Miro R. Vanzille
Fábula do Desassossego
Os Dois Formigueiros
Os Dois Formigueiros
Havia, num jardim esquecido entre um muro e uma calçada rachada, dois formigueiros. Um ao norte de um canteiro de rosas, já tomado pelo mato, outro ao sul.
Durante incontáveis gerações, cada qual ignorou a existência do outro. Ambas desfrutavam das folhas tenras, cada vez mais escassas. A separação era geográfica, mas não hostil — apenas indiferença.
Até que na incansável busca por material orgânico, dois pelotões rivais se encontram ao centro do jardim, deparando-se com algo açucarado tão grande, que daria para alimentar os dois formigueiros por anos.
Chegaram quase que juntas, mas as do norte um pouco antes. O grão era grande, mas não o bastante para duas ganâncias. Ninguém propôs dividir. A primeira mordida foi dada não no açúcar, mas numa formiga do lado oposto. E assim, sem um decreto, sem uma declaração, sem qualquer cerimônia que não fosse o instante puro da violência, a guerra começou.
Nenhuma das duas rainhas seria capaz de dizer, mais tarde, quem atacou primeiro. E essa incapacidade de lembrar — ou de querer lembrar — tornou-se a primeira mentira sobre a qual o conflito se sustentaria.
As batalhas seguiam sem vencedores. Só perdedores. As formigas do norte inventaram um arco que arremessava um fragmento de espinho. O primeiro tiro percorreu a distância de quarenta corpos de formiga e perfurou o olho de uma sentinela. As do sul, que até então só conheciam a luta corpo a corpo, recuaram.
Estas, em resposta, criaram uma catapulta — uma casca de semente equilibrada sobre uma folha dobrada, capaz de arremessar grandes pedras. No primeiro uso, dezoito formigas do norte morreram esmagadas.
A partir desse momento, o conflito ganhou dimensões apocalípticas. O norte roubou o princípio da catapulta e a melhorou. O sul roubou o projeto do arco e fizeram arcos mais precisos. As duas inventaram, quase simultaneamente, o escudo, a lança envenenada, a barricada de terra endurecida.
Nenhuma das duas colônias lembrava mais o grão de açúcar. Ele havia desaparecido há muito tempo --- ninguém sabe como. Mas a guerra não precisava mais do grão. A guerra já era autossuficiente. Ela se alimentava de si mesma, e cada nova morte justificava a próxima.
Enquanto os soldados morriam nas fronteiras improvisadas, as operárias de ambos os lados intensificavam as buscas de recursos. Passaram os dias também carregando pedras para as catapultas, tecendo cordas para os arcos, cavando trincheiras que se estendiam como cicatrizes no jardim. O funcionamento do formigueiro, outrora dedicado à sobrevivência, agora servia exclusivamente à aniquilação.
Para repôr as perdas, as rainhas trabalhavam dobrado. A rainha do norte aumentou a postura de ovos para quinhentos por dia. A rainha do sul, para seiscentos. Mas ambas já haviam descoberto um princípio terrível: numa guerra de desgaste, a rainha que põe mais ovos não vence; apenas morre por último. E essa distinção fútil --- morrer por último --- passou a ser a intenção maior.
As formigas de ambos os lados morriam aos montes. De cansaço, de fome, de mordida. Os túneis internos, outrora abarrotados de pupas e alimento armazenado, agora exibiam paredes nuas e corredores vazios. O formigueiro, que já fora uma máquina de viver, transformara-se numa máquina de matar. E o mais trágico é que a máquina funcionava perfeitamente.
Numa tarde qualquer — sem sol mais forte, sem vento mais frio, sem qualquer sinal que a distinguisse das outras — uma cansada formiga operária do sul, carregando uma pedra para a catapulta, parou.
Pela primeira vez na história daquele formigueiro, uma formiga havia confundido o gesto com o pensamento. Enquanto suas mandíbulas seguravam a pedra, suas antenas vibravam com uma pergunta que nenhuma formiga jamais havia formulado.
Ela começou a calcular.
Uma formiga vive, em tempo de paz, sessenta dias. Durante esse período, carrega vinte vezes o seu próprio peso em comida. Alimenta a rainha. Limpa os túneis. Cria os filhotes.
Na guerra, uma formiga vive doze dias — se tiver sorte. Durante esses doze dias, praticamente não carrega comida. Carrega pedras. Mata outras formigas. Morre.
Ela calculou quantos ovos a rainha precisaria pôr para manter o exército. Depois calculou quantas operárias morreriam de fome porque não havia tempo de colher folhas. Depois calculou quantas formigas do norte também estavam morrendo — e percebeu algo que só as rainhas haviam percebido: que matar todas as formigas do norte não traria vantagem alguma para as do sul.
Porque, se todas as formigas do norte morressem, o jardim continuaria do mesmo tamanho. As folhas continuariam caindo no mesmo lugar. A única diferença é que não haveria mais formigas lá para colher esses recursos — porque, na guerra, as formigas do sul também estavam morrendo.
Ela chegou a uma conclusão silenciosa: a guerra não era uma disputa por recursos. Era uma disputa por nada. O grão de açúcar que a iniciara já não existia. As formigas que morriam não lutavam por comida, por território, por segurança. Lutavam porque haviam esquecido como não lutar.
Ela calculou, então, o custo de uma formiga. Não em ovos ou dias de trabalho, mas em possibilidades. Cada formiga morta representava não apenas um corpo — representava a seiva que não levaria para o túnel, o filhote que não alimentaria, o túnel novo que não cavaria. A guerra, percebeu ela, não matava apenas formigas. Matava o futuro do formigueiro, um fardo de cada vez.
A operária largou a pedra. Caminhou até o formigueiro. Entrou nos túneis. Percorreu as galerias escuras, passando por fileiras de operárias exaustas e soldados carregando espinhos. Chegou à câmara real. A rainha estava ali, cercada por sua guarda pessoal, colocando ovos.
A operária expôs o que calculou. E a rainha, sem parar de pôr os ovos, escutou atentamente. E entendeu o que significava.
Significava que alguém, em algum lugar, havia deixado de acreditar na guerra. E uma formiga que não acredita na guerra é mais perigosa do que mil soldados armados — porque soldados armados mantêm o sistema funcionando. A dúvida, não.
A rainha então, com a majestade de sempre, disse que achou muito interessante a opinião da formiga, elogiou-a a seus guardas e disse que levaria esse assunto ao conselho. O conselho discutiria. E a liberou.
A formiga voltou ao trabalho com mais vigor. Os dias passaram. Nada mudou. Morreu um tempo depois juntamente com suas colegas. Matou-a, além do cansaço, o desgosto, porque estava certa.
As catapultas do sul continuavam lançando pedras contra o formigueiro do norte. As catapultas do norte responderam com ainda mais fogo. As operárias de ambos os lados continuaram carregando pedras, morrendo de fome, morrendo nas trincheiras. A formiga que calculou foi esquecida antes do pôr do sol.
Três semanas depois, nenhuma operária sobrou para segurar os tetos dos túneis. O formigueiro do sul desabou sobre si mesmo. O outro, que também perdera todas as suas operárias, desabou no dia seguinte.
O jardim ficou vazio. As sementes caíram no chão e apodreceram. Não havia formigas para colher nada.
Uma lagarta passou, lentamente, por cima dos escombros. Ela não sabia que ali, uma vez, acontecera uma guerra. Não sabia que ali, um simples grão de açúcar causaria uma enorme desavença. Nem que chegou a existir uma formiga que, num gesto de absoluta insanidade, havia largado uma pedra para pensar.
O narrador desta fábula — que não é uma formiga, nem uma lagarta — pergunta:
Qual é o custo de uma vida?
A resposta parece simples: o custo de uma vida é aquilo que se gasta para mantê-la. Comida, abrigo, cuidado, tempo.
Mas esta fábula sugere uma resposta mais sombria: o custo de uma vida é aquilo que se está disposto a gastar para tirá-la.
E nisso reside o horror. Porque, quando uma sociedade gasta mais para matar do que para viver, ela revela sua verdadeira hierarquia de valores. Não é a vida que está no topo. É a morte. A morte é mais cara, mais elaborada, mais celebrada. A vida é apenas o que sobra — o custo operacional, a despesa de fundo, o número que ninguém soma até que seja tarde demais.
A lagarta comeu uma folha e seguiu em frente.
A formiga que calculou morreu não por ter errado a conta, mas por tê-la acertado. E esse, talvez, seja o destino de todos os que se recusam a carregar pedras enquanto os formigueiros desabam.
Moral: Numa guerra de formigas, o único final é o jardim vazio.