Título: Individualismo e Solidariedade
Autor: Jean Grave
Data: 1903
Fonte: Traduzido em 2020 por João Black, do original francês em iiif.lib.harvard.edu
Notas: Este escrito foi publicado com o título original «Individualisme et Solidarité» em 1903, no Almanach Illustré de la Révolution pour 1904, o qual pode ser consultado aqui: iiif.lib.harvard.edu

Há alguns anos, certos literatos deram-se conta de ter descoberto Nietzsche, Stirner e até Schopenhauer. Uma vez seguindo-lhes o rasto, eis que tomaram conhecimento de que havia pelo mundo um indivíduo — o Indivíduo! —, que esse indivíduo era mais importante que tudo, tinha o direito de viver, gozar, desenvolver-se em toda a sua integralidade, segundo as suas faculdades e aptidões, sem ter que tomar em conta qualquer entrave, qualquer obstáculo, a não ser para os quebrar se o estorvassem, ou subjugá-los se lhe pudessem ser úteis.

E fabricou-se assim uma anarquiazinha que aspirava a nada menos do que elevar uma nova artistocracia: a aristocracia intelectual, que, como as outras, desprezava profundamente o resto da massa, não vendo nela mais que um rebanho de escravos bons para produzir e labutar para o «intelectual», que poderia assim desenvolver-se e crescer em força, inteligência e beleza!

Esta concepção do indivíduo, do intelectual, adulava demasiado a vaidade de alguns falhados para que eles não se tornassem os seus defensores resolutos. É uma teoria demasiado cómoda para justificar os atos mais contraditórios, para que não fôssemos brindados com esta nova escola

A liberdade mais completa para o indivíduo, o seu direito à satisfação integral de todas as suas necessidades, são reclamações absolutamente legítimas, e não havia nenhuma necessidade de ir desenterrar Nietzsche e Stirner para lhes dar uma qualquer consagração. É o que o homem procura desde que está no mundo, é este instinto primordial que o fez tentar as diferentes revoluções, mesmo as mais políticas, que ele realizou pelo caminho. E é o que nunca cessaram de reclamar os anarquistas comunistas.

Simplesmente, os anarquistas comunistas, que não se satisfazem com palavras e abstrações, partidários do método científico que requer que nos apoiemos em factos, não se contentaram com fazer metafísica, estudaram as condições de existência do indivíduo, e sem se gabarem de ter feito uma descoberta espantosa — pois salta à vista de todos —, viram que o indivíduo não era uma entidade, única, vivendo nas nuvens da dialética; mas um ser de carne e osso, com uma tiragem de cerca de dois biliões de exemplares, e que o que era verdadeiro para um, era igualmente verdadeiro para cada um desses dois biliões.

De resto, a necessidade de viver em sociedade não se discute. Foi porque se agrupou com os seus semelhantes que o homem adquiriu a faculdade da linguagem, e a de exprimir as suas ideias; foi na troca de ideias com os seus companheiros que ele conseguiu modificar e alargar as suas primeiras impressões, fazer delas tradições que as gerações se transmitiram, discutindo-as depois de as terem seguido cegamente, e das quais, de progresso em progresso, se constituiu a bagagem científica, artística e literária de hoje. O homem que quisesse completamente isolar-se dos seus semelhantes, retornaria ao estado de bruto, se as espécies mais bem armadas não o tivessem liquidado antes.

Então, aqui, o problema complica-se. Pelas necessidades dos seus organismos, e pela exiguidade do espaço em que estão encerrados, que forçosamente limita o seu campo de evolução, já não basta aos indivíduos afirmar os seus direitos; importa sobretudo procurar as condições em que os poderão exercer, sem dano para si próprios e sem dano para os outros, o que poderia trazer represálias e limitar os direitos afirmados demasiado brutalmente.

E a partir do momento em que o indivíduo não pode viver e desenvolver-se a não ser em sociedade, não lhe resta mais que dois modos de afirmar a sua liberdade: — agindo ao sabor da sua vontade, se for suficientemente forte para se impor aos outros, sem se preocupar com as suas reclamações quando os prejudica, ou pela artimanha fazendo-lhes crer que age assim no seu interesse… e então não é preciso reivindicar uma transformação social, pois temos a sociedade burguesa que nos fornece uma gama variada desses métodos e das suas diferentes combinações; — ou então os indivíduos entender-se-ão entre si para encontrar uma organização social que, trazendo-lhes o máximo bem-estar em troca do mínimo de esforços, lhes permita evoluir sem se estorvarem, conservando, por concessões recíprocas ou uma perfeita adaptação e combinação das aptidões, a maior soma de liberdade possível, ou seja, por uma inteligente prática da solidariedade.

J. GRAVE