Título: Uma FAQ Anarquista Seção I
Subtítulo: Como seria uma sociedade anarquista?
Data: 18 de Junho de 2009
Notas: Tradução de Coletivo Consciência Subversiva e Núcleo de Estudos Autônomo Anarco Comunismo. Ela não possui direitos autorais pode e deve ser reproduzida no todo ou em parte, além de ser liberada sua distribuição, preservando seu conteúdo e o nome do autor. Anarquia e Revolução @2020.
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  Introdução

  Seções pendentes de formatação

    I.1 O socialismo libertário não é um oxímoro?

    I.1.1 O socialismo é impossível?

    I.1.2 O comunismo libertário é impossível?

    I.1.3 O que há de errado com o mercado?

    I.1.4 Se o capitalismo é explorador, o socialismo também não é?

    I.1.5 O capitalismo aloca recursos de maneira eficiente?

    I.2 Este é um modelo para uma sociedade anarquista?

    I.2.1 Por que discutir como seria uma sociedade anarquista?

    I.2.2 Será possível ir direto do capitalismo para uma sociedade anarquista?

    I.2.3 Como serão criadas as estruturas de uma sociedade anarquista?

    I.3 Como seria a estrutura econômica da anarquia?

    I.3.1 O Que é um “sindicato”?

    I.3.2 O que é a autogestão dos trabalhadores?

    I.3.3 O que é socialização?

    I.3.4 Que relações existiriam entre sindicatos individuais?

    I.3.5 O que fariam as confederações de sindicatos?

    I.3.6 E a competição entre sindicatos?

    I.3.7 E as pessoas que não querem ingressar em um sindicato?

    I.3.8 Os anarquistas buscam “pequenas comunidades autônomas, dedicadas à produção em pequena escala”?

    I.4 Como uma economia anarquista pode funcionar?

    I.4.1 Qual o sentido da atividade econômica na anarquia?

    I.4.2 Por que os anarquistas desejam abolir o trabalho?

    I.4.3 Como os anarquistas pretendem abolir o trabalho?

    I.4.4 Quais critérios de tomada de decisão econômica poderiam ser usados na anarquia?

    I.4.5 E quanto a "oferta e demanda"?

    I.4.6 O comunismo anarquista levaria inevitavelmente à demanda exceder a oferta?

    I.4.7 O que impedirá os produtores de ignorar os consumidores?

    I.4.8 E as decisões de investimento?

    I.4.9 O avanço tecnológico deve ser visto como anti-anarquista?

    I.4.10 Qual seria a vantagem de uma ampla base de distribuição de excedentes?

    I.4.11 Se o socialismo libertário eliminar o motivo do lucro, a criatividade e o desempenho não sofrerão?

    I.4.12 Não haverá uma tendência para a empresa capitalista reaparecer em nenhuma sociedade socialista?

    I.4.13 Quem fará o trabalho “sujo” ou desagradável?

    I.4.14 E a pessoa que não trabalha?

    I.4.15 Como será o local de trabalho de amanhã?

    I.4.16 Uma sociedade comunista libertária não será ineficiente?

    I.5 Como seria a estrutura social da anarquia?

    I.5.1 O que são comunidades participativas?

    I.5.2 Por que são necessárias confederações de comunidades participativas?

    I.5.3 Quais serão as escalas e os níveis da confederação?

    I.5.4 Como alguma coisa será decidida em todas essas reuniões?

    I.5.5 As comunidades e confederações participativas não são apenas novos estados?

    I.5.6 Não haverá perigo de uma "tirania da maioria" sob o socialismo libertário?

    I.5.7 E se eu não quiser ingressar em uma comuna?

    I.5.8 E o crime?

    I.5.9 E quanto à liberdade de expressão no anarquismo?

    I.5.10 E os partidos políticos?

    I.5.11 E os grupos de interesse e outras associações?

    I.5.12 Uma sociedade anarquista prestaria assistência médica e outros serviços públicos?

    I.5.13 Uma sociedade anarquista não será vulnerável à fome de poder?

    I.5.14 Como uma sociedade anarquista poderia se defender?

    I.6 E a "Tragédia dos Comuns"? Certamente a propriedade comunitária levará ao uso excessivo e à destruição ambiental?

    I.6.1 Como os anarquistas podem explicar como será decidido o uso da propriedade “de propriedade de todos no mundo”?

    I.6.2 Nenhuma forma de propriedade comunitária envolve a restrição da liberdade individual?

    I.7 O socialismo libertário não destruirá a individualidade?

    I.7.1 As culturas tribais indicam que o comunalismo defende a individualidade?

    I.7.2 Isso não é adorar o passado ou o “nobre selvagem”?

    I.7.3 A lei é necessária para proteger os direitos individuais?

    I.7.4 O capitalismo protege a individualidade?

    I.8 A Espanha revolucionária mostra que o socialismo libertário pode funcionar na prática?

    I.8.1 A Revolução Espanhola não foi principalmente um fenômeno rural e, portanto, inaplicável como modelo para as sociedades industrializadas modernas?

    I.8.2 Como os anarquistas foram capazes de obter apoio popular em massa na Espanha?

    I.8.3 Como foram organizados os coletivos industriais espanhóis?

    I.8.4 Como foram coordenados os coletivos industriais espanhóis?

    I.8.5 Como foram organizadas e coordenadas as cooperativas agrícolas espanholas?

    I.8.6 O que os coletivos agrícolas realizaram?

    I.8.7 Ouvi dizer que os coletivos rurais foram criados à força. Isso é verdade?

    I.8.8 Mas os coletivos espanhóis inovaram?

    I.8.9 Por que, se foi tão bom, não sobreviveu?

    I.8.10 Por que a CNT colaborou com o estado?

    I.8.11 A decisão de colaborar foi um produto da teoria anarquista, mostrando que o anarquismo é falho?

    I.8.12 A decisão de colaborar foi imposta aos membros da CNT?

    I.8.13 Que lições políticas foram aprendidas com a revolução?

    I.8.14 Que lições econômicas foram aprendidas com a revolução?

UMA FAQ ANARQUISTA

VÁRIOS AUTORES

18 DE JUNHO DE 2009

Queres estudais com proveito? Começais por imolar um a um os mil preconceitos que vos foram ensinados!” - Piotr Kropotkin

Introdução

Até então essa FAQ foi amplamente crítica, concentrando-se na hierarquia, capitalismo, estado, e nos problemas que decorrem deles, além de refutar algumas “soluções” falsas apresentadas pela esquerda e direita autoritária. Agora é hora de examinar o lado construtivo do anarquismo - a sociedade socialista libertária - que os anarquistas defendem. Isso é importante porque o anarquismo é essencialmente uma teoria construtiva, em flagrante contradição à imagem geralmente pintada do anarquismo como caos ou destruição irracional.

Nesta seção da FAQ, mostraremos como uma sociedade anarquista pode se desenvolver. Essa sociedade tem características básicas - como ser não hierárquica, descentralizada e, acima de tudo, espontânea como a própria vida. Para citar Glenn Albrecht, os anarquistas "enfatizam muito o livre desenvolvimento de uma ordem espontânea sem o uso de força ou autoridade externas". [“Ethics, Anarchy and Sustainable Development”, pp. 95-117, Anarchist Studies, vol. 2, n. 2, p. 110] Esse tipo de desenvolvimento implica que a sociedade anarquista seria organizada do simples ao complexo, do indivíduo para a sociedade, biorregião e enfim para todo planeta. A sociedade resultante, que seria o resultado da natureza que se desdobra livremente em direção a uma maior diversidade e complexidade, é eticamente preferível a qualquer outro tipo de ordem simplesmente porque permite o mais alto grau de solidariedade e liberdade orgânicas. Kropotkin descreveu essa visão de uma sociedade verdadeiramente livre da seguinte maneira:

“Prevemos milhões e milhões de grupos constituindo-se livremente para a satisfação de todas as necessidades variadas dos seres humanos [...] Todos estes serão compostos por seres humanos que se combinarão livremente [...] 'Peguem pedrinhas', disse Fourier, ' as ponha em uma caixa e sacuda, e elas se organizarão em um mosaico que você nunca conseguiria formar instruindo a alguém o trabalho de organizá-las harmoniosamente.” [The Place of Anarchism in The Socialistic Revolution, p. 11-12]

A oposição anarquista à hierarquia é parte essencial de uma sociedade "ordenada espontaneamente", pois a autoridade interrompe o livre desenvolvimento e crescimento do indivíduo. A partir desse crescimento natural dos indivíduos, grupos e da sociedade como um todo, os anarquistas esperam construir uma sociedade que atenda às necessidades de todos - de liberdade individual e social, bens materiais que atendam às necessidades físicas e relações sociais livres e iguais que atendam o que poderia ser chamado de “necessidades espirituais”(ou seja, bem-estar mental e emocional, criatividade, desenvolvimento ético e assim por diante). Qualquer tentativa de impor sobre a sociedade ou aos indivíduos uma ordem pré-determinada com restrições às suas liberdades promoveria desordem, à medida que o equilíbrio natural e o desenvolvimento são impedidos e distorcidos em direções anti-sociais e destrutivas. Assim, uma sociedade anarquista deve ser uma sociedade livre composta por indivíduos livres, associando-se a estruturas libertárias, em vez de uma série de hierarquias concorrentes (políticas ou economicas). Somente em liberdade a sociedade e os indivíduos podem desenvolver e criar um mundo justo e livre. Nas palavras de Proudhon, "a liberdade é a mãe da ordem, não sua filha".

Como o indivíduo não existe no vácuo social, são necessárias condições sociais apropriadas para que a liberdade individual se desenvolva e floresça de acordo com todo o seu potencial. A teoria anarquista é construída sobre a asserção central de que os indivíduos e suas organizações não podem ser considerados isoladamente uns dos outros.

Ou seja, as estruturas sociais nos moldam, "existe uma inter-relação entre as estruturas de autoridade das instituições e as qualidades e atitudes psicológicas dos indivíduos" e que "a principal função da participação é educativa". [Carole Pateman, Participation and Democracy Theory, p. 27] O anarquismo apresenta essa posição em sua forma mais coerente e libertária. Em outras palavras, a liberdade é apenas sustentada e protegida pela atividade em condições de liberdade, a saber, autogoverno. A liberdade é a única pré-condição para adquirir a maturidade necessária para a liberdade continuada: “Somente na liberdade o homem pode crescer até sua plena estatura. Somente em liberdade aprenderá a pensar, a se mover e a dar o melhor de si”. [Emma Goldman, Red Emma Speaks, p. 72]

Como a liberdade individual só pode ser criada, desenvolvida e defendida pelo auto-governo e pela associação livre, um sistema que incentive a individualidade deve ser descentralizado e participativo para que as pessoas desenvolvam uma psicologia que permita que elas aceitem as responsabilidades da autogestão. Viver sob o estado ou qualquer outro sistema autoritário produz um caráter servil, pois o indivíduo é constantemente colocado sob autoridade hierárquica, o que embota suas habilidades críticas e autogovernadas por falta de uso. Essa situação não pode promover a liberdade, e assim os anarquistas "percebem que o poder e a autoridade corrompem tanto os que os exercitam quanto os que são obrigados a se submeter a eles". [Bakunin, The Political Philosophy of Bakunin, p. 249]

Observando o capitalismo, descobrimos que, sob o trabalho assalariado, as pessoas vendem sua energia criativa e controlam suas atividades apenas parcialmente. O chefe não apenas obtém a mais-valia do tempo que os funcionários vendem, mas o tempo em si - sua liberdade, sua capacidade de tomar suas próprias decisões, de se expressar através do trabalho e com seus colegas de trabalho. O trabalho assalariado é escravidão salarial, à medida que você vende seu tempo e suas habilidades (ou seja, sua liberdade) todos os dias no trabalho e você nunca poderá comprar esse tempo de volta para si mesmo. Uma vez que se foi; se foi para sempre. Também gera, para citar Godwin, um “senso de dependência” e um “espírito servil e de obediência”, garantindo assim que "Ainda sobrevive o espírito feudal que reduziu a grande massa da humanidade à categoria de escravos e objetos para servir a uma minoria." [ The Anarchists Writtings of William Godwin, p. 125–6] É por isso que os anarquistas veem a necessidade de “criar a condição em que cada pessoa possa viver trabalhando livremente, sem ser forçado a vender seu trabalho e seu [ou sua] liberdade a outros que acumulam riqueza pelo trabalho de seus servos.” [Kropotkin, Words of a Rebel, p. 208].

Assim, o objetivo do anarquismo é criar uma sociedade na qual cada pessoa “deve ter os meios materiais e morais para desenvolver sua humanidade” e, assim,"organizar a sociedade de tal maneira que todo indivíduo [...] encontre [...] aproximadamente meios iguais para o desenvolvimento de [suas] várias faculdades e para sua utilização em [seu] trabalho;criar uma sociedade que colocaria todos os indivíduos [...] em uma posição que seria impossível para que explorassem o trabalho de qualquer outra pessoa" e "capacitados a participar do desfrute da riqueza social ", desde que"tenham contribuído diretamente para a produção dessa riqueza".[Bakunin,op. Cit.p.409] Como tal, os anarquistas concordariam com George Orwell:“A questão é muito simples.As pessoas devem poder viver uma vida decente e totalmente humana, que agora é tecnicamente alcançável, ou não?O homem comum deve ser empurrado de volta para a lama, ou não?[Orwell In Spain, p 361].

O anarquismo, em resumo, trata de mudar a sociedade e abolir todas as formas de relacionamento social autoritário, colocando a vida antes da "eficiência" destruidora de almas necessária para sobrevivencia no capitalismo;pois o anarquista“assume seu direito positivo à vida e todos os seus prazeres, intelectuais, morais e físicos.Ele ama a vida e pretende aproveitá-la ao máximo.”[Bakunin,Mikhail: Selected Writtings, p 101].

Assim, para citar Emma Goldman,“todos os seres humanos, independentemente de raça, cor ou sexo, nascem com o mesmo direito de compartilhar à mesa da vida;que, para garantir esse direito, deve haver entre os homens liberdade econômica, social e política.”[A Documentary History of the American Years, vol 2, p.450]Esta seria uma sociedade sem classes e não hierárquica, sem senhores e servos, baseada na livre associação de indivíduos livres que encoraja e celebra a individualidade e a liberdade:

“A frase, 'uma sociedade sem classes', sem dúvida causa terror para qualquer pessoa atenciosa. Evoca imediatamente a imagem da mediocridade monótona [...] toda uma escala uniforme de indivíduos auto-suficientes, vivendo em casas-modelo, viajando em Ford uniformes ao longo de infinitas estradas uniformes […] Mas [...] o compartilhamento dessa riqueza não seria produzir uma uniformidade de vida, simplesmente porque não há uniformidade de desejo. A uniformidade é um pesadelo não inteligente; não pode haver uniformidade em uma sociedade humana livre. A uniformidade só pode ser criada pela tirania de um regime totalitário.” [Herbert Read, Anarchy and Order, p. 87-88].

Os anarquistas pensam que os valores sociais essenciais são valores humanos e que a sociedade é um complexo de associações que expressam as vontades de seus membros, cujo bem-estar é seu objetivo. Consideramos que não basta que as formas de associação tenham o consentimento passivo ou "implícito" de seus membros, mas que a sociedade e os indivíduos que a compõem serão saudáveis apenas se for, no sentido pleno, libertário. Ou seja, autogovernado, autogerenciado e igualitário. Isso implica não apenas que todos os membros tenham o direito de influenciar a política, se assim o desejarem, mas que a maior oportunidade possível seja oferecida a todas as pessoas para exercer esse direito. O anarquismo envolve uma cidadania ativa, não apenas passiva, por parte dos membros da sociedade e sustenta que esse princípio não é aplicado apenas a alguma esfera “especial” de ação social chamada “política”, mas a toda e qualquer forma de ação social, inclusive atividade economica.

Portanto, como veremos, o conceito-chave subjacente à estrutura social/política e econômica do socialismo libertário é "autogestão", um termo que implica não apenas o controle dos trabalhadores em seus locais de trabalho, mas também o controle dos cidadãos em suas comunidades (onde se da o “autogoverno”), através da democracia direta e da federação voluntária. Assim, a autogestão é a implicação positiva do princípio "negativo" do anarquismo de oposição à autoridade hierárquica. Pois, por meio da autogestão, a autoridade hierárquica é dissolvida à medida que o local de trabalho autogerenciado e as assembléias/conselhos comunitários são descentralizados, organizações “horizontais” nas quais cada participante tem voz igual nas decisões que afetam sua vida, em vez de simplesmente seguir ordens e ser governado por outros. A autogestão, portanto, é a condição essencial para um mundo em que os indivíduos estarão livres para seguir seus próprios sonhos, à sua maneira, cooperando juntos como iguais, sem interferência de qualquer forma de poder autoritário (como governo ou chefe).

Talvez seja desnecessário dizer, esta secção destina-se como um dispositivo heurístico única, como forma de ajudar os leitores a imaginar como os princípios anarquistas podem ser incorporados na prática. Não é (nem se destina a ser, nem se deseja que seja) uma afirmação definitiva de como eles devem ser incorporados. A ideia de que poucas pessoas poderiam determinar exatamente como seria uma sociedade livre é contrária aos princípios anarquistas de desenvolvimento e pensamento livres, e está longe de ser nossa intenção. Aqui, simplesmente tentamos indicar algumas das estruturas que uma sociedade anarquista pode conter, com base nos ideais e idéias que os anarquistas sustentam, informados pelos poucos exemplos de anarquia em ação existentes e pela nossa avaliação crítica de suas limitações e sucessos. Como Herbert Read disse uma vez,“É sempre um erro construir constituições a priori. O mais importante é estabelecer seus princípios - os princípios da equidade, da liberdade individual, do controle dos trabalhadores. A comunidade visa então estabelecer esses princípios a partir do ponto de partida das necessidades e condições locais.” <strong>[Op. Cit. p. 51]

Além disso, devemos lembrar que, o estado mudou ao longo do tempo e, de fato, nem sempre existiu. Assim, é possível ter uma organização social que não é um estado e confundir os dois seria uma "confusão" feita por aqueles "que não conseguem visualizar a Sociedade sem um Estado". No entanto, isso "ignora o fato de que o homem viveu em sociedades há milhares de anos antes de o Estado ter surgido" e que "um grande número de pessoas [viveu] em comunas e federações livres". Esses não eram estados, pois o estado “é apenas uma das formas assumidas pela sociedade no curso da história. Por que, então, não fazer distinção entre o que é permanente e o que é acidental?[Kropotkin, The State: Its Historical Role, p. 9–10] Da mesma forma, os axiomas da economia capitalista não se mantém, o capitalismo é apenas o mais recente de uma série de sistemas econômicos. Assim como a servidão substituiu a escravidão e o capitalismo substituiu a servidão, o trabalho livre (associado) pode substituir o trabalho assalariado. Como observou Proudhon, o "período pelo qual estamos passando agora [...] é distinguido por uma característica especial - SALÁRIOS". O capitalismo, esse sistema de trabalho assalariado, nem sempre existiu nem precisa continuar. Assim, “o vício radical da economia política”, ou seja, “afirmar como estado definitivo uma condição transitória - a divisão da sociedade em patrícios e proletários”. [System of Economic Contradictions p. 198 e p. 67] Os anarquistas procuram tornar essa condição transitória mais curta do que longa.

Por fim, uma sociedade livre baseada em comunidades autogerenciadas e trabalho cooperativo é, de muitas maneiras, uma evolução natural das tendências dentro da sociedade existente. Por exemplo, os meios de produção só podem ser usados coletivamente, sugerindo que as relações de igualdade e liberdade baseadas em associações de trabalhadores sejam uma alternativa sensata às baseadas em hierarquia, exploração e opressão baseadas em senhores e empregados. É a luta contra as relações sociais opressivas que cria as próprias associações (assembléias de greve no local de trabalho) que podem expropriar os locais de trabalho e tornar essa possibilidade uma realidade.

Portanto, uma sociedade anarquista não será criada da noite para o dia, não sem vínculos com o passado e, portanto, será inicialmente baseada em estruturas criadas na luta social (isto é, criada dentro, mas contra o capitalismo e estado) e será marcada com as idéias que inspiraram e se desenvolveram nessa luta. Por exemplo, os coletivos anarquistas na Espanha foram organizados de maneira ascendente, semelhante à forma como a CNT (sindicato anarco-sindicalista) foi organizada antes da revolução. Nesse sentido, a anarquia não é um objetivo distante, mas uma expressão da luta da classe trabalhadora. A criação de alternativas para a atual sociedade hierárquica, opressiva, exploradora e alienada é uma parte necessária da luta e da manutenção de sua liberdade e humanidade no mundo insano da sociedade hierárquica. Como tal, uma sociedade anarquista será a generalização dos vários tipos de "anarquia em ação"criado nas várias lutas contra todas as formas de opressão e exploração (ver seção I.2.3).

Isso significa que a aparência e o funcionamento de uma sociedade anarquista não são independentes das sociedades específicas das quais são criadas nem dos meios utilizados para criá-la. Em outras palavras, uma sociedade anarquista refletirá as condições econômicas herdadas do capitalismo, as lutas sociais que a precederam e as idéias que existiam nessa luta, modificadas pelas necessidades práticas de qualquer situação. Portanto, a visão de uma sociedade livre indicada nesta seção do FAQ não é algum tipo de abstração que será criada da noite para o dia. Se os anarquistas pensassem isso, seríamos justamente chamados de utópicos. Não, uma sociedade anarquista é o resultado de luta social, auto-atividade que ajuda a criar um movimento de massa que contém indivíduos que podem pensar por si mesmos e que estão dispostos e aptos a assumir a responsabilidade por suas próprias vidas.

Portanto, ao ler esta seção, lembre-se de que este não é um projeto, mas apenas sugestões possíveis de como seria a anarquia. Ele é projetado para provocar pensamentos e indicar que uma sociedade anarquista é possível. Esperamos que nossos argumentos e idéias apresentados nesta seção inspirem mais debates e discussões sobre como uma sociedade livre poderia funcionar e, igualmente importante, ajudem a inspirar a luta que criará essa sociedade. Afinal, os anarquistas desejam construir o novo mundo no lugar do antigo. A menos que tenhamos alguma idéia de como será a nova sociedade, é difícil imaginá-la em nossas atividades hoje! Um ponto não perdido para Kropotkin, que argumentou que é difícil construir “sem uma consideração extremamente cuidadosa de antemão, baseada no estudo da vida social, sobre o quee como queremos construir - devemos rejeitar o slogan [de Proudhon] [de que “na demolição devemos construir”] [...] e declarar: 'na construção, demoliremos'.” [ Conquest of Bread, p. 173] Mais recentemente, Noam Chomsky argumentou que “as alternativas às formas existentes de hierarquia, dominação, poder privado e controle social certamente existem em princípio [...] Mas torná-las realistas exigirá uma grande quantidade de trabalho comprometido, incluindo o trabalho de articulá-los claramente.” [Noam Chomsky, Turning the Tide, p. 250] Esta seção do FAQ pode ser considerada como uma contribuição para a articulação de alternativas libertárias à sociedade existente, daquilo que queremos construir para o futuro. Não temos medo de que muitos argumentem que grande parte da visão que apresentamos nesta seção do FAQ é utópica. Talvez eles estejam certos, mas, como Oscar Wilde disse uma vez:

Não vale a pena olhar para um mapa do mundo que não inclua a utopia, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre pousando. E quando a Humanidade chega lá, olha para fora e, vendo um país melhor, zarpa. Progresso é a realização de utopias.” [The Soul of the Man Under Socialism, p. 1184]

No entanto, tentamos ser tão práticos quanto visionários, apresentando problemas realistas e apresentando evidências de nossas soluções para esses problemas da vida real sempre que possível, em vez de apresentar uma série de suposições impossíveis que descartam possíveis problemas por definição. É melhor considerar os piores casos possíveis, pois, se eles não aparecerem, nada foi perdido e, se aparecerem, pelo menos, temos um ponto de partida para possíveis soluções. Então, apesar de tudo, tentamos ser utópicos práticos!

Devemos enfatizar, no entanto, que os anarquistas não querem uma sociedade "perfeita" (como é frequentemente associada ao termo "utopia" ). Isso seria tão impossível quanto a visão econômica neoclássica de concorrência perfeita. Antes, queremos uma sociedade livre e, portanto, baseada em seres humanos reais, com seus próprios problemas e dificuldades. Nossa "utopia" não considera que os anarquistas resolverão todos os problemas e argumenta que uma sociedade anarquista seria ideal e perfeita. Nenhuma sociedade jamais foi perfeita e nunca será. Tudo o que argumentamos é que uma sociedade anarquista terá menos problemas do que as anteriores e será melhor viver dentro dela. Quem procura perfeição deve procurar outro lugar. Quem procura um mundo melhor, mas ainda humano e tão imperfeito, pode encontrar no anarquismo um fim potencial para sua busca.

Os anarquistas são realistas em suas esperanças e sonhos. Não evocamos esperanças que não podem ser alcançadas, mas baseamos nossas visões em uma análise do que há de errado com a sociedade hoje e um meio de mudar o mundo para melhor. E mesmo que algumas pessoas nos chamem de utópicos, afastamos a acusação com um sorriso. Afinal, os sonhos são importantes, não apenas porque muitas vezes são a fonte de mudança na realidade, mas devido à esperança que expressam:

As pessoas podem [...] nos chamar de sonhadores [...] Elas não conseguem ver que os sonhos também fazem parte da realidade da vida, que a vida sem sonhos seria insuportável. Nenhuma mudança em nosso modo de vida seria possível sem sonhos e sonhadores. As únicas pessoas que nunca ficam decepcionadas são aquelas que nunca esperam e nunca tentam realizar sua esperança.” [Rudolf Rocker, The London Years, p. 95]

Um último ponto. Devemos salientar aqui que estamos discutindo as estruturas sociais e econômicas de áreas nas quais os habitantes são predominantemente anarquistas. Obviamente, no caso de áreas nas quais os habitantes não anarquistas assumirão formas diferentes, dependendo das idéias que ali dominam. Portanto, assumindo o fim da atual estrutura estatal, poderíamos ver comunidades anarquistas, assim como com estatistas (capitalistas ou socialistas), e essas comunidades assumindo formas diferentes, dependendo do que seus habitantes desejam - comunistas a comunidades individualistas, no caso de anarquistas, estatados "socialistas" a estados privados, algumas formadas por seitas religiosas e assim por diante. Como Malatesta argumentou, os anarquistas "Devem ser intransigentes em nossa oposição a toda imposição e exploração capitalista e tolerante com todos os conceitos sociais que prevalecem em diferentes grupos humanos, desde que não ameacem os direitos e a liberdade iguais de outros". [Errico Malatesta: His Life and Ideas, p. 174] Assim, respeitamos os desejos dos outros de experimentar e viver suas próprias vidas como bem entenderem, enquanto encorajamos aqueles que vivem nas comunidades capitalistas e outras estatistas a se revoltarem contra seus senhores e a se juntarem à federação livre da comunidade anarquista. Será desnecessário dizer que não discutiremos comunidades não-anarquistas aqui, pois cabe aos não-anarquistas apresentarem seus argumentos em favor de seu tipo de estatismo.

Portanto, lembre-se de que não estamos argumentando que todos viverão de maneira anarquista em uma sociedade livre. Longe disso. Haverá bolsões de falta de liberdade por aí, simplesmente porque o desenvolvimento de idéias varia de região para região. Os anarquistas, é claro, são contra forçar as pessoas a se tornarem anarquistas (como você pode forçar alguém a ser livre?). Nosso objetivo é incentivar os sujeitos à autoridade a se libertarem e trabalhar com eles para criar uma sociedade anarquista, mas, obviamente, quão bem-sucedidos somos nisto variará. Podemos, portanto, esperar que áreas de liberdade coexistam com áreas dominadas por, digamos, "socialismo", religião ou capitalismo de estado, assim como podemos esperar que coexistam diferentes tipos de anarquismo.

No entanto, seria um erro supor que, apenas porque existem muitos tipos de comunidades disponíveis, isso automaticamente torna uma sociedade anarquista. Por exemplo, o mundo moderno possui mais de 200 estados diferentes. Para muitos deles, os indivíduos podem sair e se juntar a outro, se quiserem. Não existe governo mundial para tal. Isso não torna essa série de estados uma anarquia. Da mesma forma, um sistema baseado em diferentes corporações também não é uma anarquia, nem seria um baseado em uma série de cidades privadas, nem um sistema (quase feudal ou neo-feudal?) baseado em uma infinidade de proprietários que arrendam suas terras e locais de trabalho para trabalhadores em troca de aluguel. A natureza das associações é tão importante quanto a natureza voluntária. Como argumentou Kropotkin, “As comunas da próxima revolução não apenas destruirão o estado e substituirão a federação livre no lugar do domínio parlamentar; eles participarão do domínio parlamentar dentro da própria comuna [...] Elas serão anarquistas dentro da comuna, pois serão anarquistas fora dela.” [Selected Writings on Anarchism and Revolution, p. 132] Portanto, uma sociedade anarquista é aquela que é livremente unida e deixada, é internamente não hierárquica e não opressiva e não exploradora. Assim, as comunidades anarquistas podem coexistir com as não-anarquistas, mas isso não significa que as não-anarquistas sejam de alguma forma anarquistas ou libertárias.

Para Concluir. Os anarquistas, para afirmar o óbvio, não visam o caos, a anarquia no sentido popular da palavra (George Orwell observou uma vez como um autor de direita “usa 'anarquismo' indiferentemente com 'anarquia', que é dificilmente um uso mais correto das palavras do que dizer que um conservador é quem faz geléia.” [Op. Cit.p. 298]). Os anarquistas também não rejeitam qualquer discussão sobre como seria uma sociedade livre (essa rejeição é geralmente baseada em argumentos um tanto espúrios de que você não pode prescrever o que as pessoas livres fariam). De fato, os anarquistas têm opiniões bastante fortes sobre os contornos básicos de uma sociedade livre, sempre com a premissa de que essas são apenas diretrizes. Essas sugestões são baseadas em princípios libertários, desenvolvimentos na luta de classes e uma profunda consciência do que há de errado com os sistemas hierárquicos e de classe (e, portanto, o que não fazer!).

Ao ler esta seção do FAQ, lembre-se de que uma sociedade anarquista será criada pelas ações autônomas da massa da população, e não pelos anarquistas que escrevem livros sobre ela. Isso significa que qualquer sociedade anarquista real cometerá muitos erros e se desenvolverá de maneiras que não podemos prever. Isto implica que esta é apenas uma série de sugestões sobre como as coisas poderiam funcionar em uma sociedade anarquista - isso não é um projeto nem nada do tipo. O que todos os anarquistas podem fazer é apresentar o que acreditamos e por que achamos que essa visão é desejável eviável. Esperamos que nossos argumentos e idéias apresentados nesta seção do FAQ inspirem mais debates e discussões sobre como uma sociedade livre funcionaria. Além disso, e igualmente importante, esperamos que ajude a inspirar a luta que criará essa sociedade.

Seções pendentes de formatação

I.1 O socialismo libertário não é um oxímoro?

I.1.1 O socialismo é impossível?

I.1.2 O comunismo libertário é impossível?

I.1.3 O que há de errado com o mercado?

I.1.4 Se o capitalismo é explorador, o socialismo também não é?

I.1.5 O capitalismo aloca recursos de maneira eficiente?

I.2 Este é um modelo para uma sociedade anarquista?

I.2.1 Por que discutir como seria uma sociedade anarquista?

I.2.2 Será possível ir direto do capitalismo para uma sociedade anarquista?

I.2.3 Como serão criadas as estruturas de uma sociedade anarquista?

I.3 Como seria a estrutura econômica da anarquia?

I.3.1 O Que é um “sindicato”?

I.3.2 O que é a autogestão dos trabalhadores?

I.3.3 O que é socialização?

I.3.4 Que relações existiriam entre sindicatos individuais?

I.3.5 O que fariam as confederações de sindicatos?

I.3.6 E a competição entre sindicatos?

I.3.7 E as pessoas que não querem ingressar em um sindicato?

I.3.8 Os anarquistas buscam “pequenas comunidades autônomas, dedicadas à produção em pequena escala”?

I.4 Como uma economia anarquista pode funcionar?

I.4.1 Qual o sentido da atividade econômica na anarquia?

I.4.2 Por que os anarquistas desejam abolir o trabalho?

I.4.3 Como os anarquistas pretendem abolir o trabalho?

I.4.4 Quais critérios de tomada de decisão econômica poderiam ser usados na anarquia?

I.4.5 E quanto a "oferta e demanda"?

I.4.6 O comunismo anarquista levaria inevitavelmente à demanda exceder a oferta?

I.4.7 O que impedirá os produtores de ignorar os consumidores?

I.4.8 E as decisões de investimento?

I.4.9 O avanço tecnológico deve ser visto como anti-anarquista?

I.4.10 Qual seria a vantagem de uma ampla base de distribuição de excedentes?

I.4.11 Se o socialismo libertário eliminar o motivo do lucro, a criatividade e o desempenho não sofrerão?

I.4.12 Não haverá uma tendência para a empresa capitalista reaparecer em nenhuma sociedade socialista?

I.4.13 Quem fará o trabalho “sujo” ou desagradável?

I.4.14 E a pessoa que não trabalha?

I.4.15 Como será o local de trabalho de amanhã?

I.4.16 Uma sociedade comunista libertária não será ineficiente?

I.5 Como seria a estrutura social da anarquia?

I.5.1 O que são comunidades participativas?

I.5.2 Por que são necessárias confederações de comunidades participativas?

I.5.3 Quais serão as escalas e os níveis da confederação?

I.5.4 Como alguma coisa será decidida em todas essas reuniões?

I.5.5 As comunidades e confederações participativas não são apenas novos estados?

I.5.6 Não haverá perigo de uma "tirania da maioria" sob o socialismo libertário?

I.5.7 E se eu não quiser ingressar em uma comuna?

I.5.8 E o crime?

I.5.9 E quanto à liberdade de expressão no anarquismo?

I.5.10 E os partidos políticos?

I.5.11 E os grupos de interesse e outras associações?

I.5.12 Uma sociedade anarquista prestaria assistência médica e outros serviços públicos?

I.5.13 Uma sociedade anarquista não será vulnerável à fome de poder?

I.5.14 Como uma sociedade anarquista poderia se defender?

I.6 E a "Tragédia dos Comuns"? Certamente a propriedade comunitária levará ao uso excessivo e à destruição ambiental?

I.6.1 Como os anarquistas podem explicar como será decidido o uso da propriedade “de propriedade de todos no mundo”?

I.6.2 Nenhuma forma de propriedade comunitária envolve a restrição da liberdade individual?

I.7 O socialismo libertário não destruirá a individualidade?

I.7.1 As culturas tribais indicam que o comunalismo defende a individualidade?

I.7.2 Isso não é adorar o passado ou o “nobre selvagem”?

I.7.3 A lei é necessária para proteger os direitos individuais?

I.7.4 O capitalismo protege a individualidade?

I.8 A Espanha revolucionária mostra que o socialismo libertário pode funcionar na prática?

I.8.1 A Revolução Espanhola não foi principalmente um fenômeno rural e, portanto, inaplicável como modelo para as sociedades industrializadas modernas?

I.8.2 Como os anarquistas foram capazes de obter apoio popular em massa na Espanha?

I.8.3 Como foram organizados os coletivos industriais espanhóis?

I.8.4 Como foram coordenados os coletivos industriais espanhóis?

I.8.5 Como foram organizadas e coordenadas as cooperativas agrícolas espanholas?

I.8.6 O que os coletivos agrícolas realizaram?

I.8.7 Ouvi dizer que os coletivos rurais foram criados à força. Isso é verdade?

I.8.8 Mas os coletivos espanhóis inovaram?

I.8.9 Por que, se foi tão bom, não sobreviveu?

I.8.10 Por que a CNT colaborou com o estado?

I.8.11 A decisão de colaborar foi um produto da teoria anarquista, mostrando que o anarquismo é falho?

I.8.12 A decisão de colaborar foi imposta aos membros da CNT?

I.8.13 Que lições políticas foram aprendidas com a revolução?

I.8.14 Que lições econômicas foram aprendidas com a revolução?