me abale porque posso, mas talvez vendo uma injustiça destas alguém venha a agir, e logo se cria um declive. O preço da convivência social, é no fim, o reprimir de certas pulsões… contudo num caos, numa situação revolucionária cuja maioria e a população vai num caminho sentimentalista, essas sensações, por se verem livres, vão rumo ao erro… como agir?
Parece até que a anarquia nos iria deixar num estágio emocional baixo, quase bebés, onde iriamos querer fazer tudo, ter tudo, possuir, ir, viver, sabem? Como que soltar-nos das amarras que durante tanto tempo nos apalparam e prenderam, depois, claro, normaliza-se como tudo, o que não significa que o caos viesse a possuir um equilíbrio, contudo, ainda que esse equilíbrio viesse, a que custo, a que problema, afinal, nesse caos, quer se queira, quer não iriam haver mortos, iria resolver-se matando os do caos?
Negociando para com eles? E as comunidades que isso não querem, mas que querem sim continuar a luta, abandonam-se?... sentir numa anarquia é reviver bem possivelmente, pensamentos intrusivos sobem a ações, atos não praticáveis vão subir a quotidiano, por isso digo que a anarquia é o pior porque nela ficamos reféns da liberdade dos outros, porque a pior liberdade é sempre a dos outros, a pior prisão é sempre a da liberdade, e a liberdade dos outros é o pior julgamento a nos ser oferecido.
Desde o tribunal popular, das comunas e dos grupos sociais que juntos pensam ter o poder, toda a aldrabice de que juntos seremos alguém é a tão exata a despersonalização e perda, é que a prisão da liberdade alheia nos julga, o julgamento popular, é o pior porque não é livre, é guiado… guiado pelo guião do conjunto. Ignorar a lei não será menos natural que crer em Deus. Dormir não é mais ignorar a lei que crer nela, porque é um estado de desconhecimento, de sono. Cada ação que todos queriam mas não admitem, é tão revolucionária como invadir.
Sergey Nechayev:
Um exemplo é que até as emoções se tornam campo da ideologia política, na anarquia isso é visível, ou no comunismo, mas aqui, especificamente na anarquia, tivemos já o caso de Nechayev que parece tornar o revolucionário num simples e mero brinquedo, sem sentimentos não revolucionários e que apenas visa matar. Nechayev tem para mim um entendimento do individuo redutor e panfletário, lendo o seu “Catecismo de um Revolucionário” diz-se no primeiro “mandamento” o seguinte, “O revolucionário é um homem condenado. Não tem nem interesses, nem negócios, nem sentimentos pessoais, nem laços, nada que lhe seja próprio, sequer um nome.
Tudo nele está tensionado em direção a um único interesse exclusivo, um só pensamento, uma só paixão: a Revolução.” As emoções são nada, parece-me um bocado que se pretende desumanizar o individuo e com isso aproximá-lo de uma abstração, as emoções são parte do humano, o que será desse ser humano depois, quando a revolução ocorrer, ele será feliz? Não, não temo emoções. Quem é o revolucionário de Nechayev, a resposta é simples, uma máquina. Prefiro revolucionários humanos, a máquinas e robots.
Em seguida, no oitavo “mandamento” que é o primeiro referendo ao revolucionário e a sua relação com outros revolucionários, ele diz “O grau de amizade, devoção e obrigação para com tal camarada é determinado exclusivamente pelo grau de sua utilidade à causa da destruição revolucionária total.” Ou seja, são peças, o revolucionário, alguém cuja vida deve até agora ter sido terrível e triste, deve para revoltar, ser uma peça. Enfim, soa-me triste e francamente, objetificador para com o revolucionário. A forma como ele reduz o individuo as suas relações com a revolução e os camaradas, soa-me muito redutor novamente, quando as emoções e a politica se encontram, dá tanto nisto, reduções, ou elevações, como no fascismo e a sua digamos, oração ao ódio, quando visava acendê-lo nas populações. A melhor política quanto ás emoções, é a de neutralidade.
“O verdadeiro revolucionário deveria olhar a si mesmo como capital consagrado ao triunfo da revolução; no entanto, ele não deve dispor pessoalmente e sozinho desse capital sem o consentimento unânime dos camaradas plenamente iniciados.” Mais uma vez, lemos esta objetificação e redução do individuo. Não têm eles uma responsabilidade ética para com os que revolucionam? É facto que a revolução pode ser importante, mas mais até que as emoções e singularidades de um individuo? Este entendimento soa-me pouco anarquista, e digo-o com franqueza. O entendimento anárquico da importância da liberdade individual é um dos fatores que essencialmente me tocou, tanto no anarquismo ou no liberalismo, a liberdade individual é o que me beija e lava as mãos. Mas o catecismo de Nechayev, que liberdade individual tem? Que valor tem ser-se revolucionário mas não um ser humano.
Isto dá-me gatilho, discordo desta ideia de que meramente a revolução deve ser o ponto do revolucionário. Quando ela ocorrer? Que será do revolucionário? A pessoa, e seus pensamentos e emoções? Este catecismo é ditatorial de um revolucionário marionete, um fantoche. Parece que a revolução é Deus. Que a revolução se faça? Que se faça, mas assim? Com fantoches? Deve-se teimar em revolucionar com revolucionários, não com fantoches. O anarquista fantoche, não é livre, é preso à revolução, a revolução é a sua autoridade.
Suas emoções são sumiço, despejo. Não posso compactuar com isto. A minha indiferença geral, não é ainda assim crueldade. Todo o catecismo do revolucionário me deixa, enfim, tocado por vários aspetos. Especialmente pela forma como ataca as emoções humanas afim de as substituir por frieza e paixão revolucionária. De substituir o amor, a simpatia, a gentileza, a calma e a doçura, por uma revolução política. Enfim, aqui podem dizer o que quiserem, mas eu sou demasiado comodado ao amor, à simpatia, à doçura e ao bucólico, por isso, enfim, creio muito bem que dificilmente fosse seguir este catecismo.
A doutrinação do revolucionário, sem surpresa, tinha de ir afetar as suas emoções. Tanto aqui, como no comunismo quando se fala do ódio ao patrão, ou ao se falar das sensações calmas que se devem manter para se conseguir fechar um bom negócio. Tudo isso é tudo isso, mas nunca se fala bem do pós-revolução ou das emoções na sociedade. As liberdades políticas são nada perto das liberdades de ser.
Do correr feliz, do cheirar as flores todas, beijar uma boca e amar alguém com o fogo do Etna, é que, a política, ainda que feita por humanos, desumaniza. Torna pessoas máquinas de ideologia, reverte o óbvio afim de uma eleição, por vezes, aniquila, e por simples escritos, faz a guerra uma à outra. Eu posso revolucionar, mas que me servirá isso se eu não poder sorrir novamente.
Émile Armand:
Émile Armand foi um anarquista individualista francês que também escreveu algumas coisa sobre sentimento, principalmente amor, nomeadamente num texto seu chamado de “Gotas de Limão” onde ele diz, por exemplo o seguinte, e passo a citar “Não aceitamos, no mundo do amor, o domínio dos homens sobre as mulheres, nem o domínio das mulheres sobre os homens.” Ora, o erro é ver o amor como um domínio de um sobre o outro, algo que é claramente errado, o amor não funciona dessa forma, o amor como é e deve ser, não é um domínio mas um equilíbrio. Uma relação amorosa funciona quando os dois participantes dela (caso sejam dois) se entreajudam e evoluem conjuntamente, não quando ficam estáticos ou quietos impedindo uma iniciativa e uma vivencia amorosa mais intensa.
“A moralidade sexual sempre faz uso dos partidos retrógrados, do conservadorismo social. O moralismo e o autoritarismo estão ligados um ao outro como a hera a um carvalho.” Ora, nem só os conservadores advogam a monogamia, mesmo radicais podem dizer que ela é tolerável, agora o que eu não critico, claro está, é que hajam relações poligâmicas, isso a mim pouco me diz, o que penso é que, de facto, o amor e as emoções humanas são mais complexas e cintilantes do que uma corrente politica pode fazer entender. As ideologias políticas podem usar-se delas, mas não absorve-las a todas, nem possui-las.
Monogamia não é moralismo, é uma postura amorosa toda ela válida, uma pessoa pode ser monogâmica sem moralizar sobre isso, apenas sendo indiferente a posturas amorosas exteriores á sua. A meu ver Armand demanda uma visão da monogamia que é apenas a de uma parte, a mais conservadora. Depois ainda diz, o mesmo Armand acerca dos casais monogâmicos que “Eles acabam tendo medo da experiência por si só, a tal ponto que, embora possam até se dizer anarquistas, suas vidas dificilmente diferem das dos conservadores sociais mais antiquados.”
Aqui discordo, existem formas de estimular o amor monogâmico e que não necessariamente implicam uma relação com mais pessoas, existem formas de estimular uma relação que não são por exemplo trair, fazer sexo com 4 pessoas, tesões orgiásticas, não, especialmente nos tempos de hoje em dia com a cultura que temos, seja com personagens sexualizados, brinquedos sexuais, tendências sexuais mais abertas (furry, masoquismo etc) é mais fácil que uma relação encontre formas de se reinventar e alcançar um estádio de maior atividade, mais que isso, essas formas podem não ter a ver com a parte sexual, e sim também com a vida intelectual do casal, leituras, conversas, jogos, o amor não se estimula apenas com o sexo, e muito menos com o sexo poligâmico. Reduzir a isso, é reduzir uma emoção. Algo, a meu ver, pobre.
Émile Arnand cria aqui uma espécie de conceito, a camaradagem amorosa, isto é basicamente uma associação voluntária onde encontramos demonstrações de amor, gestos apaixonados e sensuais. Acaba por ser um entendimento de camaradagem, mais intenso, do que aquele que traz apenas a camaradagem intelectual ou econômica. Ele escreve “Praticar a "camaradagem amorosa" significa, para mim, ser um camarada mais íntimo, mais completo e mais próximo.” Ora, a amizade, a ação revolucionária e a ação combativa conjunta não são formas de aproximação? Porque razão apenas a sensualidade, apaixono e o amor deliberadamente erótico, são formas de aproximação? A única emoção positiva que possuímos é o amor? parece quase que Armand nos diz que será mais próximos das pessoas se lhes conseguir ao cu e que com isso, as pessoas lhe serão mais próximas.
Ele questiona como podemos fazer uma hierarquia das emoções e dos gestos, preferir partes do corpo a outras, aqui parece-me que se nega o humano, se as próprias emoções partem das 4 principais para as secundárias e por aí em diante. E somos pessoas com personalidade, personalidade que tende para um muito maior campo de entendimentos, podemos entender as coisas de diversas formas, ter experiencias diversas e formas intensas de encontrar o mundo e de o sentir, não culpo alguém que prefere a alegria à dor, somos tendencialmente narcisistas e isso satisfaz-nos.