#title ANARCOSSINDICALISMO PERUANO:
#subtitle ADAPTANDO INFLUÊNCIAS TRANSNACIONAIS E FORJANDO PRÁTICAS CONTRA-HEGEMÔNICAS (1905-1930)
#author Steven J. Hirsch
#LISTtitle ANARCOSSINDICALISMO PERUANO
#SORTauthors Steven J. Hirsch; Steven Hirsch
#SORTtopics Anarquismo; Perú; Anarcossindicalismo; América Latina
#date 2010
#source ITHA - Instituto de Teoria e História Anarquista
#lang pt
#pubdate 2022-09-23T22:00:00
#notes Trecho de Anarchism and syndicalism in the colonial and postcolonial world, 1870-1940 : the praxis of national liberation, internationalism, and social revolution. (HIRSCH, Steven; van der WALT, Lucien. (Org.) Leiden / Boston: Brill, 2010). Tradução de Ivan Thomaz de Oliveira para o ITHA
À primeira vista, o Peru do início do século XX poderia parecer um lugar improvável para o anarcossindicalismo florescer. Uma sociedade predominantemente agrária com uma grande e economicamente marginalizada população indígena, o Peru dificilmente lembrava uma nação no segundo estágio da manufatura. Mesmo com um significante desenvolvimento capitalista no setor exportador peruano (principalmente mineração, açúcar, algodão e lã), vastas áreas do país não foram afetadas pelas mudanças capitalistas. Com exceção de Lima e Callao, a capital do Peru e cidade portuária adjacente, que serviam como centro administrativo, comercial e financeiro do país, a ausência de economias urbanas significativas era patente. Não admira que, dado o contexto, o influxo massivo de imigrantes europeus que catalisaram o movimento operário anarcossindicalista na Argentina e no Brasil, passou pelo Peru.
Entretanto, o Peru não se encontrava isolado das correntes anarquistas. Ideias e publicações anarquistas tiveram grande circulação no Peru na primeira década do século XX. Manuel Gonzalez Prada, um aristocrata e crítico social peruano, e um grupo de intelectuais imigrantes radicais radicados em Lima facilitaram a disseminação do pensamento anarquista. Simultaneamente, um núcleo de artesãos e operadores de máquina inspirados pelos escritos de Proudhon, Bakunin, Kropotkin e Malatesta encabeçaram um movimento para organizar trabalhadores1 em Lima e Callao fundamentando-se na doutrina anarcossindicalista. Decorrente desse esforço, o anarcossindicalismo pode se tornar a ideologia radical dominante no movimento operário em formação. Ainda que a influência anarcossindicalista fosse mais forte em Lima e Callao, ela se espalhou por setores da classe trabalhadora ao longo da costa norte peruana, no norte e no centro da região serrana.2 Os ideais e práticas anarcossindicalistas ecoaram num espectro diverso de artesãos, trabalhadores fabris e do transporte, estivadores e proletários rurais. 3 Aderentes do anarcossindicalismo, entretanto, eram minoria entre a classe trabalhadora peruana do campo e da cidade. Contudo, devido a tremenda determinação e ativismo de seus militantes, o anarcossindicalismo pode influenciar profundamente a luta, a organização e a cultura da classe trabalhadora no Peru durante as três primeiras décadas do século 20.
Esse texto examina como as ideias anarcossindicalistas foram adaptadas ao contexto peruano, primeiramente em Lima e Callao e na região sul de Arequipa, Cuzco e Puno durante as décadas de 1910 e 1920, no auge do anarcossindicalismo peruano. Analisa a maneira como o anarcossindicalismo desafiou a combinação do domínio oligárquico dos latifundiários criollos peruanos (centrado na exploração de açúcar e algodão) e o imperialismo britânico e estadunidense na forma de controle econômico sobre o lucrativo setor de exportação (cobre, prata, petróleo) e manufatura doméstica (têxtil, por exemplo).4 Esse desafio consistia basicamente em organizar sindicatos 5 e associações culturais, promovendo uma contracultura proletária radical e estimulando a luta de classes.
As origens do anarcossindicalismo em Lima e Callao
A formação da classe trabalhadora em Lima e Callao pode ser traçada desde a década de 1890 e início da década de 1900, quando um boom nas exportações estimulou um crescimento sem precedentes na economia urbana. Capitalistas nativos e estrangeiros envolvidos com o setor de exportação canalizaram parte de seus lucros para instituições financeiras, projetos de infraestrutura, companhias de serviços de utilidade pública e na indústria de bens de consumo.
Acompanhando a expansão econômica ocorre um dramático crescimento na população trabalhadora urbana. Em Lima, o número de trabalhadores manuais teve um crescimento de cerca de 9.000 em 1876 para aproximadamente 24.000 em 1908. Mais tarde artesãos e trabalhadores fabris representavam 17% da população de Lima, estimada em 140.000 habitantes.6 Em Callao a força de trabalho se expandiu não tão rapidamente. Ainda entre 1905 e 1920 ela dobraria de tamanho chegando a aproximadamente 8.000 trabalhadores numa população total de 52.000 pessoas.7 A composição desta incipiente classe trabalhadora era extremamente heterogênea; trabalhadores eram divididos por origem, sexo, raça, etnia, idade e habilidades. 8 Independentemente dessas diferenças havia a tendência ao cumprimento de longas jornadas de trabalho (12 a 16 horas por dia) sob condições precárias, e recebendo salários miseráveis que mal satisfaziam suas carências.
Para melhorar suas condições de trabalho e de vida os trabalhadores passaram a abraçar o anarquismo. A adesão ao anarquismo era em parte uma resposta a falha do mutualismo e inabilidade dos trabalhadores em garantir suas demandas frente ao sistema partidário controlado pela elite peruana. Era também fortemente encorajada por dissidentes dessas elites.
O primeiro entre estes era Manuel González Prada, um intelectual da classe dominante que se tornou anarquista como resultado do seu contato com anarquistas franceses e espanhóis durante seu autoimposto exílio na Europa (1891-1898). González Prada emprestou seus consideráveis talentos para persuadir os trabalhadores a rejeitar o mutualismo em favor das práticas anarquistas. Fundou também Los Parias (Os Párias), a primeira publicação anarquista, em 1904. Outros jornais anarquistas apareceram logo: La Simiente Roja (“A Semente Vermelha”, 1905-1907), El Hambriento (“O Faminto”, 1905- 1910), Humanidad (“Humanidade”, 1906-1907), e El Oprimido (“O Oprimido”, 1907- 1909).
Dirigidos principalmente por intelectuais radicais como Gliserio Taasara, Angel Origgi Galli, Carlos del Barzo e Inocencio Lombarozzi (este último chileno), esses jornais trouxeram para os trabalhadores os escritos de anarquistas europeus e a perspectiva anarquista acerca do Estado, da burguesia, da Igreja, da propriedade e da relação de classes. Slogans anarquistas como a célebre frase de Kropotkin “As liberdades não se concedem, conquistam-se” também eram proeminentemente estampadas no cabeçalho dos jornais.9
A adesão dos trabalhadores ao pensamento anarquista foi estimulada posteriormente pelos círculos de estudos anarquistas. Coordenados por trabalhadores e intelectuais radicais o Centro de Estudos Socialistas Primeiro de Maio (1906-1908) em Lima e o grupo Amor e Luz (1911-1919) em Callao proporcionaram espaços de discussão sobre os princípios anarquistas. Como a imprensa anarquista, os círculos de estudos enfatizavam o ideal de auto emancipação e desenvolvimento cultural dos trabalhadores. Além disso, sustentavam uma perspectiva internacionalista entre os trabalhadores. Em 17 de outubro de 1909, o Centro de Estudos Socialistas Primeiro de Maio organizou um protesto em resposta ao governo espanhol pela execução do anarquista e educador Francisco Ferrer y Guardia.10
No ano anterior um grupo musical anarquista associado ao centro realizou uma apresentação em homenagem as vítimas do massacre de mineiros no Chile em 1907.11 A comemoração anual do 1º de Maio em memória dos mártires de Chicago também era apoiada pelos círculos de estudos e pela imprensa anarquista. A primeira celebração do 1º de Maio, organizada principalmente pela Federação dos Padeiros – Estrela do Peru (Federación de Obreros Panaderos – Estrella del Perú) ocorreu em Lima em 1905. A celebração não só enfatizava solidariedade de classes internacional na luta pela jornada de trabalho de 8 horas, como prestava homenagem ao primeiro trabalhador peruano mártir da causa.12
O anarcossindicalismo passa a ganhar força em Lima e Callao em 1911. Ao longo desse ano a classe trabalhadora urbana realizou sua primeira greve geral e obtiveram êxito na organização das primeiras sociedades de resistências com base na classe. A greve geral se iniciou com uma greve liderada pelos anarcossindicalistas com a participação de quinhentos trabalhadores da fábrica de estadunidense Vitarte Cotton Mill em março de 1911. Os grevistas reivindicavam aumento de salário, redução da jornada de trabalho de 13 para 10 horas e a abolição do turno da noite. A greve perdurou por 29 dias e eventualmente culminou na greve geral em 10 de abril, paralisando o comércio e o transporte em Lima. No dia seguinte, o presidente Leguía interviu no conflito e forçou os empresários a acatarem as demandas dos trabalhadores. 13 A greve geral evidenciou a efetividade das táticas de ação direta e da solidariedade de classe. Também revelou os limites da força dos trabalhadores na medida em que o resultado final foi decidido pela intervenção do Estado. Para defender suas batalhadas conquistas e frear o crescimento do poder do capital, trabalhadores têxteis na Vitarte fundaram em 1911, a União dos Trabalhadores Têxteis da Vitarte, uma sociedade de resistência. A União se dedicava “a servir e defender os direitos do proletariado em geral e dos trabalhadores têxteis em particular”. 14 Seguindo o exemplo da Vitarte, trabalhadores têxteis das maiores fábricas de Lima organizaram sociedades de resistência.
A organização e prática anarcossindicalista em Lima e Callao, ganhou destaque em 1912 e 1913. Em outubro de 1912 trabalhadores afiliados ao grupo de orientação anarcossindicalista La Protesta (1911-1926) organizaram a primeira Federación Obrera Regional Peruana (FORP). Articulando sociedades de resistência de trabalhadores têxteis, eletricistas, padeiros, entre outros em Lima e Callao. O modelo da FORP era inspirado na FORA (Federación Obrera Regional Argentina). Como a FORA, assumia os princípios e a finalidade anarquista e sindicalista e se comprometia tanto com as conquistas de melhorias pontuais como com a revolução social. Em 1913 a FORA envia dois delegados a Lima e Callao para promover a solidariedade entre as duas organizações e encorajar os trabalhadores peruanos a lançar as bases de uma confederação nacional. As condições, entretanto, não favoreciam a realização deste importante objetivo. Na realidade, a FORP se dissolveu em 1916 por conta da fragilidade das organizações da classe trabalhadora de Lima e Callao no contexto de instabilidade econômica relacionado a I Guerra Mundial e a hostilidade do Estado contra os trabalhadores.15
A dissolução da FORP mostrou-se um revés temporário. Entre 1916 e 1919 trabalhadores anarcossindicalistas dobraram seus esforços para organizar os trabalhadores de Lima, inclusive trabalhadores assalariados do campo próximos de estados canavieiros e algodoeiros. 16 Para auxiliar em suas atividades organizativas, encorajaram as organizações de classe já existentes a criar seus jornais e disseminar as ideias anarcossindicalistas. Em 1919, pouco depois da morte de Manuel González Prada, os jornais operários dirigidos por trabalhadores substituíram os jornais anarquistas, outrora dirigidos por intelectuais como González Prada. 17 Entre os novos jornais operários estava El Sindicalista (“O sindicalista”, sindicato dos sapateiros), El Obrero Textil (“O trabalhador têxtil”, federação dos trabalhadores têxteis), La voz del panadero (“A voz do padeiro”, união dos padeiros) e El Electricista (“O Eletricista”, união dos eletricistas). Como resultado da ação organizativa e atividade propagandística, o movimento operário anarcossindicalista de Lima e Callao observou uma significativa melhora de sua força organizativa e capacidade de enfrentamento. Entre 1918 e 1919 inúmeras federações operárias foram criadas (por exemplo, a Federação de Trabalhadores Têxteis do Peru ou FTTP; a Federação dos Gráficos, a Federação dos Pedreiros) e a FORP ressurgiu.
Um clima fértil para o ressurgimento do movimento operário anarcossindicalista de Lima e Callao se apresenta no período pós-guerra. As condições de vida e de trabalho da classe trabalhadora se deterioraram durante o período da guerra. O salário real era corroído enquanto o custo de vida havia aumentado 100% desde 1913. Essa situação intolerável logo provocou um grande número de greves em 1918 promovidas pelos trabalhadores têxteis, ferroviários, padeiros, estivadores e curteiros. Ainda que em alguns casos as greves fossem encerradas mediante concessões salariais, o trabalho militante continuava incansável.
A greve mais significativa ocorreu em dezembro de 1918 quando aproximadamente 2.900 trabalhadores têxteis empregados nas nove maiores fábricas de Lima deixaram seus postos exigindo a jornada de trabalho de 8 horas. Um mês antes o presidente Pardo promulgou um decreto que assegurava às mulheres e aos menores de idade a jornada de trabalho de 8 horas, em uma tentativa de aplacar a reivindicação dos trabalhadores. A medida mostrou-se um erro de cálculos. Não satisfeitos com a restrição estatal da aplicação da jornada de trabalho de 8 horas, trabalhadores anarcossindicalistas começam a preparar a greve geral. Em janeiro de 1919 o movimento operário anarcossindicalista, com amplos setores da classe trabalhadora de Lima e Callao e estudantes universitários iniciam uma massiva greve geral. Mesmo com a prisão e tortura das principais lideranças anarcossindicalistas a greve geral persistia. 18 Depois de três dias de conflitos de rua e inatividade nos negócios, o presidente Pardo, em 15 de janeiro cedeu àquilo que Delfín Levano, uma das lideranças anarcossindicalistas, chamou de “direito inalienável” da jornada de trabalho de 8 horas. 19 A conquista das 8 horas diárias constitui um marco do desenvolvimento do movimento operário anarcossindicalista, e recompensaram os esforços para promover a consciência de classe, solidariedade e a organização de classe. 20
Poucos meses depois da greve geral de janeiro, trabalhadores anarcossindicalistas organizaram outros protestos para contestar a crise da carestia. Em abril, Adalberto Fónken, descendente de asiáticos e um antigo líder da união de trabalhadores da Vitarte, Carlos Barba, fundador e secretário-geral da União dos Sapateiros e Associados (1914), e Nicolás Gutarra, marceneiro e antigo secretário-geral da FORP (1915), entre outros proeminentes lideres anarcossindicalistas estabeleceram o Comité Pro-Abaratamiento de las Subsistencias). O comitê logo estabeleceu seções fora de Lima e Callao vinculando-se a 30.000 trabalhadores. Para divulgar sua demanda pela redução de preços de alimentos e itens básicos, o comitê preparou uma série de passeatas e marchas envolvendo milhares de trabalhadores e suas famílias.
O presidente Pardo e a comunidade empresarial recusaram-se a ceder às demandas do comitê. Tropas da polícia foram mobilizadas para dispersar as passeatas. Em 27 de maio o comitê proclama uma greve geral que paralisa a atividade econômica em Lima e Callao. A greve geral dura cinco dias. “O resultado concreto dos cinco dias de desordem”, de acordo com um observador estadunidense, “foi uma lista de mortos que chega a casa de 100 pessoas, algumas centenas de feridos, de 300 à 500 presos em Lima, perdas e danos a propriedade que chegam a pelo menos 2 milhões de soles, todos os negócios desmoralizados por uma semana e uma severa lição imposta pelos elementos anarquistas maximalistas de Lima e Callao e seus desorientados seguidores”. 21
Essa análise é acurada, sob certo aspecto. A greve geral falhou em conseguir concessões, mas não enfraqueceu a convicção de seus organizadores. De fato, no dia em que Gutarra e Barba foram soltos da prisão em que foram mantidos até 7 de julho, confrontaram o presidente Leguía que apareceu na tribuna do palácio nacional. Diante de uma multidão de apoiadores, Gutarra destemidamente informou Leguía que “o povo de hoje não é o mesmo de ontem, que aceitava silenciosamente todas as tiranias”. Depois de condenar a ação da polícia e ler a pauta de reivindicações, ele declara “o problema social não está solucionado com um estômago cheio – a mente também precisa ser alimentada, por isso a educação deve chegar a todos – nós queremos justiça, liberdade e igualdade”. Concluiu seu discurso dizendo que o proletariado estaca cansado de promessas e defenderia sua liberdade e seus direitos nas barricadas. 22 Dois dias depois trabalhadores anarcossindicalistas reativaram a FORP e proclamaram que sua missão era “acabar com o capitalismo” e criar uma nova sociedade em que “cada pessoa trabalhe e produza de acordo com suas capacidades e receba de acordo com suas necessidades”. 23
Gutarra estava certo. O movimento operário anarcossindicalista através de sua propaganda e práxis dissolveram qualquer resquício de passividade, consideração pela ordem, ou fatalismo da parte dos trabalhadores organizados de Lima e Callao. 24 Na verdade, isto se refletiria na agressividade das futuras respostas dadas às ameaças do Estado e patrões. A promulgação de uma nova constituição em 1920 por Lenguía, com disposições restritas para regulamentar greves e submeter conflitos trabalhistas a julgamento compulsório suscitou condenação e protestos de rua dos trabalhadores. A Federación Obrera Local (FOL) que substituiu a FORP em 1921 atacou a artimanha legal do governo e decidiu ignorá-la. 25
Alguns meses depois, em setembro de 1921 trabalhadores têxteis expropriaram a fábrica El Inca em resposta aos planos da administração de fechar a fábrica por conta do ambiente adverso aos negócios. Por fim, os trabalhadores foram desalojados da fábrica por tropas que obedeciam as ordens da prefeitura local. No dia seguinte, o jornas de negócio de Lima, El Comercio publicou um editorial admoestando os trabalhadores contra a prática de imitar as fábricas retomadas da Itália, apontando a incapacidade dos trabalhadores de gerirem empreendimentos complexos. 26
A Guerra de Posição
A ênfase na organização sindical, solidariedade de classes e a busca por melhorias materiais de curto prazo levou a FOL e seus afiliados a negligenciar a emancipação cultural dos trabalhadores? Em que medida a proposta anarcossindicalista se vinculava ao desenvolvimento de uma cultura autônoma e combativa da classe trabalhadora? A seguir analisaremos o discurso e a prática do movimento operário anarcossindicalista de Lima e Callao na década de 1920 com relação a essas questões. As evidências indicam fortemente que os anarcossindicalistas priorizaram a construção de uma cultura contra-hegemônica da classe trabalhadora capaz de contestar e suplantar a cultura dominante das elites peruanas. Em outras palavras, optaram por uma “guerra de posição” atacando a legitimidade e a autoridade moral da burguesia dominante. Essa estratégia envolveu solapar as convenções sociais e “naturalizar” valores nos trabalhadores como parte de um ethos contrahegemônico por meio de uma rede alternativa e autônoma de estruturas sociais e culturais.27
No primeiro congresso da FOL em 1921 trabalhadores representando 23 organizações operárias reafirmaram a necessidade de elevar a moral e a cultura da classe trabalhadora. 28 Reconhecendo a indissociabilidade da emancipação cultural da revolução social, aprovam a “dedicação exclusiva da FOL em prol da melhoria econômica, moral e intelectual da classe trabalhadora”. Ao firmar simultaneamente seu compromisso com uma agenda econômica e cultural, a FOL claramente assinalou a importância do desenvolvimento sociocultural dos trabalhadores. Para dar materialidade a esse ponto, autorizou a criação de um jornal operário diário e uma biblioteca popular.29 Dois meses depois, sob a direção de Adalberto Fonkén, a biblioteca popular foi inaugura na rua Trujillo no centro de Lima para homens e mulheres trabalhadoras de todas as raças e etnias. Aqui os trabalhadores poderiam se informar, ter acesso a livros de vulgarização científica, capazes de “quebrar as trevas do senso comum”, que em contrapartida potencializaria sua ação contra o “despótico edifício social da burguesia” (sic).30
Mesmo se a FOL não tivesse endossado a necessidade de promover a edificação moral e cultural dos trabalhadores, sem dúvida seus afiliados o fariam de qualquer maneira. Uma minoria influente de intelectuais trabalhadores anarcossindicalistas altamente motivados dentro das organizações da FOL estavam determinados a livrar os trabalhadores dos automatismos sociais e da marginalização cultural imposta pela ordem aristocrática peruana. Tomemos como exemplo a união dos trabalhadores da indústria tecelã Santa Catalina, que em 1919 fundaram seu próprio jornal, El Nudito (“O Pequeno Elo”), que publicava notícias locais relativas ao trabalho e comentários sociais. O jornal orgulhosamente estampava “Não editado por intelectuais, mas escrito por e para trabalhadores”. 31 Mais tarde, em 1920, El Nudito seria substituído jornal oficial da FTTP, El Obrero Textil. Indiscutivelmente o mais importante jornal sindical em Lima durante a década de 1920, El Obrero Textil, prontamente encampou a tarefa cultural da FOL insistindo que “quanto maior o nível cultural de um povo, mais rápida é a conquista de sua liberdade”. 32 Essa visão ecoou nas federações de trabalhadores gráficos, carpinteiros e da construção civil que em contrapartida publicaram jornais e exaltaram as virtudes da autoexpressão dos trabalhadores. Sob a direção de trabalhadores-intelectuais anarcossindicalistas, esses e outros jornais operários ofereceram um fórum para que trabalhadores publicassem suas poesias, discutissem assuntos morais, discorressem sobre a emancipação da mulher trabalhadora e a “questão indígena”, debatessem assuntos ideológicos e analisassem as relações capital-trabalho. 33 Para estimular o avanço da educação sociocultural e política dos trabalhadores a imprensa operária também utilizou desenhos e gravuras. El Constructor (O construtor), o órgão oficial de propaganda da União dos Trabalhadores da Construção Civil, por exemplo, publicou uma charge instrutiva retratando um trabalhador quebrando a corrente do militarismo, da política parlamentar, do clero e do Estado, com a consígnia “um ataque contra um trabalhador é um ataque contra todos”. 34
Junto a proliferação de jornais operários, preocupados com “as melhorias morais e intelectuais” dos trabalhadores, a FOL e seus afiliados patrocinaram o fortalecimento de associações culturais e recreacionais. Incluem-se nesse conjunto bibliotecas operárias, grupos artísticos e teatrais, grupos musicais e clubes de esportes. Articulados, essas associações operárias autônomas se constituíram enquanto um esforço conjunto de refazer as práticas sociais e culturais da classe trabalhadora em Lima e Callao. O envolvimento de trabalhadores, suas famílias e comunidades nessas associações permitiu a assimilação de um discurso anarcossindicalista sobre autoaprimoramento, um código moral de comportamento (por exemplo, o abstencionismo de álcool e jogos), dignidade e solidariedade da classe trabalhadora e justiça social.
Ilustrativo sobre esse ponto é o Centro Musical Obrero de Lima (CMO). Fundado em 1922 sob a direção de Delfín Lévano e com firme apoio da FOL, o CMO ofereceu educação musical e política para o público trabalhador. Apresentando-se nos bairros operários de El Cercado, La Victoria, Barrios Altos e Rimac, o CMO levou aos trabalhadores uma variedade de estilos musicais e canções centradas na emancipação dos trabalhadores, direitos, liberdade, triunfos e paixões.35 No repertório executado pelo CMO estava “La Internacional”, “Anarco”, “El Paria”, “Canto del Pueblo”, “Lira rebelde proletaria”, e “Canto del Trabajo”. 36 Esta última canção tipifica a crítica social e o espírito de rebelião propagado pelo CMO37:
Vamos Camaradas,
À luta que hoje prevalece
A livre bandeira vermelha
O sol ilumina o futuro
No interior e na oficina
Eles nos exploram, peça por peça
Como burros de carga
O capital nos maltrata
Nossos mestres e patrões
Prometeram nos libertar
Mas em vez de nos fazer melhores
Nos recusam até o pão
O resgate do trabalho etc.
Desunidos somos fracos
Juntos somos fortes
Só os bem organizados triunfam
Aqueles que tem coração.
Para garantir que os trabalhadores aprendessem as letras dessas canções de protesto, as associações imprimiam e distribuíam livros com as letras de músicas revolucionárias. A união têxtil da The Santa Catalina, por exemplo, em homenagem ao 1º de maio em 1927, publicou uma coleção de “hinos proletários universais e canções proletárias dos nossos dias”. A associação buscava por meio da publicação desse livro de canções engendrar uma “nova ética social” e contribuir com o “belo trabalho de reduzir as mazelas do povo”.38
Anarcossindicalistas utilizaram ainda um conjunto de novas práticas sociais, rituais e celebrações para fomentar nos trabalhadores valores opostos à ordem vigente e transformar a sua visão de mundo. Na cidade têxtil de Vitarte, nos arredores de Lima, um grupo de trabalhadores têxteis anarcossindicalistas organizaram um festival anual de plantar árvores que se tornou uma celebração da cultura e da solidariedade da classe trabalhadora. A primeira fiesta de la planta ocorreu em 25 de dezembro de 1921.39 Os organizadores escolheram a data de seu festival secular intencionalmente para concorrer com o feriado religioso cristão. A programação da celebração envolveu trabalhadores e organizações sindicais da região e consistia em discursos classistas, tributos a memória de “camaradas que tombaram na luta social”, plantio de árvores, pic nics, jogos de futebol e performances de dança e música. Não se consumia bebidas alcoólicas nesses eventos, observando a rigorosa moral anarquista.40
De maneira similar, mas em menor escala, associações filiadas a FOL realizavam confraternizações celebrando o surgimento de novas associações sindicais, ou para levantar fundos para greves e outras despesas dos sindicatos. 41 Além dessa função social, o movimento operário anarcossindicalista continuou realizando as comemorações do 1º de maio durante a década de 1920. Significativamente, todos esses eventos permitiram aos trabalhadores afirmar o seu poder em espaços públicos.
Outra importante instituição apoiada pelos anarcossindicalistas para o avanço da cultura da classe trabalhadora foi a universidade popular. Organizada por estudantes reformadores da Universidade de San Marcos, a universidade popular foi concebida como uma extensão para ampla educação e treinamento de trabalhadores que, em contrapartida, serviriam como educadores dedicados a emancipação cultural de todos os trabalhadores e camponeses.42
A despeito do papel dominante de estudantes, administradores e professores, o movimento operário anarcossindicalista apoiava a matrícula de trabalhadores nas Universidades Populares (Ups) estabelecidas em Lima e Vitarte em 1921. Essa postura se justifica em grande medida pelo fato de as UPs serem expressamente comprometidas com a educação integral dos trabalhadores e a causa da justiça social. A posterior nomeação das UPs com o nome de Manuel González Prada, o intelectual anarquista, não atingiu o propósito das UPs. Contudo, alguns trabalhadores, de acordo com El Obrero Textil, ficaram relutantes em participar das UPs por sua “tendencia de olhar com desconfiança qualquer coisa que não fosse originária da classe trabalhadora”. 43
Para a maior parte, entretanto, os trabalhadores anarcossindicalistas estavam ávidos por adentrar as UPs tanto como estudantes quanto como professores, e imprimir a sensibilidade anarcossindicalista. Por exemplo, em Vitarte, trabalhadores penduraram cartazes vermelhos nas paredes da UP estampando slogans como “Verdade, Justiça e Liberdade”, “A Cultura Liberta o Homem”, e “O Bêbado é um ser sem Vontade”. Um sinal grafando três números oito seguidos aparecia no meio do quadro para demarcar o apoio das UPs às 8 horas de trabalho, 8 horas de estudo e 8 horas de descanso – uma posição de acordo com as posições das 1ª Internacional.44
Para o movimento operário anarcossindicalista as UPs faziam parte de sua extensa rede de associações culturais que poderiam ser empregadas para apoiar seu projeto e a luta de classes. Um caso destacado foi o de protestos massivos contra Leguía e a Igreja Católica no contexto da consagração oficial do Peru ao Sagrado Coração de Jesus em maio de 1923. Ameaçada pela possibilidade de expansão da influência da Igreja e a supressão da liberdade de pensamento, a FOL se aliou a estudantes universitários para mobilizar seus militantes sindicais, grupos culturais e as UPs em grandes manifestações de rua contra a consagração. 45 Após o ápice das batalhas de rua entre as forças de segurança e manifestantes, resultando na morte de um trabalhador e de um estudante, o governo de Leguía avaliou se mais prudente cancelar a consagração. Leguía ainda exigiu vingança contra os “centros de agitação popular”, sua ridícula apelação às UPs.46 No início dos protestos estudantes e trabalhadores vinculados às UPs foram presos e muitos foram deportados.
Leguía não via somente as UPs como subversivas, como toda a infraestrutura cultural anarcossindicalista. Atuando frequentemente em benefício da Igreja, patrões e leites políticas, Leguía ordenou o fechamento de livrarias populares e jornais operários. Em 1921, a polícia destruiu a Livraria Popular Ricardo Palma no Parque Netuno e se apreendeu os fundos da livraria dos trabalhadores de Rimac no ano seguinte.47
A publicação dos jornais operários eram frequentemente interrompidas ou extintas por completo pela repressão estatal. Depois de dois anos de circulação, Solidaridad, um dos órgão oficiais de propaganda da FOL, foi compulsoriamente fechado em 1927. A repressão estatal era acompanhada pela censura burguesa. Em 1924, M. A. Arcelles, o secretáriogeral da FOL, acusava a imprensa burguesa de recusar-se a publicar as denúncias sindicatos de tratamento desumano nos negócios capitalistas. 48 Além das bibliotecas populares e da imprensa operária, Leguía também perseguiu e direcionou a repressão contra o CMO, sob o pretexto de que seus membros teriam participados dos protestos pela não consagração de 1923. A FOL denunciou o governo de Leguía em 1924 por sua “abominável campanha para impedir a redenção da classe trabalhadora por meio do empoderamento cultural”. Essa veemente condenação foi provocada pela prisão de um estudante chileno em Vitarte por ter realizado uma apresentação sobre a Revolução Mexicana para associações operárias.49
O sindicalismo revolucionário peruano
Qualquer avaliação do anarcossindicalismo em Lima e Callao deve referir-se não somente a ênfase no sindicalismo classista e na contracultura política, mas também às múltiplas formas do sindicalismo de intenção revolucionária. Em 1921 a FOL adere formalmente ao sindicalismo revolucionário. Seis anos mais tarde reafirmaria essa orientação política e ideológica no Segundo Congresso Operário Local. No Primeiro Congresso Operário Local, o secretário-geral Delfín Lévano, definiu sindicalismo revolucionário como um sindicalismo que “não se restringe a conquistas imediatas por meio da organização dos trabalhadores e da ação direta, mas que também busca a elevação moral e intelectual do trabalhador”. E completa “(…) colocando-se contra qualquer elemento que se constitua enquanto erro, obstáculo ou falseamento que impeça a solidariedade efetiva de todos os explorados do mundo em sua marcha para o futuro, para o objetivo de médio prazo do programa do sindicalismo de intenção revolucionária: a supressão do patronato e do salariato, implantando na terra livre, uma sociedade de livres produtores”.50
Ainda que houvessem múltiplas interpretações do sindicalismo revolucionário na FOL, a maior parte de sua militância partilhavam da preocupação de Lévano com objetivos práticos tais como a elevação da cultura, da solidariedade e da organização dos trabalhadores. A revolução social libertária estava muito distante. Arturo Sabroso, uma liderança dos trabalhadores têxteis, formulou essa visão em um artigo intitulado “Pelo Sindicalismo Revolucionário”. Escrevendo para El Obrero Textil pouco depois do primeiro congresso, Sabroso endossava a ideia de que os trabalhadores peruanos “deveriam ser revolucionários” com a ressalva de que a organização sindical, a unidade da classe trabalhadora e a “CONSCIENTIZAÇÃO de nossos camaradas” deveriam vir primeiro. Também advertiu sobre a impulsividade e a necessidade de cautela, considerada como parte da atuação sindical.51
Sustentando uma concepção pragmática do sindicalismo revolucionário para o contexto peruano. Como um observador do movimento operário de Lima notou, em 1921 sofria-se com a influência corrente de organizações conservadoras de artesãos, com a falta de consciência de classe e organização sindical entre os setores da força de trabalho urbana e a persistente hostilidade do Estado e dos patrões.52
Os anarcossindicalistas peruanos referiam-se a si mesmos ora como sindicalistas revolucionários, ora como sindicalistas na década de 1920. Seu entendimento acerca dos princípios e práticas do sindicalismo revolucionário eram provenientes principalmente da Associação Internacional dos Trabalhadores, da CGT francesa (Confederación Général du Travail, 1902-1914) e da FORA. 53 Essencialmente, reivindicavam a autonomia dos trabalhadores e a primazia das associações de classe na luta para alcançar melhorias econômicas de curto prazo e total emancipação por meio da destruição do capitalismo e do Estado burguês. Também repudiavam os partidos políticos e a via eleitoral em favor das táticas de ação direta, especialmente a greve geral. Por meio destes parâmetros gerais os anarcossindicalistas peruanos, assim como seus companheiros na Europa e em toda parte, tenderam a adaptar a doutrina do sindicalismo revolucionário às condições locais e às relações de poder.54
Em resposta a condições políticas e econômicas desfavoráveis, o anarcossindicalismo ajustou seus objetivos e buscou uma forma pragmática de luta de classes. O aumento da competição no mercado de trabalho urbano decorrente do fraco crescimento econômico e do influxo de migrantes rurais solaparam o poder de barganha dos trabalhadores organizados e desafiaram sua habilidade de representar a ampla classe trabalhadora. Entre 1920 e 1931 a população de Lima cresceu cerca de 68%, de 223.807 para 376.097 habitantes.55 No mesmo período a porcentagem de trabalhadores empregados no setor artesanal e na manufatura cresceu apenas 1%.56 Muito desse crescimento ocorreu por conta da dificuldade de organizar o setor da construção civil. Dado este campo econômico pouco auspicioso e um regime determinado a proteger os interesses do capital nacional e estrangeiro, anarcossindicalistas optaram por uma prática sindical pautada em uma força limitada da organização da classe trabalhadora.
Adiando objetivos e ações revolucionárias, deram preferência para a defesa dos direitos dos trabalhadores e melhorias nas condições de trabalho e de moradia. Para alcançar tais objetivos empregaram ações diretas e indiretas. Mesmo proclamando “a greve” como a arma, por excelência, dos trabalhadores, a FOL e suas associações frequentemente recorria a barganhas com os patrões e negociações com oficiais do Estado.57 Uma combinação de ações diretas e indiretas pode mostrar sua efetividade como quando o sindicato atuando na fábrica de algodão El Inca conseguiu impedir uma redução salarial após a instalação do tear mecânico em 1928. O sindicato articulou a suspensão do trabalho e pressionou o Ministério do Trabalho a intervir.58
Em geral o movimento operário anarcossindicalista buscou evitar ações de alto risco como greves gerais. Com exceção de 1923, quando três greves gerais ocorreram, estas foram acontecimentos raros. A FOL e suas afiliadas reservaram o uso da greve geral e de grandes manifestações de rua para circunstâncias extraordinárias tais como reivindicar a libertação de lideres trabalhistas presos, defender o direito de organização sindical, e para combater políticas antitrabalhistas tais como a Lei de Conscrição Viária (discutida em detalhes na próxima seção). Essa tendência de evitar custosos confrontos diretos com o Estado deixou uma impressão em alguns trabalhadores anarcossindicalistas que o sindicalismo revolucionário era essencialmente “a conquista de direitos trabalhistas sem partir para extremos”.59
O sindicalismo revolucionário peruano expresso pelo sindicalismo de Lima e Callao possuía ainda, dois aspectos proeminentes. Primeiro, apresentava um interesse voraz pela emancipação das mulheres trabalhadoras e dos indígenas. O principal grupo que se direcionava o esforço para sindicalização e para o qual se voltava boa parte da propaganda anarcossindicalista eram as mulheres trabalhadoras. Trazendo a pauta igual trabalho, igual salário, anarcossindicalistas buscaram organizar as trabalhadoras nas industrias têxtil e energética. A FOL e a FTTP também intentaram lançar uma campanha a fim de organizar 23.000 trabalhadoras domésticas de Lima.60
A organização e emancipação cultural dos indígenas do campo também era uma preocupação central do movimento operário anarcossindicalista, que se refletia na colaboração com o Comitê Central Pró-Direitos Indígenas Tahuantinsuyo (ver próxima seção) e a agenda de “libertação indígena” adotada pelo Segundo Congresso Operário.61 O segundo aspecto está relacionado a perspectiva internacionalista. Os jornais sindicais de Lima mantinham contato com organizações anarcossindicalistas na América e na Europa e reportavam notícias sobre o movimento operário ao redor do mundo.62 As associações anarcossindicalistas também se mobilizavam em resposta a acontecimentos externos. Por exemplo, a despeito da censura do governo sobre notícias acerca da execução dos anarquistas Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti em 1927, a informação se espalhou rapidamente e o movimento operário organizado respondeu com greves em protesto.63 Dois dias antes da execução, trabalhadores portuários expressaram sua contrariedade à execução por meio de uma paralisação, ferroviários seguiram o exemplo. A FTTP convocou os trabalhadores têxteis à greve e denunciar aqueles que não aderissem como “trabalhadores sem consciência”.64
O sindicalismo revolucionário praticado pelo movimento operário de Lima e Callao não era alheio à críticas. Na realidade, as críticas emergiram de suas próprias fileiras e de grupos simpatizantes ao anarcossindicalismo. A União dos Trabalhadores da Construção Civil queixava-se da burocracia da FOL e sua tendência a “referir-se ao sindicalismo revolucionário a cada minuto, em momentos críticos com o objetivo de levar suas reivindicações ao Estado”.65 A Federação de Carpinteiros e Ramos Similares desaprovava a concessão de tão grande influência à setores não trabalhadores como estudantes universitários.66 O grupo Trabalhador Anarquista criticava a FOL por permitir a difusão de políticas marxistas e “teorias de falsa redenção”.67
As críticas foram rapidamente rebatidas nas páginas de Solidariedad com o argumento que nenhuma das associações afiliadas havia aderido aos princípios comunistas.68 Sindicalistas Revolucionários já haviam rejeitado anteriormente essa mesma alegação vinda de grupos anarquistas antibolcheviques no grupo do La Protesta. 69 Como a CGT francesa, a FOL filiou todos os trabalhadores independentemente de sua orientação política com base em um sindicalismo pautado na classe e não nos acordos políticos. A posição apolítica da FOL, entretanto, possuía difamadores e eles forçosamente apresentariam sua posição no Segundo Congresso Operário em 1927.
Trabalhadores e intelectuais pró-socialistas criticaram a FOL no Segundo Congresso Operário por se abster da política e por sua “neutralidade” ideológica. Eles defendiam uma única filiação ideológica dos trabalhadores e a formação de uma confederação nacional do trabalho comprometida com a tomada do Estado e a redistribuição da riqueza.70 Arturo Sabroso, que atuou como secretário-geral nesse congresso, estava entre aqueles que influenciaram os delegados representando 27 associações sindicais a renovar sua adesão ao sindicalismo revolucionário. 71 Ele refutou a acusação de que a FOL tivesse ignorado questões políticas, apontando que a FOL lutou contra “leis opressivas”, um ponto que os socialistas relutavam e admitir. 72 Por fim, o argumento da necessidade de manter o sindicalismo revolucionário a fim de evitar o sectarismo ideológico e preservar a unidade da classe trabalhadora prevaleceu.73
Tensões ideológicas dentro do movimento operário foram temporariamente suspensas quando, em junho de 1927 o regime de Leguía prendeu um grande número de lideres trabalhistas e ativistas de todas as vertentes políticas e orientações ideológicas. Conflitos sobre ideologia, partidos políticos e autonomia sindical ressurgiriam com força no início da década de 1930 quando o recém-fundado Partido Comunista Peruano e o social-democrata Partido Aprista Peruano disputaram o controle sobre o movimento operário.
Anarcossindicalismo ao Sul da Serra Peruana
Na parte sul da serra peruana, que compreende os departamentos andinos de Arequipa, Cuzco e Puno, uma fraca, porém significativa rede de movimentos anarcossindicalistas emergiu ao final da década de 1910 e em 1920. Essa rede coincidiu com a expansão da economia exportadora de lá peruana. O crescimento do comércio de lã entre 1902 e 1924 fomentou ligações comerciais entre os três departamentos (Arequipa, Cuzco e Puno), estimulou o crescimento das fazendas, melhorias de infraestrutura e o desenvolvimento da economia urbana de Arequipa e Cuzco. O contato entre anarquistas e anarcossindicalistas no sul do Peru era facilitado pela conclusão da linha férrea da região em 1908 que conectava as áreas produtoras de lã em Puno e Cuzco à Mollendo, principal porto de Arequipa. Como capital do departamento e centro comercial da economia da região, Arequipa tornou-se o ponto central da rede anarcossindicalista no sul do Peru.
O desenvolvimento do anarcossindicalismo em Arequipa pode ser creditado à influência de quatro fatores: 1) uma imprensa liberal radical; 2) o movimento operário de Lima; 3) imigrantes anarquistas e 4) laços fronteiriços com anarcossindicalistas chilenos. Cada um desses pontos surgirão a seu tempo. Primeiro, uma classe de intelectuais e artistas nas décadas de 1890 e início de 1900 promoveram um discurso liberal radical que ofereceu uma crítica vigorosa a sociedade aristocrática, conservadora, dominada pela Igreja de Arequipa.
Inspirados por Manuel González Prada, proeminente liberal Arequipenho, intelectuais e editores de jornais como Mariano Lino Urieta, Manuel Mostajo, Modesto Málaga e Armando Quiroz Perea regularmente denunciavam a influência opressiva e exploradora do domínio oligárquico, religioso e capitalista.74 Sob sua supervisão, jornais radicais como El Ariete, Bandera Roja, El Volcán, Defensa Obrera, e La Federación articularam problemas e temas que poderiam ser tomados pelos anarcossindicalistas de Arequipa.
Editoriais denunciando “a tragédia da tirania centralista” e a reivindicação por descentralização frequentemente apareciam nessas publicações. 75 Pedidos pela redenção humana, direitos e dignidade dos trabalhadores e a emancipação da Índia também eram veiculados.76 Ademais, a imprensa liberal radical de Arequipa encorajou a organização de trabalhadores e artesão pela defesa de seus interesses. Isto serviu para engendrar um movimento popular de oposição que se refletiu nas primeiras grandes greves em Arequipa em 1902, na sua primeira celebração do 1º de Maio em 1906 e na formação do Centro Social Obrero de Arequipa, fundado em 1905, a anarquista Cooperativa y Caja de Ahorros de Arequipa, fundada em 1912, a associação classista La Coalición Obrera de los Barrios fundada em 1918 e a Socorros Rojos fundada em 1919.77
O segundo fator significativo para catalisar a organização e a práxis anarcossindicalista em Arequipa foi a influência do movimento operário de Lima e em menor medida o movimento operário argentino e chileno. Os princípios, objetivos, luta de classes e estruturas organizativas desses movimentos relativamente avançados serviram como ponto de referência para os trabalhadores de Arequipa.
Em dezembro de 1918, por exemplo, artesãos e trabalhadores mencionam notícias de um ascenso da luta proletária na Argentina, no Chile e em Lima como inspiração para a organização da Sociedad de Obreros y Socorros Mutuos (SOSM), uma sociedade de resistência classista comprometida comprometida com a recusa da política formal, adepta do princípio “que a emancipação dos trabalhadores é uma tarefa dos próprios trabalhadores”. 78 Dois meses mais tarde, aceitando a sugestão do movimento operário anarcossindicalista de Lima, a SOSM lança uma campanha de propaganda para aglutinar trabalhadores na luta pela jornada de trabalho de 8 horas diárias em Arequipa.
Em 21 de julho de 1919, as principais associações operárias de Arequipa novamente seguiram o exemplo de Lima formando o Comité Pro-Abaratamiento de las Subsistencias para reduzir os altos custos de gêneros alimentícios, aluguéis e utilidades. Tal qual o Comité de Lima, foram apresentadas às autoridades de Arequipa a pauta de reivindicações e quando estas foram ignoradas os trabalhadores responderam com uma massiva greve geral. A primeira greve geral em Arequipa durou 8 dias no início de outubro e envolveu sapateiros, trabalhadores têxteis, mecânicos e do setor de transportes afiliados ao Comité, funcionários do comércio e ferroviários da empresa britânica Peruvian Corporation. Mesmo com a greve sendo recebida com um tremendo apoio popular, rendeu resultados parciais. Reivindicações de salário e benefícios dos trabalhadores da Peruvian Corporation foram assegurados, mas a pauta do Comité de redução de preços foi ignorada. Nos meses que se seguiram a greve geral o Comité manteve as manifestações de massa e continuou a promover a agenda anarcossindicalista.79
No início da greve geral de 1919 em Arequipa, artesãos e trabalhadores começaram lentamente a construir organizações de classe e federações operárias. Amplamente auxiliadas por anarcossindicalistas ligados a Socorros Rojos, fundaram a primeira federação operária local, a Federación Obrera Arequipeña (FOA) em 1921.80 Dedicada ao propósito explicito de “observar os reais interesses da classe trabalhadora”, a FOA contava, entre seus afiliados, com ferroviários, trabalhadores dos transportes, barbeiros, padeiros e outros artesãos. 81 Entre 1919 e 1926 um conjunto de sociedades de resistência e associações operárias foram organizadas entre padeiros, curtidores, sapateiros, gráficos, marceneiros, ferroviários e operários da construção civil. Estes rapidamente se organizaram em federações operárias locais e setoriais.82
Esse ascenso na organização operária corresponde ao chamado realizado pela FORP em 1919 para a formação de sindicatos e federações com o objetivo de potencializar a ação direta contra capitalistas e o Estado.83 Com o estabelecimento de uma federação regional, a Federación Obrera Local de Arequipa (FOLA), aos moldes da FOL-Lima, em 1926, emerge uma clara simetria entre os movimentos operários de orientação anarcossindicalista de Arequipa e Lima. De fato, a prioridade declarada da FOLA para atingir a “unificação integral de todos os trabalhadores” na busca por “liberdade e justiça” refletia a orientação da FOL-Lima.84
Como sua co-irmã em Lima, o movimento operário anarcossindicalista de Arequipa utilizou tanto ação direta quanto indireta na busca por objetivos e curto e longo prazo. Por exemplo, em outubro de 1923, associações operárias em Arequipa protagonizaram protestos e paralisações contra o aumento do preço de passagens e taxas de carga nas ferrovias gerenciadas pela empresa britânica Peruvian Corporation. A SOSM e o sindicato dos alfaiates (Unión de Sastres) apontava o caráter imperialista da Peruvian Corporation e a denunciava por “sugar o sangue do povo”. Ao mesmo tempo, buscaram angariar o apoio da Câmara de Comércio de Arequipa. Por fim, a pressão suficiente foi mobilizada para compelir o governo peruano a intervir e suspender o aumento de preço.85
Dois anos mais tarde, o movimento operário iniciou uma greve geral, a arma dos anarcossindicalistas por excelência, para exigir do governo peruano a revogação da infame Ley de Conscripción Vial (Lei de Conscrição Viária), que requeria dos homens adultos um registro e trabalhos nos projetos de infraestrutura do Estado por mais de vinte dias por ano.86 Esta greve será examinada com mais detalhes posteriormente. Por ora basta afirmar que a greve geral foi encabeçada pela Asemblea Obrera Popular, uma organização guardachuva composta pela maior parte das associações anarcossindicalistas de Arequipa e coordenada com a FOL-Lima.87 O governo via a Assembleia Operário Popular como uma organização subversiva de agitadores. Sua aliança com a FOL-Lima e setores do IWW chileno, sem dúvida reforçaram esta visão.88 Acompanhando a greve geral de dezembro de 1925 o governo tentou prender lideranças operárias afiliadas a assembleia, mesmo sem conseguir identificar claramente quem eram essas lideranças por que a assembleia “não possuía presidente ativo, em pleno acordo com um regime anarquista”.89
A combatividade e manifesta consciência de classe do movimento operário de Arequipa desmentia sua relativa pequenez e caráter incipiente. Arequipa possuía apenas 45.000 habitantes em 1925 e prescindia de um setor industrial dinâmico. Entretanto, o movimento operário anarcossindicalista estendeu seu alcance além dos trabalhadores empregados em algumas dúzias de oficinas, 19 empresas comerciais e 15 estabelecimentos industriais.90
Emulando o movimento operário de Lima, as sociedades de resistência e associações operárias de Arequipa cultivaram vínculos orgânicos com amplos setores populares. Por meio do enraizamento de livrarias populares, grupos de teatro e clubes de esportes, buscaram atingir dois objetivos primários: 1) a promoção da solidariedade de classe e 2) a emancipação sociocultural dos trabalhadores.91 Um exemplo relevante é o sindicato de condutores e funcionários de bondes e a Tranelec futebol clube patrocinado pelo sindicato. Como uma extensão do sindicato, que era afiliado a Asemblea Obrero Popular, Tranelec foi convocado para compor ações diretas em defesa dos interesses da classe trabalhadora, bem como protestos contra a Lei de Conscrição Vial.92
A promoção de um calendário de eventos por parte do movimento operário anarcossindicalista de Arequipa era paralelamente desenvolvido em Lima. Além das festividades do 1º de Maio, havia celebrações marcando a data de fundação das associações operárias. Tributos a memória de mártires da classe trabalhadora também eram organizados. Em 30 de janeiro, ocorria o tributo anual em honra à “memória das vitimas de 30 de janeiro de 1915” financiado pelas sociedades operárias de Arequipa.93 Este evento relembrava os massivos protestos contra as medidas de austeridade econômica na praça principal de Arequipa e o massacre brutal de 13 trabalhadores por gendarmes e policiais. Eventos como este lembravam os trabalhadores do caráter classista e repressivo do Estado e estimulava a solidariedade entre a classe trabalhadora.
A influência de imigrantes anarquistas constituem um terceiro fator na propagação da ideologia e da organização anarcossindicalista em Arequipa. O mais notável entre estes imigrantes era Ramón Rusiñol, um arquiteto espanhol e autoproclamado anarcossindicalista, que chega em Arequipa em 1919. Um dedicado e incansável divulgador da doutrina anarcossindicalista, Rusiñol ensinava trabalhadores em seu escritório em Barrio Antiquilla no centro de Arequipa. Por meio de sua prodigiosa atividade de convencimento, Rusiñol transformou Antiquilla em um espaço libertário onde grupos de trabalhadores militantes e líderes anarcossindicalistas reuniam-se, socializavam e instruíam-se.94
Jacinto Liendo e Francisco Ramos, dois de seus dedicados estudantes despontaram como proeminentes lideres anarcossindicalistas em meados da década de 1920. Liendo era tipógrafo e atuou como liderança da combativa Asemblea Obrero Popular. Ramos era alfaiate e atuava como secretário de atas da FOLA. Rusiñol também orientou alguns estudantes universitários no campo do anarquismo que se comprometeram a levar “a luz do conhecimento” às organizações de trabalhadores e artesãos de Arequipa.95 Antes de sua prisão, sob alegações de atividade subversiva, e deportação para a ilha de Taquila em 1927, fundou uma Universidade Popular. Apoiado por estudantes anarquistas associados à Humanidad, um semanário dos “estudantes livres”, a Universidade Popular buscou fomentar a educação integral dos trabalhadores. Rusiñol e os estudantes anarquistas defendiam o autoaprimoramento dos trabalhadores e utilizavam os espaços da Sociedad Obrera i Socorros Mutuos, Coalición Obrera de los Barrios, e a Sociedade de Padeiros e Construtores para sediar as aulas da Universidade Popular.96
Imigrantes europeus não eram os únicos estrangeiros a promover o anarcossindicalismo em Arequipa. Manuel B. Rodas, trabalhador têxtil boliviano, buscou ativamente organizar os operários de Arequipa junto as linhas anarcossindicalistas. Entre 1916 e 1922 Rodas trabalhou na La Industrial Huaico, uma fábrica têxtil relativamente grande com mais de 200 trabalhadores no jovem setor manufatureiro de Arequipa. Aparentemente, com alguma ajuda de Rusiñol, Rodas encorajou trabalhadores da La Industrial Huaico a organizar um sindicato e utilizar táticas de ação direta para melhorar os salários e as condições de trabalho. Não demorou muito para as atividades organizativas e propagandísticas de Rodas incitarem M. Forga and Sons, os donos das fábricas, à agir. No início da greve dos trabalhadores de Huaico em 20 de outubro 1922, a M. Forga and Sons realizou um lockout, negou o reconhecimento da organização sindical dos trabalhadores e encaminhou uma petição à prefeitura de Arequipa para expulsar Rodas. Os patrões habilmente utilizavam preconceitos xenófobos e a ameaça subversiva em sua petição ao prefeito: “[Rodas] é um dos principais incitadores da greve. Este indivíduo é de nacionalidade boliviana e consequentemente sua expulsão enquanto elemento perigoso à ordem pública é prescrita pela lei.” O prefeito concordou com os proprietários, ignorando os argumentos dos trabalhadores delegados de Huaico que afirmavam que Rodas foi injustamente despedido de seu emprego e era somente o tesoureiro de sua organização mutualista. 97
A expulsão de Rodas em 1922, entretanto, não evitou que os trabalhadores têxteis de Huaico constituíssem um sindicato anarcossindicalista. Em 1926 a Unión Textil del Huaico adotou o inspirador slogan do IWW: “Um por Todos e Todos por Um” e advertia os trabalhadores contra “uma vida isolada e resignada sofrendo com a opressão capitalista”. 98 Seguindo esse princípio, a Unión Textil del Huaico buscou estimular a solidariedade de classe e lutar por melhorias salariais e de condições de trabalho durante a década de 1920.
Contatos além das fronteiras com trabalhadores chilenos filiados ao IWW constituía outro fator chave para a propagação do anarcossindicalismo em Arequipa. Inicialmente militantes do IWW chileno buscaram estabelecer laços estreitos com com o movimento anarcossindicalista de Lima. Em linhas gerais este objetivo se concretizou na frequente troca de informações e distribuição de propaganda. Em 1922, por exemplo, Luis Armando Triviño, uma proeminente liderança do IWW chileno publicou uma série de artigos no La Protesta exaltando as virtudes da organização e métodos do IWW lançando um apelo à “solidariedade de alcance internacional”.99
Ainda que alguns trabalhadores, individualmente, certamente foram influenciados por esse apelo, existem poucas evidências que o movimento operário de Lima foi afetado significativamente.100 Em contrapartida, o movimento operário de Arequipa, especialmente empregados e trabalhadores portuários em Mollendo, foram profundamente influenciados pelas interações com os Wobblies chilenos. Diferentemente de seus companheiros de Lima, o s trabalhadores de Arequipa possuíam contato mais direto e substancial com militantes do IWW chileno na década de 1920.
É difícil identificar precisamente quando, dadas as evidências fragmentárias, trabalhadores marítimos do IWW chileno fizeram o primeiro contato com trabalhadores portuários peruanos em Molledo. Certo é que no início de 1925 laços sólidos foram estabelecidos. Grupos do IWW chileno a bordo dos navios Mapocho e Cachapoal, pertencentes e operados pela South America Steamship Company, mantinham reuniões secretas com trabalhadores peruanos em uma casa abandonada na rua Islay. 101 Em 24 de março de 1925, a Voz del Mar, um órgão de propaganda do IWW radicado em Valparaiso, divulgou formação de “um núcleo local do IWW, em Molledo”.
O estabelecimento da presença do IWW em Molledo, parece ter ocorrido em decorrência de uma triunfante greve geral de trabalhadores marítimos e ferroviários entre 18 e 25 de fevereiro. De acordo com delegados peruanos da Agrupaciones del Mar em Molledo, o estopim da greve foi a caprichosa e injustificada demissão de três trabalhadores da empresa britânica Peruvian Corporation. Em um comunicado datado de 8 de março, os trabalhadores expressam sua gratidão aos “distintos camaradas do Mapocho e do Cachapoal” e a “Central Operária de Valparaiso” e “todos os irmãos da costa chilena” por sua solidariedade. Eles caracterizavam o Peru como um “país em que os [Anglo] Saxões dominavam e buscavam silenciar a voz dos trabalhadores com terror”. O comunicado terminava com uma afirmação de seu apoio ao IWW: “a unificação dos trabalhadores é nosso desejo primordial, por que aquele que vive sob o suor e a fadiga do trabalho não deve reconhecer fronteiras ou bandeiras, por isso, nós não nos separamos do IWW, que consideramos ser o melhor meio para tal objetivo”.102
As forças de segurança peruanas frequentemente percebiam alarmadas o internacionalismo da classe trabalhadora e a rejeição de divisões nacionais por trabalhadores do sul. Em um relatório intitulado “Sobre a sociedade internacional bolchevique Y.W.W.” (sic), um agente de segurança alertava o prefeito de Arequipa sobre a sediciosa “teoria” proposta por Otavio Manrique, presidente da Confederação dos Trabalhadores Ferroviários do Sul. Observa que Manrique estimula os trabalhadores a reconhecer que “em se tratando da origem dos trabalhadores, não há rivalidade nem de país, nem de classe”.103 O fato de um número expressivo de trabalhadores compartilharem desta visão expressa uma avançada consciência de classe.104 Tanto mais se consideramos a antiga disputa fronteiriça com o Chile e o esforço de ambos os governos nacionais de insuflar o fervor patriótico.105
Para as autoridades peruanas a influência “bolchevique” do IWW no porto estratégico de Mollendo era intolerável. O Senador Bedoya de Arequipa exigia a tomada de medidas severas em um inflamado discurso no congresso peruano. Ele insistia que “chilenos e outros estrangeiros implantaram o vírus do bolchevismo em Mollendo, e o governo deve exterminá-los a fim de assegurar a tranquilidade nacional”.106 Não muito tempo depois de proferir tais sentimentos, em 4 de maio, forças de segurança deportaram Octavio Manrique e outra liderança radical dos ferroviários, e forçou um grande número de propagandistas do IWW a exilarem-se no Chile.107
Mesmo após essas medidas, o subprefeito da província de Islay chamava atenção para a persistência de ideias e lideranças subversivas no Sindicato dos Trabalhadores Marítimos de Mollendo.108 Este alerta se mostrou profético. Entre o final de janeiro e início de fevereiro de 1926, entre 400 e 500 estivadores protagonizaram uma série de protestos e paralisações por conta de salários e do uso de trabalhadores não sindicalizados para descarregar cargas.109 A agressão física contra um dirigente da Mollendo Agencies & Co., responsáveis pela regulamentação de descarga aumentou a tensão entre Autoridades Alfandegárias do porto e trabalhadores das docas. 110 Antes deste incidente, em 14 de janeiro, Raúl Alejandro Nuñez Gómez e seu irmão Julio Fernando, advogados radicais e diretores do La Escoba (A vassoura), um jornal anarquista, instigava manifestações de massas contra o governo municipal.
De acordo com o subprefeito, o objetivo do movimento era desacreditar os oficiais municipais e solapar sua autoridade criando conselhos de trabalhadores para romper relações com o governo.111 Contra este cenário, em 8 de fevereiro, o governo peruano enviou dois navios de guerra para restaurar a ordem em Mollendo. Ainda assim a agitação dos trabalhadores permaneceu. O capitão do porto reportou outra paralisação dos estivadores em 23 de fevereiro e ordenou que “os bolcheviques que mantinham o terror em Mollendo fossem deportados”. 112 No início de março, o prefeito de Arequipa mandou fechar o La Escoba e prendeu 12 subversivos conhecidos, incluindo os irmãos Nuñez Gómez, um oficial alfandegário e nove trabalhadores das docas, que foram transferidos para Lima.113
A repressão estatal visava desarticular o movimento operário de Mollendo e neutralizar a influência do IWW, de anarquistas e comunistas entre os trabalhadores de Arequipa, intensificada ao final da década de 1920. Em setembro de 1927, um decreto presidencial instruía prefeitos a “impedir elementos indesejáveis de distribuir propaganda de doutrinas dissociativas”. Também solicitava a criação de registros de propagandistas e subversivos tanto nacionais quanto estrangeiros. Essas e outras medidas repressivas buscavam romper a aliança entre Wobblies chilenos e trabalhadores de Arequipa. Entretanto, as doutrinas anarquista e do IWW continuavam a influenciar o movimento operário em Mollendo e Arequipa. A utilização da ação direta, reivindicações de justiça social, expressões de solidariedade entre a classe trabalhadora, e denúncias contra o capitalismo permaneciam na ordem do dia das organizações de trabalhadores de Mollendo e Arequipa no início de 1930 e posteriormente.114
Como apontado anteriormente a propagação do anarcossindicalismo para Arequipa fazia parte de um modelo regional mais amplo que incluía os departamentos serranos do sul do Peru de Cuzco e Puno. Ideias anarquistas começam a circular em Cuzco na primeira década do século XX. A imprensa anarquista de Lima e os escritos de Manuel González Prada penetraram Cuzco, a antiga e remota capital do Império Inca.115
Ao que tudo indica, o pensamento anarquista ressoou inicialmente em intelectuais dissidentes de Cuzco. Luis Velasco Aragon, Julio Luna Pacheco, Humberto Pacheco, Edmundo Delgado Vivanco, Roberto Latorre, Luis Yabar Palacios, Manuel Jesus Urbina e Angel Gasco foram os principais expoentes do anarquismo em Cuzco. Talvez, o intelectual mais influente deste grupo tenha sido Velasco Aragón. Discípulo de Manuel González Prada, Velasco Aragón fundou e dirigiu o Centro Manuel González Prada e a sociedade literária e artística anarquista Capa y Espada no início de 1920. 116 Inspirado por publicações anarquistas europeias e panfletos anarquistas de Buenos Aires, produziu panfletos endossando as pautas econômicas dos trabalhadores e a revolução social. 117 Ganhou notoriedade nacional em abril de 1923 com um discurso ácido intitulado “La verdad sobre el Fango” (“A verdade sobre o atoleiro”), denunciando a corrupção política e jurídica, o militarismo e os abusos dos latifundiários durante a ditadura de Leguía em detrimento do bem-estar do povo de Cuzco. Por essa posição pública e suas atividades anarquistas, Velasco Aragón foi preso e encarcerado por um ano.118
Roberto Latorre, dono e editor da Kosko, uma revista de contracultura, observou que as ideias anarquistas permaneceram como parte do discurso público em Cuzco em meados da década de 1920. Kosko rotineiramente republicava artigos de González Prada e rendia homenagens em sua honra. 119 O próprio Latorre saudando o anarquismo e saudava publicamente as obras de Kropotkin e Malatesta. 120 Ele e Velasco Aragón publicaram artigos na Kuntur, uma revista literária, radical e polêmica que surgiu em 1927.121 No ano anterior, Pututo, uma revista experimental que teve curta duração, foi lançada por um grupo de intelectuais cusquenhos e também prestava sua homenagem a González Prada.122 Uma das frentes desse esforço editorial foi a formação de um grupo de estudos radical conhecido como “El Falansterio”. O grupo tomou seu nome do conceito do socialista libertário francês Charles Fourier de um falanstério, uma pequena comunidade voluntária baseada na propriedade coletiva. O grupo realizava reuniões na casa de Rafael Tupayachi, um intelectual indígena, que atuou como secretário-geral e professor na Universidade Popular González Prada de Cuzco em maio de 1924.123
Com o crescimento do movimento pela reforma universitária em 1920, a Universidade Popular de Cuzco oferece outro fórum de discussão para que os trabalhadores pudessem tomar contato com o pensamento anarquista e anarcossindicalista. Muitos professores universitários eram abertamente simpáticos ao anarquismo. Isso incluía intelectuais como Humberto Pacheco, Erasmo Delgado Vivanco, Luis Villa e Genaro Baca, além de Ricardo Santos que possuía origem trabalhadora.124 Mais tarde, um carpinteiro, tornou-se o mais explícito proponente do anarcossindicalismo. Adotando o slogan “Verdade, Justiça e Liberdade” e comprometendo-se com o fortalecimento da solidariedade entre intelectuais e trabalhadores, a Universidade Popular de Cuzco recebeu um apoio entusiasmado de artesãos e organizações operárias. Com esse ponto de partida a universidade contou com “não menos que 100 estudantes”.125
Mesmo com o ativismo de grupos e intelectuais pró-anarquismo, as classe populares de Cuzco só adotaram a organização e os métodos anarcossindicalistas gradualmente e de maneira irregular. Sem dúvida, o baixo crescimento da industria de bens de consumo, que era baseada principalmente na produção artesanal até o estabelecimento da indústria têxtil e de cerveja em 1918 e início da década de 1920, e o reduzido tamanho do proletariado urbano foram fatores adversos.126 Entretanto, em outubro de 1919, trabalhadores têxteis e ferroviários tomaram ações grevistas sinalizando a emergência de uma nova visão de classe e comprometimento com a ação direta.127
Concomitantemente, as grandes sociedades de artesãos e associações operárias de Cuzco fundaram a Federación Obrera Local de Cuzco (FOLC) aos moldes da FORP.128 A FOLC estabeleceu laços com a FORP e mais tarde com a FOL-Lima, mas só existiu até 1923.129 Não obstante durante sua curta existência, a influência da FOLC não deve ser desprezada.130 Em 1922, obteve êxito na organização da celebração do 1º de Maio baseado nos ideais da Primeira Internacional. A programação do 1º de Maio divulgada nas páginas do jornal diário El Sol lembrava os trabalhadores que “a conquista de direitos legítimos que correspondem ao bem-estar dos trabalhadores…devem vir dos esforços e da ação direta das associações operárias, a emancipação dos trabalhadores deve ser tarefa dos próprios trabalhadores”. Também rejeitavam a política formal declarando que “em cada campanha eleitoral o trabalhador é vítima da decepção e fraude”.131
Para reforçar a unidade e a organização da classe trabalhadora em Cuzco, a publicação da FOLC, Obrero Andino, convocou um Congresso Operário a ser realizado a nível departamental. Indicou-se como objetivo declarado do congresso “prover as bases para o ressurgimento do proletariado peruano e a defesa de sua força, prerrogativas, direitos e privilégios”. O congresso nunca ocorreu. 132 Mas a mensagem anarcossindicalista da FOLC não passou despercebida. Em 1924, Ricardo Santos, Martín Pareja e Manuel Castro fundaram uma organização anarquista composta por artesãos.133 Em meados da década de 1920, o movimento operário de Cuzco havia se afastado irremediavelmente das organizações mutualistas e artesanais passando para sociedades de resistência e sindicatos de classe.134
Além do setor urbano, a influência anarcossindicalista se estendeu para camponeses indígenas nas áreas rurais de Cuzco e Puno. Os principais divulgadores do anarcossindicalismo nessas áreas eram migrantes das províncias. Durante as décadas de 1910 e 1920 a migração interna se intensifica no Peru, com um fluxo contínuo de migrantes viajando constantemente entre Puno, Cuzco e Lima, bem como entre Puno, Cuzco e Arequipa.135
Para muitos migrantes das províncias do sul, o contato com o movimento operário anarcossindicalista e o anarquismo de Lima moldou profundamente seu pensamento político e ativismo. Carlos Condorena (conhecido como Carlos Condori Yujra), um camponês indígena de Puno, por exemplo, desenvolveu laços profundos com lideranças anarcossindicalistas e leu publicações anarcossindicalistas europeias e peruanas quando em Lima no início da década de 1910.136 Logo em seguida torna-se uma liderança do Comité Central Pro-Derecho Indigena Tahuantinsuyo (CPIT) fundado em 1919 por emigrados provincianos residentes em Lima e apoiado pelos anarcossindicalistas.137 Após sua prisão em Puno em 1925, lutou pela organização dos indígenas e pela jornada de trabalho de 8 horas.138
Migrantes provincianos desempenharam papel central tanto como interlocutores do CPIT e dos camponeses indígenas quanto como intermediários entre estes e o movimento operário anarcossindicalista. Figuras notáveis nesta tarefa foram Ezequil Urviola, Hipólita Salazar e Francisco Chuquiwanka Ayulo. Urviola, um “índio mestiço” quéchuahablante de Azángaro, Puno, resumiu o que seria uma síntese de uma sensibilidade indígena e anarcossindicalista. 139 Expulso de Puno por gamonales (latifundiários) por organizar associações de autodefesa indígena, Urviola pode finalmente radicar-se em Lima em 1920 onde colaborou com o CPIT, o movimento sindical e a Universidade Popular González Prada.140
A perspectiva heterodoxa de Urviola era evidente em todas as três áreas de colaboração. Para os trabalhadores têxteis e estudantes da Universidade Popular ele expressava uma visão anticapitalista e anti-imperialista; um estudante lembra como ele repetia slogans como “recuem porcos burgueses” e “abaixo o imperialismo Yankee”.141 Outra questão que colocava aos trabalhadores era da importância de orgulhar-se de suas origens indígenas e do passado incaico.142 Junto de seus companheiros de Puno, Salazar e Ayulo, ambos lideres da CPIT, contrapôs a influência da Igreja Católica e defendeu a educação racionalista e as escolas indígenas.143
Urviola também insistia na autoemancipação de indígenas camponeses e trabalhadores, rejeitando o paternalismo estatal, uma convicção anarquista que buscou imprimir no CPIT e na Federación Indígena Obrera Regional Peruana (FIORP), uma federação de trabalhadores indígenas fundada em 1923. Urviola claramente reparou a cisão entre camponeses indígenas das províncias e o movimento operário anarcossindicalista urbano. Na ocasião de sua morte em 1925, foi saudado por sindicatos anarquistas, pela CPIT e por grupos indígenas.144
Sob a liderança de Urviola, Salazar e Ayulo, a CPIT e a FIORP, enquanto organizações que não eram necessariamente anarcossindicalistas, fomentaram a ideologia, organização e táticas anarcossindicalistas entre o campesinato indígena.145 Certamente um dramático ascenso de revoltas camponesas em Puno e Cuzco no início da década de 1920 era vista pelos latifundiários, gamonales, e pelo governo como trabalho da CPIT e da FIORP, que nunca mediram esforços em seus objetivos de educar, organizar e emancipar os camponeses indígenas. 146 Que essas organizações promoviam uma visão classista e internacionalista, a solidariedade entre campo e cidade, a ação direta, o orgulho étnico, não era novidade para seus adversários. A tolerância governamental para com a FIORP e o CPIT acabou em 1924 e 1927, respectivamente. Ambas as organizações passariam a sofrer forte repressão. Francisco Gamarra Navarro e Paulino Aguilar, líderes anarcossindicalistas da FIORP, seriam deportados para a Bolívia, onde auxiliariam na formação do movimento operário anarcossindicalista boliviano.147
As tentativas do governo de reprimir as redes anarquistas no sul e romper seus laços com o movimento anarcossindicalista de Lima, nunca foram completamente bemsucedidas. Isso se deu, em grande medida, por conta da natureza esparsa, flexível e descentralizada dessas redes. Também era o resultado de políticas públicas que galvanizaram a oposição de trabalhadores, camponeses e indígenas simpatizantes ao anarquismo através da região sul da serra e na capital nacional. A decisão de Leguía, de promulgar a Ley Conscripición Vial em 1920 e insistir em sua aplicação durante o período que ocupou a presidência reavivou as paixões anarquistas contra a opressão estatal e a coerção sobre o trabalho. 148 A Lei de Conscrição Viária, como era eufemisticamente chamada, teve o efeito de inspirar um movimento anarquista coordenado e permanente contra a Conscrição na década de 1920.
Uma resistência patente à Ley de Concripción Vial se deflagra em 1923. Lideranças do CPIT nas províncias do sul encorajaram levantes indígenas camponeses. Em uma referência velada à CPIT, Pedro José Rada y Gama, o Ministro do Governo e Polícia, atribuiu as revoltas em Pomabama, Huanta, Pampas, Aganares, Chiquián, Anta y La Mar, à “agitadores conhecidos que faziam com que eles (indígenas) acreditassem que as leis de conscrição e outras leis das municipalidades discriminavam profundamente seus interesses”.149
Desde o primeiro Congresso Nacional Indígena de Tahuantinsunyo em 1921, a imprensa anarquista e delegados anarcossindicalistas de Lima advertiam os indígenas a recusar as imposições do Estado, tais como o serviço militar obrigatório e a superexploração do trabalho.150 Em 1923, não foi necessário muito para mostrar como as autoridades locais e os gamonales abusavam rotineiramente da Concripción Vial empregando indígenas por 24 dias ou mais, violando os seis dias de obrigação previstos pela lei.151 Nesse mesmo ano, o Terceiro Congresso Indígena do CPIT, sob a liderança do anarcossindicalista indígena Ezequiel Urviola, como secretário-geral, reivindicava a abolição da Conscripción Vial. 152 Mesmo durante as sessões do congresso irrompiam levantes através de Cuzco e Puno. As autoridades distritais tiveram que suspender a conscrição em diversas províncias de Cuzco em 1924 por conta da resistência indígena. 153 FIORP, ainda que debilitada pela repressão estatal, continuava estimulando indígenas cusquenhos em 1925 a se organizar e combater as injustiças em nome da “redenção do proletariado indígena”.154
Organizações anarquistas e anarcossindicalistas em Arequipa também realizaram campanhas para rechaçar a Conscripción Vial. Em dezembro de 1925, Factor Lama, Francisco Ramos e Miguel Aguilar da Asemblea Popular, organizaram uma greve geral de três dias com esse propósito. Para desmantelar a greve e controlar as manifestações de massa no centro de Arequipa, o presidente da província de Arequipa empregou a força de policias e gendarmes resultando na prisão de diversos manifestantes, e na morte de, pelo menos, um trabalhador. A brutalidade excessiva das forças de segurança levaram o prefeito da cidade de Arequipa e o conselho municipal a enviar reclamações ao presidente Leguía solicitando a suspensão da Conscripción Vial. 155 Com efeito, a medida reconhecia a situação real de Arequipa. Para pôr fim a greve geral e aos protestos, o presidente da província concordou em suspender a lei em Arequipa até julho de 1926.156 A decisão extraordinária de Leguía de demitir o prefeito e o conselheiro municipal e manter a Conscripción Vial em Arequipa reforçou o movimento de oposição empreendido pelos anarquistas. Em fevereiro de 1926, a Asemblea Popular enviou delegados à Lima para organizar uma campanha nacional com o movimento operário anarcossindicalista em prol da abolição da Conscripción Vial. A subsequente prisão desta delegação gerou protestos em Arequipa e em Lima.157
A despeito do recrudescimento da repressão estatal no final da década de 1920, anarquistas e anarcossindicalistas continuaram a priorizar a resistência à conscrição viária. Tanto em Arequipa, quanto em Lima essa posição tomou a forma de uma coordenação de propaganda, campanhas e manifestações. Dentre os sindicatos anarcossindicalistas que encabeçaram essa campanha estavam a Federación Gráfica de Lima, Sindicato de Oficios Varios de Lima e a Federación de Constructores de Arequipa. 158 Em Arequipa, a campanha levou a propaganda escrita a um novo patamar, colocando ameaças diretas aos partidos responsáveis pela implementação da Conscripción Vial. A Asemblea Obrero Popular e a assembleia de trabalhadores da vizinhança informaram as autoridades locais que “tomou-se nota dos endereços do concelho de conscripción vial […] e os informa que [...] a assembleia não se responsabiliza pelas consequências que podem resultar da insistência [do conselho] na implementação da lei”.159 A Conscripción Vial foi um grave problema para a classe trabalhadora e os indígenas campesinos na década de 1920. Anarquistas e anarcossindicalistas na região sul da serra peruana e em Lima estavam atentos a essa preocupação popular. O valor que mostraram ao combater essa imposição estatal fez com que ganhassem a gratidão e o apoio de parte significativa da força de trabalho urbana e rural.
Conclusão
A propagação do anarcossindicalismo no Peru, durante as primeiras três décadas do século XX foi resultado de uma confluência de fatores: a ampla circulação de publicações anarquistas e sindicalistas, a influência de um pequeno grupo de imigrantes radicais e intelectuais peruanos, e os contatos entre trabalhadores peruanos e organizações anarcossindicalistas da Argentina e do Chile.
Entretanto, o principal fator foi a influência de trabalhadores intelectuais autodidata em Lima e Callao. Anarcossindicalistas nativos como Manuel Lévano, Delfín Lévano, Nicolas Gutarra, Adalberto Fonken, Arturo Sabroso, Jose Sandoval e Samuel Rios, adaptaram a doutrina e a práxis anarcossindicalista à realidade peruana. A realidade perversa com que se confrontavam era um sistema de dominação que excluía politicamente e marginalizava social e culturalmente as classes populares peruanas.
O poder sobre o Estado e a Sociedade Civil estava decididamente nas mãos da elite agroexportadora criola. Em contraste com o poder e a relativa coesão da elite dominante peruana, os trabalhadores dos setores modernos, não possuíam bases de poder independentes, eram divididos por etnia, raça, sexo e habilidades, e se encontravam profundamente dispersos ao longo das cidades costeiras, das regiões rurais, dos municípios provincianos e dos centros mineradores na serra. Ciente dessa assimetria de poder, anarcossindicalistas peruanos adotaram uma abordagem gradual à revolução social. De fato, eles articularam seu projeto revolucionário implicando-o ao acúmulo de força das organizações sindicais de trabalhadores e na luta de classes. Eles também enfatizaram a indissociabilidade da emancipação cultural dos trabalhadores da revolução social. Como resultado, desenvolveram uma rede integrada de estruturas sindicais e associações culturais que promoviam junto aos trabalhadores crenças e valores contra-hegemônicos.
Mesmo com o início de um rápido declínio do movimento operário anarcossindicalista peruano por volta de 1929, este assentou as bases da política operária e da luta de classes nas décadas seguintes, em 1930 e 1940. Muitos trabalhadores anarcossindicalistas iriam se filiar ao Partido Comunista Peruano (PCP, 1930) e ao socialdemocrata Partido Aprista Peruano (PAP, 1930).
Nesse processo, eles transferiram para esses partidos pró-operários elementos de sua concepção de justiça social, emancipação cultural, solidariedade de classes, práticas sindicalistas, e autonomia de classe. Não raro isso produzia tensões e conflitos entre partidos e seus filiados no movimento sindical. Por exemplo, os trabalhadores frequentemente resistiram a subordinação de suas organizações sindicais e interesses aos rivais, altamente dogmáticos e hierárquicos partidos de esquerda. Trabalhadores apristas e comunistas em oposição aos seus respectivos partidos evitavam o partidarismo e priorizavam a solidariedade de classes e a autonomia sindical. Antigas palavras de ordem anarquistas seriam revividas e invocadas tal como quando o Partido Aprista dizia “Nem liberdade sem pão, nem pão sem liberdade” em 1946. Ideias anarcossindicalistas relacionadas ao cooperativismo e ao controle operário sobre centros de produção continuaram a influenciar a luta de trabalhadores sob a bandeira do PCP e do PAP na década de 1940.
Finalmente, vale pontua que mesmo que o anarcossindicalismo tenha entrado em declínio a partir de 1929, ele não desapareceu completamente. Ao final da década de 1940, trabalhadores anarcossindicalistas mantiveram sua presença no movimento sindical e o jornal anarcossindicalista La Protesta, ressurgirá.160
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Notas
1 O termo “worker” é traduzido ao longo do texto como trabalhador e como operário, a depender do contexto. A opção adotada se justifica no significado múltiplo que o termo assume na língua inglesa. (N.T.)
2 Não existem estudos do anarcossindicalismo no Peru a nível nacional. A historiografia existente, tem se atido quase exclusivamente a Lima e Callao. Evidencias da influência anarcossindicalista sobre os trabalhadores ao longo da costa norte do Peru e do centro e sul da região serrana podem ser encontradas em Demetrio Ramos Rao, Mensaje de Trujillo del anarquismo al aprismo, Trujillo: TAREA, 1987, e em Fiona Wilson, “Genero y clase en un pueblo de los Andes”, in Mujeres Latinoamericanas: Diez Ensayos y una historia colectiva, Lima: Flora Tristan Centro de la Mujer Peruana, 1988, p. 95–138.
3 Carl Levy apontou a futilidade de “identificar uma constituição natural” para o sindicalismo. Carl Levy, “Currents of Italian Syndicalism before 1926”, International Review of Social History, 45:2, 2000, p. 209– 250.
4 Empresas estrangeiras dominaram as industrias de extração mineral peruanas por volta de 1910. Veja Rosemary Thorp e Geoffrey Bertram, Peru 1890–1977: Growth & Policy in an Open Economy, New York: Columbia University, 1979, p. 40 e cap. 5.
5 Traduzimos como sindicalismo/sindicalista/sindical tanto a palavra “syndicalism” e seus derivados quanto a palavra “unionism” e seus derivados. Mesmo considerando relevante os apontamentos de Lucien van der Walt e Felipe Correa, que propõem uma diferenciação conceitual entre “syndicalism” e “unionism”, onde o primeiro estaria mais relacionado ao sindicalismo de intenção revolucionária e o segundo ao sindicalismo reformista, neste artigo de Steven Hirsch as palavras parecem não apresentar essa duplicidade de sentidos e conteúdos. O termo “unionism” e congêneres aparece como uma palavra genérica para associação sindical de caráter classista. (N.T.)
6 Resumen del censo de las Provincias de Lima y Callao 17 de diciembre de 1920, Lima: Im Americana - Plz. del Teatro, 1927, p.49–52, p.166–174. O autor é responsável por todas as traduções.
7 Censo de la Provincia Constitucional del Callao 20 de junio de 1905, Lima: Im y Libreria de San Pedro, 1906, p. 189; Resumen del censo de las Provincias de Lima y Callao, p. 3–5, p. 49–53, p. 55.
8 Os dados demográficos desse período são incompletos e imprecisos. A classe trabalhadora de Lima era, sem dúvida, mais diversa que de outras cidades e regiões do país. Por exemplo, de acordo com um censo de 1920 a província de Lima possuía 224.000 habitantes divididos em 208.000 peruanos nativos, 16.000 estrangeiros, 85.000 brancos, 31.000 indígenas, 10.000 negros, 8.000 “amarelos”, e 89.000 mestiços. A população indígena estava concentrada em 9 das 23 áreas do território peruano, principalmente nas ao centro e ao sul da região serrana. Veja Resumen del censo de las Provincias de Lima y Callao, p. 118–123; Thomas M. Davies, Jr., Indian Integration in Peru, Lincoln: University of Nebraska Press, p. 3.
9 El Hambriento, nº 21, Fevereiro 1907, p.1.
10 Emilio Costilla Larrea, Apuntes para la historia de la lucha social en el perú, Lima; Ediciones Peru Nuevo, 1944, p. 31.
11 O massacre de trabalhadores das minas de nitrato no Chile ocorreu em Iquique em 21 de dezembro de 1907. (LARREA, Op. Cit., p.33).
12 Para uma análise de como os trabalhadores peruanos se apropriaram e celebraram o 1º de Maio veja: Ricardo Melgar Bao, “The Dual Identity of May Day in Peru”, in Andrea Panaccione (ed.), The Memory of May Day, Venezia: Marsilio Editoria, 1989, p. 673–675.
13 “La Huelga de Vitarte I el Paro General”, La Protesta, nº 3, abril de 1911, p. 1; “El Paro General”, Variedades, nº 163, 15 de Abril 1911, p. 437–441.
14 O manifesto de fundação da União dos Trabalhadores Têxteis da Vitarte pode ser encontrado em: Portocarrero, Julio. Sindicalismo peruano: primera etapa 1911–1930, Lima: Editorial Grafica Labour S.A., 1987, p. 35.
15 A perseguição governamental contra os união de trabalhadores da Vitarte se intensificou entre 1915 e 1917. A prisão de seus principais lideres levou a temporária desintegração da entidade em 1918. Entretanto, ela seria retomada em no mesmo ano. Cf. Portocarrero, Op. cit., p. 39-43.
16 Carolina Carlessi, Mujeres en el origen del movimiento sindical: crónica de una lucha, Huacho 1916–1917, Lima: Ediciones Lilith y TAREA, 1984, p. 59–71.
17 González Prada morreu em julho de 1918. La Protesta foi o único jornal anarcossindicalista de maior relevância que não era patrocinado por algum sindicato em particular. Era, no entanto, editada e publicada por trabalhadores.
18 Muitos trabalhadores anarcossindicalistas que desempenharam importantes papéis na luta pela jornada de trabalho de 8 horas foram presos e torturados. José Sandoval Morales, Arturo Sabroso Montoya, Manuel Cabana e Aurelio Reyes ficaram física (e possivelmente psicologicamente) desfigurados como resultado da tortura policial. Cf. Morales, José Sandoval. “Cómo se gesto la jornada maxima de ocho horas en el Perú”, manuscrito não publicado, 1972 e Entrevista com Arturo Sabroso, realizada por Steve Stein, Lima, Peru, Janeiro de 1974, p. 5. A transcrição da entrevista encontra-se na Coleção Arturo Saboso, A.I. 98 (1/28).
19 Citado em Ricardo Martinez de la Torre, Apuntes para una interpretación marxista de historia social del Peru, vol.1, Lima: Universidad Nacional Mayor de San Marcos, 1975, 427. A greve geral pelas 8 horas de trabalho diárias em Lima e Callao se iniciou entre 13 e 15 de janeiro de 1919, mas é preciso atentar-se que a greve de trabalhadores têxteis, padeiros e do porto começou no final de dezembro início de janeiro.
20 As lutas de 1918-1919 pelas 8 horas de trabalho diárias, foram, justificadamente, recebidas como importante tema para a pesquisa acadêmica. Foi ainda tema de alguma controvérsia. David Parker, em um recente estudo de revisão, questionou o impacto das ações coletivas dos trabalhadores. Ele argumenta que a aceitação da elite diante da reivindicação das 8 horas diárias de trabalho foi mais responsável pelo sucesso da greve que a solidariedade de classe. Cf. Parker, David. Peruvian Politics and the Eight-Hour Day: Rethinking the 1919 General Strike. Canadian Journal of History, December 1995, p. 417–438. Para uma equilibrada análise desse episódio veja: Blanchard, Peter. The Origins of the Peruvian Labour Movement, 1883–1919, Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 1982, cap. 9.
21 “General Strike in Lima & Callao”, The West Coast Leader, May 31, 1919, p. 1.
22 “Yesterday’s Demonstration”, La Prensa, 8 July 1919.
23 Citado em Martinez de la Torre, Apuntes, vol I, 49–50.
24 Steve Stein argumenta que os trabalhadores de Lima internalizaram uma perspectiva indiferente, resignada e fatalista. Cf. STEIN, Steve. Cultura popular y politica popular en los comienzos del siglo xx en Lima, in Stein, S. Lima Obrera, 1900–1930, vol. I, Lima: Ediciones El Virrey, 1986, p. 73 e cap. 3.
25 KAPSOLI, Wilfredo. Mariátegui y los congresos obreros. Lima: Empresa Editora Anauta S.A., 1980, p. 16- 17, p.20.
26 “El movimiento obrera de esta manana”, El Comercio 13 de setembro de 1921; “En las fabricas de tejidos”, El Comercio, 14 de Setembro de 1921.
27 A definição de Antonio Gramsci de “guerra de posição” descreve bem a estratégia adotada pelos anarcossindicalistas peruanos. Isso não significa, no entanto, que os anarcossindicalistas peruanos eram diretamente influenciados por Gramsci ou aderiram a suas ideias apontando para uma vanguarda revolucionária e para a tomada do Estado. Para uma explicação da estratégia gramsciana de “guerra de posição” ver: HOARE, Quentin; SMITH, Geoffrey N. Antonio Gramsci, Selections from the Prison Notebooks, New York: International Publishers, 1989, p. 229–239, e Femia, Joseph V. Gramsci’s Political Thought, Oxford, Great Britian: Oxford University Press, 1987, p. 50–55, p. 205–209.
28 A declaração de princípios adotada pela FOL em seu primeiro congresso foi publicada em Claridad, nº1, primeira quinzena de maio de 1923, p. 29.
29 Ibid., p. 30.
30 Por la cultura del pueblo, El Obrero Textil, nº 25, primeira quinzena de agosto de 1921, p. 8.
31 El Nudito, 29 de junho de 1919, p. 6.
32 “Por la cultura del pueblo”. El Obrero Textil, nº 25, primeira quinzena de agosto de 1921, p. 8.
33 Para uma análise satisfatória e temática do anarcossindicalismo e da imprensa operária desse período, ver: ORTÍZ, Guilhermo S. Ortiz, La prensa obrera 1900–1930 (analisis de El Obrero Textil), Lima: 1987, e CASTILLO, Garbiela Machuca. La tinta, el pensamiento y las manos: la prensa popular anarquista, anarcosindicalista y obrera-sindical en Lima 1900–1930, Lima: Universidad de San Martin de Porres, 2006.
34 El Constructor, nº 11, Maio de 1925, p. 1.
35 LA ROSA, Edmundo Lévano. Un cancionero Escondido: Historia y Musica del Centro Musical Obrero de Lima: 1922–1924. In: I Convocatoria Nacional ‘José Maria Arguedas’ Avances de Investigación—Música, Lima: Biblioteca Nacional del Peru, p. 13–37.
36 Ibid., p. 19, p. 24-25.
37 Para ver todas as 11 estrofes do Canto del Trabajo ver: Ibid., p. 34.
38 Cancionero Revolucionario, Imprenta Editorial Minerva, 1927.
39 O primeiro festival da àrvore que contou com a participação de estudantes universitários pró movimento operário é descrito com detalhes em: “El exito de la fiesta de la planta”, La Crónica, 26 de dezembro de 1921, p. 2–5.
40 Para uma análise criteriosa das implicações culturais e classistas da fiesta de la planta ver: TAPIA, Rafael. La fiesta de la planta de Vitarte, Pretextos, 3:4, 1992, p. 187–205.
41 Por exemplo, em 31 de maio de 1924 a federação dos gráficos uma série de leituras de poemas, shows de comédia e sessões de cinema para levantar fundos para a associação. Cf. Historia de la Federación Gráfica del Perú, Lima: Federacion Grafica, 1985, p .151.
42 Cf. Haya de la Torre, Victor R. Defensa de la Universidad Popular. El Tiempo, 23 de setembro de 1921, p. 1; Klaiber, Jeffrey. The Popular Universities and the Origins of Aprismo, 1921–24. Hispanic American Historical Review, 55:4, 1975, p. 693–715.
43 Cf. Pareja, Piedad . Anarquismo y sindicalismo en el peru, Lima: Ediciones Rikchay Peru nº 3, 1978, p. 89.
44 Marquina, Josefa. El Maestro ó Democracia en Miniatura. Vitarte,Peru: n.p., 1963, p. 33 e 43.
45 Political Religious Disorders. The West Coast Leader. 23 de maio de 1923. Ver também: Portocarrero, op. cit., p. 110-114.
46 Barrientos Caos, Luis. Los tres sindicalismos. Lima: Ediciones Continente, 1958. p. 165.
47 Destruccion de la biblioteca popular Ricardo Palma. Variedades, 26 de fevereiro de 1921, p. 452; HUAMANI, Walter. “La Biblioteca Obrera de “Abajo del Puente”, Revista del Archivo General de la Nación, 11 de maio de 1995, p. 136.
48 Denuncia que se negaron a publicar los periodicos burgueses. Claridad, nº 7, primeira quinzena de novembro de 1924, p. 17.
49 Claridad, segunda quinzena de setembro de 1924, p. 12.
50 Cf. Ortiz, Guillermo Sanchez. Delfín Lévano: Biografía de un lider syndical (1895–1941), Lima: UNMSM, 1985, p. 112.
51 “Por el Sindicalismo Revolucionario”, El Obrero Textil, nº 24, Julho de1921, p. 2–3.
52 “Breve sinopsis del ano obrero”, El Tiempo, 16 de janeiro de 1923, p. 1.
53 Ver, por exemplo, MONTOYA, Arturo Sabroso, “Episodios de una época del sindicalismo autonoma”, n.d., passim. The Arturo Sabroso Montoya Collection, AIV 924 (1/43), Lima, Peru.
54 O sindicalismo revolucionário assumiu variadas formas organizacionais e práticas dependendo do contexto nacional e regional. Para uma análise comparativa internacional do sindicalismo revolucionário veja: DARLINGTON, Ralph. Syndicalism and the Transition to Communism: An International Comparative Analysis. Burlington: Ashgate Publishing Company, 2008; VAN DER LINDEN, Marcel., THORPE, Wayne (eds.). Revolutionary Syndicalism: An International Perspective, Hants, England: Scolar Press, 1990.
55 STEIN, Steve. Populism in Peru: The Emergence of Mass Politics and the Politics of Social Control. Madison: University of Wisconsin Press, 1980, p. 51.
56 DERPICH, Wilma; HUIZA, José Luis; ISRAEL, Cecilia. Lima años 30: salaries y costo de vida de la clase trabajadora, Lima: Fundacion Friedrich Ebert, 1985, p. 20.
57 “La Huelga”, Solidaridad, nº 3, November 1925, p. 4.
58 DE LA TORRE. Op. cit., p.109.
59 Interview with Juan Alvarez. Lima, 13 de junho de 1989.
60 Aparentemente a campanha não foi totalmente realizada. Isso foi discutido em La Antorcha, 9 de outubro de 1933.
61 KAPSOLI. Op. cit., p. 33-34.
62 O jornal da Federação dos Gráficos tinha contato direto com a Associação Sindical Argentina e seu órgão de propaganda “A bandeira proletária” e com a Federação Anarquista Espanhola. A FTTP mantinha contato com o jornal anarcossindicalista argentino, Argentina Obrero Textil. Cf. Historia de la Federación Gráfica del Perú, VOL.1, p. 165–168 e El Obrero Textil, primeira quinzena de agosto de 1921, p. 4.
63 BOAL, Pierre de L. Charge d’ Affaires, ad interim to Secretary of State, September 1, 1927, U.S. Department of State Records, 823.00/539. Este arquivo será abreviado a partir de agora como D.S.
64 Subprefecto Pablo Palmo a Prefecto del Departamento, 16 de agosto de 1927, Ministerio del Interior Direccion del Gobierno. Esse documento será referido a partir daqui como MI/DG.
65 El Constructor, nº 12, Agosto de 1925.
66 El Obrero em Madera, nº 5, Junho de 1923, p. 3.
67 El Obrero Anarquista, nº 1, Maio de 1926, p.1.
68 Solidariedad, quinzena de Outubro 1926, p.1. (sic)
69 Anarquistas e anarcossindicalistas em Lima e Callao inicialmente eram entusiastas da Revolução Russa de 1917. Entretanto, ficaram fortemente desiludidos, especialmente os membros do La Protesta, quando as notícias da perseguição bolchevique contra anarquistas russos e o estabelecimento da Nova Política Econômica Soviética (NEP) ficaram conhecidas. Cf. La Protesta, maio de 1921, p. 1-2. Sobre a rejeição inicial a essa alegação ver: “Lamentable Error del Elemento Anarquista”, El Obrero Textil, quinzena de Abril de 1924, p. 1.
70 KAPSOLI. Op. cit., p. 35-36.
71 Acta de la Cuarta Asamblea del Congreso Obrero Local. Solidariedad, primeira quinzena de fevereiro de 1927, nº 15, p. 2. Ver também: PAREJA, Piedad. Biografia de Arturo Sabroso Montoya. Lima: manuscrito não publicado, s/d., p. 18.
72 KAPSOLI. Op. cit., p. 114. O intelectual socialista Ricardo Martínez de la Torre, um crítico ferrenho do sindicalismo revolucionário defendido por Sabroso, recusava-se a admitir que a FOL havia lutado contra a Lei de Conscrição Viária e a Lei da Vadiagem. DE LA TORRE, Martínez. Apuntes, Vol. I, p. 251.
73 A posição de Sabroso não era muito diferente daquela defendida por José Carlos Mariátegui, o fundador do Partido Socialista Peruano (1928), que também asseverou a necessidade de manter a unidade do proletariado. Cf. Mensaje al Congreso Obrero. Amauta, nº 5, Janeiro de 1927, p. 35.
74 WISE, David O. La Consagracion de Gonzalez Prada: Maestro y Epigones, 1918–1931. Cuadernos Americanos, 5, 1983, p. 145; Urquieta, Miguel Angel. Gonzalez Prada y Urquieta. Amauta, nº 5, 1927, p. 5.
75 El Volcán, 22 de julho de 1911; La Federación, 8 de maio de 1915.
76 Ver, por exemplo, La Bandera Roja, 18 de maio e 28 de julho de 1907; La Defensa Obrera, 21 de novembro, El Volcán, 31 de maio, 1º de julho de 1911; La Federación, 2 de maio de 1916.
77 LLERENA, Raul Fernandez. Los origenes del movimiento obrero en Arequipa: el partido liberal y el 1 de mayo de 1906: Lima: Amauta/Tarea, 1984; Idem. Arequipa: La jornada de las 8 horas, la primera huelga general. Arequipa: 1983, p. 5 e p.70; VALLADARES, Victor Colque. Dinamica del movimiento syndical en Arequipa, 1900–1968, Lima: PUCP, Estudios Sindicales #4, 1976.
78 LLERENA, 1983, p. viii-x. LOZADA, Hector Ballón. Cien años de vida política de Arequipa, 1890–1990, tomo II, Arequipa, Peru: UNSA, Talleres Graficos Flores Villalba, 1992, p. 29.
79 LLERENA. Op. cit., p. 70 e passsim.
80 Ibid., p. 75.
81 Archivo Departmental de Arequipa Prefectura. Vicente Salas, secretaria de correspondencia, Federacion Obrera Arequipena, ao Prefecto del Depto., 4 de mayo de 1921. Esse documento será referido daqui para frente como ADA/PFT.
82 Entre as mais importantes associações operárias estavam: Confederación Ferrocarrilera Obrera del Sur (1919), Federación de Zapateros (1919), Federación de Trabajadores en el Ramo de Construcción (1923), Confederación de Tranviarios y Electricistas (1924), Sindicato de Trabajadores en Madera (1925?), Federación de Empleados de Comercio y la Industria (1926).
83 DE LA TORRE. Op. cit., p. 59.
84 ADA/PFT. Francisco Ramos, secretaria de actas F.O.L.A. a Presidente de la Sociedad de Union Empleados, 8 de abril de 1926.
85 La Voz del Sur, 6 de outubro de 1923. Ver também: RENIQUE, Jose Luis. El movimiento descentralista arequipeño y la crisis del ’30. Lima: Taller de Estudios Politicos, CCSS, Universidad Catolica del Peru, 1979, p. 10.
86 O presidente Augusto B. Lenguía assinou a Lei 4113 em 1o de maio de 1920, autorizando a Lei de Conscrição Viária, que obrigava homens adultos, de 18 a 60 anos, a reparar e construir estradas, pontes, arquedutos, canos de irrigação e linhas férreas por um número prescrito de dias anualmente de acordo com sua idade. Os trabalhadores receberiam um pagamento diário determinado por cada região.
87 ADA/PFT, Enrique Lozada, jefe de la seccion de investigaciones a Prefectura e Intendencia de Arequipa, 30 de dezembro de 1925.
88 ADA/PFT, Coronel Prefecto de Arequipa a Ministerio de Gobierno y Guerra, 27 de dezembro 1925; LLERENA, Op. cit., p. x e 75.
89 ADA/PFT. Teniente Comandante Accidental del Cuerpo de Seguridad a Prefecto del Depto., 28 de dezembro de 1925.
90 GUTIÉRREZ, Ramon. Evolución Histórica Urbana de Arequipa (1540–1990), Lima: Epigrafe S.A., 1992, p. 175 e 209. VERA, Manuel Zevallos. Arequipa Historia de su Modernidad, 1540–2002, Lima: Fondo Editorial Universidad Alas Peruanas, 2002, p. 25–28.
91 A Coalición Obrera de los Barrios fundou uma biblioteca popular para promover a auto emancipação dos trabalhadores. Cf. La Voz del Sur, 21 de janeiro de 1922.
92 ADA/PFT. Nicanor F. Ordonez, secretaria general de Asamblea Popular a Presidente Taneles (sic) Football y Socorros Mutuos, 28 de dezembro, 1925.
93 ADA/PFT. Carlos Gomez Sanchez a Prefecto de Depto., 20 de janeiro de 1922.
94 VÁSQUEZ, Antero Peralta. La Faz Oculta de Arequipa, Arequipa: Impreso de Talleres Graficos de la Cooperativa de Produccion y Trabajo Universitaria, 1977, p. 212–214; BENITES, Ricardo Temoche. Cofradías, Gremios, Mutuales y Sindicatos en el Perú, Lima: Editorial Escuela Nueva S.A., 1988, p. 429–433.
95 VÁSQUEZ. Op. cit., p. 214.
96 Ibid., p.215 e La Voz del Sur, 23 de junho de 1923.
97 ADA/PFT. Luque, et al. to Prefecto del Departmento, 23 de outubro de 1922; ADA/PFT, M. Forga e Hijos a Prefecto del Departmento, 3 de novembro de 1922.
98 Regulamento de la Unión Textil del Huaico, 15 de setembro de 1926.
99 La Protesta, 8 de março de 1922.
100 Existem algumas evidencias da influência do IWW em trabalhadores das docas de Callao. E, em Lima, pelo menos um trabalhador claramente identificado com o IWW, V. Racchumi, um padeiro, que disseminava a doutrina do IWW. Veja, por exemplo, seu editorial “Reflexión”, publicado pela imprensa operária em El Proletário. Nogales, Sonora, 30 de setembro de 1922.
101 ADA/PFT. Subprefecto de la Provincia Islay a General Prefecto de Depto., 1 de junho de 1925.
102 ADA/PFT. De la “Voz del Mar” 24 de março de 192.
103 ADA/PFT. Cuerpo de Seguridad 12ª Compania Comandancia al General Prefecto, 19 de maio de 1925.
104 Ballón Lozada cita uma carta ao El Deber, um jornal de Arequipa, de 20 de abril de 1925, em que a Federación Local de Sociedades Obreras repudiavam as alegações dos jornais que acusavam os trabalhadores ferroviários de anti-patriotismo afirmando audaciosamente “se capitalistas se engajam em solidariedade sem levar em conta fronteiras ou bandeiras, qual a estranheza de trabalhadores de ambos os lados, com uma moral superior, engajarem-se em solidariedade e unidade?” LOZADA. Op. cit., p. 32.
105 Após a Guerra do Pacífico (1879-1883) Peru e Chile disputaram a posse das províncias peruanas de Tacna e Arica. O conflito territorial não foi resolvido até 1929. Cf. SKUBAM, William E. Lines in the Sand: Nationalism and Identity on the Peruvian-Chilean Frontier, Albuquerque: University of New Mexico Press, 2007.
106 Miles Poindexter ao Secretário de Estado, 4 de maio se 1925, 832.0/508; ADA/PFT. Subprefecto de la Provincia Islay a General Prefecto del Depto., 1 de junho de 1925.
107 ADA/PFT, Cuerpo de Seguridad 12a Compania Comandancia al General Prefecto, 19 de maio de 1925.
108 ADA/PFT. Subprefecto de la Provincia Islay a General Prefecto del Depto., 1 de junho de 1925.
109 ADA/PFT. Miles Poindexter ao Secretário de Estado, 8 de fevereiro de 1926, D.S., 823.50545/46.
110 ADA/PFT. Centro Social Obrero de la Confederacion Coaligada de la Provincia de Islay a Subprefecto, 28 de janeiro de 1926.
111 ADA/PFT. Subprefectura de Islay/Mollendo a Prefecto del Depto., 16 de março de 1926.
112 ADA/PFT. Capitan del Puerto al Coronel Prefecto de Arequipa, 23 de fevereiro de 1926.
113 ADA/PFT. Capitan del Puerto al Subprefecto de Islay, 2 de março de 1926.
114 Ver, por exemplo, ADA/PFT. Subprefecto de Islay a Prefecto de Depto., 15 de dezembro de 1930. Evidencia da persistência da influência anarquista pode ser observada nas apreensões da biblioteca da Sociedad de Obreros y Socorros Mutuos, catalogada pela polícia após a invasão de seus quartéis-generais em 17 de junho de 1931. A biblioteca contava com exemplares de escritos anarquistas de autores como Malatesta, Kropotkin, Arreta, Reclus, e outros. Cf. ADA/PFT. Cuerpo de Investigacion y Vigilancia Seccion Arequipa a Prefecto del Depto., 17 de junho de 1931.
115 DEUSTUA, José; RÉNIQUE, José Luis. Intelectuales, indigenismo y descentralismo en el Perú 1897– 1931, Cusco: Debates Andinos 4, Centro de Estudios Rurales Anindos “Bartolome de Las Casas, 1984, p. 42.
116 “En Homenaje a La Memoria de Gonzales Prada”, El Sol, 24 de julho de 1923. Ver também: CUADROS, Ferdinand. La vertiente cusqueña del comunismo peruano, Lima: Editorial Horizonte, 1990, p. 64.
117 Velasco Aragón reuniu uma vasta coleção de panfletos e publicações anarquistas europeias e argentinas. Sua coleção situada na Universidad Nacional, contém títulos de Kropotkin, Proudhon, etc..
118 ARAGÓN, Luis Velasco. La verdad sobre el fango, 22 de abril de 1923, Cuzco: Imprenta H.G. Rozas, 1923. Sobre a aprovação popular de seu discurso e sua subsequente prisão por promover a revolução social, ver: CALLER, Sergio. Rostros y rastros, Un caminante cusqueño en el siglo xx, Lima: Fondo Editorial del Congreso del Peru, 2006, p. 64–65; e GUTIERREZ, Julio. Así Nació Cuzco Rojo: Contribución a su historia política: 1924–1934, Lima: Empresa Humboldt Nicolas Duenas, 1988, p. 21.
119 HERRERA, José Tamayo. El Cusco del Oncenio: Un ensayo de historia regional a través de la fuente de la Revista “Kosko”, Lima: Universidad de Lima, Cuadernos de Historia VIII, 1989, p. 28.
120 Ibid., p. 110.
121 SAMANEZ, José Carlos Gutiérrez. La Generación Cusqueña de 1927, Lima: Editorial Horizonte, 2007, p. 65.
122 GUTIÉRREZ. 1988, p. 25.
123 CALLER. Rostros y Rastros, 162; “La Universidad Popular”, El Sol, 14 de maio de 1924.
124 SAMANEZ, José Carlos Gutiérrez. Personal comunication, 25 de agosto de 2008. Ver também: HERRERA, Tamayo. El Cuzco del Oncenio, p. 65-66, 68.
125 La Universidad Popular y la Solidaridad Estudiantil Obrera”, El Sol, 9 de abril de 1924; “La Universidad Popular”, El Sol, 14 de maio de 1924; “La Universidad Popular Gonzales Prada”, El Sol, 2 de junho de 1924.
126 Estatísticas confiáveis acerca da classe trabalhadora de Cuzco deste período não estão disponíveis. Considerando que a população da província era algo em torno de 37.000 pessoas em 1920, é possível a firmar que o tamanho da classe trabalhadora urbana era bem pequena. A maior parte da força de trabalho assalariada estava empregada em pequenas lojas e fábricas gráficas, curtumes, sapatarias, padarias, nos setores de bebidas e mecânico. Trabalhadores do transporte e da construção também eram parte importante da força de trabalho assalariado.
127 ROSSANO, Calvo C. El Sol 100 años: Periodismo e Historia Local El Diario “El Sol” de Cusco (1900– 1950), Cuzco: Instituto Nacional de Cultura, 2002, p. 69.
128 Sobre a influência da FORP no movimento operário em Cuzco ver: Augusto Sarmiento, Eduardo Garcia, Ladislau Valdiesu, interview by Robert J. Alexander, Cuzco, June 8, 1947.
129 “El proximo congreso obrero departmental”, El Sol, 22 de março de 1922; SAMANEZ, Jose Carlos Gutierrez, personal communication, 25 de agosto de 2008.
130 Krüeggler salienta o caráter transitório da FOLC e minimiza sua influência. Cf. KRÜNGGLER, Thomas. Indians, Workers, and the Arrival of ‘Modernity’: Cuzco, Peru (1895–1924). The Americas, 56:22, October 1999, p. 185.
131 “En homenaje a los Trabajadores del Cuzco”, El Sol, 1 de maio de 1922.
132 Não se sabe o que causou a não realização do congresso. Porém, vale lembrar que a FOLC explicitamente excluiu a participação de artesãos capitalistas no congresso. Cf. “El Proximo Congreso Obrero Departamental”, El Sol, 22 de março de 1922.
133 CUADROS. Op. Cit., p. 64-65.
134 Sindicatos classistas foram fundados por trabalhadores têxteis, chauffers e carpinteiros. Sapateiros também abandonaram as Sociedades de Artesãos e adotaram uma linha classista.
135 Sobre a intensidade da migração provinciana à Lima entre 1920 e 1940 ver: FRÍAS, Roque García. Intensidad absoluta y relative de la emigración provinciana al departamento de Lima, Estadística Peruana, VOL.3, no.5, (Julho de 1947), p. 57.
136 AYALA, Jose Luis, Yo Fui Canillita de José Carlos Mariátegui (Auto) Biografía de Mariano Larico Yujra, Lima: Kollao, Editorial Periodistica, 1990, p. 87, p. 119, p. 137–138; ARROYO, Carlos. “La experiencia del Comite Central Pro-Derecho Indigena Tahuantinsuyo”, E.I.A.L., 15:1, (Janeiro–Junho 2004), p. 188.
137 Tahuantinsuyo referia-se ao Império Inca com um termo Quéchua que significa “terra dos quatro trimestres”.
138 AYALA. Op. cit., p. 137.
139 Urviola era mestiço, mas se auto identificava como indígena. Ele adotou a língua, as vestimentas e a cultura. O termo “índio-mestiço” utilizado para descrever Urviola foi utilizado RÉNIQUE, José Luis. La batalla por Puno: conflicto agrario y nación en los andes peruanos, Lima: Instituto de Estudios Peruanos, 2004, p. 93.
140 Urviola se refugiou inicialmente em Arequipa e estudou na Universidade Nacional de Santo Agostinho. Eventualmente estabeleceu contato com Rusiñol e outros simpatizantes do anarquismo. Cf. LOZADA. Op. cit., p. 28.
141 AYALA. Op. cit., p. 140-141.
142 KAPSOLI, Wilfredo. Ayllus del sol: anarquismo y utopia andina, Lima: TAREA,1984, p. 152.
143 Dos três, Ayulo era o mais ativo defensor das escolas racionalistas para indígenas. Cf. BAO, Ricardo Melgar. Sindicalismo y milenarismo en la region andina del perú (1920–1931), Cuernavaca, Mexico: Ediciones Cuicuilco, Escuela Nacional de Antropologia e Historia, 1988, p. 36.
144 KAPSOLI. Op. cit., p. 138-139.
145 Entre a CPIT e a FIORP , foi a última que mais claramente apresentava uma estrutura e orientação anacossindicalista. De fato, mesmo José Carlos Mariátegui, o fundador do Partido Socialista Peruano (1928) observou que a FIORP estava comprometida em organizar os indígenas de acordo com os “princípios e métodos anarcossindicalistas” com o objetivo de chegar à revolução social. Cf. MARIÁTEGUI, José Carlos. Ideologia y Política, Lima: Biblioteca Amauta, 1987, p. 41–42.
146 Para uma análise do ascenso indígena camponês em Puno, ver: ZAMBRANO, Augusto Ramos. Tormenta Antiplanica (Rebeliones Indígenas de la Provincia de Lampa, Puno, 1920–1924), Lima: n., 1990; e BAO. Op. cit., p. 45-47. César Levano aponta que a FIORP teve relação com a revolta camponesa na fazenda Lauramarca, em Cuzco em 1924, cf. CALLER, Op. cit., p. 34; ARRIETA, Arturo Aranda; ESCALANTE, Maria. Lucha de clases en el movimiento syndical cusqueño, 1927–1965, Lima: G. Herrera Editores, 1978, p. 65.
147 Cf. LEHM, Zulema; CUSICANQUI, Silvia Rivera. Los artesanos libertarios y la ética del trabajo, La Paz, Bolivia: THOA, 1988, p. 108, nota de rodapé 39.
148 Nota de rodapé 13.
149 Memoria del Ministro de Gobierno y Policia, Dr. Pedro José Rada y Gama al Congreso Ordinario de 1923, Lima: Imprensa del Estado, 1923, p. x.
150 Cf., por exemplo, “La Raza Indigena y el Centenario”, La Protesta, setembro de 1921.
151 Em 1922, o senador Miguel González relatou no senado que os abusos da Conscrição Viária foram responsáveis diretos por conflitos e revoltas. Cf. DAVIES JR, Thomas M. Indian Integration in Peru: A Half Century of Experience, 1900–1948, Lincoln: University of Nebraska, 1974, p. 84.
152 BARCELLI, Agustín. Historia del Sindicalismo Peruano, Tomo I, Lima: Editorial Jatun-Runa, 1971, p. 172–179.
153 RÉNIQUE, José Luis. Los sueños de la sierra: cuzco en el siglo xx, Lima: CEPES, 1991, p. 95–96.
154 A FIORP também insistia na necessidade de estabelecer escolas indígenas autônomas para superar a ignorância e a submissão. Cf. See, ADA/PFT, Teofilo S. de la Cruz, secretario geneal de turno, Federacion Indigena Obrera Regional Peruana a secretaria general de provincial de Espenar (sic), Cuzco, 26 de enero de 1925.
155 Miles Poindexter ao Secretário de Estado, 15 de dezembro de 1925, D.S., 823.0/508.
156 Miles Poindexter ao Secretário de Estado, 29 de dezembro de 1925, D.S., 823.00/509.
157 Humanidad, 21 de fevereiro de 1926.
158 WADSWORTH, Craig W. charge d’ affaires, ad interim to Secretary of State, 8 de março de 1926, D.S., 823.00/514; ADA/PFT, Antonio Neuman, Capitan Comisario a Contra-Almirante Prefecto de Departmento, 13 de janeiro de 1927; AGN/MI, Pablo Palmo a Prefectura de Departmento, 4 de maio de 1928.
159 ADA/PFT Tatto Cano B. secretaria general de Asamblea Popular a Federico G.L. Emmel, 13 de janeiro de 1927.
160 HIRSCH, Steven. Ideological Transfers and Traces of Anarchist Praxis: Rethinking the Influence of Anarchism on Peru’s APRA Party, 1920–1948. Paper presented at the 53rd International Congress of Americanists, Mexico City, Mexico, 22 July 2009.