NT: há no texto uma diferenciação entre "work" e "labor" que não pude adaptar bem, mas a mensagem permanece compreensível.
Benjamin Tucker
Porque os Salários Deveriam Engolir os Lucros
Van Buren Denslow, ao discutir no Truth Seeker as recompensas comparativas do trabalho e do capital, afirma que o atual sistema salarial divide os lucros quase igualmente entre os dois, exemplificando com as ferrovias de Illinois, que pagam anualmente US$ 81.936.170 em salários e remunerações, e ao capital, que o Sr. Denslow define como o “trabalho previamente realizado na construção e equipagem das ferrovias”, US$ 81.720.265. Em seguida, ele observa: “Nenhum sistema de partilha intencional de lucros é mais igualitário do que este, desde que concordemos com o princípio de que um dia de produção já realizado e incorporado em forma de capital tem o mesmo direito de ser compensado pelo seu uso que um dia de produção ainda não realizado, que chamamos de trabalho.” Exatamente. Mas este princípio ao qual ele se refere é justamente o que nós, socialistas, negamos, e até que o Sr. Denslow possa nos refutar a respeito disto, ele tentará defender em vão a forma atual de partilha de lucros ou qualquer outra. Os socialistas afirmam que “um dia de trabalho incorporado na forma de capital” já foi totalmente recompensado pela propriedade desse capital; que, se o proprietário o empresta a outrem para uso e o usuário o danifica, destrói ou consome qualquer parte dele, o proprietário tem o direito de ter esse dano, destruição ou consumo reparado; e que, se o proprietário recebe do usuário qualquer excedente além da devolução do seu capital intacto, o seu dia de trabalho é pago uma segunda vez.
Talvez o Sr. Denslow nos diga, como tantas vezes já nos disseram, que esse dia de trabalho deveria ser pago uma segunda, uma terceira, uma centésima e uma milionésima vez, porque o capital que ele produziu e no qual ele está incorporado aumentou a produtividade do trabalho futuro. O fato que ele aumentou a produção, nós aceitamos; mas negamos que o trabalho, onde há liberdade, seja ou deva ser pago proporcionalmente à sua utilidade. Todas as qualidades úteis existem na natureza, ativa ou potencialmente, e seus benefícios, sob liberdade, são distribuídos pela lei natural da livre troca entre a humanidade. O trabalhador que coloca em prática qualquer qualidade útil em particular é remunerado de acordo com o trabalho despendido, mas recebe apenas a sua parte, em comum com toda a humanidade, da utilidade especial do seu produto. É verdade que a utilidade do seu produto tende a aumentar o seu preço; mas essa tendência é imediatamente contrabalançada, sempre que a concorrência é possível — e enquanto houver um monopólio monetário, não há liberdade de concorrência em qualquer indústria que exija capital — pela corrida de outros trabalhadores para criar esse produto, que dura até que o preço retorne aos salários normais do trabalho. Portanto, é evidente que o proprietário do capital que incorpora o trabalho diário mencionado acima não pode ser remunerado pelo seu trabalho nem mesmo uma segunda vez vendendo o seu capital. Por que, então, ele deveria poder ser pago uma segunda vez e um número infinito de vezes emprestando repetidamente o seu capital? Ao menos que o Sr. Denslow possa nos dar algum motivo, ele terá que admitir que toda a partilha de lucros é uma besteira e que todo o produto líquido da indústria deveria ir para as mãos do trabalho que não estava anteriormente incorporado na forma de capital — em outras palavras, que os salários deveriam absorver completamente os lucros.